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A satisfação da mulher não está só na “potência do pénis”

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A satisfação da mulher não está só na “potência do pénis”

O mito de que o homem tem de “estar sempre pronto para o sexo” colocam demasiada pressão sobre o homem. A ansiedade de ter um bom desempenho, acaba por funcionar ao contrário: “desliga o interruptor”.

 

Se a primeira experiência sexual foi má ou se a relação com o parceiro sexual também já viu melhores dias, pode ter uma justificação para a dificuldade em manter uma ereção. Mas, se nenhuma destas situações lhe é familiar, o melhor é procurar um médico o quanto antes – a disfunção erétil pode ser um dos primeiros sinais de quem tem problemas de coração. A boa notícia é que existe solução para praticamente todos os problemas que condicionam uma ereção normal.

 

Mas falar do problema nem sempre é fácil. “Mesmo os que recorrem à consulta, têm dificuldade em iniciar a conversa”, refere o urologista Pepe Cardoso, presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia. “E às vezes esperam vários anos para ir à consulta, preferindo procurar ajuda de outra maneira – na internet.” Mas o médico alerta que a informação que se encontra pode não ser a mais correta. “Quando mais depressa recorrerem à consulta, mais fácil é encontrarem uma solução.” Porque muitas vezes a disfunção sexual está relacionada com problemas cardíacos ou vasculares, hipertensão, sedentarismo, obesidade ou diabetes.

 

 

“Quando mais depressa recorrerem à consulta, mais fácil é encontrarem uma solução.”

Pepe Cardoso, urologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia

 

Mas as pressões sociais, os mitos, as proibições e inibições, continuam a condicionar a capacidade do homem de falar dos problemas. Culturalmente espera-se que o homem “esteja sempre pronto para o sexo e para satisfazer qualquer mulher” ou que “aguente uma noite inteira”, diz Sandra Vilarinho, psicóloga clínica e especialista em terapia sexual, acrescentado que entre os mitos também está a ideia de que “é obrigação do homem satisfazer a mulher e que a única maneira de o fazer é pela potência do pénis”.

 

Os mitos, as exigências no desempenho e pressão sobre a virilidade, provocam ansiedade e instabilidade e agravam cada vez mais a situação. Mesmo que a causa primária da disfunção erétil não seja psicológica, este fator acaba por aparecer mais cedo ou mais tarde, pela antecipação do fracasso ou diminuição da autoestima.

 

A ansiedade e insegurança podem condicionar o desempenho do homem logo desde a primeira experiência sexual. “A ansiedade na primeira vez pode ser tão grande que têm o efeito contrário – desliga o interruptor -, e o homem fica com a ideia que tem um problema, o que lhe baixa a autoconfiança”, refere Sandra Vilarinho, membro da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, acrescentando que há casos de homens que só vão à consulta depois dos 40 anos, mas que apresentam um historial compatível com a disfunção erétil desde os 20 – “evitamentos relacionais, pular de relação em relação” e outros insucessos pessoais e sociais.

 

A saúde sexual é uma parte fundamental da saúde global, “porque vai ter repercussões a nível pessoal, interpessoal, familiar ou laboral”, nota Pepe Cardoso. Embora seja mais frequente em adultos entre os 50 e os 70 anos, principalmente por causas orgânicas, pode acontecer em qualquer idade. Entre os jovens, as causas são sobretudo psicogénicas, mas também os acidentes ou traumatismos, as cirurgias radicais pélvicas ou as doenças vasculares congénitas.

 

10% dos homens portugueses têm dificuldades de ereção

Pedro Nobre, psicólogo clínico e coordenador do SexLab

 

Como resolver o problema?

 

A saúde sexual fica comprometida pela disfunção erétil, por definição a “incapacidade permanente de conseguir uma ereção viável para um coito penetrante”, cita o urologista. Pode haver uma ausência total de ereção ou uma ereção flácida – em que há intumescência sem haver rigidez -, mas é sempre condicionada por uma irrigação deficiente do pénis. Ou porque o sangue arterial não chega em quantidade suficiente para encher dos corpos cavernosos penianos, ou porque existe uma “fuga de sangue venoso” que não permite manter a ereção.

 

Quando não há uma ereção de qualidade é mais difícil manter a saúde local – o pénis em repouso retrai cada vez mais e vai parecendo mais curto, e os corpos cavernosos não são bem oxigenados. Mas além da disfunção erétil existem outras causas da disfunção sexual, como a ejaculação prematura ou a diminuição da libido, que podem acontecer em simultâneo.

 

“As mulheres são exigentes, mas não tanto em relação à ereção. As mulheres reclamam não do desempenho, mas da falta de envolvimento.”

Sandra Vilarinho, psicóloga clínica e especialista em terapia sexual

 

Para resolver a disfunção erétil chega, muitas vezes, resolver os problemas orgânicos que a condicionaram, seja uma depressão, um problema vascular ou o sedentarismo. Mas sendo um problema que mais cedo ou tarde acaba por ter um fator psicológico associado a terapia sexual também é aconselhada, especialmente quando realizada pelo casal. É preciso resolver os potenciais problemas a nível da intimidade do casal ou da comunicação dos desejos de ambos.

“As mulheres são exigentes, mas não tanto em relação à ereção”, explica Sandra Vilarinho. “As mulheres reclamam não do desempenho, mas da falta de envolvimento.” Embora o homem ache que a mulher quer que ele aguente mais horas, ela quer mais ambiente, erotismo e sensualidade, mimos e carícias. A psicóloga lembra ainda que “não é da responsabilidade exclusiva do homem dar prazer às mulheres”. Para avaliar o efeito da psicoterapia na disfunção erétil, o grupo Sexlab da Universidade do Porto, onde a psicóloga faz investigação, procura voluntários do sexo masculino entre os 18 e os 50 anos.

 

O problema também pode ser resolvido com medicamentos – sendo o Viagra o mais vendido -, que “porque têm objetivos diferentes, devem ser adaptados ao perfil do doente”, explica Pepe Cardoso. Enquanto uns servem para relações sexuais esporádicas e programas, porque têm de ser tomados uma hora antes da relação, outros podem ser tomados diariamente – as relações tornam-se mais espontâneas e gera-se menos ansiedade. Existem ainda outros que são dissolvidos por baixo da língua e fazem efeito em 10 ou 15 minutos.

 

Mas o urologista alerta que a toma destes medicamentos não é uma garantia para a ereção. “Sem estímulo não há ereção. O comprimido só permite que os mecanismos estejam prontos a funcionar.” E acrescenta que: “É importante que a parceira coopere na resolução do problema. Os conflitos no casal podem estar na base da disfunção ou agravá-la.” Mas o uso dos medicamentos pode ter um efeito perverso, o homem pode só se sentir confiante depois de o tomar, alerta Sandra Vilarinho, que se mostra ainda mais preocupada com o uso por jovens, que não tinham à partida necessidade de o fazer, só para poderem aguentar mais tempo. De que forma vão estes jovens encarar a sexualidade quando não estiverem sobre o efeito do fármaco é uma questão que se coloca a psicóloga.

 

“Sem estímulo não há ereção. O comprimido só permite que os mecanismos estejam prontos a funcionar.”

Pepe Cardoso, urologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia

 

Quando os comprimidos não funcionam pode recorrer-se a injeções intracavernosas (no interior dos corpos cavernosos) que provocam uma ereção em 10 ou 15 minutos mesmo que não haja desejo. Mas caso o homem não seja capaz de se injetar pode usar os comprimidos intrauretais (para colocar no uretra) que têm um efeito equivalente, ainda que não tão eficaz, mas que causa mais desconforto.

 

Se estas estratégias não resultarem podem usar-se técnicas cirúrgicas. Quando existe uma “fuga de sangue venoso” em indivíduos que tenham menos de 35 anos pode fazer-se laqueação das veias dorsais do pénis. Em indivíduos mais velhos a solução pode ser implantes de próteses penianas, mas as ereções são “mais frias”, refere o urologista. Entre as próteses, podem ser maleáveis – controlando de forma manual se fica em repouso ou ereção -, semirrígida ou hidráulica – com uma bomba de líquido no escroto.

@Observador

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