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A paciência de Agate e a rutura de Gerson: dois caminhos para o mesmo pódio nos Mundiais de pista curta

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A paciência de Agate e a rutura de Gerson: dois caminhos para o mesmo pódio nos Mundiais de pista curta

Portugal acordou para dois campeões do mundo no mesmo dia, mas os saltos que levaram Agate de Sousa e Gerson Baldé ao ouro começaram muito antes de Torun. Um cresceu na espera, o outro na mudança. Juntos, revelam mais do que um triunfo: revelam o estado de um país que continua a produzir talento apesar das condições, não por causa delas

Há saltos que acontecem num instante, como se o corpo, por capricho, sentisse necessidade de afastar-se do chão por um breve momento. Mas há outros que se preparam durante anos, que nascem de mudanças profundas, de vidas que se reorganizam para que, num momento preciso, tudo se alinhe.

Em Torun, na Polónia, quando Agate de Sousa e Gerson Baldé voaram para o ouro no salto em comprimento dos Campeonatos do Mundo de Pista Curta, o mundo percebeu que aqueles dois saltos tinham começado muito antes da tábua de chamada. Não é apenas o pódio que os une, é a coragem de mudar, a mesma obstinação silenciosa que faz de um atleta alguém que passa a vida a tentar repetir um gesto até que ele se torne perfeito.

Agate de Sousa tem 25 anos e chega ao título mundial como quem regressa a um lugar que sempre soube que existia, mas que demorou a alcançar. A história dela começa em São Tomé e Príncipe, numa infância onde o talento era evidente mas o futuro incerto, e continua em Portugal, onde chegou aos 19 anos dividida entre o atletismo e os estudos. “Quando cheguei a Portugal eu queria fazer desporto mas também queria estudar. A minha mãe é gestora, o meu pai economista, foi por isso que escolhi Economia. Só ao longo do tempo eu e o meu treinador fomos percebendo que podíamos fazer do atletismo uma carreira”, revelou, em entrevista à rádio TSF.

A paciência de Agate e a rutura de Gerson: dois caminhos para o mesmo pódio nos Mundiais de pista curta
Sports Press Photo

Os primeiros anos em que passou pelo GD Cavadas e pelo JOMA, foram marcados por uma espécie de limbo burocrático: a naturalização arrastou-se durante cinco anos e, nesse período, a atleta competiu sempre como estrangeira, carregando um estatuto que lhe fechava portas em vez de as abrir. O Maisfutebol recorda que, em 2021, a situação atingiu o absurdo. Por causa das regras de confinamento impostas pela covid‑19, Agate ficou impedida de viajar para competir fora do país, porque, sendo estrangeira, não teria autorização para regressar a Portugal.

Paradoxalmente, foi nesse período de fronteiras fechadas que ela abriu a maior distância da carreira. Já instalada em Portugal, saltou 7,03 metros, uma marca que continua a ser recorde nacional de São Tomé e Príncipe. Nessa altura, já ninguém tinha dúvidas que o salto em comprimento era o território onde Agate ia construir o futuro, apesar do ponto de partida ter sido na velocidade, e o peso uma experiência breve.

“Eu cheguei ao atletismo com um nulo no lançamento do peso e, agora, sou campeã do mundo do salto em comprimento”, disse na Polónia, com a simplicidade de quem olha para trás e percebe o caminho inteiro de uma só vez.

Quando a nacionalidade chegou, o futuro abriu-se

A nacionalidade portuguesa chegou finalmente em 2024 e, a partir daí, a carreira acelerou como se estivesse à espera desse desbloqueio. Na estreia com a camisola de Portugal, conquistou logo o bronze nos Europeus de Roma, em 2025. Nos Mundiais de Tóquio ficou em sexto lugar, mas a sensação era clara, havia ali mais para dar, mais para crescer, mais para afinar.

Esta época marcou o regresso ao Benfica e o reencontro com a estabilidade técnica. Sob a orientação de Mário Aníbal, o treinador que lhe afinou o gesto e lhe ensinou a paciência que o salto em comprimento exige, voltou a saltar com a confiança de quem sabe que está a construir algo maior. E fez tudo isto sem abdicar da vida académica, uma vez que continua a frequentar o curso de Gestão no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), como se a pista e a universidade fossem duas linhas paralelas que, no caso dela, não se anulam, mas completam-se.

Agate de Sousa saltou a 6,92 metros
Agate de Sousa saltou a 6,92 metros
DeFodi Images

“A Agate tem uma capacidade rara de se concentrar no essencial”, diz o técnico, numa frase que parece escrita para descrever o quinto salto da final. Porque foi aí, no quinto ensaio, que Agate decidiu o concurso. Tinha perdido a liderança para Larissa Iapichino, tinha sentido a pressão de quem chega como favorita - trazia a melhor marca da época - e, ainda assim, manteve a serenidade. “Tentei manter-me o mais calma possível. Ainda estou numa fase em que me estou a conhecer melhor; antes pensava muito em responder às outras”, explicou na zona mista, com a voz baixa de quem ainda estava a processar o que fez. O salto saiu limpo, tenso, decidido. Quando aterrou, o marcador mostrou 6,92. O ouro era dela.

O que encanta em Agate não é apenas o salto. É a forma como fala dele. “Tenho de festejar mais, não é? Eu guardo muito as emoções”, disse, quase a pedir desculpa por não explodir. Depois, já com a medalha ao peito, acabou por confessar o que realmente a move: “Dá-me mais ganas para continuar, porque quero o recorde da Naide. É realmente o que eu desejo”. E há aqui mais do que uma linha que se cruza, uma vez que Naide Gomes, campeã mundial em 2004 e 2008, também nasceu em São Tomé e Príncipe, é também naturalizada, campeã do mundo e foi ela que abriu o caminho que Agate percorre com a serenidade de quem sabe que está a continuar uma história, mas a construir a sua própria narrativa.

O olhar de Naide Gomes e a eventual perda de um recorde

Em declarações à Tribuna Expresso, Naide Gomes, negou fazer comparações entre ambas, mas deixou elogios à compatriota: “Sempre acreditei nela. Já vi, tenho acompanhado um pouco a carreira dela e tem todas as qualidades para saltar longe. Está a construir a sua história, e muito bem, eu construí a minha, deixei um legado, e agora é ver o resultado e acompanhá-la. Foi um prémio grande e merecido para ela a competição em Torun”.

A ex-atleta e agora fisioterapeuta, não esconde no entanto que ver o seu recorde ser batido não lhe agrada. “Os recordes são para ser batidos, obviamente que no fundo, no fundo, não gostamos quando nos batem os recordes, mas aceito isso muito bem, porque faz parte da evolução”, diz, reconhecendo que o facto de Agate ser são-tomense a deixa “mais feliz”. Até porque, realça, “isso quer dizer que se São Tomé apostasse no atletismo, nomeadamente nas disciplinas técnicas como os saltos, podia ir buscar muitos mais atletas com grande nível. Aquilo é uma mina, de certeza, há muitos talentos.”

Agate de Sousa com Iapichino, a medalhada de prata, e Linares, que obteve o bronze
Agate de Sousa com Iapichino, a medalhada de prata, e Linares, que obteve o bronze
Dan Mullan

Do lado de fora, quem acompanha Agate confirma não só o talento como a maturidade. O próprio treinador, Mário Aníbal, já sublinhou que Agate “tem uma relação muito saudável com a pressão”, algo que não se treina, apenas se descobre. Até o médico Gomes Pereira, que a acompanhou nos últimos meses e a ajudou a recuperar de problemas físicos recentes, destacou que “a resiliência dela foi decisiva para chegar aqui”. Há consenso, Agate não é apenas uma atleta em forma, é uma atleta que encontrou o seu lugar.

Na zona mista, ainda com o corpo a recuperar do impacto da areia, a atleta disse uma frase que resume os últimos anos deste caminho: “Este título representa o meu trabalho, o meu esforço, a minha resiliência e o trabalho mental, feito em conjunto com o meu médico [Gomes Pereira] e o meu treinador [Mário Aníbal], mas também pelos portugueses. Foi por eles que eu fiz isto e, agora, estou feliz.”

Um outro caminho para o ouro

Gerson Baldé, por outro lado, chega ao mesmo lugar por um caminho completamente diferente. Se Agate representa a paciência, Gerson representa a rutura. A sua história não é a de um atleta que encontrou o caminho certo à primeira. É a de alguém que cresceu entre duas raízes - nasceu em Albufeira, filho de pais guineenses - e que sempre viveu com a sensação de que tinha mais do que um lugar no mundo. Talvez por isso tenha sido, desde cedo, um atleta múltiplo: saltava em altura, saltava em comprimento, ganhava títulos nacionais em ambas as disciplinas, como se o corpo ainda estivesse a decidir qual delas lhe pertencia.

Depois do inicio da carreira na AA Bela Vista, muda-se para o Sporting, onde se sagrou campeão nacional júnior, no salto em altura. No final da época de 2019 transferiu-se para o Benfica e ficou durante seis anos a desenvolver um trabalho que lhe deu varios títulos nacionais, sempre no salto em altura. Até que, em 2025, percebe que o corpo e a mente pediam mais. Recusou a renovação com o Benfica e fez um telefonema que mudou tudo: ligou a José Barros. O treinador da Maia, com mais de 50 anos de atletismo, recorda o momento com a serenidade de quem já viu quase tudo: “Telefonou-me e perguntou-me se eu o aceitaria no meu grupo de treino. Logicamente a resposta não poderia ser outra que não um sim. Não estou ligado a nenhum clube, tenho atletas de variadíssimos clubes.”

Baldé logrou a terceira medalha para Portugal em Torun
Baldé logrou a terceira medalha para Portugal em Torun
BSR Agency

A porta geográfica tinha sido aberta pela namorada, Ana Leite, atleta do Maia AC no salto em altura, que se mudou definitivamente de Lisboa para o Porto. O treinador faz questão de clarificar que a escolha foi dele: “Não foi ela que o convenceu. Ele é adulto, experiente. Uma das pessoas que ouviu foi a namorada que, não tenho dúvida, lhe terá dito bem de mim.”

Gerson, de 26 anos, resolveu acompanhar a namorada e quando 2026 começa, já está no Sporting, já está na Maia, já está dentro de um processo. E é aí que o trabalho começa a mostrar-se. José Barros, que treinou gerações, que foi Diretor Técnico Nacional, que trabalhou com alguns dos melhores do mundo, não tem paciência para narrativas de milagre: “Tenho duas iniciais no meu nome, o J e o C, mas não sou Jesus Cristo, não faço milagres”. O que houve, insiste, foi continuidade. Talento, bases sólidas, trabalho acumulado pelos treinadores anteriores - “que estão de parabéns” - e uma adaptação rápida a um novo contexto. E, sobretudo, um ambiente onde o atleta se sentiu bem. “O ponto de vista psicológico passa muito pela alegria com que se está num grupo e pela confiança daquilo que vamos fazendo.”

As mudanças que fazem a diferença

Mas também houve mudanças tecnicas. José Barros adianta que foram alterados “fundamentalmente os aspectos relacionados com a técnica de corrida e da corrida de balanços”. E admite: “Ao longo destes meses deu para perceber que ele ainda é melhor do que eu pensava no início do trabalho com ele. Tem áreas que ainda têm uma enorme margem de evolução, fundamentalmente a nível técnico. Qualquer treinador de saltos sabe que ele tem que melhorar a sua fase aérea. Isso é visível. Tenho muitos amigos que são investigadores biomecânicos que já me disseram: quando é que mudas aquilo? [risos] Quando houver tempo para fazer, fazemos.”

A paciência de Agate e a rutura de Gerson: dois caminhos para o mesmo pódio nos Mundiais de pista curta
Joosep Martinson

É neste contexto que, em fevereiro, em Braga, nos Campeonatos Nacionais de Clubes, Gerson faz aquilo que durante 24 anos ninguém tinha conseguido: bate o recorde nacional de pista coberta de Carlos Calado, levando-o de 8,22 m para 8,32 m.

Esse salto não inaugura a mudança, confirma-a. É o momento em que o corpo valida a decisão tomada no ano anterior. E, como explica José Barros, é também o que lhe dá outra ambição: chegar ao Mundial vindo da melhor marca de sempre, com o recorde de Portugal na mão e no terceiro lugar do ranking mundial, permite-lhe “sonhar mais do que noutras alturas”.

“Era uma questão de timing até o Gerson quebrar o meu recorde. Ele tem tudo para ser uma referência durante muitos anos. É um talento raro”, admitiu Carlos Calado ao Jogo, quase como quem passa um testemunho.

Quando Gerson chegou ao Mundial, vinha com a confiança de quem já tinha visto o corpo fazer aquilo que antes só imaginava. O plano da final foi desenhado a dois. “O mapa da prova foi desenhado entre os dois. O que eu queria é que ele olhasse para mim na bancada e visse um homem tranquilo”, explica o seu treinador à Tribuna Expresso.

Gerson Baldé juntou o título mundial ao recorde nacional do salto em comprimento
Gerson Baldé juntou o título mundial ao recorde nacional do salto em comprimento
Sports Press Photo

Mas houve um detalhe técnico que passou despercebido a muita gente e que mudou tudo: “Ele faz um salto que foi milimetricamente nulo e era um salto ao mesmo nível do salto que lhe deu a vitória. Quando uma pessoa logo na segunda oportunidade faz esse tipo de salto, há um nível de confiança que sobe”. O resto é história: 8,46 metros, melhor marca mundial do ano, ouro mundial.

Sobre o futuro, o treinador assume que o próximo grande objetivo é “daqui a 136 dias estar na final do Campeonato da Europa e dar continuidade a este trabalho e ao resultado”.

A realidade que o pódio não esconde

É precisamente quando o país celebra que surgem as vozes que faltam sempre nestes momentos, as que olham para o quadro geral e veem o que ainda não existe. José Barros, que está no atletismo desde 1973, que trabalhou com alguns dos melhores do mundo, que ajudou a construir a escola portuguesa de saltos ao lado de Robert Zotko, lembra que nada disto acontece por acaso. Alerta que Portugal só terá mais Gersons e mais Agates se houver continuidade, condições, investimento, visão; que é preciso voltar a olhar para o salto nas escolas, como no tempo do Mega Salto e do Mega Sprint; que é preciso criar espaços de treino que não obriguem atletas de elite a disputar corredores com dezenas de miúdos; que é preciso aplicar o que se diz antes dos Jogos Olímpicos e não esquecer tudo depois.

Domingos Castro, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, de forma ainda mais direta na receção aos atletas, em Belém, disse que Portugal tem campeões e vice‑campeões do mundo “mas não tem uma arena para treinar e competir.” Perante o Presidente da República e o primeiro‑ministro, deixou o apelo que se torna inevitável: “Precisamos de uma pista coberta. Pelo menos uma. Não podemos continuar a depender da boa vontade de outros países para preparar atletas deste nível”. A frase, dita com a emoção de quem acabava de ver dois portugueses no topo do mundo, não é um pedido, é um diagnóstico.

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