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Craques ao leme: quando os jogadores de futebol passam dos relvados para a cadeira de presidente

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Craques ao leme: quando os jogadores de futebol passam dos relvados para a cadeira de presidente

Derlei Silva, conhecido por “Ninja” quando conquistou, enquanto temível avançado, a Liga Europa, a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental pelo FC Porto, e Dani Alves, segundo futebolista mais titulado da história, um dos melhores laterais de sempre, tricampeão europeu pelo Barcelona, campeão olímpico e das Américas com a “canarinha”. Hoje são, respetivamente, donos do Fafe e do São João de Ver, emblemas que se enfrentaram há poucas semanas
Derlei Silva, conhecido por “Ninja” quando conquistou, enquanto temível avançado, a Liga Europa, a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental pelo FC Porto, e Dani Alves, segundo futebolista mais titulado da história, um dos melhores laterais de sempre, tricampeão europeu pelo Barcelona, campeão olímpico e das Américas com a “canarinha”. Hoje são, respetivamente, donos do Fafe e do São João de Ver, emblemas que se enfrentaram há poucas semanas

Cada vez mais jogadores estão a comprar clubes de futebol. Seguindo o caminho aberto por David Beckham, nos EUA, vedetas como Cristiano Ronaldo, Messi, Vinicius Jr. ou Mbappé estão a gastar milhões para adquirir clubes ou parte deles. Em Portugal, Dani Alves e Derlei investiram em emblemas da Liga 3. O retorno pode ser avultado, mas não faltam riscos e desafios

Para uma noite de terça-feira, as bancadas do Estádio Municipal de Fafe até estavam bem preenchidas de espectadores para a partida entre o AD Fafe e o SC São João de Ver, a contar para a fase de manutenção da Liga 3 (terceiro escalão). Os anfitriões tinham a permanência garantida, mas os forasteiros, vindos do concelho de Santa Maria da Feira, precisavam de uma vitória para escapar à despromoção para o Campeonato de Portugal.

Seria mais uma partida de pouco mediatismo dos escalões secundários, não fora a invulgar presença de dois campeões no camarote presidencial, ambos nascidos no Brasil: Derlei Silva, conhecido por “Ninja” quando conquistou, enquanto temível avançado, a Liga Europa, a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental pelo FC Porto, e Dani Alves, segundo futebolista mais titulado da história do futebol (43 troféus), um dos melhores laterais de sempre, tricampeão europeu pelo Barcelona, campeão olímpico e das Américas com a “canarinha”. São hoje, respetivamente, donos do Fafe e do São João de Ver. “Existe uma tendência crescente de investimentos de jogadores ou de ex-jogadores em clubes de futebol, muitas vezes de pequena dimensão, pois acarreta menos riscos”, explica Diogo Luís, ex-futebolista, economista e consultor financeiro. “O futebol tornou-se uma indústria. Os clubes são hoje marcas e as marcas têm valor no mercado, sendo mais cativantes para quem tem dinheiro.”

No passado mês de janeiro, Dani Alves surpreendeu tudo e todos com o anúncio da compra de 50% das ações do Ver por um milhão de euros, com a promessa de adquirir as restantes quotas no final da época. “Quando deixei de jogar, tinha claro que tudo o que aprendi devia ser colocado em algum lugar”, diz Dani Alves ao Expresso. “Tentámos comprar outros clubes primeiro, mas o São João nos estava esperando.”

Poderá o antigo craque do Barcelona e do PSG terminar a carreira de jogador no clube do distrito de Aveiro ou iniciar o percurso de treinador? “Jogar não creio”, esclarece Dani Alves ao Expresso

O baiano tinha acabado de sair do período mais difícil da sua vida. Em março de 2025, fora absolvido pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha de uma condenação anterior de quatro anos e meio de prisão, por suposta violação de uma jovem de 23 anos na casa de banho de uma discoteca de Barcelona, a 31 de dezembro de 2022. A decisão unânime das juízas baseou-se na insuficiência de provas para afastar a presunção de inocência, apontando lacunas e contradições no depoimento da vítima.

Dani Alves, de 43 anos, passou 14 meses detido e a sua reputação saiu fortemente beliscada: o FC Barcelona removeu-o da sua lista de “lendas”, houve protestos aquando da sua libertação, e até na sua cidade natal, Juazeiro, na Bahia, a sua estátua foi vandalizada e depois retirada pela Prefeitura. “Foi impossível trabalhar com ele durante aquele ano. Parou tudo, ficámos à espera”, recorda Peron Farias, 41 anos, representante de Dani Alves em Portugal e atual diretor executivo do São João de Ver. “A família toda sofreu, lutou, mas sabia que chegaria esse veredicto final, que era a inocência dele, porque quem o conhece sabe que ele seria incapaz de fazer algo assim.”

Farias já estava em Portugal desde 2022, instalado no Barreiro. Uma das suas missões era desenvolver um acordo com um clube português que recebesse talentos brasileiros formados nas academias sul-americanas (Brasil e Colômbia) da CFC — Campeão Formando Campeões —, criadas por Dani Alves, com a ajuda de Farias e de outros colaboradores. Surgiu o histórico Vitória de Setúbal, então a alinhar na 2ª divisão distrital; primeiro com uma hipótese de parceria com o Vitória Bahia, depois com abertura para transferir a propriedade através da compra de ações da SAD. “Foi aí que um amigo em comum me falou do São João de Ver. Passei ao Dani as informações sobre a história do clube, a cidade, e os olhos dele até brilharam”, diz Farias. “Ele viu mais potencial aqui porque o norte é mais competitivo, tem mais equipas na primeira, segunda e terceira divisões e comercialmente é mais atraente. O Vitória de Setúbal estava nas distritais, até à gente escalar às nacionais era muito tempo, muito investimento, não era uma conta fácil.”

Do lado dos ‘malapeiros’ — alcunha atribuída aos habitantes de São João de Ver, por terem oferecido malápios, um fruto semelhante à maçã, na inauguração da linha ferroviária do Vale do Vouga —, também havia vontade de negociar.

A SAD tinha sido formada em 2019. O acionista maioritário, Carlos Branco, 50 anos, empresário do ramo da construção civil, era dono do emblema desde então, catapultando-o desde as divisões regionais até à Liga 3; mas há já algum tempo que procurava investidores com maior fulgor económico para lançar o Ver na corrida às categorias profissionais. “Vieram cá muitos, uns até pouco recomendáveis. Lembro-me de uns, acho que colombianos, que tinham um milhão de euros na bagageira do carro”, diz António Coelho, 67 anos, sócio nº 56 e diretor-geral do clube. Coelho faz um pouco de tudo: desde abrir o portão do estádio até à supervisão das contas. Em 2014, o ex-funcionário da EDP aposentado assumiu a presidência quando o Ver estava em profunda crise, com uma dívida de 90 mil euros e prestes a fechar portas. Lembra-se de não ter assinado com um jogador para poupar 20 euros. O clube desceu de divisão nessa temporada, mas equilibrou o saldo bancário. “Se alguém que jogue sujo meter um pé cá dentro, eu meto os meus dois fora”, conclui, sublinhando estar satisfeito com a gestão da equipa de Dani Alves.

A aquisição de clubes por antigos jogadores internacionais abre portas aos atletas do plantel, o que já acontece no balneário do São João de Ver
A aquisição de clubes por antigos jogadores internacionais abre portas aos atletas do plantel, o que já acontece no balneário do São João de Ver

Inicialmente, correu o rumor de que o antigo craque do Barcelona e do PSG poderia terminar a carreira de jogador no clube do distrito de Aveiro, ou mesmo iniciar ali o percurso de treinador. “Possibilidades de jogar, não creio”, esclarece Alves ao Expresso. “De treinar pode ser uma possibilidade, porém prefiro a posição que ocupo neste momento. Creio que posso ajudar mais do que noutras posições.” Farias complementa: “Poderiam surgir incompatibilidades éticas se ele fosse simultaneamente treinador e proprietário do clube. Se estiver a correr mal, como é que ele se iria despedir a ele próprio?”

Mas o brasileiro já demonstrou saudades dos balneários. José António Santos, 33 anos, diretor desportivo e atual mentor da dinâmica tática da equipa, diz ter ficado arrepiado quando Dani Alves discursou perante o plantel do Ver: “Ele estava de lágrimas nos olhos e disse que gostava de ainda jogar. Via-se bem que lhe fazia falta aquele cheiro da relva e o ambiente de jogo”, recorda. “Falou com uma paixão e ilusão como se estivesse no balneário do Barcelona ou da seleção brasileira, e claro que para os nossos jogadores isso é muito motivante.”

A nova administração começou a gerir o clube no verão passado, mas teve pouco tempo para preparar a época. As coisas não começaram bem: com apenas duas vitórias em 18 partidas, o São João de Ver acabou a primeira fase em último e caiu para a série de manutenção. Uma descida para o Campeonato de Portugal poderia hipotecar gravemente o investimento no clube. Foi então que, em janeiro, Alves e Farias entregaram a José António Santos a responsabilidade de implementar os métodos pretendidos: “Jogar com a bola nos pés, em posse, porque aqui era muito ‘chutão’ para a frente e a gente tem um ‘time’ baixo, não dava. Mudámos o sistema de 3x5x2 para 4x3x3 e fomos buscar três jogadores para resolver lacunas que tínhamos”, explica Farias. Os resultados melhoraram. O Ver chegava à penúltima jornada, em Fafe, com a manutenção no horizonte.

Dani Alves, antigo internacional pelo Brasil, continua a ser um ídolo para os mais jovens
Dani Alves, antigo internacional pelo Brasil, continua a ser um ídolo para os mais jovens

Ócio ou negócio?

Questionado sobre as razões que o levaram a comprar um pequeno clube da Liga 3 portuguesa, Dani Alves coloca a realização pessoal em primeiro plano: “A ideia principal é a de implantar uma metodologia que gere oportunidades de transformar vidas e sonhos. Acho que isso é mais importante do que dinheiro, que também tem a sua importância, mas fica para segundo plano”, responde. Não obstante, como advoga Diogo Luís, “nenhum jogador investe apenas pela satisfação de se manter ligado ao futebol, o objetivo é gerar lucro”.

Na véspera da visita do Expresso a São João de Ver, o clube tinha recebido quatro futebolistas brasileiros de sub-19, destinados a treinar com a equipa de juniores para os preparar para uma a inclusão no plantel principal. “Portugal tem os melhores treinadores e consegue extrair mais dos nossos atletas vindos do Brasil. Nós temos o talento, e Portugal tem o desenvolvimento. Além disso, o idioma é o mesmo e o processo de adaptação ao futebol europeu é mais fácil aqui”, explica Peron Farias. Basta que um par desses atletas se destaque e seja vendido a bom preço, para que os investidores recebam um retorno significativo do seu investimento.

Na primeira temporada sob vigência de Mbappé viram o seu clube relegado para a 3ª divisão francesa. E protestaram: “O Caen não é o teu brinquedo”

A influência de Dani Alves abre-lhes oportunidades que, sem ele, seriam inacessíveis: três dos atletas dos juniores do Ver foram recentemente à Catalunha participar na MICFootball (Mediterranean International Cup), um dos torneios de futebol de formação mais prestigiados do mundo, onde participam formações do futebol espanhol, inglês ou francês. A eles juntaram-se seis atletas da Escola de Futebol D. João I, do Barreiro, com quem Alves e Farias mantêm uma parceria. “Eles estavam completamente deslumbrados com a experiência”, diz Farias, que tem a tarefa de detetar talentos não só em Portugal como na Ásia e em África, especialmente em Cabo Verde. “O Dani tem um grande apreço pelos atletas africanos porque essa é a raiz dele, e ele gosta de quem tem vontade de vencer na vida.”

O plano dos baianos passa por colocar o São João de Ver na 2ª liga num prazo de quatro anos. Isso poderá gerar enormes dividendos. “Muitos investidores apostam na Liga 3, sendo mais barato do que a 2ª e 1ª liga, com a intenção de fazer subir os clubes e depois virem a beneficiar com a centralização dos direitos televisivos, que teoricamente vai distribuir mais dinheiro pelos clubes mais pequenos”, explica Diogo Luís. Cada investimento de um jogador num clube corresponde a um plano para retirar sucesso desportivo e ganhos financeiros. E não têm faltado exemplos — aliás, começa a ser raro o grande craque que não tem uma participação num clube de futebol.

Cristiano Ronaldo anunciou no passado mês de fevereiro a compra por 25 milhões de euros de 25% das ações do UD Almeria, que está a lutar pela promoção à La Liga, através da sua empresa CR7 Sports Investments e à boleia dos acionistas sauditas que detêm a maioria do capital da sociedade. O impacto foi imediato: logo nas primeiras 24 horas após o anúncio, o emblema andaluz conseguiu mais 200 mil seguidores nas redes sociais, atingindo hoje os 3,3 milhões. Subir de divisão, reformar o estádio e construir uma cidade desportiva são as prioridades.

Em abril, foi a vez de Lionel Messi divulgar a aquisição da totalidade das ações do UE Cornellà, da quinta divisão espanhola, por dois milhões de euros. O argentino acrescentou os catalães à sua carteira de investimentos em clubes de futebol, que já incluía os seus conterrâneos do Leones de Rosario, o uruguaio Deportivo LSM e um contrato para ser coproprietário do Inter Miami (EUA), o clube onde joga, assim que pendurar as chuteiras. Em Espanha, já se fala de um futuro duelo entre CR7 e Messi, agora nas rédeas dos seus ainda modestos clubes. “Os salários dos grandes craques atuais são muito mais altos do que no passado. Antes, apostavam em pequenas empresas, apartamentos, era muito comum o ex-jogador que abria uma loja de desporto. CR não vai comprar uma loja de desporto. Almeja muito mais, até porque jogadores dessa craveira são hoje multinacionais”, analisa Gonzalo Cabeza, jornalista desportivo colaborador do diário espanhol “ABC”, especializado em assuntos de mercado. “Gostam que os seus investimentos sejam em coisas que entendam. Até podem ser aconselhados pelos seus consultores a investirem numa funerária, que é muito rentável e sem riscos, mas querem algo que também lhes dê estatuto, como um restaurante ou um clube de futebol. Querem rentabilizar, mas também desfrutar.”

Cabeza crê que o papel dos novos proprietários varia dependendo do peso da sua participação — “CR, com uma posição minoritária, está mais pelo negócio e não decide, enquanto Gerard Piqué, no FC Andorra, enquanto proprietário, toma decisões estratégicas”. O antigo defesa do Barcelona comprou o FC Andorra em finais de 2018, através da sua empresa Kosmos Holding, assumindo o pagamento de uma dívida a rondar os 200 mil euros.

No início, chegaram a sortear jantares com o ex-marido de Shakira para angariar sócios. O pequeno emblema dos Pirenéus alinhava então no 5º escalão do futebol espanhol, e tinha uma média de 100 espectadores no estádio. Hoje está na 10ª posição da 2ª liga e as partidas caseiras contam com 2500 espectadores. “Piqué [e a empresa andorrenha Clayton SL, sócia da Kosmos, com 46% das ações] trouxeram uma visão global e parâmetros de gestão e comunicação de primeiro nível, dotando o clube de um profissionalismo muito aliciante para o mercado”, diz Ferran Vilaseca, presidente do FC Andorra. “Contudo, o nosso maior êxito foi integrar o FC Andorra no tecido empresarial do principado. Conseguimos aglutinar as pequenas e médias empresas andorrenhas em redor de um projeto que sentem como seu. Para nós, isso é mais valioso do que qualquer patrocínio internacional, pois mostra que o país abraçou o clube.”

Os sócios já investiram 15 milhões de euros no FC Andorra, em partes proporcionais às suas quotas acio­nistas. “O balanço é claramente positivo”, diz Vilaseca, sublinhando que Piqué instituiu no clube a sede de vitória, mas com um estilo próprio, ofensivo, corajoso e de posse de bola. “O FC Andorra criou valor, crescimento e prestígio, tornando-se um ativo estratégico para o grupo. Estamos muito satisfeitos não apenas no plano desportivo como também em termos de marca, posicionamento e cultura de trabalho.”

Nem sempre, realça Gonzalo Cabeza, um clube de futebol consegue gerar lucro. “Os dados mostram-nos que o futebol é geralmente um mau negócio”, diz o jornalista. “Os investidores americanos que estão na Premier League surpreendem-se porque cada vez os clubes gastam mais e estão sempre a perder dinheiro. Claro que podes recuperar o investimento quando vendes o clube, mas esses negócios ainda não aconteceram. Não creio que seja esse o objetivo dos investidores.”

Tal não tem levado futebolistas a desistirem dos negócios; o francês Kylian Mbappé investiu quase 18 milhões de euros, em 2024, para comprar o SM Caen, da 2ª liga francesa, o brasileiro Vinicius Júnior adquiriu no ano passado uma pequena participação no FC Alverca, da 1ª liga portuguesa, o mesmo que fez o croata do AC Milan Luka Modric no Swansea City, da 2ª divisão inglesa, tornando-se sócio do rapper Snoop Dog. A lista de jogadores proprietários inclui ainda nomes como o de N’Golo Kanté (Royal Excelsior Virton, da Bélgica), Jamie Vardy (Rochester New York FC, dos EUA), Sadio Mane (Bourges Foot 18, de França), ou o espanhol ex-Sporting Héctor Bellerín, que se tornou o segundo maior acionista dos Forest Green Rovers, por partilhar com o clube inglês preocupações ecológicas.

Entre os ex-jogadores que abriram caminho para a tendência, destacam-se David Beckham (Inter Mia­mi), John Terry (Colchester United), Thierry Henry (Como) ou o marfinense Didier Drogba, caso único por ter comprado o clube onde atuava como jogador e onde terminou a carreira, o Phoenix Rising (EUA). “Acho que o grande pioneiro, pela visão que teve, foi o David Beckham”, comenta Diogo Luís. “Foi para os EUA numa altura em que o futebol precisava de ganhar dimensão, percebeu como se estabelecia um contrato e garantiu uma licença para ter o clube dele, atraindo depois investidores importantes para ajudar o Inter Miami a crescer. Neste momento, a licença dele já vale muito mais.”

O ex-futebolista do Benfica ressalva que os EUA privilegiam uma ótica comercial, emocionalmente mais despegada, encarando o desporto como veículo para atrair investimentos de acionistas e capitalizar as ações. “Na Europa, caminha-se nesse sentido, por isso os clubes querem melhorar e encher os estádios, embelezar o espetáculo, mas com outro propósito. A prioridade não é maximizar o retorno, mas o sucesso desportivo. São dois ângulos diferentes de olhar para a mesma questão.”

Gerir com os pés

A passagem de um ídolo dos relvados para a chefia não garante o êxito; que o digam os adeptos do Caen, que logo na primeira temporada sob vigência de Mbappé viram o seu clube relegado para a 3ª divisão francesa. Após o despedimento do popular treinador Nicolas Seube, em janeiro de 2025, mostraram faixas de protesto: “O Caen não é o teu brinquedo” e “Antes de brilhares no mundo, respeita os heróis locais”.

“Para se ser dirigente, é necessária uma formação específica, com ferramentas de controlo operacional e de negócio. Quando não tem essas competências, o futebolista tem de se juntar a pessoas dotadas dessas capacidades”, observa Tomás da Cunha, analista de futebol. Por vezes, denota, o atleta é aliciado por agentes ou empresários a alinhar em investimentos conjuntos, com a intenção de usar a sua boa imagem, dinheiro e mediatismo. “Por isso, precisam de aconselhamento e prudência, para não serem manipulados em negócios menos saudáveis e estragarem a boa imagem que têm no futebol.”

Uma das prioridades de Derlei é construir “dois relvados em condições” para o centro de treinos. Planeia trabalhar em parceria com a autarquia de Fafe

A passagem de Ronaldo “Fenómeno” Nazário pelo Real Valladolid, de Espanha, ficou marcada pela absoluta desilusão. O brasileiro — bicampeão do mundo pelo Brasil, figura lendária do Barcelona, Real Madrid e Inter de Milão — adquiriu 51% das ações do clube por 30 milhões de euros, em 2018, projetando a ambição de levar o emblema às competições europeias. “O Valladolid estava muito mal, chegou o Ronaldo e a equipa subiu de divisão. Toda a gente estava feliz. Depois, foi um desastre”, diz Gonzalo Cabeza. “O seu maior problema foi que nunca pareceu que o Valladolid lhe importasse. Não ia ao estádio, vivia em Madrid, aparecia em festas noutro lado do mundo à hora dos jogos. Mostrou pouco afeto. Os adeptos querem que o dono pense no clube tanto ou mais que eles. Não foi o caso.”

Depois de uma temporada desastrosa, que culminou com a descida para a segunda divisão, a fúria estalou nas bancadas do Estádio José Zorrilla: os adeptos atiraram ao ex-avançado notas falsas de 500 euros com a sua cara e a mensagem “vai-te embora, já”, a claque fez greve aos jogos e criou coreografias com raquetas gigantes para atacar o proprietário, que tinha estado a assistir a partidas de ténis em vez do jogo da equipa. Não lhe perdoaram a intenção de mudar de emblema, construir um novo estádio fora da cidade, aumentar o preço das quotas ou mimar os jogadores com telemóveis topo de gama e viagens a Ibiza. Em maio do ano passado, vendeu a sua participação a um fundo americano, por cerca de 50 milhões de euros.

“Uma coisa são clubes com pouca pressão mediá­tica, poucos adeptos, sem palmarés, com margem para trabalhar e criar identificação, como o FC Andorra ou o Inter Miami”, sublinha Tomás da Cunha. “Outra coisa é o Valladolid, numa grande liga e com muita representação, uma história, uma tradição, símbolos e cultura de bancada. A exigência é muito maior e há pouca margem de erro.”

A adaptação ao escritório

Derlei já tinha decidido que queria ser dirigente. Até estava a tirar um curso de treinador, mas apenas para melhorar as suas capacidades de gestão: “Quando me sentava com treinadores para conversar, muitas vezes achavam que só por ser atleta não estava habilitado a falar de táticas”, explica. Há cerca de três anos, Jorge Nuno Pinto da Costa, então presidente do FC Porto, comunicou-lhe que o agente de jogadores Ulisses Jorge tinha um projeto pronto para pegar no Fafe e que andava à procura de alguém para o liderar. O “Ninja” aceitou e começou a trabalhar no clube minhoto em 2024.

Entretanto, foi noticiado que o empresário brasileiro estava envolvido numa rede criminosa que tentava usar clubes portugueses da Liga 3 para a lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) — um dos principais cartéis brasileiros de narcotráfico. O empresário desmentiu, mas a FPF abriu uma investigação. Derlei chegou-se à frente antes de ver o seu nome arrastado no caso; comprou 60% das ações da SAD do Fafe (já tinha 15%), tornando-se acionista maioritário com 75%, e livrou o clube minhoto dos suspeitos. O ex-avançado do FC Porto, Sporting e Benfica não quis revelar o valor que pagou. “Não valia a pena mudar-me para aqui e trabalhar pelo valor salarial, era baixo”, explica. “Mas com uma participação já é diferente, estou a trabalhar para mim, embora com uma responsabilidade acrescida, até porque temos um nome, uma marca, um know-how, que não se pode deixar cair por motivos financeiros.”

Derlei rapidamente se apercebeu dos enormes desafios de gerir um clube do 3º escalão. O orçamento anual, diz, é de 800 mil euros. “Como proprietário, fica difícil, porque você está vendo o seu dinheiro a sair do bolso e tem tendência a interferir mais”, diz. “O que eu posso gastar é um valor pequeno, mas a comunidade pode trabalhar em conjunto com o clube para que as coisas aos poucos vão melhorando: o relvado, campo para treinar, balneários, iluminação. É trabalho de formiguinha.”

A temporada foi feita de altos e baixos — os fafenses atingiram a meia-final da Taça de Portugal, eliminando os primodivisionários Moreirense, Arouca e Sporting de Braga e perdendo o acesso ao Jamor somente nos derradeiros minutos da partida da 2ª mão contra o Torreense, mas pagaram no campeonato a fatura desse percurso surpreendente. “Com um orçamento baixo, temos um plantel reduzido e não temos equipa B. A seguir à vitória para a Taça contra o Braga, tivemos um jogo decisivo para o campeonato e os jogadores estavam exaustos. Foi assim que acabámos por cair na série de manutenção”, justifica Derlei.

Uma das suas primeiras prioridades é construir “dois relvados em condições” para o centro de treinos, para o qual planeia trabalhar em parceria com a autarquia. “É muito caro e tem de ir por fases, mas queremos que fique pronto o mais brevemente possível”, afirma.

Ao mesmo tempo, vê a promoção à 2ª Liga como obrigatória para permitir ao Fafe ter maiores ambições, pois poderá garantir o dinheiro contemplado na centralização de direitos televisivos e a atração de novos patrocinadores: “A Liga 3 ainda não é sustentável por causa disso. Os patrocínios são baixos e direitos televisivos não dá. Portanto, só dependemos da venda de ativos, ou seja, de atletas”, explica. Nas divisões secundárias, porém, as transferências não são milionárias; Derlei diz que, geralmente, o jogador tem primeiro de ser emprestado a uma formação da 1ª divisão, que depois, se gostar do atleta, pode desembolsar uma quantia baixa pela sua contratação. “Com sorte, o passe desse jogador pode ficar a valer uns 15 ou 20 milhões, e se ficares com uma percentagem boa desse passe, uma venda posterior de 20 milhões resolve-te logo alguns anos de orçamento”.

Para já, é difícil pensar em adquirir talentos da América do Sul ou de África. São demasiado caros. “Precisamos de colocar atletas da nossa formação e de clubes da região, que a gente sabe que podem dar dividendos. Há muita qualidade técnica aqui também”, afirma Derlei, que rejeita uma transformação radical do clube para um modelo unipessoal. “Não queremos tomar o clube de ninguém, não queremos fazer só do nosso jeito, estamos a ver o que a cidade tem para nos oferecer e o que nós podemos oferecer à cidade. É um casamento e não vamos a lado nenhum sem o apoio da comunidade.” Quem sabe, passo a passo, diz, o Fafe se possa tornar “num clube de excelência, como o Braga, que há 40 anos era pequeno e hoje tem dimensão europeia”.

Enquanto tal não acontece, o Fafe e o São João de Ver defrontam-se na série de manutenção. No fim, os ‘malapeiros’ fazem a festa: triunfam por 2-1 e ficam muito mais perto da permanência (objetivo alcançado na jornada seguinte, com uma vitória sobre a Sanjoanense). Derlei e Dani Alves têm mais confrontos marcados para a próxima temporada, na luta pela desejada subida à 2ª Liga, que os deixa mais próximos do patamar glorioso a que se habituaram como jogadores.

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