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nopla

O dia em que deixei de ouvir música nos transportes

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Nem todos os rituais são precedidos de velinhas de cheiro, tapetes esticados ou pedras esculpidas a rigor. Muitos são só a forma de nos abstrairmos do mundo ruidoso e uma maneira de ser rotineiro, contudo, de um jeito peculiar. Fazemos os rituais por nossa livre e espontânea vontade e nomeamo-los a nosso bel-prazer. Tornamo-los nossos com o tempo. Quando somos crianças, pertencemos à seita dos amigos da bola, dos companheiros do “esconde-esconde” ou dos comparsas da apanhada. Não havia dia em que não evocássemos os sacerdotes do divertimento e os xamãs da despreocupação. Em adulto, são os nossos pequenos momentos repetidos a compasso, descompassados da correria dos dias, que nos dão a serenidade em falta. São rituais, sejam eles quais forem e usem a máscara que usarem.

Quando a música me foi introduzida, os meus dias passaram a ter uma cor diferente. A sépia foi substituída pelos acordes menores das canções tristes e o monocromático alavancou-se ao baixo para deixar de aparecer nos entretantos. Os pêlos do meu buço multiplicavam-se ao mesmo ritmo dos clássicos dos The Doors. As formas de chegar até à música variavam sempre. Começando pelo discman azul, recheado com cd pirateados (não sejamos hipócritas, antigamente até a nossa família pirateávamos, se conseguíssemos) e com faixas das quais só entendia o sentimento; saltitando entre um mp3 perdido lá por casa e um iPod oferecido a muito custo num Natal já distante.

Por fim, a mudança drástica de conjugar música, o Santo Graal da abstracção, com tudo o que fosse mundano e me chamasse à realidade, como quem diz: o telemóvel. Todos eles eram o veículo sagrado que trazia até mim os sonhos cantados no acorde “futuro maior” e as letras definidoras de todos os momentos vividos desde a entrada na escola, até ao segundo no qual voltava a colocar os phones e a entrar no meu mundo. Era uma retrospectiva da vida depressiva de todos os adolescentes; hoje, ao longe, parece um parque de diversões do qual queremos “só mais uma voltinha”.

Neste período, que consagra o meu Neolítico até à minha Revolução Industrial, deixei-me educar pela melodia que me ritmava a vida. Era o tempo no qual pedia a pés juntos (e só eu sei a dificuldade de os unir!) para o autocarro parar em todos os semáforos, se enganar na rota ou apanhar as obras de Santa Engrácia lá pelo meio. Só não podia chegar rápido, que ainda tinha tanto álbum para ouvir, tantos sonhos para pôr em prática no palco que montei na minha cabeça. Ali, era o cantor principal, o baterista, o guitarrista e até o trompete me passava pelos lábios.

Havia sempre um conselho qualquer dado pelo Julian Casablancas, o Jim Morrison, o Stuart Murdoch, o Nick Drake, o Manel Cruz ou o Alex Turner. Pareciam saber a minha história de cor e salteado. Fazia perguntas com mais de duas linhas e 33 “mas”, e eles lá sacavam de uma rima que deitava ao chão a mínima dúvida existente. Não tinham limites, o cabelo deles já havia visto melhores dias, mas todos me conheciam melhor do que eu próprio. Faziam-me crescer pêlos no peito a cada rima mais ordinária ou a cada jura de amor metafórica a retratar a minha vida.

Os phones eram o escudo do dia-a-dia. Não havia batalha perdida por falta de defesas. O meu maior medo era sempre quando chegava o momento de alguém rebentar a bolha que a tanto custo soprei. Um “Olá! Como é que estás?” que me fizesse tirar um dos phones era parecido a um pesadelo mais demorado, a acabar comigo a hiperventilar, enquanto interrompia uma serenata feita numas escadas de uma cidade qualquer, já construída por mim após dois singles ouvidos até à exaustão.

Há uma semana comprei carro. Tenho 24 anos e a vida passou a dar-me uma música diferente. Hoje, já não uso phones, já não vou de bochecha colada ao vidro de um autocarro com mais pessoas do que dentes do siso e já não posso adormecer no sovaco de alguém bem posicionado num banco, que a dada altura se assemelhava a um trono. Deixei de ouvir música nos transportes, mas mais que isso: enterrei um ritual. Há outros momentos a fazerem-me viver histórias que não a minha, mas este capítulo fechou-se. É a vida adulta a irromper da forma que sabe: sem avisar, de um jeito aleatório e a deixar saudades das canções trauteadas no caminho para as responsabilidades (ou para a falta delas).

https://www.publico.pt/2019/12/01/p3/cronica/dia-deixei-ouvir-musica-transportes-1895489

Leiam, meus amigos e deixem-me o vosso feedback, que gosto sempre de o ler.

 

 

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Gostei de ler. 

Graças a Deus que vivo a 1,5km do trabalho e, assim sendo, vou e venho sempre a pé. Aqueles 15 minutos são a melhor parte do meu dia. Phone nos ouvidos e esqueço tudo o resto. 

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Bom texto, amigo. Conheço muita gente que me confidencia que é raro ouvirem música durante o seu dia a dia. Isso para mim é quase insuportável. Eu revi-me muito no que escreveste. Principalmente quando falas dos teus apetites musicais te acompanharem durante o teu crescimento, e, também eles, evoluírem conforme te vais desenvolvendo.  Imagino que também tenhas uma série de bandas/artistas que são sinónimos com uma fase particular da tua vida. Por exemplo, penso em Nirvana, Red Hot Chilli Peppers ou Eminem e lembro-me dos meus catorze anos e de como ia para a escola pelo caminho mais longo para que pudesse fumar o cigarro que roubara ao meu pai às escondidas 😄 

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Fiquei com saudades desses tempos, em que sentia algo parecido ao que tu descreveste. Ainda por cima, com bastante proximidade nas influências musicais 😁

Mesmo hoje em dia, é raro, mas ja me aconteceu dar propositadamente uma volta maior de carro só para atrasar a chegada e prolongar um momento de abstracçao enquanto ouço uma musica.

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Adorei os comentários do Facebook do Público a dizerem que sou um pseudo intelectual, beto, que odeia a plebe e que só quis mostrar que comprou um carro.

É por isto que é sempre engraçado escrever: queres passar a mensagem de que a vida "adulta" te faz enterrar rituais e a imagem que passa é a de que só querias dizer ao mundo: "comprei um carro". 😂 

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Citação de nopla, há 11 minutos:

Adorei os comentários do Facebook do Público a dizerem que sou um pseudo intelectual, beto, que odeia a plebe e que só quis mostrar que comprou um carro.

É por isto que é sempre engraçado escrever: queres passar a mensagem de que a vida "adulta" te faz enterrar rituais e a imagem que passa é a de que só querias dizer ao mundo: "comprei um carro". 😂 

Não ligues a comentários de redes sociais, é só gente atrás de um ecrã mal com a própria vida e que só sabe criticar, principalmente aqui em Portugal.

Só para dar um exemplo, aqui na minha terrinha melhoraram a iluminação em alguns pontos da cidade, a caixa de comentários era só gente a reclamar que na rua deles não há luz e o crl. O povo português é f*dido, não ligues.

Continua o bom trabalho. 💪

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Citação de Leston, há 24 minutos:

Não ligues a comentários de redes sociais, é só gente atrás de um ecrã mal com a própria vida e que só sabe criticar, principalmente aqui em Portugal.

Só para dar um exemplo, aqui na minha terrinha melhoraram a iluminação em alguns pontos da cidade, a caixa de comentários era só gente a reclamar que na rua deles não há luz e o crl. O povo português é f*dido, não ligues.

Continua o bom trabalho. 💪

Obrigado, Leston.

Na verdade, queria sempre dar menos importância a este tipo de cenas do que o que realmente dou, mas é um work in progress.

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Muito bom texto, que me fez ver que, também eu, interrompi esse "ritual" durante uns aninhos. Nunca tinha pensado nisso, obrigado!

 

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Citação de Plagio o Original, há 4 minutos:

É assim vcs sabem que podem por um cabo aux no carro, não sabem?

O vale é que eu sei que estás a gozar, mas são exactamente esse o tipo de comentários que estão a pulular por lá. As pessoas não entendem que isto não é suposto ser sobre música no carro, mas sim sobre rituais que se vão perdendo com o surgir da "vida adulta" e o quanto esses momentos foram importantes a formar a pessoa que somos hoje.

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Citação de Plagio o Original, há 17 minutos:

É assim vcs sabem que podem por um cabo aux no carro, não sabem?

no meu focus de 2001, não!

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Gostei de ler e revejo-me no que está escrito, embora de uma forma especial. Tive a sorte de ter sempre companhia nesses autocarros e comboios de e para a escola, por isso raras foram as vezes que essas viagens foram feitas com música nos ouvidos, muito mais foram as vezes em que essas viagens foram feitas a falar de futebol e de gajas com esses amigos. Hoje em dia, aliás, diria que a música tem um impacto maior do que teve na minha adolescência, e é por isso que me revejo no texto, porque actualmente utilizo a música como um escape parecido ao que tu relatas. Eu trabalho num ginásio, e tenho constantemente de estar a falar com os clientes, colegas e superiores, excepto quando retiro aquela hora do dia para mim, coloco a minha música nos ouvidos, e vou treinar. Há dias em que me apetece treinar e nem penso no assunto, mas há dias onde a motivação é menor, e o facto de saber que vou estar aquela hora à parte do mundo, com a minha música nos ouvidos, faz essa falta de vontade se tornar insignificante, porque estar aquela hora naquelas condições é um bem do qual não quero abdicar.

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Mais um excelente texto, Nopla.

Neste não me revejo tanto, porque nunca tive muito o hábito de me isolar do mundo exterior e caminhar para o interior pela música, mas não deixo de sentir o sentimento que tentas passar, pois de qualquer forma, há sempre aqueles dias em que não apetece treinar e metendo os fones nos ouvidos, tudo passa para outro plano. Tal como todos temos músicas que marcam certos momentos e fases das nossas vidas. Pena, algumas pessoas não terem chegado lá, mas a esses comentários nem vale a pena ligar.

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Bom artigo.

Acho que faz parte, vão-se substituindo uns rituais por outros. Já passei por muitos rituais, ouvir música e ler nos transportes públicos, ir ao ginásio todos os dias e fechar-me em música ou podcasts como o Samaris descreveu, fazer viagens de carro a ouvir podcasts de acordo com os meus interesses, etc.

Daqui a 2 ou 3 anos acredito que os rituais tenham voltadoa mudar. Se não tiverem mudado não é bom sinal, significaria que a minha vida continuava na mesma.

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Após muitos anos a usar phones todos os dias nos transportes para a faculdade/trabalho, comecei a deslocar-me de carro diariamente quando passei a ir para um cliente mais longe. Foram 4 anos durante os quais senti tantas saudades dos transportes públicos, com tudo o que têm de mal, como nunca pensei alguma vez sentir. O stress dos péssimos condutores portugueses chateava-me até mais não.

Há uns meses troquei de trabalho e voltei à antiga rotina de andar diariamente de transportes públicos. Perco quase o dobro do tempo do que perdia quando ia de carro para o cliente, e não o trocava. Para mim aquele momento em que vou no meu mundo, de headphones e livro na mão, tem um valor inestimável.

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Citação de doom_master, há 2 horas:

.Perco quase o dobro do tempo do que perdia quando ia de carro para o cliente, e não o trocava. Para mim aquele momento em que vou no meu mundo, de headphones e livro na mão, tem um valor inestimável.

Epa não

Commutes longas, especialmente rodoviária de Lisboa ou cp (daquelas linhas más) são super desgastantes

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Citação de Plagio o Original, há 53 minutos:

Epa não

Commutes longas, especialmente rodoviária de Lisboa ou cp (daquelas linhas más) são super desgastantes

No meu caso são 15 mins de autocarro até ao Campo Grande e linha verde no metro até ao Cais do Sodré. Como vou quase de ponta a ponta, consigo ir sentado, portanto não há crise.

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Citação de Alonso., há 5 horas:

Certeza que consegues

para isso era preciso que os fords valessem alguma coisa a nivel electrónico e que não tivesse os isqueiros do carros escaf*didos desde 2005 XD 

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Citação de Kendrick Lmao, há 3 minutos:

curti do texto, fez-me lembrar de uma musica dos Arcade Fire que passa mais ou menos esse sentimento 

Não sei se foi a mesma, mas a mim levou-me de imediato à "The Suburbs". Curiosamente, foi provavelmente o álbum que mais ouvi nessas idas e regressos da escola/faculdade retratados no texto.

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Ui, música no autocarro...quantas vezes nas minhas viagens para trás-os-montes. Ainda por cima ia sempre sozinho.

Mais recentemente, e já com carro, cheguei a ir a Bragança sozinho pela Estrada Nacional só para ouvir meia discografia dos Pink Floyd (que era basicamente o que ouvia no autocarro). Não foi de auscultadores, mas foi a alto som, sem pressas e sem ter de dar cavaco a ninguém. Fi-lo precisamente porque sentia falta das longas viagens a correr o meu repertório de MP3 e acabou por ser uma das melhores viagens de carro que já fiz em toda a vida, apesar de não a conseguir explicar a ninguém sem que fiquem a pensar que foi uma seca descomunal.

Muito bom texto.

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Citação de IlidioMA, há 3 horas:

para isso era preciso que os fords valessem alguma coisa a nivel electrónico e que não tivesse os isqueiros do carros escaf*didos desde 2005 XD 

Então aí já fica mais dificil. Se quiseres manter o radio original podes sempre instalar o Yatour. Senão mais vale comprar um rádio já com bluetooth e safas por ai 😉

Editado por Alonso.

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Citação de nopla, Em 01/12/2019 at 20:24:

Adorei os comentários do Facebook do Público a dizerem que sou um pseudo intelectual, beto, que odeia a plebe e que só quis mostrar que comprou um carro.

É por isto que é sempre engraçado escrever: queres passar a mensagem de que a vida "adulta" te faz enterrar rituais e a imagem que passa é a de que só querias dizer ao mundo: "comprei um carro". 😂 

Acabou de me aparecer como sugestão no Facebook:

m72lFAX.jpg

Quanto às críticas, pah, é sempre bom ouvir/ler as mesmas, mas de gente incapaz de colocar uma ideia por escrito, desenvolvê-la e fazer dela uma narrativa, desses está o mundo cheio. É tão mais fácil aceder ao Facebook e criticar quem o faz. Nem exige qualquer destreza mental.

Aliás, agora que li com atenção alguns dos comentários na publicação do Facebook permite-me acrescentar outra coisa: críticas sobre o vocabulário, a mensagem, a fluência do texto, o raciocínio, etc, merecem toda a consideração e enquadram-se nas que merecem atenção; críticas de quem lê o texto e ficam com a ideia que a mensagem principal deste é que "tudo só para dizer que comprou um carro" ou que "pensa que é adulto só porque já tem um carro", muito honestamente, nem merecem que percas dois segundos do teu tempo. É preciso ser-se bem incapaz na interpretação escrita para passarem de tal forma ao lado da mensagem do teu texto.

Editado por Black Hawk

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