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Inácio, o treinador: “O Pedro Barbosa fez-me a cama no Sporting."

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A CASA ÀS COSTAS

 

Augusto Inácio não tem dúvidas de que é muito mais difícil ser treinador do que jogador. Aos 63 anos, e sem papas na lingua, conta como apanhou maus e bons balneários no seu percurso, revela como Bruno de Carvalho o convenceu a apoiá-lo e afirma que, se tivesse feito as pazes mais cedo com Jorge Jesus, se calhar ainda hoje estava no Sporting.

 

Quando arrumou as botas já sabia que queria ser treinador?

Já sabia o que queria, mas não sabia por onde começar. Queria pelo menos experimentar o que é isto de ser treinador. Tive oportunidade de ir para clubes da II Liga e esperei. Até que um dia à noite liga-me o Reinaldo Teles. “Queres vir ter com a gente que estou com o presidente? Queremos falar contigo. Vens aqui comer um pica no chão”. Fui ter com eles a um restaurante ao pé da Praça Velasquez. Estava o Pinto da Costa, o Reinaldo Teles e o dr. Vieira de Carvalho, presidente da Câmara da Maia. Perguntaram-me se queria petiscar, disse que não, mas que queria um whisky com duas pedras de gelo. E virei-me para o Reinaldo: “Dá-me aí um cigarro se faz favor”. O Pinto da Costa : “Whisky, cigarro?!”. “É, presidente, o senhor Pedroto dizia-me ‘um dia que fores treinador, se não beberes uns whiskies, se não fumares uns cigarros e não perderes umas noites nunca vais ser treinador’. Já estou a começar, com o whisky e o cigarro, depois as noites vamos ver”. Eles começaram todos a rir.

 

(...)

 

Foi muito diferente passar a treinar seniores?

Foi, foi. Para já, a maneira como falamos tem de ser diferente. Depois apanhamos de vez em quando aquelas cobras. Eu apanhei o Carlos Brito, que foi treinador; o Eusébio, que também foi treinador; o Joel, que foi guarda-redes... Além de ter de falar de outra forma, a exigência tem de ser diferente também. Temos de partir com um objetivo de época, de clube. O que é que queremos? É aí que às vezes os dirigentes se perdem. Começam por dizer que só não querem descer de divisão, mas se a equipa ganha cinco ou seis jogos seguidos, já querem a Europa; depois, se perde dois ou três jogos, és despedido porque a equipa está a perder. Por outro lado, 25 jogadores são 25 mundos diferentes. O jogador é muito egoísta, só pensa nele. Sempre aprendi que se não houver disciplina no balneário não há possibilidade de haver bons resultados. Tem que haver disciplina no balneário. E tem de partir de nós próprios. Quando havia um adjunto que chegava um bocadinho atrasado, eu multava esse adjunto. Uma vez multei-me a mim mesmo, no Zamalek, porque o meu alarme não tocou e cheguei cinco minutos atrasado à palestra. Falhei, não estou com desculpas, não interessa se levei a mãe ao hospital, como eles dizem sempre, ou se o filho adoeceu durante a noite. Se foi porque o despertador não tocou, assumo e pago. Antes de exigir aos outros exijo primeiro a mim mesmo. É o primeiro princípio.

 

É mais difícil ser treinador do que jogador?

De longe. É preciso ter sorte com as pessoas que estão à nossa volta, toda a gente, departamento médico, toda a estrutura. É importante que estejam com o mesmo espírito que tu. No Sporting, por exemplo, o médico que tive lá foi um traidor. O Dr. Fernando Ferreira foi um traidor. Escondia-me lesões dos jogadores, não me contava. Chamo a isso um traidor. Por isso é que digo que é preciso ter sorte com as pessoas que estão à nossa volta para que nos ajudem e para que as coisas andem e avancem. Quando tens dirigentes em que multas o jogador e o dirigente vai por trás e diz “se marcares um golo eu tiro-te a multa”... Apanha-se disso também. Mas as coisas são mais personalizadas agora, há SADs, aquilo já é negócio mesmo, há que saber gerir as coisas porque é um ativo que pode dar milhões.

 

(...)

 

Já sabia que ia para o Sporting?

Não, não. Eu comecei a época sem trabalhar. Eu só fui para o Sporting em setembro.

 

Quem é que o contatou?

Foi a primeira vez na minha carreira que não comecei uma temporada. Aquilo deu-me cabo da cabeça. Entretanto convidaram-me para fazer uns comentários para a Antena 1 e resolvi experimentar. Estava a fazer um FC Porto-E. Amadora, nas Antas, e recebi uma chamada do Dr. Agostinho Abade. Combinámos encontrar-nos no Meridian, no Porto, e foi ele que disse que o Roquette queria falar comigo, em Lisboa. No outro dia fui para uma vivenda no Restelo e estivemos a falar, mas curiosamente não era para ser bem treinador. Era para fazer a ligação entre o futebol e a administração e também fazer a parte de scouting, porque o Sporting tinha tido muitos barretes: os Kmets e aqueles argentinos todos que era cada barrete! Ou seja, fazer um gabinete de prospeção em que 90% fosse para dar certo.

 

(...)

 

Alguma vez lhe passou pela cabeça que ia ser campeão ao fim de 18 anos?

Há coisas... Isto não é premonição, mas eu disse uma coisa na estreia do Luís Duque quando entra a nova administração, no jogo Sporting-Campomaiorense, e depois, num almoço na Quinta da Marinha em que o Duque despediu o Carlos Janela na hora e disse que queria falar comigo… Não havia salas disponíveis, fomos para o meu quarto e ele disse que eu era o treinador do Sporting e só queria que levasse a equipa à Taça UEFA, que já era um grande campeonato que eu fazia. “Sim senhor, vamos conseguir isso e muito mais se Deus quiser”. Vamos para o jogo, o treinador do Campomaiorense era o Carlos Manuel, ao intervalo, se o Campomaiorense não estava a dar 3-0 ao Sporting, era porque estava a ser uma grande injustiça; o Sporting não jogou nada, zero, uma m*rda. E o Campomaiorense muito bem, grande jogo. Na 2ª parte, o Campomaiorense continua a falhar golos e a sete minutos do fim, a 25 metros da baliza, o Vidigal lembrou-se e rematou. Golo. O Sporting ganha 1-0. E é nesse dia que digo ao Duque: “Quem ganha um jogo destes com esta cagueira toda está sujeito a ser campeão”. Mais à frente o Duque diz-me: “Ó mister, 2º lugar é como se fossemos campeões". E eu respondi: “Quem pensa no 2º nunca chega a 1º”.

 

(...)

 

Mas acaba por não ficar no Sporting. Porquê?

É uma história muito grande.

 

Tente encurtá-la.

Tudo começa quando estou em Punta Cana a passar férias. E a minha filha ligou-me para lá a dizer que há grande problemas no Sporting com guerras entre Duques e Roquettes. E diz-me que estou no meio daquele fogo. “Estou no meio do fogo porquê? Estou aqui a apanhar solinho, fomos campeões, é uma guerra interna, deles, não é minha”. E ela: “Ó pai, mas olha que eles estão a falar muito no teu nome”. Fiz as férias até ao fim, não vim mais cedo. Mas claro que regressei preocupado. Curiosamente, fui a Lisboa antes de partir para o Porto, onde tinha casa e vivia a família. Estava eu na fila de embarque quando recebo uma chamada do Duque. O Carlos Freitas foi ter comigo ao aeroporto, não demorou nem 10 minutos. E não me quis dizer o que se passava. Quando estávamos a passar pelo “Magriço”, a dar a volta para entrarmos no estádio, ele ligou para o Duque. Quando nos aproximamos da porta 8A, era só povo. O Duque desceu e começou tudo: “Duque, Duque”. Saí eu do carro - parecia um chocolate, vinha moreninho, moreninho - e o pessoal todo: “Inácio, Inácio. Vocês não podem sair”. E eu a tentar perceber o que se passava, a tentar apanhar o ambiente.

 

E depois?

Fomos para a SAD, estavam os administradores todos na sala e o Duque disse-me: “Estamos em guerra com o Roquette porque queremos investir na equipa de futebol e ele não quer dar dinheiro e acho que se o Mister tomar uma posição ele vai dar o dinheiro”. Como quem diz, você diz que está com o Duque, entala o Roquette e ele ou vai embora ou dá a pasta. Olhei para eles todos e disse: “Há uma coisa que vos posso dizer, eu não posso dividir o Sporting. O Sporting é campeão e foram todos os sportinguistas, não foram os do Duque ou os do Roquette, foi o Sporting. Portanto vocês devem tentar entender-se até à última e só se não houver mais hipótese nenhuma é que eu dou a minha opinião, agora não”. O Duque não gostou. E depois foi quando se meteu o Pedro Barbosa e essas coisas todas... O Pedro Barbosa fez-me a cama. Eu sei que fez. Mais tarde é que soube. E pela forma como ele agiu juntamente com o Duque percebi, não posso estar a garantir, mas acho que à custa daquilo o Pedro Barbosa ganhou mais dois anos de contrato. Acho. É uma dedução apenas. O Pedro Barbosa fez tudo para a gente perder o jogo na Luz, quando foi o 3-0. Fez tudo. Fez tudo para vir para a rua e o (Jorge) Coroado mais tarde veio contar-me que ele fez tudo para vir para a rua. O Coroado estava a fugir dele, ele é que estava atrás do árbitro, já tinha um amarelo. Nós a perder 1-0 e em cima do Benfica para 1-1 e fiquei sem ele? Depois, no contra-ataque, o João Tomás, 2-0, 3-0. Depois do jogo, o Pedro Barbosa estava lá em cima no balneário e quando íamos entrar ele estava a bater as palmas e a dizer: “Malta, eu assumo”. Subi as escadas, fui direito a ele e chamei-lhe tudo. “Meu grande filho da p*ta mas tu assumes o quê? Vais dizer para os jornais que foste tu o culpado, o único culpado da derrota? És tu que vais dizer isso ou dizes isso aqui para inglês ver? És um capitão de m*rda, não vales uma m*rda”. O Duque ficou do lado dele. Pronto, está tudo feito. Depois há a história rocambolesca do é despedido, depois volta...já é outra história.

 

Ficou muito magoado?

Não, porque acho que no fundo, no fundo quem foi o maior camelo fui eu. Porque depois daquelas confusões todas e de não ter dado o meu voto às contratações de jogadores, quando vem o Bruno Caires, que não jogava há um ano no Celta de Vigo e vou ter com o Duque e digo-lhe que ele não está em condições de jogar no Sporting, ele responde-me: “Depois em dezembro faz a triagem e manda os que quiser embora”. Nessa altura devia ter vindo embora.

 

(...)

 

Seguem-se três épocas e meia no Vitória de Guimarães.

Guimarães...Eu vou dizer-lhe uma coisa, os sportinguistas podem não gostar disto, nem se calhar os jogadores da altura (...) mas foi o melhor grupo que treinei. Ficámos em 4º lugar, salvo erro. Naquela altura não dava para irmos às competições europeias. No outro ano a seguir o 5º lugar já deu. Jogávamos muito à bola. Era o Mourinho no Porto e éramos nós do V. Guimarães. Jogámos muito, muito à bola.

 

O que é que tinha de tão especial?

Aquilo encaixou tudo. O ambiente, o dia a dia, a tática. Eu não fazia a tática em relação ao adversário, eu fazia a minha tática. Quando saía de casa pensava “vou ter com os meus meninos”, todo contente. Eu chegava e só ouvia: “Vem aí o homem”. E ficavam todos em sentido. Mas a falar era uma descontração, ouvia todos, falávamos todos. Adorei, adorei. E depois Guimarães, aquilo é uma cidade...quando não corre bem...quando lá cheguei estavam a lutar para não descer de divisão e livrámo-nos na última jornada. O presidente era o Pimenta Machado. Quando cheguei disse para os meus adjuntos: “Em que grande Vietnam nós viemos meter”.

 

Porquê?

O grupo era uma grande m*rda, não queriam trabalhar e eu pensava: “Como é que nos safamos com este gabirus todos aqui?” Lá fomos, lá fomos, na última jornada salvamo-nos e, de 24 jogadores, 19 foram embora. Só ficaram cinco. Mas foi um trabalho que deu um gozo do caraças. No outro ano ficámos em 8º ou 9º e no ano a seguir é que ficámos no 4º lugar. Trabalho de base, que foi nosso, nosso. Foi muito bom.

 

Uma época no Belenenses.

Foi para tentar salvar e salvamos. Mas lá está a tal coisa que dizia há pouco, os dirigentes querem uma coisa e depois já querem outra e outra. E chegámos ao fim, tinha mais um ano de contrato, mas disse: “É melhor ficarmos por aqui porque ficamos todos bem na fotografia”. E disse ao Sequeira Nunes, vocês não desceram este ano de divisão mas da maneira que isto está... vocês ficam no sofá, não querem levantar a peidah do sofá e não é este ano mas nos próximos dois, três anos vão descer de divisão. Não desceram no outro ano por causa do caso Mateus, mas desceram no ano a seguir. Eu sabia para onde aquilo ia. Aquilo estava tão enraizado, tão enraizado que eu queria fazer mudanças e as próprias pessoas ofereciam resistência. Diziam que eu era bruto. Qual bruto? Eu tinha é que ser duro porque na boa não iam lá.

 

Depois do Belenenses começa a aventura fora de portas. Primeiro o Qatar. Como surge?

Veio um empresário líbio ter comigo com uma proposta, mas depois de eu lá estar tentaram que viesse outro treinador (risos). Porque aquilo é assim. Eles recebem a comissão logo à cabeça e não vão estar um ano à espera, então convém que esse treinador saia para vir outro para receber nova comissão (risos). Se levar dois, três, quatro treinadores, são duas, três, quatro comissões É uma maravilha não é (risos)? O próprio que mete é o primeiro a tirar. Sabe quem é que foi meu jogador lá?

 

Quem?

O Pep Guardiola. E o Dominguez também. Pep Guardiola, bom gajo, bom tipo, boa pessoa, era o segundo ano dele lá. No primeiro ano tinha levado a mulher, no segundo já estava sozinho. Perguntei-lhe se ele se dava bem ali, sozinho. E ele: “Ó mister, passo o dia a jogar golfe, isto é uma maravilha”. Só podíamos treinar à noite por causa das temperaturas muito elevadas. Ganhava cinco milhões por ano. Aquilo era uma maravilha (risos).

 

Onde é que viveu a situação mais caricata?

Isso foi no Vaslui. Eu e o Joaquim Milheiro, que é o coordenador das seleções jovens, mais as mulheres, fomos num dia de folga a Iasi, que é onde fica o aeroporto. Almoçamos, fomos às compras e quando viemos vi uma placa a dizer Vaslui. Parei o carro e disse mas eu não vim por aqui. Perguntei a numa loja se aquela estrada ia para Vaslui, disseram que sim. Bem andei uma hora e meia num caminho das cabras, o carro sempre aos balanços. Nem um carro da tropa conseguia passar ali. E nós aos balanços, até que lá chegamos e quando comentamos que tínhamos vindo por ali… “Foram por ali? Grandes heróis! Vocês mereciam uma medalha!”. É uma estrada inacreditável e senti medo, pavor mesmo, porque já estava a escurecer e só pensava “nós vamos ficar aqui”. Não se via nada, só de vez em quando aparecia uma casa. Nunca vi uma estrada daquelas. Ficámos amassados durante uma semana (risos).

 

E no Qatar?

Uma vez fomos jogar a Omã, tínhamos ganho 3-0 em casa, fomos lá fazer a 2ª mão. Quando chegámos ao estádio, o relvado estava todo careca, no balneário só havia cadeiras de plástico, mais nada. Ganhámos esse jogo por 2-1 e o golo deles foi marcado sem exagero com mais de 10 metros em fora de jogo. No final fui ter com o árbitro e disse-lhe que era inadmissível. E ele: “É para eles também ficaram contentes, marcaram um golo”. Ah é assim que isto funciona? (risos). Quando regressámos, passámos pelo aeroporto e apesar de lá não se poder beber álcool o cartão de estrangeiro dá para ir a umas lojas. Podemos comprar álcool, mas não podemos levar para lá. Eu vi aquelas garrafas de whisky e vodka… Cheguei-me ao pé do capitão e perguntei se não podíamos levar uma garrafinha. “Mister, não!”, e fazia-me o sinal do xadrez com as mãos como quem diz: vais preso. O que é que eu fiz? Comprei duas garrafas de whisky e meti nos equipamentos do Al Ahli. Estávamos todos a sair, eu ia a passar e o meu capitão estava a falar com o gajo que estava a controlar as bagagens e às tantas ele parou o tapete rolante onde estava o equipamento do clube. Começou a chamar o meu capitão e eu a dizer-lhe por gestos: “Duas garrafas de whisky”. Ele deitou as mãos à cabeça. E eu disse-lhe que as garrafas eram dele. E ele: “Não, não, não” (risos). E eu: “Fala com ele, fala com ele”, a apontar para o amigo dele. Ele lá disse qualquer coisa ao tipo que me atirou uns olhos… Mas fez sinal e mandou seguir. Aquilo passou. No outro dia era o meu capitão para mim: “Coach, not possible, two bottles of whisky, it's crazy!”. Eu disse-lhe: “Fizeste-me um favor. No próximo jogo vais jogar” (risos). Ele era capitão, jogava sempre não é? (risos).

 

E na Grécia?

O Ionokos… O que era aquilo? O pai do presidente foi o fundador do clube e pediu para ele com 27 anos e o irmão com 28, seguirem com o projeto dele. O mais velho era o homem das finanças, e o outro era o que geria aquilo tudo. Só que o negócio dele era importação de bebidas e ele não podia entrar na ilha de Corfu porque a mafia fazia-lhe a folha. Ele usava duas pistolas e tinha uns 50 seguranças à volta dele, mas era um gajo porreiro. Falou comigo para ir para lá. Chegámos a acordo. Entretanto a promessa é para contratarmos nove jogadores no mercado de janeiro. Fiz o primeiro jogo e nesse dia a federação retirou três pontos ao Ionikos porque ele tinha dado duas peras no árbitro - e no aeroporto (risos). Depois, disse-me que já não ia contratar nove jogadores, que tinha de resolver uma cena primeiro. Fomos ganhando, empatando, até que houve um jogo em casa e o sacana do fiscal de linha era um grande ladrão ao ponto dos adeptos saltarem para dentro do campo e apertarem-lhe o pescoço. Houve uma grande confusão, vi pistolas no ar, nos corredores das cabines. Eu pensei: “Isto é de gangsters mesmo”. E tiraram-nos mais dois pontos (risos). O homem chamou-me e disse-me: “Tu não mereces, és um grande profissional, não mereces isto. Eu não vou insistir mais porque vamos descer de divisão, não temos hipótese nenhuma, eles estão a perseguir-me e vão-nos ‘matar’. Como é que queres fazer as coisas?”. Eu disse-lhe: “Não te preocupes comigo, resolve as tuas coisas, pagas só até ao final do mês e não quero mais nada”. Ganhei um amigo para a vida. Ele disse-me: “Tu não conheces o grego, tu vais ficar para sempre no coração e vou ficar sempre em dívida para contigo. Um dia que precisares, fala comigo”. Nunca mais falei com ele. Quando abri a página no FB, quando estava no Sporting,em três dias cheguei às 5000 pessoas possíveis, e uma delas era o presidente do Ionikos. Ele percebeu que era eu e convidou-me para ir para a ilha dele, que me dava casa e podia ficar lá a viver sem pagar nada: "Tens barco, tens tudo (risos)". O grego não se esquece (risos).

 

A equipa de adjuntos é sempre a mesma?

Era. Andei muito tempo com um adjunto, mas é melhor não falar no caso.(...) Posso dizer que houve dois adjuntos que adorei muito, Vitor Bruno, atual adjunto do Sérgio Conceição, é um homem espetacular, honesto, sério e não lhe dou mais quatro, cinco anos para ser treinador principal. Tem capacidade para ser líder. E outro é o Joaquim Milheiro, que está nas seleções. E outro de que gosto muito, há muitos anos, é o Costeado, que está a treinar os guarda-redes no Gil Vicente.

 

Como se dá a ida para o Sporting?

Em 2011 recebo uma chamada do Bruno de Carvalho. Estava eu no Leixões. Disse-lhe que estava no norte e encontramo-nos a meio caminho.(...) Eu que não conhecia o Bruno de Carvalho de lado nenhum, digo-lhe: “Se você cumprir o que está aqui, eu vou apoiá- lo, mas vou-lhe dizer uma coisa, você é capaz de não ganhar as eleições, mas eu vou por convicções porque acho que é isso que o Sporting precisa”. Não discuti cargos, não discuti dinheiros, não discuti nada, só disse que o apoiava. Bom, vamos para as eleições... foram roubadas, eu sei que foram roubadas ...

 

Roubadas como?

Vamos lá a ver. Às cinco da manhã o Bruno de Carvalho é presidente e o Rogério Alves é o presidente da Assembleia Geral, que era da outra lista. Isto é uma coisa que faz confusão, como é que da mesma lista o Eduardo Barroso não ganha juntamente com o Bruno de Carvalho. Comecei a ver as movimentações lá em cima, no terceiro piso: Paulo Cristovão, chamadas para aqui e chamadas para acolá e na altura que era para ser apresentado o novo presidente, a apresentação do presidente é no palanque cá em baixo e o presidente da Assembleia Geral do Sporting, não me lembro agora do nome, estava a combinar para irem todos os candidatos e depois apresentava-se o vencedor. E o Godinho Lopes disse que não, que não entrava naquelas palhaçadas e então o presidente diz: “Mas vamos todos lá para baixo”. E o Godinho Lopes: “Não, não entro nisso”. “Mas você ganhou”. “Ganhei?!”. Ele tinha o feedback de que não tinha ganho. Mas já vou explicar porque é que tenho a certeza de que aquilo foi roubado. E então é quando diz: “Vamos lá abaixo ao palanque”. O Dias Ferreira diz: “Não, não, isto não era uma palhaçada? Então vá você sozinho”. É quando o Godinho quer lá ir e é insultado e nem chega a ir ao palanque. Na AG do Sporting, que se realizou agora, o Bruno trouxe o tema para o Rui Morgado, ao perguntar porque é que os votos foram queimados e o Rui Morgado disse que não foi ele, que foi o Paulo Pereira Cristóvão que mandou queimar. Se uma coisa é correta e é séria, é preciso mandar queimar os votos? Eles são a prova real de que aquilo está tudo OK, porque é que é preciso mandar queimar os votos antes do tempo? É para não haver provas. Só por isto já dá para perceber que aquilo foi uma tramóia. Vai ficar a dúvida para sempre, mas para mim foram roubados.

 

Como diretor-geral que funções tinha em concreto?

O diretor-geral de futebol tem, juntamente com o presidente e com o treinador, fazer os plantéis, organizar a época.

 

Mas Bruno de Carvalho muda-lhe as funções.

Porque o Jorge Jesus quando chegou disse que não queria que eu continuasse. Eu também não falava com ele há mais de vinte e tal anos, foi assim.

 

Chegou a fazer as pazes com o Jorge Jesus?

Proporcionou-se depois um almoço com o Jorge Jesus e eu sou uma pessoa que posso não falar com uma pessoa há mais de um ano, dez anos, mil anos mas depois a gente senta-se à conversa e a gente faz as pazes e esqueço-me de tudo. Fico amigo. Ou se faz as pazes ou não se fazem as pazes.

 

(...)

 

Como correu no Egipto?

Isso é um filme do caraças. Foi uma coisa impressionante (...). Mas para as pessoas terem uma noção, o Zamalek tem 40 milhões de fãs. Não são 40 mil, são 40 milhões. É um grande clube mas tem um presidente, o Mortada Mansour, que é uma espécie de ditador.(...) Mas para se ter uma ideia do que é Zamalek, em 18 meses tiveram 20 treinadores, em quatro meses trocaram três vezes de diretor desportivo, e três vezes de equipa médica…

 

Porquê?

Tinham que arranjar um culpado para alguma coisa e depois era assim: “Não pago salário àquele porque falhou um golo, não pago àquele porque faltou ao treino, mas deixa.o faltar porque quanto mais ele faltar melhor (risos)”. Eu só dizia: “Não acredito nisto, isto dá um filme”. Resumindo e concluíndo, nos jogos do campeonato, eu entrei a um sábado, no domingo fomos logo jogar e perdemos 2-0 e depois só perdemos no último jogo com o Al Ahli. E para eles ganhar ou perder o campeonato é ganhar ou perder com o Al Ahli. Só que o Al Ahli é mil vezes superior ao Zamalek, pela organização, pelos jogadores que tem, pela estrutura. Dá mil a zero. Mas de vez em quando há milagres e quando eles fazem milagres, desfazem o milagre logo na hora não se conseguem aguentar. E depois a coisa rebentou por causa do Chicabala.

 

Como assim?

Quando chego o Shikabala não jogava. Era o capitão da equipa, mas não joga e eu comecei a perceber porque é que ele não jogava. Então, o que era? O Shikabala é um Deus para os fãs e os estádios que levam 80, 90 mil pessoas, só tinham lá 800 pessoas, não chegava a 1.000 pessoas por causa de uns problemas há uns anos atrá em que morreu muita gente e o governo não queria que se repetisse e os estádios passaram a ter mais tropa do que espectadores. Então, comecei a pôr o Shikabala a jogar e, vou dizer uma coisa, este Shikabala que treinei no Zamalek.... se fosse aquele que esteve comigo no Zamalek dava um jeitão agora ao Sporting, como extremo. O homem ia à frente, vinha atrás defender, o homem atacava, defendia, um Shikabala completamente diferente e bastou só falar com ele duas coisas. Comecei a ver que ele claramente marcava a diferença, tecnicamente marcava a diferença. Diziam-me que só podia jogar meia hora, porque depois deixava de render. Houve muitos jogos quase a acabar que ele é que resolvia ou dava passes para golo. E eu : “É só meia hora, não é?”. Mas eles queriam que eu o tirasse de qualquer maneira da equipa.

 

Mas porquê?

Eu acho que por ciumeira. Porque cada vez que ele entrava para o aquecimento, as pessoas todas começavam “Shika, Shika, Shika”, ele ia agradecer aos adeptos. Ninguém gostava do presidente e o maior insulto que podes fazer a um egípcio é puxar do sapato e atirá-lo à pessoa. E houve uma altura que os adeptos puxaram do sapato e o presidente puxou do sapato e toda a gente puxou do sapato, se calhar não era para atirar, era só para ameaçar, mas toda a gente a mostrar os sapatos (risos). Quando eram os jogos internacionais, vamos imaginar, 15 mil pessoas, mil eram a favor do presidente e 14 mil era contra ele e então passavam o jogo todo em vez de apoiar o Zamalek, era tudo a insultar o presidente e a gritar pelo Chicabala. “Shika, Shika, Shika”. Por isso acho que havia ciumeira. Ele queria mandar o Shikabala embora, como eu não podia falar para a imprensa a não ser com ordens deles, ele foi dizer para a televisão que eu queria mandar oito jogadores embora. Eu nunca disse nada. Numa altura saiu na imprensa que o treinador dispensa Shikabala. As pessoas viam-me na rua, aquilo é uma cambada de malucos por futebol, e diziam me: “Coach Shikabala out, no. Stay, stay”. E comecei a perceber que o foco estava em mim e ele soltinho. Espera ai que eu já te digo, fui para uma conferência de imprensa de um torneio que íamos ter e é quando sai aquela cena toda.

 

Em que pega na lata de Pepsi e diz que aquilo é uma Pepsi e não uma Coca-cola?

Sim. A determinada altura explico que é o Amansour quem que quer mandar o Chicabala embora, não eu. Toda a gente à volta do presidente abana com a cabeça que sim, porque ninguém quer perder o emprego. E às tantas digo: “Eu não tenho medo de perder o emprego, isto para mim é uma Pepsi Cola e será sempre uma Pepsi Cola”. Ter esta afronta para um ditador daqueles é uma coisa impressionante, os adeptos, os fãs ficaram todos do meu lado: “Tu tiveste coragem, tu és o único que o enfrentaste”.

 

Mas depois fica retido não é?

Nós estamos em Alexandria, que é quase a três horas de carro, ele marca-me uma reunião no Cairo, para ter uma reunião com ele no clube. Eu tinha marcado treino para o outro dia, para as seis da tarde. Pegámos nas malas, chegámos lá eram umas duas e tal da manhã, o empregado diz que o presidente vem já...Quatro e tal da manhã, e vêm dizer que o presidente nos recebe no dia seguinte às duas da tarde. Era a lei do desgaste. Eu tinha de estar despachado às três para poder ir dar treino. Se não aparecesse ao treino podia levar com um processo disciplinar. Chega às duas e nada. Quando estamos perto das três da tarde digo ao meu pessoal: “ Vamos embora”. Aparecem uns seis, sete gajos a fazer barreira, comecei a dizer nomes em português que eles não entendem, a insultá-los. “O que é que tu queres pá? Cheiras mal”. E eles mandam-me com a peitaça, como quem diz: não sais daqui. Comecei a gritar alto para as pessoas ouvirem lá fora, o chefe de segurança viu, faz sinal aos gajos, eles dão uma abertura e eu saí. Só que quando vou para sair começam a fechar as portas e portões, uns atrás dos outros. Fico à torreira do sol e resolvi ligar para a embaixada, para a Drª Madalena Fischer. Ela liga para uns serviços e diz que estão uns portugueses a ser maltratados em Zalamalek e que é preciso ter cuidado. Ligaram para o Amansour e disseram-lhe para ter cuidado na forma como nos estavam a tratar. Um quarto de hora depois de eu ter feito a chamada, chegam duas funcionárias da embaixada. Contei tudo o que se tinha passado. Entretanto estou numa sala e entra o Amansour já muito simpático. Vamos para o gabinete dele, trocamos umas palavras mas lá chegamos a acordo. Eu percebi que ele não queria pagar os três meses que faltavam. Pagou só mês e meio. Ele chamou a televisão e diz: “Como vocês vêem nós damo-nos muito bem com os portugueses, a embaixada portuguesa está aqui, porque nos damos muito bem, temos aqui um grande homem, um grande treinador, uma grande pessoa” (risos). No fim daquilo tudo, ele vira-se para mim e diz: “Pepsi Cola ou Coca-Cola?”. Juro que é verdade, ele lembrou-se daquela cena. E eu em português: “É melhor não saberes” (risos). Depois falei em português, mas de certeza que alguém lhe deve ter traduzido, “Olha tu nem és Pepsi Cola, nem és Coca Cola, tu és um grande filho da p****” (risos).

 

(...)

 

Sei que lhe assaltaram a casa já era treinador. Levaram muita coisa?

Levaram os Stromps, os Dragões de Ouro, a medalha da final da Taça das Taças, a medalha da Liga dos Campeões, da Supertaça, camisolas, equipamentos. Nunca consegui reaver. Tenho o equipamento com o Nº20 com que joguei no mundial, tenho uma braçadeira do Beira-Mar de treinador quando fui campeão. De resto os grandes títulos...foi tudo.

 

http://tribunaexpresso.pt/a-casa-as-costas/2018-02-25-Inacio-o-treinador-O-Pedro-Barbosa-fez-me-a-cama-no-Sporting.-Fez-tudo-para-perdermos-por-3-0-na-Luz

 

Muito extensa. Para quem não tiver mais nada que fazer. Mas isto tudo dava um filme

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