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A horta em casa dentro de um caixote

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A horta em casa dentro de um caixote

 

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Às 7h00, Ana Piedade Marques, de 32 anos, já está a pé de olho nas couves. E nas alfaces, nas nabiças, nos brócolos, nas batatas, nos nabos, nas abóboras, nas cenouras, nos morangos... um sem-fim de legumes e fruta que se estendem por 4 hectares na localidade da Barra-Cheia, na Moita. No Verão é preciso saltar da cama uma hora mais cedo, não vá o calor estragar alguma coisa.

 

Ana recebe-nos de galochas verdes, camisola polar debaixo de um casaco impermeável com calças a condizer. Estava tanto frio que as alfaces apanhadas na véspera congelaram.

 

Depois de cumprimentar os cães, que interromperam os banhos de sol para nos cheirar de perto, entramos no enorme barracão onde três gerações de agricultores preparam os cabazes de legumes e fruta que serão vendidos directamente aos consumidores.

 

Prove A ideia dos cabazes é da Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal – ADREPES, para facilitar. Explica-nos José Diogo, técnico da associação, que o projecto Prove nasceu “da necessidade de ajudar os produtores desta região a escoar os seus produtos”, já que competir com as grandes superfícies é difícil. “Vimos que há muitas explorações agrícolas nesta zona, de grande qualidade e muito perto de grande cidades, que tinham dificuldade em comercializar os seus produtos”, continua José. Assim, através deste cabaz, cuja encomenda é feita pela internet (www.prove.com.pt), acabam-se os intermediários e a venda é feita pelo produtor directamente ao consumidor. Tudo com a ajuda das associações de desenvolvimento local.

 

O primeiro passo foi organizar os produtores em núcleos de três ou quatro. Neste momento existem 38 núcleos pelo país, o que dá 100 produtores a entregar 1300 cabazes semanais em 48 locais diferentes. A exploração de Ana Marques, sozinha, representa um único núcleo, dada a quantidade de produção. Das suas terras saem produtos hortícolas para a Moita, o Seixal e, desde esta semana, Lisboa.

 

Cada cabaz de Ana pesa 5 a 6 quilos e leva 14 artigos diferentes, entre produtos hortícolas para salada, sopa e fruta, e custa 10€. A entrega é feita uma vez por semana em cada zona, numa média de 120 encomendas semanais.

 

Em Lisboa, o levantamento dos cabazes é feito no Mercado de Santa Clara (Feira da Ladra), em Lisboa, às terças-feiras, das 17h30 às 19h30. Além de trazer o cabaz, que paga na altura, também pode conhecer a Ana e dar dois dedos de conversa.

 

Em Março começa a ser altura de incluir no cabaz os morangos que tornaram Ana conhecida. E podemos garantir, com conhecimento de causa, que nunca provou nada assim. Na altura da encomenda não vai poder dizer o que quer, mas pode indicar até cinco produtos que não quer. O resto é uma surpresa.

 

Apesar de só agora ter começado as entregas em Lisboa, Ana faz parte da rede Prove desde 2009. Para festejar os dois anos de cabazes convidou os clientes – 100 pessoas, entre filhos e caras-metades – para conhecerem a quinta e os terrenos de onde vêm os produtos.

 

Na quinta Entre risos, conversas, rabanetes, nabiças, alfaces enormes, couves coração, batatas e um sem-fim de coisas, a família vai compondo os caixotes de 5 a 6 quilos que irão fazer muitas famílias felizes (e algumas crianças contrariadas) e saudáveis.

 

A mãe de Ana, Ermelinda Piedade Marques, de 53 anos, é a mais efusiva. De bochechas coradas e boa disposição que chega para todos, vai despachando cabazes enquanto o marido, Manuel Marques, e o pai, avô de Ana, João Piedade, vão enchendo a carrinha com os caixotes de legumes. A anciã da família, a avó Ermelinda, de 73 anos, vai separando as batatas enquanto se ri para nós.

 

Ana Marques é quem coordena as operações. A família começou a trabalhar a terra no século xix e ela fez questão de seguir a tradição. A prática aprendeu-a em pequena, a ver os pais e os avós trabalharem a terra. A teoria ficou a sabê-la depois do curso na Escola Superior Agrária de Santarém. E são esses conhecimentos que partilha na visita guiada à estufa onde os legumes crescem protegidos do frio. Rodeados por verde em todas frentes, nem falta o canto dos passarinhos. Quer dos que estão em gaiolas, quer dos pintassilgos que debicam as couves, sem qualquer remorso, apesar dos esforços de Ana para os espantar. “Já experimentei de tudo. Até tinha uma máquina que fazia um barulho parecido com um tiro, mas ao fim de um dia já estavam habituados.” Todas as semanas são precisas 200 alfaces para pôr nos cabazes, o que exige muito planeamento das culturas, de papel e caneta em punho, para que não haja falta de stock.

 

Enquanto nos vai mostrando as culturas, onde não faltam os espinafres da Nova Zelândia ou as couves chinesas, Ana explica como crescem os grelos e quando se vê que estão bons para apanhar, ou como se desenvolvem os brócolos. As produções desta quinta são feitas segundo o sistema integrado, ou seja, um meio caminho entre o biológico e o tradicional. Significa que aqui os químicos não são usados indiscriminadamente.

 

Ana gosta de variar e de produzir coisas diferentes e não põe de parte a possibilidade de experimentar a agricultura biológica. Para já há um inimigo dissimulado que de noite ataca sem fazer barulho: minúsculos ratinhos do campo que fazem das raízes do aipo um manjar. Mas Ana não se zanga: “Também têm de comer.”

 

Projecto muito interessante, acho que é merecedor de um tópico.

 

Site: http://www.prove.com.pt/

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