Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Lebohang

Entrevista a Slavoj Žižek: “A esquerda está completamente perdida. Já está dividida. Se há dois esquerdistas, há duas fações”

Publicações recomendadas

Citação

Entrevista a Slavoj Žižek: “A esquerda está completamente perdida. Já está dividida. Se há dois esquerdistas, há duas fações”

A conversa “extremamente humilhante”, na Sala Oval, entre Donald Trump, J. D. Vance e Volodymyr Zelensky foi, para o filósofo esloveno Slavoj Žižek, “o fim da civilização”. Em entrevista ao Expresso, a propósito da publicação em Portugal do seu livro “Contra o Progresso”, o psicanalista, que mantém a tradição crítica de Marx, Lacan e Hegel, rejeita que a esquerda, de que faz parte, se renda à boçalidade: “Somos a verdadeira maioria moral. Precisamos de pura decência”

O mais recente livro de Slavoj Žižek tem um nome tão provocador quanto a sua voz: “Contra o Progresso”. Nele, o filósofo e sociólogo esloveno vai da pop culture ao estado dos movimentos progressistas mundiais, cravando os seus ensaios de “humor sombrio”, a única forma que tem, diz, de escapar ao seu “desespero político”.

Filósofo hegeliano, psicanalista lacaniano e “comunista conservador”, Žižek reflete, nesta entrevista ao Expresso, sobre a fragmentação da esquerda, a ascensão de líderes populistas e os dilemas éticos da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, desafia conceitos consolidados de progresso, capitalismo e democracia.

“É muito provável que venhamos a regredir para uma nova era de barbárie”, afirma o diretor internacional do Instituto Birkbeck para as Humanidades da Universidade de Londres, professor visitante na Universidade de Nova Iorque e investigador sénior no departamento de Filosofia da Universidade de Liubliana. O autor de “Contra o Progresso” e de outras obras garante que é fundamental a Humanidade encarar a tragédia que se avizinha: “É preciso passar pelo desespero. Desespero significa que estamos no fundo do poço, e que ninguém o fará por nós.”

 

As democracias são identificadas como sistemas tendentes ao progresso. Se o progresso, mais ou menos rápido, foi a tendência de maior afirmação dos modelos democráticos, considera que as democracias avaliaram mal os custos emocionais e sociais que podem advir do progresso? Os momentos de transição nos papéis sociais lineares e a desorientação social que provocam não foram demasiadas vezes desvalorizados?
É uma pergunta muito boa, mas levaria duas horas a responder. Como deixo claro no meu livro, não sou contra o progresso em geral. Penso que a modernidade e o iluminismo são, em certo sentido, um megaprogresso. Até a minha amiga, Judith Butler — teoricamente nem sempre concordamos — concordou comigo. Está ciente de que o seu tema, substancialmente marcado pela desconstrução do masculino e do feminino, abriu-se com o “Cogito, ergo sum” de Descartes, ou seja, com a subjetividade cartesiana. E depois aprendi, com a História da Filosofia, que o feminismo moderno surgiu primeiro com umas senhoras ricas que liam Descartes. Estas mulheres estão literalmente nas origens do feminismo moderno, porque disseram que o cogito não tem sexo. Por isso, não duvido desta grande rutura, que vem até aos dias de hoje. Mesmo que não esteja no topo das notícias dos nossos media, sabemos que coisas horríveis estão a acontecer, não só na Ucrânia e em Gaza, mas no Sudão e noutros países que são Estados falhados. O poder político não funciona. Só estou a dizer que não há um só megaprogresso. Mas porquê? Deveríamos perguntar qual é o lado negro deste progresso. Estamos a perder autonomia?

Está a falar da inteligência artificial?
É por isso que sou fascinado pela inteligência artificial, não porque a considere uma maravilha, mas porque nos obriga a repensar o que somos enquanto humanos. O que é ser humano? Não é simplesmente pensar depressa, seja lá o que queremos dizer com pensar e raciocinar. Depois de debater com muitos tipos de inteligência artificial, isolei duas coisas que, pelo menos agora, a inteligência artificial não consegue fazer. Mas são pequenas. Uma são os hábitos. Todos os temos. Por exemplo, o hábito de, num espaço com quadrados pequenos, não se pisar uma das cores. Isso é maravilhoso, porque é pura aparência de significado; é como se pensássemos em introduzir alguma ordem nas nossas vidas, mas que não tem sentido. Por outro lado, como salientou Jacques Lacan, dizer palavrões é a admissão da impotência da linguagem. Praguejar significa que se está confuso, faltam-lhe até palavras para dizer, para formular corretamente. Praguejar é profundamente humano. A inteligência artificial não consegue fazer isso. Embora não seja tão pessimista como Jürgen Habermas, com o cognitivismo e as ciências do cérebro, já não é apenas questão, quando se tem um filho, de poder escolher a cor dos seus olhos. Pode até haver a tentativa de influenciar atitudes psicológicas, como a preguiça ou a disposição para trabalhar. Estamos a aproximar-nos de um estado em que o que percebemos como as nossas deficiências morais será algo que poderá ser curado por intervenção química ou digital no nosso cérebro.

Em que discorda de Habermas?
Habermas escreveu há 15 ou 20 anos, que isso mina a base da nossa abordagem pedagógica. Digamos que é mais inteligente e trabalha mais do que eu. Competimos numa prova. Mas eu tomei alguma droga ou fui mesmo alvo de intervenção digital. Depois, venço-a sem esforço. Temos de repensar tudo. Por exemplo, a sexualidade. O que me assusta, com esta ideia de ligação neural, de que as nossas mentes possam estar diretamente ligadas, é que a sexualidade como a conhecemos desaparece. Não haverá flirt nem sedução. Olharemos um para o outro e saberemos o que pensamos. Isso já não é sexualidade, é horror.

Mas há outros impactos pesados do progresso que tendemos a desvalorizar?
Os críticos dos marxistas que sejam de esquerda sabem isto: embora nos seus últimos anos Marx se tenha tornado muito consciente dos limites do ambiente e da forma como o capitalismo estava a arruinar a natureza, a sua visão era de desenvolvimento infinito da força produtiva. Num certo sentido, queria o capitalismo sem capitalismo. Ou seja, queria a expansão capitalista, o desenvolvimento, mas sem a forma capitalista de concentração dos lucros. É duvidoso que ainda o queiramos. Não sou pessimista no sentido de acreditar que os homens sejam maus por natureza. No entanto, acho que são muito melhores e muito piores do que pensam. Jean-Jacques Rousseau sabia-o: o mal não é questão de egoísmo individual. O capitalismo introduz outra lógica também profundamente enraizada na natureza humana, no ressentimento e na inveja. O axioma básico do capitalismo não é apenas “quero lucrar”, mas o outro também deve perder. Nós, eslovenos, enquanto nação, somos disso modelo. Na nossa autoperceção, somos maus, avarentos que não querem gastar, e sabe qual é a grande piada eslovena? Alguma figura divina aproxima-se de um agricultor esloveno e diz-lhe: “Farei contigo o que quiseres, mas, cuidado, farei o mesmo duas vezes com o teu vizinho”. A resposta instantânea de um agricultor esloveno é: “Tire-me um dos olhos”.

Não é uma visão demasiado pessimista?
Por outro lado, estudos feitos por entidades sérias chegaram a resultados maravilhosos. Descobriram que, se não se recebe o suficiente, é claro que se trabalha mal, porque se fica desesperado. Trabalha melhor quem vir o seu salário aumentado até um certo nível, porque pode viver em paz. Mas, se ganhar ainda mais dinheiro, a sua produtividade e satisfação no trabalho caem. Porque as pessoas tornam-se obcecadas pelo dinheiro e já não se preocupam com o trabalho. Pode pensar: “Sim, mas isto vale para os Estados Unidos.” Não! Repetiram a experiência na Índia e até numa aldeia pobre de África, e todos chegaram à mesma conclusão. Então, não é que todos queiramos mais e mais e mais. Não, estamos satisfeitos com o suficiente, com podermos férias e vivermos relativamente confortáveis. Devemos ter muito cuidado com esta ideia básica de que os humanos são egoístas; é falsa.

O progresso correu politicamente mal em vários casos, é isso?
Quase choro, e mencionei isto nos meus livros, com as verdadeiras tragédias que, para mim, são a África Subsariana negra, a África do Sul, por exemplo. Agora, são independentes e já não vivem no apartheid há cerca de 30 anos. Mas, economicamente, a diferença entre pobres e ricos é ainda maior. A África do Sul está no topo em termos de diferença entre ricos e pobres, e havia tantas esperanças de igualdade com Nelson Mandela... tenho lá muitos amigos. Perguntei-lhes, e disseram-me que sim, os negros pobres comuns talvez sofram ainda mais do que sob o apartheid, e a violência social está a explodir. A África do Sul, a antiga África do apartheid, era um Estado policial em relação aos negros. Num estado policial, há controlo das autoridades sobre a violência. Agora, a África do Sul é uma das capitais mundiais da violação. Têm até um termo especial para o tipo de violação em que um homem, enquanto viola uma mulher, a corta com uma faca ou a estrangula. Percebe o que quero dizer com ambiguidade do progresso? Procure sempre a parte má. Hoje, também falamos muito de ecologia, mas não creio que estejamos a fazer grande coisa. Toda esta treta sobre o desenvolvimento sustentável são frases vazias. E partilho duas visões pessimistas com Yuval Harari.

Quais?
Já disse que o que Israel está a fazer é uma catástrofe maior do que o Holocausto. Como o Holocausto foi uma ameaça externa, agora Israel está a perder a alma. Os judeus estão a matar, descartando o seu legado espiritual mais precioso. E disse que já estamos a perder com a inteligência artificial. O novo modelo académico do Chat GPT consegue, com alguns nomes e tópicos, criar um texto académico. Depois, envia esse texto para um periódico. O periódico utiliza de novo o Chat GPT para rever o seu texto. E depois publicam-no, e a maioria das pessoas que acedem não lê o texto, mas talvez leia a sua condensação em Chat GPT. Portanto, é toda uma vida pseudoacadémica que acontece. Sim, o Chat GPT é um grande progresso. Sei como é útil. Por exemplo, eu o meu filho gostamos de temas excêntricos. Uma vez conversei com ele sobre como o Alasca foi conquistado e depois abandonado pela Rússia no século XIX. E o meu filho perguntou em inglês pela presença russa no Alasca. Em cinco segundos, tinha dez páginas. Por outro lado, saibamos que quanto mais a inteligência artificial é desenvolvida, mais alucina, mais sonha. Não sou o tipo de conservador que diz que vamos continuar com os velhos hábitos. Não, porque olhe para Donald Trump… por um lado, é obcecado por esta imagem nostálgica de uma América velha, ativa e capitalista, com poucos imigrantes e quase nenhum trabalhador estrangeiro. Não é uma bela vingança que, ao mesmo tempo, Trump dependa mais do que outros destas corporações digitais, mediáticas e tecnológicas?

Se, perante as diversas revoluções em curso, seja a neoliberal ou a trumpista, os defensores do progresso se limitam a reagir, não passam ao papel de conservadores e defensores do status quo? Não é contranatura os progressistas limitarem-se ao papel de defender o adquirido?
Com certeza. Essa é a tragédia. A esquerda queixou-se durante 15 a 20 anos que precisamos de ir além da economia neoglobal. Trump fez isso: arruinou o globalismo com as tarifas. Já não é um mercado global unificado. Foi Trump que o fez. Yanis Varoufakis é meu amigo, mas não concordo com ele quando fala do tecnofeudalismo, um neofeudalismo. Penso que tem razão na perceção básica de que o capitalismo de hoje não é o antigo capitalismo que conhecíamos. Está a transformar-se em algo novo. E definitivamente não é progresso. Mas, voltando ao seu ponto, concordo que é muito triste. Acho que a esquerda começou a perder a visão. Paradoxalmente, diria que foi depois de 1968.

Dos protestos estudantis?
Sim, a revolução de 1968 e a rebelião estudantil foram muito paradoxais. Eu era jovem. Os anos 60 foram a última era do Estado-providência social-democrata ocidental, embora se baseasse na exploração do “Terceiro Mundo”. Qualquer esquerdista americano dirá que o Presidente mais progressista foi Richard Nixon, pela quantidade de dinheiro que disponibilizou para bolsas de estudo e assistência médica. Na era Carter, por causa de tendências económicas, diminuíram esses apoios. Não é triste que o que celebramos como 1968, a última onda revolucionária, tenha explodido no ponto mais elevado da satisfação relativa do estado social? A lição é muito triste: as pessoas não se revoltam quando as coisas estão mesmo mal, geralmente revoltam-se quando as coisas estão bem, mas isso desencadeia novas esperanças. Hoje, temos Bernie Sanders, mas será substancialmente mais do que um bom e velho social-democrata? Apoio-o politicamente, é muito inteligente, não conservador no sentido dos valores cristãos de Trump, mas conservador no sentido de ‘vamos manter as conquistas do Estado-providência social-democrata’. Depois de 1968, na Europa e na América, a esquerda tornou-se cada vez mais moralista, não na economia, mas no politicamente correto.

O politicamente correto não é apenas o “correto”?
Esse é o meu problema com o politicamente correto. Concordo com os objetivos, mas a forma como lutam é típica da classe média, que não aborda as preocupações das pessoas comuns. E então, as pessoas comuns, para onde vão? Vão votar nos populistas trumpistas. A esquerda está completamente perdida. Sabe onde esta tragédia acontece na sua forma mais pura? No Reino Unido. A Inglaterra é um país estranho. Tinham dois grandes partidos, o Conservador e o Trabalhista. O Partido Conservador tornou-se excêntrico e está a desaparecer. O Partido Trabalhista está a fazer quase a mesma coisa. Ninguém gosta deles. Há mulheres no Governo trabalhista, mas e o último Governo conservador no Reino Unido? Tiveram uma mulher, Liz Truss, e Rishi Sunak, um indiano. Agora, a líder do Partido Conservador é Kemi Badenoch, negra. A ironia é que, com o Partido Trabalhista, governam os homens brancos. É, além de uma ironia profunda, muito triste, porque vemos a desagregação do Partido Trabalhista. Já estão divididos. Se há dois esquerdistas, há duas fações.

A ressurreição da figura do homem forte parece ser a grande tendência do momento. Do outro lado, parecem faltar líderes capazes de inspirar como certas referências do passado. A qualidade dos líderes é assim tão mais fraca ou o vento é que não está a seu favor?
Sem vergonha, sou a favor de novos líderes fortes. Não sou neofascista. O meu amigo Alain Badiou deu-me a ideia de que, para mobilizar as pessoas, não é assim tão importante dizer-lhes o que querem. A mensagem que se deve transmitir é: “Sim, você consegue.” Dizer-lhes que pode pensar em si, e assim por diante. Não precisamos de uma nova visão perfeita. Precisamos de uma figura, não como Estaline, que sabe melhor do que tu o que é bom para ti, mas que dê esperança. E tem de ser uma figura de liderança, como Mandela. Se lermos os seus discursos, vemos que não era um megagénio, mas dava esperança às pessoas. Portanto, sou pessimista e, ao mesmo tempo, otimista. Sou pessimista porque acho que a direita, mesmo que pareça positiva, como os populistas trumpistas, está obcecada pelo inimigo, seja a comunidade LGBTQIA+, a decadência dos valores familiares, os imigrantes ou as mulheres. Como esses são os inimigos, é preciso usar a política do medo e liquidá-los. A resposta da esquerda não deve ser ‘não, não é assim tão mau’. Quando Trump nega, por exemplo, a crise climática, oferece uma visão muito negativa, mas há esperança nela. Não digo que não seja obscena. Precisamos de uma crise mais forte para nos unirmos, mas podemos ter a certeza de que virá uma crise mais forte.

É ao encarar a inevitabilidade da destruição total do nosso modo de vida – ou seja, ao perder as últimas ilusões e enfrentar o pior cenário possível – que se pode encontrar uma centelha de esperança? Dito de outra forma, será impossível melhorarmos antes de piorarmos a sério? A sociedade precisa de ver o abismo de perto antes de dar um passo atrás?
Na Europa Ocidental, ainda não temos consciência, não assumimos totalmente quão má é a situação. Acreditamos que, se dermos um pouco mais pelo ambiente, ajudarmos um pouco a Ucrânia, expressarmos simpatia pelos palestinianos, não nos custará muito e seremos capazes de manter o nosso modo de vida. Não, não vamos. Penso que devemos viver a tragédia, a potencial catástrofe da situação em que nos encontramos. E ela virá. O meu receio é que, se a esquerda não lidar com isso, a direita o faça de uma forma muito mais opressiva e brutal. Por isso é que falo de mim, ironicamente, como comunista moderadamente conservador.

Porque as pessoas tendem a não entender o conceito de socialismo, e, por isso, existe uma versão descafeinada do que é ser socialista…
Sim, porque por comunista não me refiro ao comité central de Estaline. Mas virá uma megacrise e temos de nos preparar para ela. Tenho grandes recordações da era da pandemia. Passava o tempo todo em casa, não tinha de me encontrar com amigos, via filmes antigos e lia. O que estou a dizer é que, embora tenhamos falhado, a covid-19 consciencializou-nos de que o único caminho é uma cooperação internacional mais forte. O erro dos liberais é que, quando falamos de imigração, dizem: “Sim, sim, devemos abrir as nossas fronteiras.” Bem, isso é um problema. Direi agora algo que fará alguns esquerdistas proclamar-me neofascista. Se simplesmente abrirmos as nossas fronteiras, teremos vencedores à direita nas eleições. Temos de mudar.

Mas não seria ceder em princípios de que a esquerda não pode abdicar?
O problema é: porque é que as pessoas estão a vir para aqui? E não deveria haver tabus. Por exemplo, embora empatize com o que está a acontecer com os palestinianos, não acha esta pergunta legítima? Porque vão tantos muçulmanos para a Europa Ocidental e não para os países árabes? Porque não vão para os Emirados, para a Arábia Saudita? Porque não querem estar ali, e há muita hipocrisia quanto a isto. Tudo tem de ser repensado criticamente. A nossa atitude básica não deveria ser imaginar uma sociedade melhor agora, mas, embora soe triste, como sobreviver a uma catástrofe iminente.

Voltando a Yuval Noah Harari… argumentou que poderíamos estar a viver a III Guerra Mundial e não termos consciência disso, como não a tinham as pessoas em 1939 e 1940. Também faz alusão a esta ideia no seu livro…
Concordo com Harari, mas o que ele sugere é que vivemos numa era como a anterior à I Guerra Mundial. Durante 10 ou 15 anos, toda a gente esperava uma nova guerra. Todos falavam disso, mas ninguém acreditava que pudesse acontecer. Porque o grande Império Britânico estava a desintegrar-se. Penso que a situação é semelhante, quando o império dos Estados Unidos está a perder, e não existe um mecanismo global internacional de coordenação. E o pior de Trump e de Israel é que, ao troçarem das Nações Unidas, não estão a trabalhar no que precisamos de forma mais desesperada. Por exemplo: há cerca de 15 anos, houve uma catástrofe em Fukushima [central nuclear], no Japão. O meu amigo Jean-Pierre Dupuy, teórico da catástrofe, esteve lá como enviado especial da União Europeia, e disse-me que, por um dia, o Governo japonês entrou em pânico. Pensaram que teriam de retirar pelo menos 30 milhões de pessoas de toda a área de Tóquio. Como? Para onde deveriam ir? Numa ordem internacional normal, a resposta é óbvia. Um acordo com a Rússia, já que o leste da Sibéria está meio vazio. Consegue imaginar isso hoje? Não. Quando temos catástrofes ecológicas, não são um problema local. Há mais ou menos três anos, houve um verão tão quente em Seattle e Vancôver que as temperaturas eram de cerca de 50ºC, mais altas do que nos Emirados Árabes Unidos. Toda a circulação de ar em redor do hemisfério norte foi perturbada.

Por isso defende abordagens globais.
Uma abordagem mais global, não no sentido de um Governo mundial. Isso seria corrupção garantida. Mas algum tipo de cooperação é a única forma de enfrentar também a inteligência artificial. Um sistema normativo global, mas com força para impor. Estamos conscientes de até que ponto todas as grandes potências estão a trabalhar como loucas nesta ligação neural e no controlo mental direto? Isso tem de ser controlado a nível global. O mesmo se aplica à imigração. Não pensemos nos termos do nosso país, se somos abertos ou não. Pensemos por que razão as pessoas estão a vir. Conheço bem a situação no Congo. É o grande problema, é um Estado falhado. Mas não é por se tratar da África primitiva. É porque os senhores da guerra locais têm minas com níquel muito precioso e outros minerais, e lidam diretamente com megacorporações. Portanto, somos responsáveis pelo estado em que se estão o Congo ou o Sudão. Temos de pensar globalmente. Pessoas como Trump agem globalmente, mas não pensam globalmente. Pensam em MAGA ["Make America Great Again", base de apoio de Trump]. Pensa no que é bom para ele. E, no fim, a tragédia é que líderes como ele estão a arruinar a Europa Ocidental. Este é o entendimento mais profundo entre Trump e Vladimir Putin: ambos odeiam a Europa unida. E penso que a própria Europa está a perder terreno, a suicidar-se. Deve aproveitar a oportunidade da guerra de Gaza e da guerra contra a Ucrânia para começar a agir como superpotência. Uma boa superpotência, mas uma superpotência forte e unida.

A Europa tem deparado com crise atrás de crise. Falhou com Gaza?
Teve a hipótese de não seguir os EUA e decidir: sim, condenamos o Hamas, mas o que Israel está a fazer é inaceitável e devemos fazer algo. Gostamos dos palestinianos que sofrem agora, mas façamos algo. Previnam, não se limitem a empatizar com o sofrimento. A Europa falhou completamente. E isso é o mais triste. Ainda acredito no espaço público livre, no feminismo, na defesa das minorias sexuais, da liberdade religiosa, em cuidados de saúde universais, educação gratuita. É este o legado do iluminismo europeu. Temos de reinventá-lo de outra forma. Mas é muito provável que venhamos a regredir para uma nova era de barbárie. É bem provável que aconteça.

A verdade é que o seu livro “Contra o Progresso” tem sido descrito como otimista, em última análise. Concorda?
A única maneira de escapar ao meu desespero político é fazer humor negro. Sabe porque prefiro ser pessimista? Porque, se for apenas pessimista, de vez em quando acontece algo de bom, aqui e ali, e fica-se feliz. Quando se é otimista, fica-se sempre desapontado. Nesse sentido, o meu livro é otimista. É um velho lema da esquerda. Antonio Gramsci, Max Horkheimer e Theodor W. Adorno afirmavam que o lema da esquerda deveria ser o pessimismo do conhecimento e da mente, e o otimismo da vontade. O desespero não é necessariamente inatividade. Precisamos de passar pelo desespero. Encontrei, num filme alemão, uma afirmação maravilhosa. Um sujeito que quer lutar contra os nazis argumenta contra um democrata, que diz: “Não, devemos continuar a negociar.” Replica: “Não, a esperança é para os que esperam que alguém faça o que eles devem fazer.” É preciso passar pelo desespero. Desespero significa que estamos no fundo do poço, e que ninguém o fará por nós. Então, temos de o fazer. Devemos constituir um movimento popular, um novo partido, ou recorrer a violência? Não sei. Tentar de tudo. É por isso que me considero um oportunista de princípios. Devemos ter princípios, salvar o legado da emancipação europeia.

Nos últimos anos fomos apresentados a um mundo pós-ideológico. No entanto, parece que as fronteiras ideológicas nunca foram tão vivas. Foi a ausência de debate ideológico que permitiu, paradoxalmente, que algumas ideologias tivessem capacidade de captar pessoas que pareceriam não as subscrever? Ou seja, negar as ideologias não torna as pessoas ainda mais vulneráveis a serem manipuladas ideologicamente?
É isso que me deixa triste. Por exemplo, o líder do Burkina Faso, Ibrahim Traoré, foi elogiado como nova esperança, mas, há semanas, o Parlamento do Burkina Faso decidiu unanimemente que a homossexualidade é crime punível com prisão. É isso que é tão deprimente. Em cada movimento progressista, encontra-se um lado obscuro. Não estou a dizer que não devamos fazer nada, mas estejamos sempre atentos aos possíveis efeitos negativos. A minha fórmula de progresso seria: fazer algo por desespero. Claro, na primeira vez, a coisa piora, há um novo terror. Depois, repita-se, corrija-se os erros. As revoluções só funcionam à segunda vez, a primeira têm de correr mal.

Porque o descrevem como o filósofo mais perigoso do Ocidente?
Isso foi ironicamente dito por Adam Kirsch do “The New Republic”, que também me considerou o mais desprezível. Porque se concentra nas minhas piadas más. Mas, quando as pessoas estão desesperadas, a única forma de sobreviver é o humor negro. Sei isto pelos meus amigos judeus, que, na Polónia, mesmo em Auschwitz, faziam inúmeras piadas de judeus, sobre a sua situação. Temos dezenas de piadas vulgares, brutais e maravilhosas sobre o conhecido massacre de Srebrenica, na Bósnia. Entendi que, para descrever a realidade de hoje, é preciso humor negro. Porque, por exemplo, o que Benjamin Netanyahu está a dizer (que ao destruir Gaza estão a libertar os palestinianos) é uma piada de mau gosto. Sou implacável com o estado em que a esquerda se encontra. Para mim, o acontecimento mais deprimente sobre que escrevi aconteceu há quatro anos: a tomada de posse de Joe Biden como Presidente. Foi um grande acontecimento, como se Trump tivesse sido um pesadelo que tinha acabado, e pudéssemos voltar ao nosso Estado-providência liberal democrático americano. A razão por que apoiei ironicamente Trump, há nove anos, foi pensar que esse é o perigo, e, se os americanos tiverem a hipótese de enfrentar esse perigo, talvez isso os desperte.

Mas voltaram a elegê-lo.
Cometi um erro, porque não aconteceu. Comportaram-se durante a presidência de Biden como se Trump tivesse sido um pesadelo. Agora estamos de volta ao normal. Nunca nos devemos esquecer de que Trump é um efeito, um sintoma do que está errado com este Estado-providência predominantemente liberal de esquerda. Temos de começar pela autocrítica, e não concentrar-nos apenas em Trump. Nos últimos dois anos, tenho preferido não ler muitas notícias ou ver telejornais. Apenas verifico à pressa na internet o que está a acontecer, porque tudo me deprime. E refugio-me em bons filmes antigos. Aquela conversa extremamente humilhante na Sala Oval entre Donald Trump, J. D. Vance e Volodymyr Zelensky foi, para mim, de certa forma, o fim da civilização. Foi tão deprimente que não consegui dormir duas noites. Alguns dirão: “Ah, é um burguês.” Não, acredito nas boas maneiras. Em tempos como estes, precisamos de figuras com Jeremy Corbyn e Bernie Sanders, reservadas, homens simples e decentes. É tão revigorante. E acho que a esquerda devia jogar este jogo. Deviam dizer não à subversão e aos palavrões. Deixemos isso para a nova direita. Somos a verdadeira maioria moral. Precisamos de pura decência.

Então não concorda com a abordagem de Gavin Newsom, governador da Califórnia, que tem provocado Donald Trump nas redes sociais, com memes e vídeos adulterados com recurso a inteligência artificial?
Sei o que ele está a fazer, mas é um jogo extremamente arriscado. Não deixa de ser um jogo democrático. Ele concentra-se demasiado em Trump. Mas é preciso autocrítica. A crise em que a Califórnia está é resultado dos erros do Partido Democrata. É muito fácil concentrarmo-nos em Trump, mas devemos aprender com os líderes populistas, não apenas criticá-los. Obviamente, detetaram insatisfação entre milhões de pessoas. Concentremo-nos nisso. O que fizemos de errado para abrir espaço a isso? Não só usar da nossa arrogância politicamente correta, neofascista. Conheci Tarana Burke, que cunhou o movimento #MeToo. Há alguns anos, denunciou-o. Disse: “O que aconteceu ao meu movimento?” Em vez de verdadeira solidariedade entre mulheres pobres da classe trabalhadora, tornou-se uma piada da classe média alta sobre como se pronuncia. É triste. Por outro lado, como gosto de dizer, acredito em milagres. Com toda a minha desilusão com o Syriza, o partido de esquerda radical grego, vejo que dele surgiu um grande partido que ganhou as eleições. Conheci Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, e eles queixaram-se de que Bruxelas foi brutal com eles. Não, não foi. Eles deveriam estar à espera, e, depois, descobrimos que não tinham um plano B. E acabaram num papel muito trágico, a fazer o trabalho sujo da direita. Mesmo assim, estou muito feliz por estarmos todos na mesma onda, e por precisarmos de sobreviver. Precisamos de boas séries de televisão e filmes, senão enlouquecemos. Vou ver o filme do Leonardo DiCaprio. Estou muito curioso.

 

  • Like 4

Compartilhar este post


Link para o post
Citação

Zizek outra vez? A esquerda merece de facto desaparecer

Zizek outra vez? A esquerda merece de facto desaparecer

Sem nunca se rir do flic flac à retaguarda que está a dar, Zizek tem a cara de pau para vir agora falar de “decência”, “moral”, “verdade” e “civilização”. Perdão? Zizek é protótipo do intelectual pós-moderno que, nas faculdades de letras e ciências sociais, destruiu os conceitos de verdade, moral e civilização

Uma pessoa abre o jornal e fica a pensar que vive numa realidade alternativa onde de facto não existe verdade e memória.

Abro o meu jornal e vejo aquilo que já tinha visto noutras publicações internacionais: o circo Zikek continua a entreter. O camarada Zizek, marxista de manhã, freudiano à tarde (é mais ou menos como ser do Benfica e do Porto ao mesmo tempo) diz agora que a esquerda está completamente perdida. Por outro lado, diz também que a civilização e a decência estão em risco e que a esquerda, claro, é a reserva moral que procura a “pura decência”. Isto é para rir ou para chorar? Não, não estou a falar da providencial e inevitável presunção de superioridade moral, esquerda boa vs. direita má. Isso dá-se de barato. Estou a falar da mais absoluta desonestidade intelectual. Sem nunca se rir do flic flac à retaguarda que está a dar, Zizek tem a cara de pau para vir agora falar de “decência”, “moral”, “verdade” e “civilização”. Perdão? Zizek é protótipo do intelectual pós-moderno que, nas faculdades de letras e ciências sociais, destruiu a ideia de verdade, de moral, de civilização.

O pós-verdade começou na esquerda pós-moderna de Zizek e Boaventura e, até agora, não vimos da parte desses intelectuais um mea culpa. Pelo contrário, há este patético circo de pulos à retaguarda na esperança de que não apareça ninguém com memória. Para terem uma ideia, Zizek foi o autor do livro que recusou a ideia de “totalitarismo”; os milhões de mortos da URSS não existem aqui, tudo é pretexto para um mero jogo de palavras brincalhão, um registo engraçadista que destruiu a esquerda. Estamos a falar da pessoa que, para falar de religião, usa como lente os ovos kinder. Brincadeirinha, entertainer. Se eu quero entretém, vou ao circo, não procuro filósofos.

No final do século passado e durante as primeiras décadas do nosso século, era impossível defender - à esquerda - ideias como “verdade” e “decência” e “civilização”; eram “eurocentrismos” inaceitáveis, eram “generalizações” inaceitáveis porque tudo é “relativo”, eram impossibilidades epistemológicas, diziam. O movimento woke e identitário que o Zizek de 2025 critica nasceu no ventre intelectual do Zizek 2005.

E o que dizer da falta de respeito e da má educação? Confesso que me ri às gargalhadas quando li isto:

“Alguns dirão: “Ah, é um burguês.” Não, acredito nas boas maneiras. Em tempos como estes, precisamos de figuras com Jeremy Corbyn e Bernie Sanders, reservadas, homens simples e decentes. É tão revigorante. E acho que a esquerda devia jogar este jogo. Deviam dizer não à subversão e aos palavrões. Deixemos isso para a nova direita. Somos a verdadeira maioria moral. Precisamos de pura decência”.

A falta de respeito pelas boas maneiras era a marca da esquerda radical pós-moderna. Bourdieu fazia gala disso, por exemplo. “Boa maneiras” não era uma virtude universal, era uma marca burguesa. Quando há uns anos, critiquei o excessivo uso do “fucking” por Jon Steward, recebi um lençol de hatemail que chegou ao Brasil.

Quando seguiu o circo de Zizek e Baudrillard, entre outros, em vez de seguir intelectuais progressistas sérios e coerentes como Habermas, Lilla, Walzer, Neiman, etc., a esquerda colocou-se no beco sem a saída onde está; um beco sem vitória política à vista e sem coerência intelectual. Se, à beira do beco que se transforma num abismo, continuar a seguir o flibusteiro Zizek, que acha que pensamento é o mesmo que name dropping, então, a esquerda, lamento, merece de facto desaparecer.

Nem um dia completo temos desta entrevista e já temos um dos elementos reaccionários da Direita a reclamar.reuniaozw8.gif

Compartilhar este post


Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisa de ser membro desta comunidade para poder comentar

Criar uma conta

Registe-se na nossa comunidade. É fácil!

Criar nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Autentique-se agora
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...