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El Shafto

[FM22] A Incontornável Verdade Sobre Aqueles Abençoados Com Talento

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Publicado (editado)

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O futebol japonês é fundamentalmente diferente do futebol que governa o mundo, o futebol europeu. Não é que seja jogado com duas bolas, as grandes penalidades sejam marcadas com bola corrida ou algum fenómeno bizarro do género. Não, a diferença está, acima de tudo, na sua educação.

Para um jovem japonês existem duas opções para jogar futebol: as academias de futebol, tipicamente associadas a clubes, aquilo a que o resto do mundo chamaria de camadas jovens do clube. Um jovem jogador que jogue numa academia é formado com um e apenas um objetivo: ser jogador profissional. É essa a filosofia, os fundamentos do futebol são martelados de tenra idade e é assim que é criado o tradicional jogador japonês, um jogador tradicionalmente disciplinado. Esta é a típica rota comum no resto do mundo, de onde saem jogadores que aos seus dezoito ou dezanove anos começam a ser apostas das equipas principais.

A outra via é a do desporto escolar. O futebol escolar é consideravelmente diferente do futebol. Dado que grande partes das escolas não têm fundos para poder sustentar uma equipa de futebol que participa numa liga ao longo de um longo período de tempo, muita da competição a que estes jovens são expostos é alicerçada por taças locais que vão ligando com o resto do país gradualmente.

Sim, taças. Acho que toda a gente compreende o que isso quer dizer. Para estes jovens, uma derrota significa que não haverá futebol até à próxima competição. Dependendo da região, poderá nem mesmo haver futebol competitivo até ao ano seguinte. Como tal, os jogadores são ensinados a ganhar. Para muitos, é melhor esfolar a perna até que esta fique em carne viva a passar um ano sem futebol.

Este futebol, pela sua crueza, é visto como inferior ao futebol das academias, compreensivelmente. Ainda assim, não é incomum que estas mesmas academias estejam atentos ao desporto escolar e aliciem os seus melhores jogadores, que, com a perspetiva de atingir o futebol profissional, são tentados.

Nem todos triunfam e quando o fazem surgem duas vias. Uma que muitos de nós conhecemos, o abandonar do futebol. A outra é continuar a praticar o desporto na universidade. Sim, o desporto escolar japonês e a sua energia alonga-se também pelo dito ensino superior.

Onde é que reside o problema aqui? Um jogador que dê o salto para o futebol profissional após a universidade terá 21 ou 22 anos, como é o caso de, por exemplo, Kyogo Furahashi, avançado do Celtic, que fez todo o seu caminho pelo desporto escolar, até aos 22 anos, terminada a sua estadia no ensino superior, assinou pelo Gifu da J2.League, a segunda divisão japonesa. Conseguiu captar as atenções do Vissel Kobe e aos 26 anos deu o salto para o futebol europeu.

Ainda assim, Kyogo é um caso raro e sofre do mesmo mal que tantos outros japoneses sofrem no futebol europeu: lesões.

Não é incomum que, de tempo a tempo, surja um jogador japonês que entusiasme os adeptos do clube que o contratou, assim como não é incomum que surja algum problema que o impeça de explanar todo o seu futebol. Não é tecnicamente inferior aos restantes, não é como se tivesse menos noções táticas que os seus colegas europeus... então o que falha?

Eu não sei. Mas sei o quanto custa.

É irónico que façam hoje onze anos...

"Y-u-k-i!", dizia aos berros.

Kento Hashimoto. Era a alma da nossa equipa, ainda que não o soubesse. No vértice mais recuado do meio-campo, transmitia a todos uma tranquilidade que, durante aquela época, nos permitia jogar todo o nosso futebol. Eu, enquanto um médio que se divertia mais a atacar, era feliz a jogar com ele.

"Ataca sempre que achares correto, eu adapto-me!", dizia-me sempre. Confiava cegamente em todos nós e nós nele. Nunca mostrava nervosismo e quando todos precisavam de um ponto onde se focar para se acalmar, era ele o farol que os guiava.

Um médio defensivo de sonho para qualquer futebolista e, como tal, aos dezassete anos, já tinha visitado os treinos da equipa principal. Aos dezoito, seria mesmo promovido a esta, aquilo com que todos os jogadores de uma academia de futebol sonham.

"Nervoso porque amanhã é o último jogo da temporada?", perguntou-me, "ainda por cima já acabaste o treino de recuperação, não foi? És bem capaz de jogar de início amanhã!"

"Não foi por isso que te chamei."

Não fora. Havia tomado uma decisão e já tendo falado com o treinador, sabia muito bem que não seria titular no dia seguinte. Provavelmente se fosse, só atrapalharia.

"Tomei uma decisão. Vou retirar-me do futebol."

Fiz uma pequena pausa porque não sabia que reação esperar. Ainda que nos conhecêssemos desde muito novos, nunca tínhamos tido uma conversa que estivesse perto de ser séria. Era sempre a conversa típica de rapazes idiotas. Ainda assim...

"Porquê?", respondeu-me, sério.

"Não é que eu não pudesse continuar, mas o ligamento do meu joelho direito tornou-se propenso a este tipo de lesões. Quando aconteceu pela segunda vez a ideia passou-me pela cabeça, mas achei que poderia recuperar... mas o tempo passa e está na hora de aceitar a realidade, não é?"

"Estou a ver."

Olhou em volta e olhou para mim depois antes de continuar.

"Ainda assim, tu és bom jogador. Muito bom jogador, até. Alguém com o teu talento certamente que conseguiria fazer uma carreira profissional... cada vez as ligas estão mais profissionais..."

"Kento, eu não tenho nada contra quem joga nessas divisões. Tenho muito respeito, mas... acho que isto simplesmente é o limite do quanto gosto de futebol, sabes? Quando era mais novo era tudo tão divertido. Pegar na bola, fintar, marcar golos, fazer assistências... quando comecei a sonhar em ser jogador profissional, tornou-se a personificação de medo. Se errar, posso não voltar a jogar e não voltando a jogar serei dispensado do clube porque é a prova de que não tenho futuro. Para mim, a bola tornou-se um monstro. Todos nós passámos por isso, até tu. Para mim, a diferença é a paixão que vocês têm que vos permite continuar a andar em frente sem a mínima duvida de que se tornarão jogadores profissionais. No fundo, acaba por ser um bocado uma questão de ideais também, não é? Eu acho que o verdadeiro talento do futebol é o amor que cada um tem ao jogo. Eu... não tenho talento, percebes?"

"Mas..."

"Bem, pelo menos agora posso torcer por ti do fundo do coração. Sempre tive alguma inveja. Aqui entre nós, todos temos. O teu espírito inquebrável, a tua calma e a tua técnica... todos sabemos que é provável que para o ano já não jogues connosco. Portanto... boa sorte para amanhã. Ganha amanhã, como tens ganho até agora. Assim podemos despedir-nos como campeões, certo? Pelo menos durante uns minutos isso deixar-me-á feliz."

Foi a minha tentativa patética de o tentar motivar. É bom rapaz e não queria que fosse a jogo deprimido.

No dia seguinte, o FC Tokyo Sub-19 ganhou 5-0 ao 3º classificado e sagrou-se campeão. O Kento recebeu o prémio de MVP da competição. Ainda o sol não se tinha posto e o clube organizara uma conferência de imprensa com o treinador da equipa principal, presidente, representante do principal patrocinador, treinador dos sub-19 e o próprio Kento para anunciar a sua promoção à equipa principal.

De malas feitas, conseguia ver os campos onde tanto tempo passámos juntos. Queria ser jogador profissional. Desde pequenino que o queria. Quando fechava os olhos sonhava com isso, imaginava-me a conquistar a La Liga, a jogar pela seleção japonesa no Mundial de Futebol... quando me imagino como jogador profissional de futebol e a jogador futebol todos os dias... que feliz que seria... Eu gosto disto. Eu gosto demasiado disto...

 

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Editado por El Shafto
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Boa sorte nesta caminhada!

Muito curioso pelo que aí vem!

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Boa sorte. Educação japonesa é algo de extraordinário. Não só para o futebol, como para a vida. Das minhas viagens, foi a cultura mais educada que encontrei (às vezes até demais).

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Ui estás de volta companheiro 😎 ainda não acabei de ler o save todo o Vitória, mas este quero ver se consigo estar mais atento e presente. Não tenho grande conhecimento do futebol nipónico e toda a sua filosofia, pelo que estou muito interessado para perceber a dinâmica que vais transmitir. 

Não consigo perceber como é que a SI não consegue trazer as ligas japonesas para o jogo oficial, tantos anos e nada. É pena. 

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Spoiler
Citação de LUIZ CESAR, Em 18/06/2022 at 14:19:

Boa sorte com o save.

Obrigado!

Citação de Kluivert, Em 18/06/2022 at 14:40:

Boa sorte nesta caminhada!

Muito curioso pelo que aí vem!

Obrigado! Espero que esta atualização ajude a esclarecer isso, pelo menos é esse o propósito

Citação de Martini Branco, há 23 horas:

Boa sorte, amigo!

Boa escrita e história cativante... Estou curioso 🙂 

Obrigado!

Citação de cadete, há 23 horas:

Boa sorte. Educação japonesa é algo de extraordinário. Não só para o futebol, como para a vida. Das minhas viagens, foi a cultura mais educada que encontrei (às vezes até demais).

Obrigado!

Por acaso não só o Japão, mas todo o continente asiático deve ser uma série de viagens muito interessantes. De certa forma, pelo menos para mim, dá quase uma sensação de ser uma dimensão paralela no nosso planeta, dado o quão culturalmente diferentes são do ocidente.

Citação de Fajo, há 14 horas:

Ui estás de volta companheiro 😎 ainda não acabei de ler o save todo o Vitória, mas este quero ver se consigo estar mais atento e presente. Não tenho grande conhecimento do futebol nipónico e toda a sua filosofia, pelo que estou muito interessado para perceber a dinâmica que vais transmitir. 

Não consigo perceber como é que a SI não consegue trazer as ligas japonesas para o jogo oficial, tantos anos e nada. É pena. 

Não te preocupes que o save do Vitória não vai a lado nenhum, a não ser que o Silvares decida explodir com o fórum, portanto terás sempre oportunidades para aproveitar o tempo na cagadeira e ir espreitar. 😄 

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1 - Triângulos

Ainda Yuki Tetsuya estava em Espanha, com o seu nome a começar a gerar algum burburinho, após a equipa sub18 do Zamora ter surpreendido a academia do Barcelona na final de uma das taças, quando as fendas na Associação Japonesa de Futebol começavam a transformar-se em fossos.

O futebol japonês não estava bom. No seu território, nações como a Austrália, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Irão começavam a ver jogadores de elevada qualidade liderar o seu futebol e, ainda que tenha conseguido a qualificação para o Mundial de 2022 com alguma tranquilidade, não conseguiu obter o primeiro lugar, sendo superado pela Austrália, enquanto que do outro lado a Coreia do Sul dominava completamente o seu grupo, realizando uma qualificação imaculada.

O ano de 2021 estava a acabar e a instabilidade era evidente. A realização da East Asia Cup, uma mini liga entre Japão, Coreia do Sul, Coreia do Norte e China, onde as equipas jogam entre si uma vez para declarar o campeão desta mesma, veio colocar alguma água na fervura.

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A competição (agora bienal, anteriormente trienal) tem sido largamente dominada pela Coreia do Sul desde 2015 e portanto, ainda que sendo uma competição menor, a conquista da seleção liderada pelo seu treinador, Hajime Moriyasi foi muito aplaudida e o futebol apresentado fora tão sólido que se sonhava com um brilharete num mundial.

Eis que surge o sorteio do Mundial de 2022, no Qatar. O Japão enfrentaria Brasil, Holanda e República do Congo. A confiança caia a pique mas havia alguma esperança: sendo o Brasil o evidente favorito no grupo, a Holanda claramente estava longe dos seus tempos áureos e o futebol mais físico do Congo poderia ser contrariado pela disciplina japonesa.

O resultado foi catastrófico.

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O único alento para a Associação Japonesa de Futebol era de que o assunto do momento era a eliminação do Brasil na fase de grupos, o colapso de Portugal e Argentina no grupo C, que viu Cristiano Ronaldo e Lionel Messi serem eliminados do Mundial por Gana (1º) e Sérvia (2º).

Mas uma estatística era verdade: as equipas da AFC, tirando o Qatar, que passara em primeiro no seu grupo, foram as piores equipas em competição. Seja em posição nos grupos, seja no resultado produzido, sendo o Japão o segundo pior, apenas atrás do Irão, sendo a Coreia do Sul elogiada pelo seu esforço, tendo falhado a qualificação por um cabelo.

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O Japão sofria uma colossal queda no ranking de seleções e via-se mesmo relegado para a 5ª posição entre os países asiáticos, com Coreia do Sul, Austrália, Qatar e Irão à sua frente.

Os problemas que haviam sido ocultados pela vitória na East Asia Cup voltavam a surgir e só iriam piorar, pois seguia-se no Verão de 2023 a Asia Cup, que seria liderada ainda por Moriyasi, que recebera um muito polémico voto de confiança da Associação Japonesa de Futebol.

Talvez ainda com o Mundial de 2022 a pesar na mente dos jogadores, a fase de grupos, onde o Japão encontrou o Qatar, Coreia do Norte e China não correu como a equipa queria, mas como foi um dos melhores terceiros lugares a equipa conseguiu o apuramento para a próxima fase, que daria continuidade à montanha russa de esperanças dos adeptos japoneses.

O sorteio ditou um encontro com a Arábia Saudita, que estava claramente numa ascenção desde que contratara Luís Castro como treinador, e para toda a surpresa o Japão dominou confortavelmente e ganhou mesmo por uns confortáveis 3-0.

Seguia-se a Síria e os adeptos japoneses estavam confiantes, apenas para ver a sua equipa ser batida por 1-0.

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Mais uma vez os japoneses ficavam em casa a ver os seus rivais da Coreia do Sul a conquistar mais um troféu.

As fendas nas paredes da Associação Japonesa de Futebol já não eram apenas fendas. Eram crateras que permitiam ao mundo ver todos os podres. Os adeptos, em protesto, enviavam coroas de flores para o edifício da associação, em símbolo de luto pela morte da mesma.

Um mês de protestos depois, com a qualificação para o Mundial de 2026 prestes a começar, o presidente da Associação Japonesa de Futebol e os seus mais fieis seguidores anunciavam uma conferência de imprensa onde, publicamente, pediam desculpa pelo seu falhanço de restaurar o futebol japonês e anunciavam a sua demissão.

Enquanto seguia as notícias, Yuki, agora treinador dos sub19 do Cultural Leonesa, liderava o campeonato de Honor Juvenil, com imaculadas dez vitórias em dez jornadas, incluindo vitórias sobre a academia das equipas de Madrid.

O seu sucesso não passaria despercebido e ao mesmo tempo que o Japão surpreendia os seus adeptos, Yuki era surpreendido pelo contacto do Real Madrid para orientar a equipa sub19, dado que o Raúl iria ser promovido ao Castilla.

No Japão, uma surpreendente derrota contra o Omã complicava as contas do grupo e deixara a equipa numa posição em que não poderia errar mais.

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Antes do jogo contra o Bangladesh era, de forma surpreendente, anunciado o novo presidente da Associação Japonesa de Futebol. Kentaro Mori, 36 anos, que se tornava, por larga margem, o presidente mais jovem da história da AJF. O "jovem" presidente não demorou a promover mudanças e imediatamente entrou em contacto com o selecionador nacional para o informar que, após este ciclo de jogos, iria abandonar o lugar.

Após o jogo com o Quirguistão, a sua demissão tornava-se pública.

Citação

 

"(...)

A Associação Japonesa de Futebol agradece a Hajime Moriyasi todos os seus anos de trabalho e esforço, destacando a sua conquista da East Asia Cup, desejando ao treinador todo o sucesso no seu futuro.

A Associação Japonesa de Futebol iniciará assim a procura por um novo treinador, sendo que a East Asia Cup será disputada por um treinador interino.

(...)

Agradecemos o contínuo apoio de todos os japoneses."

 

 

###########

 

Entretanto, em Espanha, Yuki rejeitava a proposta do Real Madrid e não sabia bem se essa era a decisão ideal a tomar.

"Eu continuo a dizer-te que não é a melhor escolha, Yuki. Esta proposta está na mesa. A outra nós não sabemos...", dizia-lhe o seu agente, o italiano Carlo Romagnoli.

"Pois não, mas é instinto, Carlo."

"Tens mesmo a certeza? Eles ficaram de me dar uma resposta, mas com o Real Madrid a querer uma resposta ainda hoje... tens mesmo a certeza que é isto que queres fazer?"

"Nem por isso," disse entre risos, "mas que posso eu fazer? Também dizias que sair tão rápido do Zamora era um erro e olha!"

"Não sejas assim, Yuki, sabes que isso foi diferente, não só não queriam pagar o prémio como ainda queriam que renovasses por menos dinheiro. Então metes os miúdos a jogar como se fossem a academia do Barcelona e ainda querem ser forretas? O meu medo era que ao saíres desse asneira e ficasses sem treinar. Estrangeiro, jovem, com um espanhol meio arranhado..."

"Olha que o meu espanhol agora é muito melhor!", interrompeu.

"Tens toda a razão, até pareces gente agora, mas, como não me deixaste acabar, já sabes que acima disso tudo tá o nepotismo, nestas posições então é um fartote... também não entendo a tua pancada com ter de ser camadas jovens."

"Porque não? São a base do futebol. Achas que os jogadores aparecem de onde? Das árvores? Um treinador que não sabe desenvolver jogadores está a fazer o quê, mesmo?"

Carlo arregalava os olhos e olhava para o seu cliente.

"É por isso que queres voltar, não é? Um ano em Inglaterra, dois em França e os restantes em Espanha... tudo em camadas jovens. Nem me tinha apercebido do que estavas a fazer. Também podias ter partilhado, não é? Agora sinto-me burro."

Yuki riu-se, pediu um café com o seu espanhol de elevada qualidade (é mentira) e olhou de volta para o agente.

"Nem por isso. Não tenho nenhum plano mestre, não sou assim tão inteligente. Perco demasiado tempo a pensar em futebol, achas que imitar as cinco zonas do Guardiola é fácil? Não sou nenhum prodígio para fazer isso num estalar de dedos."

Recebeu o café e agradeceu. Agradeceu tão bem que até parecia um nativo a falar espanhol.

"Mas, por outro lado, se conseguir que aprendam desde pequenos..."

Um ideal 4-3-3 era o sonho de Yuki Tetsuya, mas não era fácil de implementar. Havia visto vislumbres nalguns jogos das suas equipas, mas nunca alcançara a estabilidade.

Ainda assim, o seu sonho não é dominar a posse de bola como as equipas de Guardiola. O futebol que idealiza é rápido, um futebol onde os jogadores levantam a cabeça e conseguem imediatamente identificar os seus colegas, a posição ideal onde estes estão e como os fazer avançar.

Um futebol formado por uma malha de triângulos perfeitos que permite a qualquer equipa que o consiga executar na perfeição a capacidade de se bater com os melhores. Um futebol idealizado para realizar os sonhos do Japão.

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Mas implementar algo deste género não é fácil. É necessário que os jogadores não só tenham boas qualidades técnicas, como é também necessário que sejam disciplinados, a típica palavra utilizada para descrever os jogadores japoneses.

"Bem, olha, eu vou continuar a tentar acalmar o pessoal do Cultura, que eles não gostaram nada disto. Compreensível, não é? 6 meses e já te vais embora... a tua sorte é que tens aqui um agente de topo que dá o litro pelos seus clientes!"

Tem a sua razão. Dentro da máfia que é o mundo do agenciamento no futebol, Carlo Romagnoli era um bom homem que estava disposto a aturar as teimosias de Yuki. Porquê? Só o próprio saberá. Talvez veja algo no treinador que signifique dinheiro no futuro, talvez apenas o queira ajudar.

Em Dezembro, depois de uma derrota com o Barcelona em prolongamento na Taça, Yuki recebeu a resposta que queria.

"Olha, foi o melhor que arranjei...", dizia-lhe Carlo ao telefone. "Se queres que te diga, eu acho que consigo arranjar melhor negócio. Ainda tentei o Cerezo Osaka, que passaram de ir à AFC Champions League (como o nome indica, a Liga dos Campeões Asiáticos) para estar a lutar pela promoção, mas disseram logo que já tinham alguém, mas os Red Diamonds até mostraram algum interesse e ficaram de dar uma resposta até à semana que vem para uma entrevista... o FC Tokyo é que enviou logo uma proposta. Foram até muito diretos, se quiseres, o lugar é teu. Até achei estranho, conheces alguém lá ou assim?"

"Provavelmente já não, até me admira que se lembrem de mim. Posso responder-te daqui a uma hora?"

"Sem problema, eles também não estipularam prazos."

Da varanda do seu apartamento, Yuki conseguia ver o Rio Bernesga. A água fluía e nas suas margens crianças voltavam da escola, com o sol a notificar do fim do seu turno. Não sabia qual era a decisão ideal. Era verdade que queria voltar a casa... mas por casa, apenas queria dizer o seu país natal. Nunca considerara voltar ao FC Tokyo. Voltar a pisar aqueles relvados.

Lembrava-se de uma vez em que a equipa de juvenis treinara no Campo 2, diretamente ao lado do Campo 1, onde os sub19 e a equipa principal treinam. Na saída, cruzara-se com os jogadores da equipa principal, que se encaminhavam para o seu treino. "Um dia..."

Esse dia nunca chegaria, da forma que esperava, pelo menos. Agora tinha uma oportunidade de o realizar. Não como jogador, mas como treinador.

Pegou no computador portátil e depois de uma investigação rápida uma onda nostálgica arrebatou-o. A página do clube indicava que o seu presidente era, nada mais, nada menos, que o seu antigo treinador, Tobio Murata. A única pessoa de quem não se tinha despedido. Não tinha tido coragem. Como é que podia dizer ao homem que tanto o recomendara, que não iriar continuar a jogar futebol? Pelo menos era assim que Yuki pensava.

Encheu o peito de coragem e clicou no botão verde do telemóvel.

"Y-u-k-i!", ouviu do outro lado.

Arrependera-se instantaneamente. Lembrou-se de onde é que Kento tinha ido buscar o hábito de o chamar assim.

"Estou? Olá? É assim que se trata um velho amigo?"

"Porquê eu?"

Do outro lado do telemóvel ouviu uma gargalhada.

"Eu respondo se me conseguires responder porque não tu."

"De certeza que um clube como o FC Tokyo consegue atrair alguém com mais..."

"Com mais quê, Yuki? Experiência? É isso? É experiência? Quantos mais anos de treinadores com experiência é que este clube precisa para se tornar o melhor clube japonês?"

Yuki não respondeu. O que é que iria responder, afinal?

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A verdade é que o clube pouco ou nada alcançara na J1 League. Casualmente tinha feito boas temporadas, mas era simplesmente mais um espectador numa liga dominada pelo Kawashima Frontale, que entrava para 2024 com a ambição de se tornar o primeiro penta campeão da história da J1 League.

Já o FC Tokyo, por sua vez, acabara de se salvar a despromoção, ao derrotar o seu adversário da J2 League, o FC Machida Zelvia, por 1-0.

"Bem, vou aceitar como sendo uma resposta e cumprir a minha parte. Sabes porque é que, antes de te lesionares, eu cheguei a recomendar que treinasses com a equipa principal? Porque sempre achei que eras o que melhor compreendia o futebol que queríamos praticar, o futebol que é a fonte da nossa inconsistência. Somos um clube teimoso e insistimos nesta filosofia, queremos ver os nossos jovens crescer, mas a verdade é que não posso deixar que o clube desça de divisão. Isso seria o fim dos nossos sonhos. Eu também sou teimoso e não quero abdicar de nada. Quero tudo."

"Isso não explica nada..."

"Lá está, impaciente como sempre. Não aprendeste nada? Foi por isso que tiveste de deixar de jogar."

As palavras cruas do seu antigo treinador, agora presidente, eram como adagas no seu espírito.

"Ou achas que nós não te víamos a escapulir para treinar sozinho? Simplesmente ninguém tinha coragem de te dizer nada. Talvez seja esse o mal do futebol japonês, esse espírito combativo, determinação em excesso..."

"Mas não interessa, estou a divagar. Bem, eu sigo os meus pupilos, sabes? Não que tivesses sido o mais fácil de seguir, deixa-me que te diga, mas olha, ninguém te manda ter Instagram. França, Espanha, Inglaterra... eu fui seguindo. Eu fui procurando. Tudo à espera do dia em que quisesses voltar. Instinto, não é o que dizes sempre? O contrato sempre esteve escrito e preparado. Estava a negociar um jogador com o diretor desportivo do Red Diamonds quando ele comentou que não sabia que agora eras treinador, que se perdeu um grande jogador. Como ele me devia um favor, passou-me o contacto do teu agente e aqui estamos, não é? O lugar sempre foi teu. É só uma questão de voltares a casa."

"..."

"Obrigado."

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Na sua mente, Yuki conseguia ver o Ajinomoto Stadium cheio, todos os cinquenta mil lugares recheados de adeptos a apoiar fervorosamente a equipa. Quando estava cheio, o San Siro japonês, conhecido assim porque também alberga duas equipas rivais de Tokyo, o FC Tokyo e o Tokyo Verdy, era um belíssimo estádio.

Assinou o contrato e enviou-o de volta para o seu agente.

"ESTÁS LOUCO?" gritava Carlo ao telefone.

"Ahhh, é tão teimoso. Olha, não quero saber. É isto que queres, não é? Que se lixe, se der asneira a culpa é tua, não é minha. Eu vou ver o que consigo fazer... És uma dor de cabeça ambulante, sabes?"

 

###########

 

A 27 de Dezembro aterrou em Tokyo, depois de uma viagem de quase vinte horas. Curiosamente, conseguira adormecer no voo, pela primeira vez. Yuki creditava a sua genialidade ao lembrar-se de comprar uma máscara e uma almofada para o pescoço que era dos melhores negócios que tinha feito na sua vida, era super confortável. "Um génio dos negócios, foram só 7€ o conjunto!", congratulava-se enquanto esperava pela sua mala.

Chamou um táxi e soltou umas palavras em espanhol antes de se aperceber do que estava a fazer. Foram vários anos e quase que era estranho falar a sua língua materna.

Olhando pela janela, conseguia ver as pessoas a movimentarem-se de um lado para o outro e os cartazes publicitários iluminados.

"Já chegaste? Chegaste bem?", dizia a mensagem de Carlo.

"Sim, está tudo bem, estou a caminho agora da academia."

"Ok, estamos à tua espera."

"Já chegaste? Não chegavas só dia 1?"

A mensagem ficou como lida e não recebeu uma resposta. Era um comportamento incomum de Carlo, normalmente até era ao contrário. Muitas vezes Yuki não sabia o que responder e preferia sempre não ser ele a terminar com um "Ok." e portanto simplesmente não respondia. Só tinha futebol na cabeça, portanto não era muito capaz nesses departamentos.

Olhava para o vasto complexo desportivo com um sorriso nostálgico. Tinha mais um campo, agora. Um pouco afastado dos outros, mas conseguia ver os jogadores mais novos a treinar nele.

Na sala de reuniões o presidente aguardava por ele com o seu agente e ao lado estavam dois homens que não reconhecia.

"Eu não te disse para vestires alguma coisa mais formal? Idiota!", sussurrava-lhe o seu agente.

"Huh? Não!"

O agente tirou do telemóvel e viu a mensagem a vermelho, com a mensagem a informar de um erro no envio. "Oops..."

Quando olhou para o fato do homem que não deveria ser muito mais velho que ele, ou pelo menos não o aparentava, reconheceu o pin que adornava o bolso no peito: era o símbolo da Associação de Futebol Japonês. As peças começavam a juntar-se na sua cabeça.

"Tetsuya-san, o meu nome é -"

"Kentaro Mori. Antigo jogador do Schalke e do Borussia Dortmund, um dos poucos jogadores japoneses a conquistar o futebol europeu e a ficar no coração dos seus adeptos. Dispensemos os honoríficos, por favor."

"Oh não, ele vai conseguir estragar tudo.", panicava Carlo.

"Ótimo. Também não sou adepto. Se calhar passámos demasiado tempo na Europa..."

"Yuki," começou o presidente do FC Tokyo, "isto é muito simples. És treinador do Futebol Clube de Tokyo. Ainda assim, parece que o teu agente também estava em contacto com a Associação Japonesa de Futebol e eles ficaram muito interessados na apresentação da tua filosofia e do que alcançaste. Nós não fazemos intenções de te cortar as pernas."

"Yuki, a proposta é para a seleção japonesa. Não estamos a falar dos sub-21, sub-19, equipa B, o que seja. Não. A equipa principal. O Mundial de Futebol, Yuki!", dizia-lhe o seu agente, com os olhos a brilhar como diamantes.

"Mas e o FC Tokyo? Eu já assinei o contrato."

"O teu agente propôs-nos algo.", disse Tobio. Yuki nunca tinha reparado em como a sua voz grave se projetava pelos seus redores. Se não fosse jogador de futebol podia ter tido uma carreira na rádio ou na televisão, certamente.

"Ele sugeriu-nos que ficasses com os dois lugares", acrescentou Kentaro. "Para o público vai ser algo de loucos. Vais ser alto imensas críticas. Tu e nós. Não é só a nossa cabeça no cepo, entendes? É a tua também. É um salto enorme para ti. Ainda assim... vi horas e horas das tuas equipas a jogar, não estou a tomar esta decisão de consciência leve. Se isto correr mal, provavelmente é o meu fim enquanto presidente. Já não agrada aos velhos caquéticos um presidente tão novo, quanto mais se apostar num treinador desconhecido e correr mal. Mas eu desenrasco-me, tenho créditos dos tempos do meu futebol. Já tu... é possível que te tornes radioativo, entendes? Não quer dizer nada, mas existe essa possibilidade."

Ninguém se apercebeu, mas Yuki nem sequer estava a ouvir o que estava a ser dito. O coração palpitava-lhe no peito. Era ensurdecedor.

"Estou com medo?" perguntava-se.

"Eu aceito.", respondeu.

Um aperto de mão, um contrato assinado e Yuki Tetsuya faria a sua estreia pela seleção japonesa no dia 30 de Março contra a Malásia. Pelo FC Tokyo, faria a sua estreia no dia 16 de Fevereiro... contra os reis, Kawasaki Frontale.

As redes sociais pegavam fogo e iniciava-se uma verdadeira batalha entre o público mais novo e o mais sénior, onde os mais novos aplaudiam a contratação do treinador de vinte e oito anos, dizendo que os mais velhos podiam ter a experiência mas não acompanharam a evolução que o desporto teve nos últimos dez anos, com os mais velhos a verbalizar como estavam a destruir o futebol japonês.

Nenhum dos dois estava errado. Yuki tinha todas as intenções de destruir o futebol japonês, tudo para o poder reconstruir. Pelo sonho de todos, a ambição de ser campeão do mundo.

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Editado por El Shafto
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Citação de Tuckius, há 3 horas:

Boa sorte! 

Obrigado! Não vim a tempo de incorporar na atualização, sorry.

De grosso modo, resumindo o que compõe a atualização e a forma como as coisas vão ser apresentadas: o treinador em questão treina o FC Tokyo e a seleção japonesa. No FC Tokyo a principal componente não vai ser ganhar o que quer que seja, mas sim desenvolver jogadores.

Tinha uma ideia para incorporar na atualização, mas ia ficar excessivamente longa e optei por simplesmente deixar assim num comentário à parte. O que é que isto de desenvolver jogadores quer dizer? Ora, toda a gente sabe que no FM o desenvolvimento também é afetado pelas ligas onde os jogadores jogam, ou seja, não serve de nada teres um jogador com 200 de PA na Liga do Botswana, que mesmo que seja cidadão modelo e tenha 20 de determinação, nunca vai concretizar o seu potencial.

Portanto, a ideia passa por tentar açambarcar jogadores japoneses com potencial, fazê-los crescer e se surgir a oportunidade de irem para ligas melhores, nomeadamente ligas europeias, ondem tenham oportunidades para jogar e crescer, é deixar sair sem grandes entraves.

É diferente de treinar, sei lá, o Sporting ou qualquer clube habitual. Aí vou sempre querer segura-los, claro, são os meus meninos. Aqui vou ter toda a intenção de os deixar voar para que possam crescer o máximo possível e ajudar a que a seleção japonesa seja campeã do mundo.

Portanto, o principal foco vai ser na seleção e é nisso que se vai basear a próxima atualização, apresentar um pouco o estado atual da seleção, ainda que algumas coisas já tenha revelado na apresentação anterior.

Devo mencionar e apresentar algumas coisas do clube casualmente, mas nunca será nada particularmente detalhado, provavelmente serão resumidos da temporada ou, se acontecer, do mundial de clubes, dado que o principal foco é mesmo a posição do futebol japonês no mundo.

Bem, primeiro convém crescer no panorama asiático, não é...

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Boa sorte antes demais. 

Na seleção começaste mal mas acredito que com o tempo podes dar a volta para melhorar esses desempenhos

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Deu para perceber cedo que irias para a selecção, não pensei é que fosse também a treinar um clube. Boa ideia para um save de ter um clube a formar jogadores para a selecção. Boa sorte no desafio! 

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Ora aí está um belo desafio pela frente, e fora do comum. Agrada-me esta ideia de desenvolver jogadores, para colocar a seleção japonesa no topo do mundo. Vai ser trabalhoso, mas é destes desafios que valem a pena. 

Será interessante igualmente perceber se o nível do campeonato sobe derivado ao aumento da qualidade dos jogadores, a ver vamos. Siga nisso, quero ver o Oliver e Mark Lenders levantarem o caneco daqui a algumas épocas 😎

É verdade, se puderes desenvolve só um bocadinho de como funcionava o panorama competitivo por aí. Quantas divisões, como é feito apuramento de campeão, que taças existem, etc. 

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A ideia é muito interessante e ambiciosa! Vais ter imenso trabalho (parece-me) por trás dessa história principal, no entanto, parece-me também ser muito inteligente a tua abordagem! Pelo que percebi o foco principal será a seleção nacional e é onde vais acabar por ser mais "detalhado". O clube, que vai ser uma "fonte" para a história, terá um papel mais secundário na tua apresentação.

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Citação de Banks29, Em 19/06/2022 at 17:30:

Boa sorte antes demais. 

Na seleção começaste mal mas acredito que com o tempo podes dar a volta para melhorar esses desempenhos

Não fui eu a realizar aqueles jogos...

Citação de Burkina2008, Em 20/06/2022 at 16:19:

crl nao podes deixar Oman ficar a tua frente!

Por acaso tenho algum receio, mas temos de fazer o nosso trabalho. O grupo no geral é fraquito, veja-se que o Omã está em 70º no ranking mundial e isso deve-se, em grande parte, à grande fase de qualificação que está a fazer. O resto está nos 110+.

Citação de Tuckius, Em 21/06/2022 at 09:12:

Deu para perceber cedo que irias para a selecção, não pensei é que fosse também a treinar um clube. Boa ideia para um save de ter um clube a formar jogadores para a selecção. Boa sorte no desafio! 

Obrigado!

Ainda pensei em ficar só pela seleção, mas esta gente tem toda medo de apostar na garotada... Veja-se, por exemplo, esta estatística:

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A idade média da liga são 27 anos... há uma preocupação muito grande em não falhar, o que torna a Liga altamente volátil. Por exemplo, na época 2022, o Cerezo Osaka ficou em 3º lugar, qualificando-se para a AFC Champions League. Em 2023 acabaram em 14º lugar, a um ponto do nosso FC Tokyo, que ficou em 16º e, como tal, teve de disputar o playoff de despromoção.

Citação de Fajo, Em 21/06/2022 at 15:08:

Ora aí está um belo desafio pela frente, e fora do comum. Agrada-me esta ideia de desenvolver jogadores, para colocar a seleção japonesa no topo do mundo. Vai ser trabalhoso, mas é destes desafios que valem a pena. 

Será interessante igualmente perceber se o nível do campeonato sobe derivado ao aumento da qualidade dos jogadores, a ver vamos. Siga nisso, quero ver o Oliver e Mark Lenders levantarem o caneco daqui a algumas épocas 😎

É verdade, se puderes desenvolve só um bocadinho de como funcionava o panorama competitivo por aí. Quantas divisões, como é feito apuramento de campeão, que taças existem, etc. 

É a cena que mais gosto de fazer no FM. Acho que se no save do Vitória nunca tinha encontrado o Val, não sei se tinha motivação para o levar avante como levei.

Posso sim senhor, vou fazê-lo neste mesmo post!

Citação de Kluivert, Em 21/06/2022 at 15:30:

A ideia é muito interessante e ambiciosa! Vais ter imenso trabalho (parece-me) por trás dessa história principal, no entanto, parece-me também ser muito inteligente a tua abordagem! Pelo que percebi o foco principal será a seleção nacional e é onde vais acabar por ser mais "detalhado". O clube, que vai ser uma "fonte" para a história, terá um papel mais secundário na tua apresentação.

Sim, é exatamente isso, no máximo dos máximos sou capaz de fazer um resumo não muito longo do campeonato no fim do mesmo, mas o foco vai estar mesmo na seleção.

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2 - Kagutsuchi

Na mitologia japonesa, reza a lenda que Kagutsuchi, aquando do seu nascimento, produziu chamas tão quentes e tão incontroláveis que queimou viva a sua própria mãe, pondo termo à sua vida.

Desesperado e inconsolável, o seu pai, Izanagi, cortou a cabeça ao filho e o seu corpo em oito partes. Conta a lenda que as oito partes do seu corpo viriam a tornar-se vulcões.

Como tal, Kagutsuchi tornou-se o deus patrono de todos os que trabalham com fogo para produzir algo. De certa forma, a história de Kagutsuchi não é muito diferente da história do futebol japonês.

Até ao início do milénio havia apenas uma liga profissional de futebol no Japão, a J. League, fundada em 1989. Abaixo disso existia a Japonese Football League, que atualmente é a 4ª divisão do futebol japonês e a primeira divisão amadora, onde os clubes poderiam ser ocasionalmente promovidos à J. League mediante candidatura.

É quando nos aproximamos da mudança do milénio, com o Mundial de 2002 a aproximar-se, que começam a surgir alterações estruturais com o objetivo de tornar o futebol japonês mais uniforme com o resto do futebol mundial, nomeadamente o europeu.

O que é que quer dizer esta uniformização? É fácil de explicar. Veja-se, por exemplo, que, antigamente, na J.League, não existiam empates. Todos os jogos tinham prolongamento e grandes penalidades, com um sistema de pontuação de 3 pontos por vitória, 1 ponto por derrota em penalties e 0 pontos por derrota em tempo regular/prolongamento. Pode parecer estranho, mas em 1995 era esta a realidade. Só em 2003 é que esse sistema foi completamente abolido, tendo sido gradualmente alterado e aproximado da norma, o sistema de pontuação 3-1-0 por vitória, empate e derrota em noventa minutos, como é conhecido.

Depois de tantas mudanças, a estrutura do futebol japonês foi estabilizando e atualmente apresenta-se assim:

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Em termos práticos, nos dias que correm, a estrutura foi sendo alterada e preparada para se assemelhar ao resto do futebol mundial.

NOTA DE AUTOR: Existem nuances na vida real que não estão representadas no FM, provavelmente por impossibilidade do sistema. Por exemplo, para uma equipa passar da Japan Football League, a primeira divisão amadora e o equivalente à 4ª Divisão, precisa de submeter uma candidatura para pertencer à associação japonesa. As divisões profissionais também possuem um sistema semelhante, que torna as coisas mais controladas, principalmente a nível financeiro, que é um dos pontos mais importantes para conseguir obter a licença de participação na liga profissional para onde o clube pretender obter a promoção. Não sei se era possível isto ser representado no FM ou não, mas dado que não o é, presumo que não seja.

De volta ao normal.

A estas duas pirâmides de futebol profissional e amador, acresce ainda a Japan University League, que, a par da U-18 Premier League, são bastante populares com o público japonês, sendo consideradas tão reputadas quanto a Japan Football League (a primeira divisão do futebol amador).

A U-18 Premier League é onde todos os jovens querem jogar na sua formação.

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Veja-se o exemplo da época transata, para se compreender o modelo que se insere. Duas divisões com dez equipas cada, divididas por região, com o campeão de cada região a jogar contra o oposto numa finalíssima que determina o campeão, uma final que, normalmente, enche o estádio e é o apogeu do futebol jovem.

Os mais atentos podem reparar em dois detalhes importantes: o primeiro é que, em ambas as divisões, apenas existem cinco equipas escolares. O Shizuoka Gakuen, que é uma escola privada que inclui todo, ou quase todo, o trajeto escolar, incluindo ensino superior, uma equipa secundária da Yamanashi Gakuin University, outra da Miyazaki Sangyo Keiei University e duas escolas secundárias, de Funabashi e Otsu. Em vinte equipas, estas são as únicas não academias presentes.

As restantes participam na Prince League, uma espécie de equivalente da J2 League para as camadas jovens. Apesar disso, como dito anteriormente, o principal foco das equipas escolares prende-se com taças (não representadas) cuja competitividade move o seu público de este a leste.

De grosso modo é este o sistema japonês, que no seu trono tem sentado o Kawasaki Frontale.

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Época anterior, com os qualificados para a AFC Champions League por um ponto azul e quem jogou o playoff de despromoção com um ponto vermelho.

O campeonato até pode ser renhido, com o Yokohama Marinos a ficar apenas a dois pontos do título, mas veja-se de que desde 2017 o Kawasaki Frontale só não foi campeão em 2019 e este ano, depois de ter alcançado o inédito tetra campeonato, pretende alcançar o penta.

Posto isto... e os filhos deste futebol?

É nisso mesmo que os olhos de Yuki estão postos. Com a pré época a decorrer a toda a força, com os jogadores a serem levados ao limite com jogos a cada dois dias, a documentação da seleção não lhe passa ao lado.

Uma das primeiras mudanças que sugeriu foi a de designar equipas de três olheiros para cada liga que tenha jogadores japoneses em destaque, sendo que, nas principais ligas, o chefe da equipa estará presencial no país, enquanto que os outros dois estarão remotos. Assim, todas as semanas, recebe vários relatórios sobre os diversos jogadores espalhados pelo mundo fora. Um deles é particularmente preocupante.

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Aos vinte anos, Takumi Minamino trocou o Cerezo Osaka, clube onde se formou, pelo Salzburg da Áustria. Por terras austríacas destacou-se e chamou a atenção não só do Liverpool, como de vários grandes clubes europeus. A verdade é que a aventura na Premier League tem corrido tudo menos bem para um jogador de quem se esperava muito:

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Desde 2019 apenas participou em 28 jogos na Premier League, tendo um empréstimo falhado pelo Southampton e agora, numa nova aventura ao serviço do Aston Villa, falha em destacar-se, tendo realizado apenas 3 jogos na época anterior e 0 nesta temporada.

Por outro lado, há um particular quarteto de jogadores que se tem destacado no futebol europeu.

Não é só pelos seus dotes musicais que Tomiyasu se destaca no Arsenal.

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Mas também pelas suas exibições, sendo classificado pelos sites de estatísticas como "o lateral perfeito no sistema de Arteta", sendo classificado com uma média de 7.35, a mais alta entre jogadores de campo do Arsenal. Para quem visita o Emirates, já não é estranho ouvir o seu nome ser cantado nas bancadas.

Também em Inglaterra, mas num contexto mais modesto, está Ritsu Doan.

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Não estando no mesmo lote de Takehiro, encontra-se a fazer uma bela temporada. O jogador tecnicista é, essencialmente, a força motora do ataque do Burnley, uma equipa em muitas dificuldades que luta para não descer. Com recursos limitados, o japonês tem uma boa participação nos golos produzidos pelo Burnley. Ainda que inconstante, talvez fruto do ambiente onde está inserido, merece a menção.

Mudando de país, mas não para muito longe...

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Kyogo Furuhashi tem perdido algum gás esta temporada, mas as suas exibições continuam a ser dignas de destaque. Além da sua enorme popularidade no Japão, fruto das suas exibições recentes, que o catapultaram em termos de números pela seleção, colocando-o com números dignos dos melhores, 29 jogos e 20 golos com a camisola nipónica, não é o caso de um jogador sul americano ou de alguém estilo Pogba. Não. Na época transata realizou 34 jogos para o campeonato pelo Celtic, marcando 21 golos, sendo o melhor marcador da cinch Premiership. Atraiu o interesse de vários clubes de destaque, nomeadamente o Tottenham de Inglaterra, mas a transferência não se concretizou.

Ainda que tenha perdido alguma força, continua a estar em destaque esta temporada e é uma das grandes figuras da seleção japonesa.

Por fim,

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Foi em 2017 que Daichi Kamada deixou o Sagan Tosu, clube de sua formação, para jogar pelo Eintracht Frankfurt, com 21 anos. Desde então que tem sido titularíssimo num Frankfurt em clara ascensão nos últimos anos, ficando em 10º na temporada 2021/2022, 7º na temporada 2022/2023, qualificando-se para a Conference League, e este ano a ser a equipa surpresa da Bundesliga, estando em 3º lugar, a dois pontos do 2º, Leverkusen, estando mesmo em boa posição para sonhar com a Champions League.

Nessa equipa está Daichi, que se destaca a jogar no meio-campo pela sua capacidade de chegar à frente sem descorar as suas tarefas defensivas. Está no auge da sua carreira e no pico das suas qualidades, levando já oito assistências nesta temporada que vai a meio.

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Um resumo de alguns dos jogadores mais valiosos do futebol japonês. "Uns com avaliação mais legítima do que outros", pensou.

Por outro lado... e o futuro? Bem, o futuro pode-se dizer que permite sonhar. Alguns deles destacam-se nas suas academias ou escolas, chegando a ser até já internacionais sub-23 apesar de apenas terem 16 e 17 anos, outros já jogam até pelas equipas principais dos seus clubes.

Alguns destaques:

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Jogadores jovens que já irão ter, em breve, uma grande experiência: os Jogos Olímpicos de 2024, em Julho, competição onde o melhor que o Japão fez foi um terceiro lugar, no longínquo ano de 1968.

Num misto de entrevistas e conferências de imprensa, as perguntas para Yuki dividiam-se entre perguntas rasteiras sobre o futuro de alguns jogadores na seleção e sobre a estreia na J1, contra o Kawasaki Frontale. Não fosse a academia do FC Tokyo fornecer media training aos seus jogadores, para que estes lidassem melhor com a pressão dos jornalistas e das redes sociais e, talvez, fosse engolido pela pressão. Assim não. Mentia, dava as respostas educadas que teria de dar, respondia com neutralidade e mostrava respeito pelo seu adversário.

No fim da conferência de uma das conferências de imprensa anunciava que o Japão iria enfrentar os Estados Unidos da América no dia 4 de Setembro, num jogo amigável, mas oficial (conta para o ranking internacional).

"Porquê os Estados Unidos?", perguntava um jornalista da JSoccer Magazine.

"Não somos em tudo semelhantes? Começámos por ter futebol que tentava fugir da norma e, pouco a pouco, cedemos ao standard europeu para tentarmos ser mais competitivos. Nós estamos em 45º lugar do ranking, eles estão em 11º, foram às meias finais do Mundial de 2022 e ficaram em terceiro. Não é um bom exemplo para aprendermos?"

Talvez fosse um momento em que Yuki devesse ter respondido sem honestidade. Resvalou por instantes e respondeu com o seu cérebro de futebol. Todo um contexto social e histórico tornavam o jogo mais importante do que ele pretendia que fosse e o público japonês antecipava o jogo com entusiasmo e, ao mesmo tempo, com medo dos estragos que Reyna poderia fazer.

Faltam 825 dias até ao Mundial de Futebol de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México.

 

Editado por El Shafto
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Já vou ler isso tudo. Mas digo apenas que já o ajudei a perceber a (pouca) relevância da Levain Cup :117_eyes:

Também ando pelo Japão desde que este FM saiu, vai ser curioso ver o quão diferente vai ser aqui.

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Publicado (editado)

Pois é, falha minha, esqueci me da Levin Cup e da Emperors Cup. Felizmente também acaba por não ser muito relevante para o contexto do save, mas essencialmente, até em formato, são relativamente semelhantes, a Levain Cup é a Taça da Liga e a Emperors Cup a Taça de Portugal. Não só em formato, mas também em relevância.

Editado por El Shafto

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A Emperor's Cup garante um lugar de apuramento para a Champions, atenção 🙂  É assim a maior diferença.

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Citação de doom_master, há 3 minutos:

A Emperor's Cup garante um lugar de apuramento para a Champions, atenção 🙂  É assim a maior diferença.

Tendes toda a verdade. Por acaso nesta db tá a funcionar direito, mas não aparece nas regras esses detalhes, tanto que simulei 10 anos como teste para ver se estava tudo ok

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O Myiazaki (7º classificado) não é também uma equipa universitária? Pergunto apenas pelo fato de não ter o "Sub-18" no nome e ter Uni no final. Se assim for, são 5 equipas.

Até agora, estou a gostar da tua introdução. Não é propriamente um campeonato muito falado e tenho muita curiosidade em saber mais sobre um país como o Japão, apesar de não ter investido nisso ainda. Tenho aqui uma porta aberta para saber mais.

Em termos de seleção tens alguns jogadores interessantes e conhecidos, sentes que pode ser uma boa base para construir o futuro?

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E dos japoneses a jogar em Portugal algum se destaca e esteja na calha para ir à selecção? 

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Citação de Kluivert, há 29 minutos:

O Myiazaki (7º classificado) não é também uma equipa universitária? Pergunto apenas pelo fato de não ter o "Sub-18" no nome e ter Uni no final. Se assim for, são 5 equipas.

Até agora, estou a gostar da tua introdução. Não é propriamente um campeonato muito falado e tenho muita curiosidade em saber mais sobre um país como o Japão, apesar de não ter investido nisso ainda. Tenho aqui uma porta aberta para saber mais.

Em termos de seleção tens alguns jogadores interessantes e conhecidos, sentes que pode ser uma boa base para construir o futuro?

Tens toda a razão! Curiosamente, nas notas que tinha, até tinha efetivamente escrito cinco, mas quando estava a verificar a escrever só encontrava quatro, acho que descobriste a fugitiva. 😅

Ainda estou um bocado duvidoso. Acho que, pelo menos, o estatuto de melhor nação asiática deve dar para recuperar nesta geração, principalmente se os mais novos começarem a evoluir bem e a misturar-se com os mais velhos, que são uma base muito decente, mas para almejar a algo mais parece-me brutalmente curto, pelo menos para já.

Citação de Tuckius, há 10 minutos:

E dos japoneses a jogar em Portugal algum se destaca e esteja na calha para ir à selecção? 

Os que restam e são relevantes são mesmo o Nakajima (que está listado para transferência no Porto), Leo Kokubo, guarda-redes do Benfica B, e Toki Hirasawa, extremo do Portimonense, que também está listado para transferência. Os restantes já saíram de Portugal (como o Morita, por exemplo, que é jogador de banco no Southampton), se incluir esses, diria que principalmente o Morita será muito ativo nos convocados, pelo menos. É muito bom jogador.

Qualquer curiosidade ou questão que tenham, podem continuar a colocar há vontade. Evidentemente que não vou conseguir colocar tudo nas atualizações e portanto até agradeço que perguntem, que certamente haverá mais gente que terá as mesmas perguntas!

Editado por El Shafto

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gosto imenso deste inicio de save, muito gosto em ver que a nossa conversa no topico de reações poderá ter causado isto! 😄

Irei aocmpanhar com certeza e desde já parabens pela excelente escrita ! 😄

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Esse Yoshikawa é uma boa besta, dá-lhe muitos minutos!

Curiosamente na vida real também foi anunciado um Japão vs EUA há uns dias 😁

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