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Após cinco séculos, obra de grande matemático português já pode ser lida por todos

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Francisco de Melo, matemático da geração anterior a Pedro Nunes, ainda não tinha a sua obra em latim traduzida para português. Primeiro de dois volumes vai ser lançado nesta quinta-feira.

 

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Em 1521, o rei D. Manuel I recebeu uma oferta incomum: um códice com iluminuras, figuras geométricas na parte lateral das folhas e textos matemáticos em latim sobre estudos de física de Euclides e Arquimedes, dois famosos matemáticos da Grécia Antiga. Francisco de Melo foi o autor deste códice — um documento escrito à mão, encadernado como um livro. O matemático português estava a estudar na Universidade de Paris graças ao rei e a oferta foi um agradecimento. Agora, passados quase cinco séculos, a obra de Francisco de Melo foi finalmente traduzida para português e pode ser lida por qualquer pessoa.

 

O códice esteve perdido durante séculos. Há uma única cópia conhecida em latim do trabalho de Francisco de Melo, que está na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa. Por isso, o texto era até agora inacessível à esmagadora maioria das pessoas, deixando Francisco de Melo afastado dos anais da história da ciência portuguesa.

 

Os historiadores de ciência Henrique Leitão e Bernardo Mota tinham iniciado a tradução da obra de Francisco de Melo a partir da cópia da BNP, em 2011. “A cópia na BNP tinha um tipo de tinta que acaba por corroer o papel. Há passagens onde é difícil ler o texto”, diz ao PÚBLICO Bernardo Mota, que, tal como Henrique Leitão, pertence ao Centro Interuniversitário de História da Ciência e da Tecnologia, em Lisboa.

 

Mas, em 2012, a BNP foi informada pela Biblioteca Estadual de Berlim da existência de outro exemplar do códice, que estava no Arquivo da Cidade de Stralsund, no Norte da Alemanha. Quando Henrique Leitão olhou para a nova cópia, verificou que estava perante o próprio códice que D. Manuel I recebeu. “Ficámos radiantes, porque finalmente tinha aparecido o original”, disse na altura o historiador ao PÚBLICO.

 

O códice facilitou o processo de tradução. E o seu lançamento é nesta quinta-feira, às 18h30, no auditório da BNP. “A partir de agora não se pode falar da história da ciência [portuguesa] do século XVI sem o nome de Francisco de Melo”, diz Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014. “É toda uma nova figura de primeiro plano.”

 

O livro agora editado com o título Obras Matemáticas de Francisco de Melo é o primeiro de dois volumes sobre os trabalhos do matemático do século XVI (editados em conjunto pelo Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa e a BNP). Nas mais de 500 páginas (o manuscrito original tem 122 folhas) do primeiro volume, que custa 25 euros, está o texto em latim e a tradução em português. O segundo volume, que talvez seja editado em 2016, vai ter uma explicação global da obra, referindo a sua importância, explicando quem é Francisco de Melo e dando o contexto histórico. Além disso, terá também um comentário explicativo sobre as passagens mais complicadas do texto ou o contributo científico de Francisco de Melo na discussão daqueles temas.

 

Grande em Paris

Nascido em 1490, Francisco de Melo tornou-se suficientemente conhecido como homem da ciência para ser citado no Auto da Feira de Gil Vicente. O matemático era filho de Manuel de Melo, o representante do rei D. João II em Olivença, estudou na Universidade de Lisboa e em 1514 foi enviado para a Universidade de Paris como bolseiro do rei. Voltou para Portugal passados dez anos e foi reitor da Universidade de Lisboa. Morreu em 1536.

 

A obra agora traduzida foi produzida em Paris e é composta por quatro textos: um sobre o olho e as propriedades da visão; outro sobre a óptica de Euclides; um comentário à catóptrica de Euclides (a ciência que estuda a reflexão dos raios luminosos em espelhos); e um estudo sobre hidrostática atribuído a Arquimedes, no qual se explica como é possível medir o peso de um sólido em água.

 

Na altura, o trabalho teve impacto. “Sabemos que Francisco de Melo era reputado em Paris e teve sempre fama de grande matemático”, diz Henrique Leitão. Paris era então um centro científico. “Lá, Francisco de Melo tinha acesso a muitos mais manuscritos científicos do que em Portugal. Há um núcleo de matemáticos interessantes em Paris com quem teve contacto.”

 

O texto sobre hidrostática ficou muito conhecido na altura e foi publicado em França em 1546, apesar de não estar atribuída a sua autoria. Arquimedes era um autor muito difícil. “Francisco de Melo é o primeiro autor do Renascimento a comentar um texto de Arquimedes”, diz Bernardo Mota, sublinhando a qualidade do matemático português.

 

Mas até agora, como os textos não tinham sido estudados, era impossível compreender qual o impacto dos comentários sobre os trabalhos de óptica e catóptrica de Euclides. A cópia da BNP está datada entre finais do século XVI e inícios do século XVII, mas não foi traduzida. E o códice oferecido ao rei tinha-se perdido entretanto.

 

http://www.publico.pt/ciencia/noticia/cinco-seculos-depois-a-obra-em-latim-de-grande-matematico-ja-pode-ser-lida-por-todos-1688871

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Este Henrique Leitão veio falar à minha escola quando traduziu o Sidereus Nuncius para português há uns anos. Bastante interessante até, foi pena que foi uma sessão muito curta.

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