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Alta de Lisboa e Águias da Musgueira, um amor não correspondido

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Alta de Lisboa e Águias da Musgueira, um amor não correspondido

No Complexo Desportivo do Alto do Lumiar, em Lisboa, moram dois clubes com história, uma rivalidade antiga, problemas recentes e uma convivência estranha, de tão bizarra. E mora, também, um amor não correspondido.

É em Lisboa, paredes-meias com a pista de aterragem 03/21 – a principal do aeroporto Humberto Delgado –, que se passa a história de um amor não correspondido. Uma história antiga e um amor recente, vividos ao som de aviões a aterrar e descolar. “Vais apitar o Alta-Musgueira? Ui, belo caldinho que vais ter”. Esta frase é dita, frequentemente, entre os árbitros de futebol. Algo que atesta uma rivalidade bem acesa, que nem a recente descida de divisão do Musgueira faz apagar.

Nos distritais da capital, a União Desportiva Alta de Lisboa e o Recreativo Águias da Musgueira dividem o mesmo campo, qual San Siro milanês à moda lusitana. O PÚBLICO entrou e sentiu a convivência bizarra, na qual tudo é dividido, para não haver misturas. O bar do estádio não é o bar do estádio: há o bar do Alta e o bar do Águias. Os balneários não são os balneários do estádio: o Alta recebe adversários e árbitros numas cabines, o Águias recebe noutras. Cada um à sua maneira, no seu sítio e com as suas condições, como dois casados em pré-divórcio. Mas, ali, é o contrário, com um dos clubes a falar, insolitamente, de casamento. Já lá vamos.

“Eles grelham sardinhas enquanto nós treinamos”

Segundo Jorge Malacho, presidente do Alta, a relação entre os clubes é boa – “quando se perde material vamos sempre lá devolver” –, mas a convivência diária nem por isso. A divisão das instalações é “horrível”, diz.

“Os treinos são repartidos, mas tudo o resto não. Eles têm poucos atletas e nós, às vezes, temos três equipas para treinar ao mesmo tempo. O Musgueira, por baixo da bancada central, tem um espaço onde pratica o boxe. Nós não temos nada disso. O tratamento por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML) é completamente diferente. O Musgueira tem ali uma placa a dizer “Campo dos Sacrifícios” [antigo campo do clube] e nós metemos uma placa a dizer “Bar do Alta” e mandaram-nos logo tirar. Mais: eles têm um grelhador e, quando nós estamos a treinar, eles estão a fazer sardinhas. Aquilo está lá há anos”.

Ainda assim, Jorge Malacho garante que “a rivalidade é para quem quer”. “Para mim, não há rivalidade. Olho para o Musgueira como olho para o Camarate, o Vialonga ou qualquer outro clube aqui da zona. Essa rivalidade sente-se mais da parte do Musgueira”. Em que sentido? “Olhe, no ano passado, o Musgueira andava a treinar com cinco ou seis jogadores, mas, na semana do jogo com o Alta, apareceu-lhes o plantel todo”, explica Malacho.

Gonçalo Correia, ex-jogador de ambos os clubes, garante que, quando entre estes dois “companheiros” se encontram, aquela zona de Lisboa aquece. “Os jogos entre eles são especiais. São vividos intensamente por parte de jogadores e adeptos, não só no dia do jogo como também durante a semana que o antecede. Exemplo disso é que eu, que vivia perto do complexo desportivo, era abordado pelos adeptos e a mensagem que passavam era “temos de ganhar” ou “não podemos perder com eles”. Nesses jogos, o público nas bancadas aumentava consideravelmente”.

“Lembro-me de um momento engraçado num jogo Alta-Musgueira. Eu era jogador do Alta, estávamos a ganhar e um colega meu fez um túnel a um jogador do Musgueira. Na sequência desse lance, marcámos golo, mas o meu colega que fez o túnel, ainda sem termos feito o golo, ficou a festejar o seu lance e foi em direcção ao banco de suplentes “pedir” ao mister que o tirasse do jogo, porque depois do túnel que fez não queria jogar mais”. Isto porque, neste derby, vencer e achincalhar o rival é tudo. Ou quase tudo.

Alta quer fusão com o Águias, Águias quer distância do Alta

Estes dois fervem quando se vêem frente a frente. Isso é claro para todos. Mas há, de um dos lados, amor para dar. Apesar de todas as críticas, o Alta gosta do Musgueira e vê-o como um possível “noivo”. O Musgueira é que não quer o Alta e pouco liga a esse amor. E o que um não quer dois não fazem.

O contexto é fácil de traçar. O Musgueira tem muito apoio popular, mas desceu de divisão. O Alta tem poucos adeptos, mas tem a força desportiva de ter conseguido manter-se na I Divisão lisboeta. Juntos, têm um complexo desportivo de fazer corar muitos clubes do Campeonato de Portugal (CP). O “chefe da banda” do Alta olha para este contexto como um sinal claro.

“Uma fusão? Olhe, isso era o que eu gostava. O que eu mais gostaria, do fundo do coração, era que os dois clubes se fundissem. Eu poria esse novo clube no CP. Juntos, seríamos um clube para andar lá. E para termos uma equipa de raparigas, para termos mais modalidades, para termos mais jovens e muitas outras coisas. Juntos, teríamos mais, mais, mais. Mas enquanto o presidente da Musgueira for o António Quadros, isso não será possível. Eles não querem”.

O Águias da Musgueira recusou o repto do PÚBLICO para participar na reportagem e responder a este amor aparentemente não correspondido. Mas há quem, no Águias, já tendo passado pelo Alta, ateste que, de facto, o rival não é visto como um amigo.

“A rivalidade sente-se muito nos dois, mas, no Águias, ninguém da direcção gosta de perder contra o vizinho. Quando chega alguém novo passam logo essa rivalidade”, garante Maurinho, actual jogador do Águias, que aponta o que diferencia os dois clubes: “Senti muita diferença nos adeptos. Tive a oportunidade de ser campeão pelo Alta e poucos adeptos estavam na bancada. No Águias, os adeptos são muitos. Quando o clube está bem, mais adeptos tem”.

Esta história é quase como um clássico literário sobre um amor impossível. O Águias da Musgueira é um clube bairrista, fundado em 1963, ainda hoje assombrado pelo preconceito de quem olha para o Águias como um clube sem nível e sem princípios, incapaz de se separar do mundo das velhas barracas do bairro da Musgueira.

O Alta, por outro lado, tornou-se, em 2005, o resultado da fusão entre o Clube Desportivo da Charneca (esse, sim, o velho rival do Águias) e o Sporting Clube da Torre. Uma fusão que, segundo a Câmara Municipal de Lisboa, seria compensada com a requalificação do degradado Campo do Chão do Loureiro, o local que, para o Alta, deveria ser a verdadeira casa. Algo que ainda está por acontecer e que tem colocado o Alta e a CML num permanente e azedo tête-à-tête.

“Sermos o resultado de uma fusão dificulta muito o nosso crescimento. O Charneca e o Torre tinham, juntos, quase 700 sócios. O Alta, hoje, tem cerca de 280 – temos mais atletas do que sócios. Sairmos lá de cima, da Charneca, matou a ligação com as pessoas. Deixámos de ter as nossas coisas e jogamos num estádio emprestado. O que gostaríamos era de ter o Chão do Loureiro para jogar. É o nosso campo, a nossa casa”.

Dividir um campo traz problemas, mas Maurinho conta que, um dia, num Alta-Musgueira, pôde pedir as botas emprestadas a um adversário e amigo que não ia a jogo, mas que estava por lá, no complexo desportivo. No fim, o Alta ganhou o derby com um golo de Maurinho, marcado com as botas emprestadas pelo jogador do Musgueira. Afinal, nem tudo é mau na divisão de um estádio. E se já houve “casamento” na troca de botas, minutos antes de um daqueles derbies quentinhos, só a (falta de) vontade humana pode impedir este casamento.

Público

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“Sermos o resultado de uma fusão dificulta muito o nosso crescimento. O Charneca e o Torre tinham, juntos, quase 700 sócios. O Alta, hoje, tem cerca de 280 – temos mais atletas do que sócios. Sairmos lá de cima, da Charneca, matou a ligação com as pessoas. Deixámos de ter as nossas coisas e jogamos num estádio emprestado. O que gostaríamos era de ter o Chão do Loureiro para jogar. É o nosso campo, a nossa casa”.

Resume bem o estado daquela zona hoje. Até fazer 5 anos eu morava na Charneca do Lumiar (e felizmente ainda tenho algumas memórias) e alguns anos depois de demolirem as barracas da Musgueira demoliram também o bairro onde morava. Hoje, quase 20 anos depois, aquilo continua um descampado, incluindo esse antigo campo do clube. O projeto da Alta de Lisboa ainda não chegou bem àquela zona, que deve ter perdido quase toda a população no início do milénio, não é de espantar que tenham perdido massa adepta.

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