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Como foi o primeiro FC Porto-Benfica

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Como foi o primeiro FC Porto-Benfica

Foi em 1912. O balneário do Campo da Rainha, com chuveiros e tapetes para os pés, impressionou os jogadores do Benfica, que nem campo tinham. Venderam-se mil bilhetes, que permitiram aos portistas pagar as viagens de comboio dos adversários e ainda ter lucro.

"O jogo da manhã foi bastante prejudicado pelo vento forte, que carregou com intensidade sobre a baliza do FC Porto, o que levou a que fizesse grandes defesas o seu keeper, o senhor Valença, a alma do seu team". É assim que começa a crónica do jornal Primeiro de Janeiro sobre o primeiro FC Porto-Benfica da história, realizado num domingo, dia 28 de abril de 1912.

O Benfica venceu o jogo, de segundas categorias, por 2-1. Não há referência aos marcadores dos golos ou à constituição das equipas – não era costume. O Primeiro de Janeiro nota, no entanto, que o golo do FC Porto foi marcado de penálti e o empate "foi primoroso", conseguido "com uma boa avançada da ponta direita". E destaca ainda que "o match foi arbitrado com muita correcção pelo senhor Artur Pereira, jogador do primeiro grupo de Lisboa".

À tarde, e "perante uma grande assistência", disputou-se o jogo entre as equipas principais, que o Benfica venceu por 8-2. O FC Porto até começou a ganhar, num golo "marcado de forma maviosa [harmoniosa] pelo senhor Camilo Moniz", mas ao intervalo já perdia por 3-1. O jornal O Comércio do Porto elogiou o bom começo dos azuis e brancos: "Jogaram com  toda a perícia, e foi tão brilhante a sua forma de actuar que deu a impressão que o Benfica, sendo o campeão do Sul, não levaria a melhor". Há ainda uma referência ao árbitro, o inglês Stanley Hart, devido a um lance caricato: "Um jogador do Benfica meteu a bola na sua baliza e sofreu pontapé de canto" – o que leva a suspeitar que a rede poderia estar furada.  

Para O Comércio do Porto, o problema para os portistas foi a segunda parte: "É-nos sempre desagradável dizer alguma coisa desfavorável, seja contra quem for", refere a crónica. "Mas a verdade é que os jogadores pareceram aborrecidos pela tarde agreste e mais pareceram desviar a bola de ao pé de si, como se não quisessem incomodar-se".

Numa apreciação mais individual aos jogadores do FC Porto, refere-se que Ivo Lemos esteve bem, "mas do seu jogo nada se aproveitou, porque não fez passagens". E há ainda críticas aos dois defesas, Luiz Barreto e Victorino Pinto. "A má colocação dos backs, em especial o esquerdo, que foi a porta aberta do seu team, explica em parte a derrota por tão grande número de golos".

As duas equipas do Benfica (num total de 25 elementos) viajaram para o Porto no sábado, véspera do jogo, saindo do Rossio no comboio rápido das 18h10 e chegando a Campanhã às 23h57. "Foram recebidos de forma entusiástica pelos sócios do FC Porto", contou o Jornal de Notícias na edição de 28 de Abril. E mais: "Vinham acompanhados por grande número de sócios do Benfica e de outros clubes de Lisboa. De Coimbra, de Aveiro e de outras terras da província vieram bastantes amadores de football, que aproveitaram a ocasião que poucas vezes se lhes oferecerá para ver o Benfica".

O jogo foi disputado no Campo da Rainha, na zona onde hoje fica a Rua Antero de Quental. Foi aí que surgiu o primeiro campo relvado de Portugal, mas na altura em que FC Porto e Benfica lá jogaram o terreno, devido às fortes chuvadas dos dias anteriores, parecia mais um lamaçal, notando-se a relva apenas nalgumas zonas, em especial junto às linhas laterais.

O campo começou a ser usado para os jogos do FC Porto em 1906, nuns terrenos da  Companhia Hortícola do Porto. Quando os viveiros de plantas saíram dali, em 1909, o clube arrendou o terreno por 120 escudos anuais e fez grandes obras. Criou um complexo desportivo onde se praticavam, além de jogos de futebol, ténis, críquete, atletismo, ciclismo, patinagem artística, lutas de tracção à corda e até gincanas de burro.

O Campo da Rainha tinha "vestiários amplos e arejados", como descreveu Rodrigues Teles na sua História do FC Porto, de 1926. "Estavam equipados com todos os artigos necessários a uma boa toilette, tinham cruzetas para pendurar a roupa e até um banquinho e tapete para os pés. A seguir a estes vestiários havia um balneário com três chuveiros e dois grandes lavatórios em pedra mármore. Do lado de fora havia uma varanda em cimento armado e ao lado um bufete, estilo bar, com balcão e diversas mesas e cadeiras e sempre razoavelmente sortido". Condições que deixaram "muito agradados" os jogadores do Benfica, que em Lisboa nem tinham campo próprio – usavam o do CIF, nas Laranjeiras, ou o do Império, em Sete-Rios.

Na zona central do Campo da Rainha ficava a tribuna de honra, para convidados ilustres, e no lado oposto uma bancada com capacidade para 500 a 600 pessoas, que estava cheia quando se realizou o FC Porto-Benfica. O jornal Sports revela que entre a assistência "via-se grande número de senhoras, que davam ao recinto um aspecto alegre e festivo".

Os jornais da época referiam-se ao jogo como sendo uma partida entre os campeões do Norte e do Sul, mas a verdade é que no Norte não havia qualquer campeonato – nem sequer regional. Ainda assim, em março de 1912 o FC Porto tinha batido o Boavista (3-1), arrecadando a taça José Monteiro da Costa – uma homenagem ao presidente, que tinha morrido um ano antes. O troféu incluiria a partir de 1913 a Académica de Coimbra, passando a chamar-se Campeonato do Norte. O primeiro campeonato da Associação de Futebol do Porto só surgiria em 1914, com FC Porto, Boavista e Leixões.

Já o Benfica, tinha conquistado em 1912 o campeonato de Lisboa pela segunda vez (a primeira fora em 1910). A prova, que começara em 1907, fora ganha nas três primeiras edições pelos ingleses do Carcavelos, considerados "os mestres do futebol". Em 1912, o Benfica triunfou nos seis jogos do campeonato de Lisboa (contra CIF, Sporting e Império), e ainda nos jogos particulares (incluindo uma goleada por 6-1 aos franceses do Médoc, a 11 de abril de 1912). A única derrota do Benfica nessa época tinha acontecido em dezembro de 1911, ao perder 2-0 com o CIF na inauguração do Campo das Laranjeiras, na zona do atual Jardim Zoológico de Lisboa.

No dia do jogo, os jornais de Lisboa e Porto não fizeram qualquer referência na primeira página. E o único a trazer uma foto foi o Jornal de Notícias. A imagem, com a equipa do Benfica, vinha na página 3 e tinha a seguinte legenda: "Os campeões de Lisboa". O Jornal de Notícias também tinha a constituição das equipas.

Num sistema de 2-3-5, habitual na época, o FC Porto alinhou assim: goalkeeper (guarda-redes): Manoel Valença; backs (defesas): Luiz Barreto e Victorino Pinto; halves (médios): Mário Maçãs, Charlles Allwood e Camilo Figueiredo; forwards (avançados): Camilo Moniz, Hermann Webber, Douglas Grant, João Cal e Ivo Lemos. O Benfica, também em 2-3-5, tinha esta formação: Augusto Paiva Simões; Henrique Costa e Francisco Belas; Carlos Homem de Figueiredo, Cosme Damião e Artur José Pereira; Germano de Vasconcelos, Francisco Pereira, Luiz Vieira, José Fernandes e Virgílio Paula.

O FC Porto teve três baixas de última hora: falhou o habitual guarda-redes, Peter Janson, substituído por Valença, que jogara de manhã, e ainda Harrison e Magalhães Bastos – este último por estar a estudar Direito em Coimbra. Depois da derrota do FC Porto por 8-2, o JN, que dera bastante atenção ao jogo nos dias anteriores, nunca mais falou do assunto, nem sequer para dar o resultado. A primeira notícia sobre desporto só surgiria no jornal a 7 de maio de 1912, para dar conta de um jogo entre as equipas da Universidade do Porto e do Instituto Industrial.

 

No Benfica, a principal figura era Cosme Damião, que era jogador, capitão de equipa e treinador. Além de presidente, cargo que passara a ocupar em outubro de 1910. E avançou com decisões inovadoras: instalou a sede do clube na Baixa de Lisboa (no Rossio) e delegações em Belém e Benfica (para assim melhor responder aos adeptos dispersos pela cidade). Foi ainda determinante para que se realizassem jogos com equipas de fora de Lisboa. O primeiro desafio internacional do Benfica aconteceu em maio de 1911, com os franceses do Stade Bordelais. Seguiram-se, em abril de 1912, a ida ao Porto, e em Junho a primeira viagem ao estrangeiro, para defrontar o Real Clube da Corunha. Em outubro de 1912, o Marítimo viria jogar pela primeira vez ao continente: a equipa madeirense deslocou-se a Lisboa no vapor Hildebrand, numa viagem patrocinada por Cosme Damião, impressionado pelos relatos de invencibilidade que ouvia dos marinheiros e passageiros da carreira do Funchal.

Não se sabe ao certo quantos bilhetes foram vendidos para o primeiro FC Porto-Benfica, mas terão sido perto de mil. As contas são fáceis de fazer: as entradas para os dois jogos, das primeiras e segundas categorias, custavam 32 cêntimos, enquanto para ver um só jogo se pagavam 22 cêntimos. Sabe-se que o FC Porto pagou as despesas de transporte das duas equipas do Benfica, que ficaram em 184 escudos e 80 cêntimos, já depois do desconto feito pela CP. Os jornais revelaram que "a receita do jogo deu para suportar as despesas do convite e ainda sobrou dinheiro", por isso percebe-se que teriam de ter estado nos dois jogos mais de 900 pessoas. Quanto às despesas de alojamento e alimentação, não se sabe quem as pagou. Mas muitas vezes tinham de ser os próprios jogadores a contribuir, pondo dinheiro do seu bolso.

O FC Porto-Benfica foi apenas o terceiro jogo com bilhetes pagos realizado na cidade do Porto. A tendência começou em Lisboa, a 22 de outubro de 1911, num Sporting-Benfica onde as entradas custavam 12 cêntimos. A cobrança de bilhetes começou a ser feita para permitir o pagamento das despesas de deslocação das equipas, sobretudo as estrangeiras. O FC Porto inaugurou a moda em março de 1912, quando recebeu e venceu os espanhóis do Real Vigo (4-1), num jogo que permitiu uma receita de 145 escudos e 44 cêntimos.

Em outubro de 1912, o FC Porto deslocou-se pela primeira vez a Lisboa, para defrontar o Benfica e o CIF. O jogo com o Benfica, ganho pela equipa de Lisboa por 5-1, realizou-se no dia 5 de outubro e devido às festividades da implantação da República a assistência no Campo das Laranjeiras não foi a melhor. Venderam-se 773 bilhetes, numa receita de 112 escudos e 76 cêntimos. No dia seguinte, no jogo com o CIF, que assinalou a primeira vitória portista na capital (3-2), a receita foi de apenas 83 escudos e 12 cêntimos.

Feitas as contas, e já depois de pagas todas as despesas – entre elas 162 escudos do transporte da equipa do FC Porto, 3 escudos de policiamento, 1 escudo para o cobrador de bilhetes e 60 cêntimos a cada um dos três porteiros – apurou-se que havia um défice de 21 escudos e 47 cêntimos. O prejuízo teve de ser suportado pelo Benfica e pelo CIF.

O Benfica esteve oito anos sem perder com o FC Porto. A primeira vitória dos portistas aconteceu apenas em 1920, após ter sofrido nove derrotas nos primeiros nove jogos. A 4 de abril, em Sete-Rios, Alexandre Cal (dois golos) e Joaquim Reis deram a vitória aos portistas, que ainda falharam dois penáltis.

Entre 1912 e 1920, o Benfica marcou 50 golos ao FC Porto e sofreu apenas oito. A maior goleada foi em 1917, no campo da Constituição. Na véspera, o FC Porto tinha tentado ter na equipa os melhores jogadores de Boavista e Académico do Porto, mas isso não foi possível e acabou por ter de jogar com as segundas categorias, que foram facilmente derrotadas (9-0) pelo Benfica.

O primeiro jogo oficial entre as duas equipas aconteceu a 28 de junho de 1931. Disputou-se em Coimbra, na final do Campeonato de Portugal (competição que mais tarde iria dar origem à Taça de Portugal). O Benfica ganhou 3-0, com dois golos de Vítor Silva e um de Dinis.

A primeira vez que as duas equipas se defrontaram nos respectivos campos em jogos oficiais foi em junho de 1932, nas meias-finais do Campeonato de Portugal. O FC Porto ganhou nas Amoreiras (2-1) e na Constituição (3-0).

Em jogos oficiais, a maior goleada imposta pelo FC Porto ao Benfica aconteceu a 28 de maio de 1933: 8-0 nos quartos de final do Campeonato de Portugal. Após o jogo, apitado pelo árbitro espanhol Pedro Escartin, houve troca de insultos e o jogador Ralph Bailão, do Benfica, agrediu o delegado do FC Porto, Laurindo Grijó. Na sequência dos incidentes, Bailão foi irradiado do futebol e o também benfiquista Eugénio Salvador (que mais tarde fez carreira como actor), apanhou 30 dias de suspensão.

A maior goleada do Benfica sobre o FC Porto foi um 12-2 na 5ª jornada do campeonato nacional de 1942/43, em que Julinho marcou quatro golos e Valadas três. Do lado do FC Porto, a equipa tinha ficado sem o guarda-redes húngaro Andrasik, devido a lesão, e pôs no seu lugar Luís Mota, que teve uma péssima actuação. No jogo seguinte, e após nova derrota (6-2, com o Unidos de Lisboa), Luís Mota foi despedido.

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O Porto levava uns bons amassos do Benfica, ainda hoje vi uma estatística na Sport TV que indicava que o Porto venceu mais clássicos (casa e fora) mas marcou menos 50 golos.

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