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Morreu João Semedo, antigo coordenador do BE

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Morreu João Semedo, antigo coordenador do BE

 

Antigo dirigente do BE tinha 67 anos.

 

O antigo líder do Bloco de Esquerda João Semedo morreu esta terça-feira aos 67 anos, confirmou o partido. O médico, antigo deputado e ex-candidato à Câmara Municipal do Porto lutava há vários anos contra um cancro que fez com que perdesse a voz, reaprendendo a falar com a ajuda de uma prótese. “Durante uma doença grave, importa mais a personalidade do que o título ou a formação académica”, dizia numa entrevista ao PÚBLICO em 2016.

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Semedo destacou-se nos últimos anos pela defesa da despenalização da eutanásia. Em Fevereiro deste ano, por ocasião do debate no Parlamento em torno da morte medicamente assistida, apelou a uma discussão racional, “sem medos”. Considerava-a “um projecto democrático e humanista que não obriga ninguém, mas também não impede ninguém”, que tornaria a “democracia mais perfeita”. Depois de a proposta ter sido chumbada, Semedo disse que a sua aprovação “é uma questão de tempo: não foi agora, será na próxima legislatura”.

 

Público

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Nas últimas aparições em público já se notava que estava bastante fragilizado. RIP.

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As histórias desconhecidas de João Semedo

 

Médico, activista pela morte assistida, foi funcionário comunista, esteve preso em Caxias (e o pai salvou-o de maiores problemas ao deitar fora os "Avante!" escondidos no quarto)

 

Distribuíam os panfletos de apoio à Comissão Democrática Eleitoral (CDE) na Av. da República, junto à estação de comboios da Parede e a menos de 200 metros da esquadra da PSP. Também teriam tarjas com frases como esta, a verde: "O regime de Marcel [sic] vive à custa da emigração – abaixo a exportação de carne humana." Ou como esta: "CDE abaixo o fascismo a força do povo."

 

O resultado não podia ser outro: às 16h daquele sábado, 22 de Setembro de 1973, o grupo foi surpreendido pelos agentes da polícia. Houve quem fugisse e largasse o casaco, os óculos ou uma carteira preta com 2.320 escudos (hoje seriam 400 euros). Uma mulher deixou os tamancos para trás. Mas oito homens e duas mulheres foram apanhados. Entre eles estava João Semedo, estudante do 5.º ano de Medicina e que lá tinha chegado com outras três pessoas que, segundo disse mais tarde no interrogatório da PIDE, não conhecia. Tinha-lhes dado boleia no Citroën CS desde o Estádio Nacional, mas a sua missão era apenas a de condutor.

 

A caravana de carros (um primeiro relatório da PIDE dizia que seriam cerca de 100 homens e mulheres) já tinha espalhado parte dos 50 mil panfletos impressos numa gráfica da Buraca, em Paço de Arcos, Oeiras e Carcavelos, segundo um roteiro apontado a lápis de carvão e marcador roxo numa folha A4 apreendida pela PSP. Faltou-lhes passar por Cascais e Malveira da Serra. João Semedo disse à PIDE que não distribuíra nada, nem fazia parte do movimento CDE, mas "como democrata" dava a sua "adesão na generalidade" ao comunicado de duas páginas em que se lia: "Todas as liberdades se encontram esmagadas pela força da violência".

 

Foi assim que, aos 22 anos, João Semedo caiu no radar da PIDE. Como os outros nove detidos, foi enviado para a prisão de Caxias e mantido em isolamento contínuo.

 

No interrogatório que a PIDE lhe fez na prisão de Caxias, contou uma história que, sabendo-se hoje da actividade que tinha então, parece pouco credível. No dia anterior à sua detenção, relatou, tinha sido abordado por um colega que conhecia apenas de vista na salados alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa (FML). Perguntou-lhe se tinha automóvel. Semedo respondeu que tinha o do pai. E foi então que o desconhecido sugeriu que o acompanhasse numa caravana que iria distribuir comunicados da CDE de Lisboa, que se estava a candidatar às eleições à Assembleia Nacional em Outubro.

 

Segundo contou à PIDE, Semedo ainda lhe perguntou se "havia algum problema". O outro "garantiu-lhe que se tratava de uma actividade legal", lê-se no auto de perguntas que está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

 

E foi assim, a acreditar nesta descrição, que o (alegadamente) ingénuo João Semedo apareceu às 14h30 daquele sábado junto ao Estádio Nacional. Não foi o único: entre os carros apreendidos algumas horas mais tarde pela polícia, estava também o Honda 600 do actual vereador da CDU em Lisboa, Ruben de Carvalho (ao volante iria uma mulher) e o Renault R16 de José Manuel Tengarrinha (fundador do MDP/CDE).

 

O interrogatório de João Semedo, e também o dos outros nove detidos, contou com uma inovação: pela primeira vez, os advogados puderam assistir. A lei que o permitia tinha quase um ano, mas a PIDE podia impedi-lo e tê-lo-á feito até então. O seu advogado foi o agora jornalista José Carlos Vasconcelos.

 

O estudante de medicina tinha, então, dois anos de ligação ao PCP. Começara a interessar-se pela política em 1967, quando fez parte das brigadas de apoio às vítimas das cheias. organizadas pelo padre Vítor Feytor Pinto (seu professor de Religião e Moral no Liceu Camões). Esteve nas Portas de Benfica e, pela primeira vez, aos 16 anos, percebeu como se vivia em algumas zonas pobres de Lisboa.

 

Mas só em1971 foi recrutado pelo colega João Fróis para a célula do PCP na Faculdade de Medicina de Lisboa (FML).

 

Não foi isso, no entanto, que disse durante um dos dois interrogatórios da PIDE. No auto de perguntas, lê-se: "Não faz nem fez parte de qualquer organização clandestina ou subversiva nem actuou em obediência a qualquer directriz emanada desse tipo de organização."

 

A sua estratégia de negar a filiação partidária resultou: passados cinco dias foi libertado sob caução (10 mil escudos, 1.728 euros hoje). E três meses depois, a 2 de Janeiro de 1974, ele e todos os que haviam sido detidos na Parede e que também saíram sob caução, foram notificados de que deveriam "aguardar a produção de melhor prova" no processo em que eram arguidos.

 

A ligação ao PCP

 

O pai, engenheiro (a mãe, Maria Elisa, licenciou-se em Germânicas) que já então militava no PCP, também terá ajudado a este desfecho. Até à prisão de João, nunca tinham falado sobre a ligação de ambos ao partido nem sobre as suas actividades clandestinas.

 

Mas quando Armando Jaime soube que João tinha sido enviado para Caxias, foi ao quarto do filho tirar os vários exemplares de Avante! e documentos sobre a fundação da União dos Estudantes Comunistas (UEC) que adivinhava estarem por lá.

 

Só a partir daquele sábado, 22 de Setembro de 1973, é que João Semedo passou a ter o registo criminal manchado. Não é que fosse segredo a sua ligação à UEC, mas actuava com discrição. Paulo Fidalgo, médico e líder da Associação Política Renovação Comunista (que Semedo ajudou a fundar em 2003 com outros dissidentes comunistas como Edgar Correia e Carlos Brito), disse num perfil publicado pela SÁBADO em Agosto de 2012 e aqui quase publicado na íntegra que ele "era um esteio do movimento associativo" e "uma pessoa com autoridade política". Os dois fizeram parte da lista candidata à associação de estudantes da FML no ano lectivo 1973-74. Entre os 15 candidatos estava também Sita Valles, responsável da UEC que foi assassinada em Angola em 1977.

 

Terminado o curso (teve média de 14) e já no fim dos anos70, foi enviado pelo PCP para o Porto, para organizar a actividade dos intelectuais locais. "Foi uma decisão política. Houve o reconhecimento do partido da utilidade dele", explica Carlos Salgueiral, que o conheceu nessa altura. Ganhava o salário mínimo nacional, mas até 1991 nunca teve vontade de mudar de actividade.

 

"Era um quadro muito prestigiado pela sua capacidade, ponderação, bom relacionamento e feeling político", disse para esse mesmo perfil de 2012 Raimundo Narciso, expulso do partido em 1991, tal como José Luís Judas, Mário Lino e Barros Moura.

 

Na reunião do Comité Central, João Semedo votou contra a decisão de excluir esses militantes. "Admito que a partir daí o sector mais ortodoxo tenha passado a olhá-lo como um indivíduo não recomendável, mas nessa altura houve muitos votos contra, pelo que o clima acabava por não ser propício ao isolamento dessas pessoas, eram demasiadas", completou Carlos Brito.

 

Mesmo sem sanções, o desencanto fez com que Semedo deixasse de ser funcionário do PCP e optasse por retomar a carreira de médico, mantendo-se apenas como militante. Para se adaptar à prática clínica, de que se afastara por completo, esteve algumas semanas no Hospital Joaquim Urbano, no Porto. "Veio para cá ver doentes numa situação de voluntário. Assistia às consultas que dávamos e começou a ajudar no internamento", contou em 2012 à SÁBADO a médica infecciologista Ana Horta.

 

Em 1994 abriu, com outros 24 médicos e através da sociedade Clissano, a Clínica da Prelada, de que foi director clínico. Dava consultas de clínica geral e assumiu também o mesmo cargo na Associação Benéfica e Previdente, de que Carlos Salgueiral é director executivo. "Depositávamos total confiança na competência técnica dele, embora tivesse estado um período sem exercer", diz.

 

A 18 de Maio de 2000 foi nomeado por Manuela Arcanjo, então ministra da Saúde no Governo socialista de António Guterres, para presidente do Conselho de Administração do Hospital Joaquim Urbano. Entretanto regressou também à política.

 

Nesse ano, ainda ajudou a organizar o congresso do PCP no Pavilhão Atlântico. Mas este marcaria em definitivo o seu afastamento do partido. Percebeu que as mudanças que desejava eram impossíveis no partido. Carlos Luís Figueira, que foi expulso com Carlos Brito e Edgar Correia, explica as ideias que os levaram então a formar os Renovadores Comunistas: queriam"acabar com um partido tipo exército e que qualquer tipo de escolha que envolvesse pessoas fosse secreto".

 

Em 2004, o amigo Miguel Portas convidou-o para as listas ao Parlamento Europeu; no ano seguinte, em resultado de um acordo entre os Renovadores e o BE, foi o número um dos bloquistas à câmara de Gondomar e ficou na lista do partido às legislativas. Não foi eleito, mas em Março de 2006 substituiu João Teixeira Lopes no Parlamento nacional.

 

Nesse dia, contou à comunicação social que cumprimentou vários antigos camaradas (o deputado comunista Honório Novo é um dos seus amigos). Carlos Salgueiral tinha, já em 2012, uma explicação para isso: "Ele é uma pessoa muito extrovertida. Tem algumas reservas, não andou por aí a desbaratar, não saiu em guerra aberta" como PCP.

 

Foi convidado por Francisco Louçã e Luís Fazenda para entrar no Bloco em Abril de 2007. Pensou no assunto cerca de uma semana antes de assinar a ficha de inscrição. Decidiu-se porque "o Bloco é um contraponto na esquerda a partidos de pensamento único", disse ao semanário Sol – uma crítica clara para o PCP. Carlos Luís Figueira contou, por exemplo, o espanto com que lhe relatou uma das primeiras intervenções como deputado: "Produziu o texto sem visto prévio da direcção do Bloco. Viu isto com surpresa."

 

No partido, dizia para o perfil de 2012 a eurodeputada do BE Marisa Matias, foi sempre "uma pessoa muito dialogante e interventiva". Daniel Oliveira acrescentava, então, que era "provavelmente uma das pessoas com mais experiência política no Bloco" e tem "grande perspicácia política". O comentador, que era assessor de imprensa do partido quando Semedo chegou a deputado, dizia, então, que este "é um bom negociador, procura construir consensos" para aprovar as suas medidas, que se têm focado sobretudo na área da saúde. Mas o conhecimento do público chegou com as comissões de inquérito ao negócio da comprada TVI pela PT (de que foi relator) e ao BPN (onde Nuno Melo, do CDS-PP, percebeu que Semedo "ia além do trabalho político da comissão, estudava os assuntos e conseguia informações novas").

 

Foi nessa comissão do BPN, em 2009, que adquiriu um método de trabalho: começou por uma folha branca A4 onde apontava as dúvidas que tinha sobre o caso; depois ia acrescentando mais folhas, criando um roteiro, onde a vermelho assinalava o que já sabia e com triângulos os pontos onde ainda tinha dúvidas. Era uma espécie de puzzle como aqueles que gostava de fazer quando, sem estas responsabilidades políticas, tinha mais tempo.

 

Nos últimos anos, e mesmo depois de lhe ser diagnosticado um cancro nas cordas vocais, continuou a defender o Serviço Nacional de Saúde. Preparou com António Aunaut, também recentemente falecido, uma nova Lei de Bases da Saúde. E encabeçava, agora, o Movimento pela Morte Assistida, uma causa em que esteve sempre muito empenhado, colaborando com José Manuel Pureza na redacção da proposta de Lei do Bloco sobre a matéria (chumbou no parlamento no mês passado, mas Semedo garantia que passará na próxima legislatura).

 

Morreu na manhã desta terça-feira, 17 de Julho. Tinha 67 anos.

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Uma palavra de grande apreço pela figura do João Semedo, um político que apreciava e alguém que, com toda a certeza, fará muita falta ao Bloco. O partido vai ficando cada vez mais órfão das suas principais referências políticas.

 

Que descanse em paz.

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Sempre simpatizei com a sua figura e com a sua maneira de estar na política, mesmo que não concordasse sempre com o que ele diz.

Que descanse em paz.

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