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A dona do mercado e os novos desafios na liga portuguesa

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A dona do mercado e os novos desafios na liga portuguesa

Após mais um fecho da janela de transferências, Tomás da Cunha fala do novo paradigma na contratação de jogadores: Portugal deixou praticamente de ser ponto de passagem de muitos dos mais talentosos da América do Sul, que seguem diretamente para a Premier League, a liga mais poderosa do planeta.

O período áureo do futebol português, no que diz respeito a contratações, aconteceu no final da primeira década do século XXI e nos anos que se seguiram. Porto e Benfica discutiam os melhores talentos da América do Sul, sendo reconhecidos como uma porta ideal para a entrada na Europa. Não acidentalmente, o nível da rivalidade – qualidade de jogo e dimensão dos protagonistas - atingiu um pico difícil de repetir, com campanhas europeias que provaram essa capacidade competitiva. A máquina estava construída. Comprar, valorizar, vender e voltar a fazer. Além da margem para investir, havia um crédito estabelecido para atrair os próximos craques. Os exemplos são quase infinitos.

Ao Porto, além de nomes como Casemiro, Alex Sandro e Danilo, chegaram as principais figuras do futebol colombiano. O Benfica conseguiu contratar Di María após o Mundial sub-20 de 2007. Mais tarde, veio Gaitán. David Luiz e Ramires saltaram para a Premier League. E é mesmo essa (super) liga que veio mudar as dinâmicas de mercado. Chegámos a uma fase em que – exagerando – se tornou mais interessante jogar no Southampton, no Bournemouth ou no Crystal Palace do que no Ajax ou num grande português. Desde logo, pelas condições financeiras. Além disso, quem vende está interessado em fazer o melhor negócio possível. A fonte secou.

Não quer dizer que não dê para Benfica e Porto atraírem um ou outro jogador acima da média. Luis Díaz e Enzo Fernández foram apostas certeiras. Mas já não é cíclico. Olhemos para a janela de janeiro. Andrey (Chelsea), João Gomes (Wolverhampton) e Danilo (Nottingham Forest), três dos mais promissores médios brasileiros, voaram diretamente para a Premier League. André ficou no Fluminense porque o clube rejeitou a proposta do Fulham. Esta é uma nova tendência, já que os ingleses nunca iam buscar jovens ao Brasil sem os observar em contexto de futebol europeu. A pressa para chegar primeiro, pagando o mais barato possível, também influencia este tipo de negócios. Todos valeriam o triplo se passassem por Portugal, eventualmente.

Facundo Buonanotte (Brighton), Maximo Perrone (Man City) e Carlos Alcaraz (Southampton) saltaram da Argentina para Inglaterra. Há uns anos, o mais provável era passarem por Portugal ou Países Baixos numa fase de adaptação. Teoricamente, tinham todos os benefícios em fazê-lo. Jogavam num contexto menos exigente, onde eram protagonistas. Disputavam competições europeias. Alguns deles vão chocar com a ausência de projecto desportivo e, porventura, poderão perder-se pelo caminho. As grandes potências também compram para impedir que um determinado jogador vá para outro lado. Se a aposta resulta, logo se verá.

Já se falou inúmeras vezes da necessidade de explorar outros mercados. O Benfica parece querer mudar o paradigma, olhando para os países nórdicos. Noutro patamar do futebol português, abre-se a porta do Japão. Mas, mais do que isso, é preciso perceber como tirar partido das novas dinâmicas. A MLS entrou no jogo e contrata grandes pérolas na América do Sul. É obrigatório seguir a evolução dos talentos que caem nos Estados Unidos. Não se trata de um destino final e nem todos se adaptam. Não sendo fácil contratar a clubes da Premier League, há alguns casos particulares. Andrey e Perrone, por exemplo, são projectos a longo prazo de Chelsea e Man City. Os próximos anos vão ditar se realmente serão importantes nesses clubes ou se terão de baixar um degrau na carreira (assim chegou Porro ao Sporting).

Formar e apostar na prata da casa tornou-se uma via indispensável para os clubes portugueses. O encarecimento do principal fornecedor de talento externo obriga a que o scouting seja cada vez mais criterioso, tentando encurtar o fosso para quem tem uma capacidade de investimento superior. Se o mercado muda, é preciso mudar com ele. Arriscar mais, por vezes. Tudo se conhece, no futebol atual, mas a percepção varia e o timing de negócio marca a diferença. Pensar mais à frente ajuda a definir quem encontra uma fórmula de sucesso e quem depende dos resultados da época para ser sustentável.

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