Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Lebohang

Da Síria a Saigão, os Dallas Tornado deram a volta ao mundo

Publicações recomendadas

Da Síria a Saigão, os Dallas Tornado deram a volta ao mundo

 

A fascinante aventura de uma equipa texana que escapou por pouco a um atentado terrorista e viveu de perto a guerra do Vietname.

 

Digressões de pré-época são um dado adquirido para muitas equipas. Por exemplo, o Real Madrid, na sua condição de colosso do futebol mundial, andou pela Austrália, China, Alemanha e Noruega durante a preparação para a nova época. O Manchester United, por seu lado, terá de enfrentar na próxima temporada uma digressão pela China e por outros países asiáticos por pressão de dois dos seus principais patrocinadores. Não há aqui nenhum benefício desportivo óbvio para estas viagens longas, mas são parte integrante do futebol moderno, instrumentos para levar a modalidade (e o merchandising e as transmissões televisivas) ao maior número possível de consumidores.

 

Estas digressões não são só para os gigantes. E os Dallas Tornado, tanto agora, como nos anos 1960, eram tudo menos um gigante. Durante sete meses entre 1967 e 1968, a equipa do Texas viveu uma aventura bizarra e fascinante. Disputou 32 jogos em 26 países distribuídos por cinco continentes. Passou pelo Vietname, durante a guerra, esteve perto de ser vítima de um atentado terrorista na Grécia, fez jogos no Irão, Paquistão, Síria, enfrentou ambientes hostis anti-América, apesar de só ter um jogador nascido nos EUA. Tudo isto antes de ter feito um jogo oficial.

 

A primeira encarnação dos Tornado tinha durado pouco tempo. No início de 1967, uma equipa com esta designação tinha participado numa Liga chamada United Soccer Association (USA), mas era, na verdade, o Dundee United, da Escócia, com outro nome, uma equipa importada como muitas outras. Depois dessa experiência, os donos decidiram formar uma equipa de raiz e contrataram Bob Kap, um treinador de origem sérvia que tinha trabalhado com Ferenc Puskas, uma das maiores lendas do futebol húngaro. Como não era fácil encontrar futebolistas no Texas, Kap teve outra ideia. Iria recrutar jogadores na Europa. Mas teriam de passar por americanos.

 

Entre outras estratégias, Kap colocou anúncios em jornais a pedir jogadores amadores e talentosos e acabou por formar uma equipa com oito ingleses, cinco noruegueses, dois holandeses, dois suecos e um norte-americano. Bill Crosbie era um jovem de 19 anos condutor de autocarros em Liverpool quando respondeu ao anúncio de Bob Kap. Um mês depois do primeiro encontro, estava a ser convocado para uma volta ao mundo. “Perguntou-me quanto tempo de aviso prévio é que eu tinha de dar no meu emprego. Disse duas semanas, mas podia ser uma em caso de emergência. Se eu quisesse entrar na equipa, disse-me ele, teria de voar para o Sul de França na manhã seguinte”, recorda Crosbie, citado pelo jornal Guardian.

 

E assim foi. No dia seguinte, Crosbie viajou com destino a Nice. Os outros recrutas já tinham feito uma pequena digressão por Espanha e Marrocos e tinham assentado na Riviera francesa. Era final de Setembro. Uma semana depois, os Tornado já estavam em Istambul para defrontar o Fenerbahçe e o resultado foi prometedor, um empate (2-2) perante um dos “grandes” do futebol turco. O destino seguinte seria Chipre, com escala em Atenas. A comitiva dos Tornado foi ver a Acrópole e chegou ao aeroporto com meia-hora de atraso. Um atraso que lhes salvou a vida. O avião com destino a Nicósia que os devia ter transportado explodiu em pleno voo, alvo de um atentado terrorista, e caiu no mar Mediterrâneo, provocando a morte de 66 pessoas.

 

A digressão dos Tornado não parou. Ainda em Outubro, a equipa texana esteve em Chipre, no Líbano, Irão e Paquistão, dividindo o mês seguinte entre Índia, Sri Lanka e Myanmar. Em Novembro, chegou a Singapura e enfrentou enorme hostilidade dos locais. “A caminho do estádio, havia gente a gritar ‘Vão para casa Yankees!’. No estádio, as coisas não estavam muito melhores. Começaram a atirar pedras e outras coisas e tivemos de sair do campo sob escolta. Ficámos nos balneários durante duas horas à espera que a multidão se dispersasse”, recorda Crosbie. Por exigência da própria equipa, o jogo seguinte em Singapura foi cancelado.

 

Seguiu de Singapura para Jacarta, na Indonésia, e de Jacarta para Saigão, no Vietname, numa fase em que a guerra entre Norte e Sul se intensificava. Não aconteceu nada aos Tornado enquanto lá estiveram. Até podiam andar na rua, mas estavam avisados para não ficarem parados durante muito tempo porque se tornavam em alvos da guerrilha urbana em Saigão. Depois do Vietname, Hong Kong, Taiwan, Japão, Filipinas, Austrália, Nova Zelândia, Fiji, Taiti, Costa Rica e Honduras, onde realizaram o último jogo a 12 de Março. De seguida, de volta para o Texas e para a primeira época da North-American Soccer League (NASL).

 

A longa digressão formou, de facto, uma equipa, mas uma equipa cansada. Os Tornado foram a pior das 17 participantes, com duas vitórias e 26 derrotas em 28 jogos. Mas tinham muitas histórias para contar.

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante
Este tópico está impedido de receber novos posts.
Entre para seguir isso  

×
×
  • Criar Novo...