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Liu Xiang: Pé direito foi barreira inultrapassável

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Liu Xiang: Pé direito foi barreira inultrapassável

 

Estrela do atletismo chinês queria aguentar até aos Mundiais de Pequim mas não resistiu a uma lesão crónica no tendão de Aquiles que deprimiu um país inteiro em 2008. Foi o princípio de um fim previsível

 

Fim. Acabou. Não há mais, não há alternativa, não havia outro caminho, outra pista. Aos 31 anos, Liu Xiang anunciou que o atletismo já não é para ele. A confissão, emocionada, foi feita durante a semana e não podia deixar de focar o que se tem passado no pé direito desde 2008. Nessa altura, nos Jogos Olímpicos de Pequim, as atenções estavam todas viradas para o atletismo, mesmo sabendo-se que a tradição chinesa tem mais força em modalidades como ténis de mesa, badminton, ginástica ou saltos para a água. Exigem rapidez, sim, mas também reflexos e raciocínio. Com Liu Xiang tudo mudou. Em 2004 tornara-se o primeiro chinês a sagrar-se campeão olímpico de atletismo numa prova de velocidade: os 110 metros barreiras. "Este resultado muda a opinião de que os países asiáticos não têm bons resultados nas corridas curtas. Quero provar ao mundo que os asiáticos conseguem correr muito depressa", anunciou.

 

E fê-lo, enquanto pôde. Em 2005 foi vice-campeão mundial da distância em Helsínquia e dois anos depois subiu ao lugar mais alto do pódio do campeonato em Osaka. Antes dos Jogos de Pequim provou ainda que também podia fazer a diferença em pista coberta, arrebatando o título de campeão mundial dos 60 metros.

 

Entre Atenas e Pequim passaram quatro anos e a expectativa dos 1,3 mil milhões de chineses aumentou todos os dias. Liu Xiang não era apenas a referência máxima do atletismo chinês, mas também a de toda a comitiva. Era famoso, estava por todo o lado, nas ruas em cartazes publicitários, na televisão em boletins noticiosos, na internet. Onde quer que fosse, via-se a si mesmo e ao reflexo de uma pressão que se tornaria demasiado grande para o pé direito. A China sonhava com o título de comité com mais medalhas em Pequim 2008 e Xiang seria a cereja no topo do bolo. Mas o mundo virou e acabou por se tornar a pedra no calcanhar. De Aquiles. Logo na primeira eliminatória, Xiang saiu dos blocos depois da falsa partida de um rival e não mais voltou. O treinador Sun Haiping revelou que o atleta sofria de uma inflamação no tendão de Aquiles e no dia seguinte houve um pedido de desculpa de Liu Xiang a todos os que tinham mergulhado numa depressão após tanta expectativa: "Sabia que o pé ia desiludir. Sentia dores mesmo a correr lentamente. Era insuportável. Se tivesse feito a corrida, teria arriscado o meu tendão. Não posso descrever o que senti naquele momento. Nunca desisto facilmente e acredito que vou regressar."

 

E regressou.

 

Apenas 13 meses depois, numa prova em Xangai - de onde é natural -, mas regressou.

 

E com boas sensações: "Não esperava ser tão rápido. A minha confiança aumentou e vi que consigo vir para a pista e encontrar o meu antigo eu." O problema é que a lesão também descobriu o seu antigo eu. E com estrondo, nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012. A história foi semelhante: à primeira eliminatória saiu rápido dos blocos e acabou com uma rotura no tendão de Aquiles.

 

E nunca mais voltou a competir.

 

O sonho era correr nos Mundiais de Pequim, marcados para este Verão, mas não houve hipótese. "O meu pé disse-me que não e não repetidamente. Não havia outra forma de conseguir aguentar o treino e a competição intensa. Odeio o meu pé. Adoro demasiado a pista e as barreiras e se não tivesse lesionado o meu pé... mas não há 'se' neste mundo. Lesionei-me e tenho de me limitar a aceitá-lo silenciosamente."

 

Para trás fica uma carreira repleta de sucessos mas que é ainda mais marcada pelo que podia ter sido. Campeão olímpico em Atenas 2004 com apenas 21 anos, aproveitou a prova para estabelecer o recorde mundial dos 110 metros barreiras (12,91 segundos), num tempo que voltou a bater em 2006 por três centésimas. E se a melhor marca mundial já não lhe pertence desde 2008, há bandeiras que continua a poder exibir. O recorde olímpico mantém-se nos 12,91 segundos, tal como o asiático. Porque se Liu Xiang se apressou a garantir que o continente também podia fazer a diferença nas marcas da velocidade, o que é certo é que não é fácil encontrar um atleta com a sua qualidade ao virar de um hutong.

 

O próximo passo, aos 31 anos, passará por se tornar embaixador da IAAF (federação mundial de atletismo) para os Mundiais de Atletismo de Pequim. Tal como em 2008, vai ter de assistir à sua prova de eleição de fora, mas poderá aproveitar para capitalizar o rótulo de modelo e referência do atletismo chinês. Dessa forma, talvez contribua para que as provas de velocidade deixem de ser o calcanhar de Aquiles dos asiáticos.

 

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Com Liu Xiang retira-se um génio das barreiras

 

O atleta chinês foi incapaz de vencer as lesões que afectaram a sua promissora carreira.

 

O chinês Liu Xiang, antigo campeão olímpico e mundial dos 110m barreiras, anunciou esta semana na versão chinesa do Twitter, o Sina Weibo, a sua retirada definitiva do atletismo activo, indo dedicar-se nos próximos meses à organização dos campeonatos mundiais de atletismo, que pela primeira vez terão lugar no seu país, durante o próximo mês de Agosto.

 

A sua saída não é de todo inesperada, pois Liu Xiang nunca recuperou totalmente de uma primeira grave lesão num tendão que lhe arruinou os Jogos Olímpicos de Pequim. Em casa, nesses Jogos de 2008, ele era o atleta mais seguido por milhões de compatriotas e a sua saída de cena antes de conseguir sequer partir na eliminatória em que estava colocado foi um momento de choque para o público chinês.

 

Mais tarde recuperou, em 2012 estava de novo em grande forma mas, de maneira totalmente dramática, viria a ter um problema em tudo semelhante ao de quatro anos antes, nos Jogos Olímpicos de Londres, e então começou o caminho inevitável para a retirada agora consumada.

 

Nascido em Xangai, a 13 de Julho de 1983, criado pelos avós, Liu Xiang foi para uma escola de desporto aos 12 anos de idade e inicialmente estava apontado ao salto em altura, disciplina em que a China tem grande tradição. Após algumas evoluções e tendo sido notado como um atleta rápido e ritmado por Sun Haiping, que viria ser o seu treinador, orientou-se para as barreiras e viria a ter uma carreira fulgurante nos escalões jovens, tendo batido várias melhores marcas mundiais por faixas etárias, desembocando no recorde mundial júnior, com as barreiras (de tamanho senior) de 1,067m, que ainda hoje perdura, com 13,12s, em 2002, em Lausanne.

 

A partir daí a sua ascensão não parou. Dotado de uma aceleração final extraordinária conseguiu a medalha de bronze nos 110m barreiras nos Mundiais de 2003, em Paris, e logo no ano imediato tornou-se no primeiro campeão olímpico do atletismo masculino chinês em Atenas, igualando a 27 de Agosto o recorde mundial com 12,91s.

 

Dois anos mais tarde, a 11 de Julho de 2006, em Lausanne, bateu o recorde mundial, baixando-o para 12,88s. Tratou-se do primeiro e único atleta não negro a deter o máximo mundial das barreiras desde 1960, quando o alemão Martin Lauer obteve 13,56s, numa lista que compreendeu só norte-americanos e cubanos.

 

Foi um cubano, Dayron Robles, o primeiro a melhorar o seu máximo mundial, com 12,87s em 2008, em Ostrava, e por ironia seria o mesmo atleta que lhe impediria, numa fase de recuperação da lesão olímpica de 2008, um segundo título mundial. Liu Xiang ganhara esse certame mundial em Osaca, em 2007, e em Daegeu 2011 comandava depois da última barreira quando Robles o puxou pelo braço esquerdo, fazendo o chinês cair para terceiro. Serviu de pouca consolação a desqualificação de Robles.

 

Depois de Daegu voltou a encontrar a grande forma no ano olímpico de 2012, com 12,97s, mas vieram os Jogos britânicos e a má sorte de quatro anos antes voltou a reclamar os seus direitos.

Editado por Lebohang

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