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O cérebro dos campeões do fim do mundo
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A passada década do futebol sueco fora dominada pelo Malmö, campeão seis vezes desde 2015, quatro delas nas cinco temporadas antes de 2025. Os restantes vencedores recentes — Häcken, Djurgårdens, AIK — são das três maiores áreas metropolitanas, Estocolmo, Gotemburgo e Malmö. O Norrköping, vencedor em 2015, desafiou esta predominância, mas, com 163 mil habitantes, é gigante ao lado de Hällevik. Para contrariar a lógica e levar a liga para o seu pequeno território, o Mjällby juntou Karl Marius Aksum, que orientava os sub-19 e passou a adjunto na equipa principal de Anders Torstensson, treinador a quem, em agosto de 2024, foi diagnosticada uma leucemia linfocítica crónica. Após o título, Torstensson passou a diretor técnico. O protagonismo é, agora, todo de Aksum, ainda que o próprio diga que o trabalho não mudou substancialmente: “Continua a ser o meu modelo de treino, o meu modelo de jogo.” A transformação O futebol do Mjällby era, até janeiro de 2024, baseado no contra-ataque, num estilo direto, de pouca posse, com uma grande aposta nas bolas paradas. Mas chegou o novo cérebro e “tudo mudou completamente”. Karl Marius Aksum quer ter controlo nas partidas. Para isso, acredita em criar nos treinos “o máximo de situações semelhantes” às que haverá nos jogos. Como tal, não preconiza a realização de exercícios em pequenas parcelas do campo ou com poucos futebolistas. Quase tudo é “11 contra 11, em jogo corrido e no relvado inteiro”, para “colocar os jogadores em problemas específicos 100 vezes por semana”, explica. O grande mantra do treinador é “repetir sem repetição”: “Se fazes um exercício em que A passa para B e este para C, isso é repetição e repetição. Se treinas ataque contra bloco baixo, 11 contra 11, e o fazes 10 vezes, isso é repetir sem repetição, porque cada repetição é diferente, eles têm de encontrar sempre uma solução distinta”, sublinha Aksum. Pleno de autoestima, o treinador diz que são precisos cerca de seis meses para o seu ideário dar resultados. Em 2024, o Mjällby somou quatro derrotas nas primeiras 11 jornadas. Mas o tempo deu razão à teoria: a equipa só perdeu um dos derradeiros 13 desafios, acabando no quinto lugar, a quatro pontos do segundo, um crescimento considerável para quem vinha de terminar duas vezes em nono e uma em décimo. Pegando no exemplo da equipa da moda da vizinha Noruega, Aksum realça a importância do “trabalho em continuidade”, uma virtude “evidente no Bodø/Glimt” e também existente no seu projeto. De 2024 para 2025, apenas dois dos 11 jogadores mais utilizados saíram. O plantel é predominantemente sueco, com nove dos titulares da campanha que levou ao título, ao passo que o toque exótico é dado pelo internacional paquistanês, nascido em Copenhaga, Abdullah Iqbal, e por Abdoulie Manneh, da Gâmbia. “Vitinha possui o nível mais elevado de scanning que já vi”, diz o técnico do Mjällby sobre o médio português Recorde de pontos. Apenas uma derrota em toda a liga. Uns enormes 13 pontos de vantagem para o segundo. Uma segunda metade de época arrasadora, com 14 vitórias e dois empates nas últimas 16 jornadas e somente dois golos encaixados na dezena definitiva de compromissos. O milagre que se vinha forjando surgiu em todo o esplendor em 2025. Foi aí que o Mjällby atingiu o “ponto ótimo” de interpretação do pensamento do seu ideólogo, que não acredita num futebol de “padrões”, mas sim de “princípios” — cerca de 300 —, que, depois de ensinados aos jogadores, os “levem a decidir por eles próprios”. Karl Marius Aksum desconfia do futuro idealizado por Luis Enrique, que antevê um futebol em que o treinador, sentado na bancada, vá dando instruções em tempo real e através de um qualquer intercomunicador: “Nós não vemos o que eles estão a ver. Pode-se tentar usar os futebolistas como se isto fosse um videojogo, mas isso é impossível e errado”, sustenta o sueco, de 36 anos. O mestre Vitinha Quem seguir o técnico nas redes sociais notará que tem uma frequente atividade, partilhando conceitos, ideias e pensamentos sobre equipas. O agora responsável máximo pelo Mjällby acredita numa “cultura de partilha”, que só não é mais profunda porque “não é correto para com o clube” contar demasiados segredos. “A maior parte das ideias são roubadas, eu adaptei-as e fi-las minhas”, revela. Parte dos conteúdos que Karl divulga está relacionado com o seu muito estudado scanning. O que é? O doutorado em perceção visual detalha: “Sucede sempre que um jogador não está a olhar para a bola, mas sim a mirar em redor para reunir informação, percebendo onde estão os colegas, os adversários, o espaço...” Da pesquisa académica que realizou, Xavi Hernández tinha “os números mais altos de sempre” de scanning, fazia-o mais frequentemente que qualquer outro jogador. Mas, atualmente, há um português acima do catalão. “Vitinha possui o nível mais elevado de scanning que já vi. Fá-lo melhor que Xavi, porque o jogo está mais rápido e ele olha em redor em movimento, em velocidade, conduz a bola e descobre espaços enquanto olha para todo o lado.” Talvez o Mjällby defronte o Paris Saint-Germain de Vitinha na próxima Liga dos Campeões. O seu objetivo para este verão é chegar à fase de liga de uma das três competições europeias. Teremos um novo Bodø? “Claro que é uma grande inspiração para nós, mas seria estúpido dizer que faremos algo semelhante, porque o que o Bodø está a fazer é inédito. Mas podemos sempre sonhar.” NÚMEROS 0 experiência no futebol sénior tinha Karl Marius Aksum até janeiro de 2024. Antes de chegar à equipa principal do Mjällby, nunca treinara a nível profissional 9 suecos no onze titular faziam parte da equipa mais utilizada na época que levou ao título — era predominantemente nacional 75 foi o número de pontos com que o Mjällby ganhou a liga sueca em 2025, um registo recorde-
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