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“Falta uma referência para que outras raparigas acreditem e pensem ‘se ela chegou lá, também consigo'”: a luta do ténis feminino português

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“Falta uma referência para que outras raparigas acreditem e pensem ‘se ela chegou lá, também consigo'”: a luta do ténis feminino português

Com resultados historicamente inferiores ao masculino, a diferença agravou-se nos últimos anos, muito devido às retiradas precoces de Michelle Brito e Maria João Koehler. A Tribuna Expresso falou com Neuza Silva, capitão da seleção nacional, Rui Machado, diretor técnico da federação, Francisca e Matilde Jorge, irmãs que são as duas mais cotadas jogadoras portuguesas, e Angelina Voloshchuk, promessa de 16 anos, para radiografar o momento do ténis feminino

O Centralito tem um ar a casa espiritual do ténis português. Entre as colunas que lembram arquitetura romana e o pó de tijolo já pisado por quantidades incalculáveis de seres humanos de raquetes na mão, guardado pelas árvores da mata e embelezado pela sua singularidade, o court localizado no coração do Complexo de Ténis do Jamor emana história e tradição, como se nele se fundissem as memórias do que passou, as emoções do que se está a viver e os sonhos do que virá.

Em abril, o Centralito foi palco de celebração para a seleção nacional na Billie Jean King Cup, a competição feminina por equipas de países. Naquele dia de primavera, havia uma banda sonora que se juntava ao seco bater de bolas amarelas em cordas ou ao ruído do deslizar dos pés na terra batida. Era Maria Garcia, constantemente no banco a martelar com uma garrafa de água no muro que a separava do campo, em apoio à colega que estava a jogar. Ao lado da adolescente de 16 anos estavam Matilde Jorge, Inês Murta e Angelina Voloshchuk, as restantes não utilizadas naquele embate decisivo contra a Geórgia.

Do outro lado do muro sentava-se Neuza Silva, a capitã — isto é, selecionadora. No court, Francisca Jorge, a número um nacional e atual 281.ª do ranking WTA, derrotava Ekaterine Gorgodze para selar a vitória de Portugal na eliminatória contra a Geórgia. Ali, na sequência de outros triunfos contra a Israel, Malta, Bósnia e Grécia, garantia-se a promoção ao Grupo I da zona Europa-África do torneio, a segunda divisão da competição, onde a seleção não estava desde 2018.

A festa foi feita à base de abraços, sorrisos cúmplices e cânticos. A celebração baseava-se no momento, claro, mas escondia outro pano de fundo mais estrutural: cada vitória do ténis feminino português soa a pequeno passo dado na subida de uma escada rumo à visibilidade, ao impacto, ao maior destaque que tudo alavanca.

São inegáveis as diferenças de resultados entre ambos os lados do jogo da bola amarela nacional: houve sete homens portugueses entre os 100 melhores do ranking ATP e outros sete entre os 200 primeiros, ao passo que apenas Michelle Larcher de Brito conseguiu um lugar na centena de melhores no WTA e somente Sofia Prazeres, Frederica Piedade, Neuza Silva e Maria João Koehler entraram no top 200; nove homens portugueses estiveram no quadro principal de um torneio do Grand Slam, enquanto Neuza Silva, Maria João Koehler e Michelle Larcher de Brito foram as únicas mulheres; para Portugal vieram quatro títulos ATP, todos por João Sousa, e 14 presenças em finais de torneios do circuito, feitos nunca conseguidos no WTA.

Nos últimos anos, a disparidade agravou-se. Desde 30 de janeiro de 2012, quando Maria João Koehler se estreou no top 200, que nenhuma tenista nacional supera essa fasquia.

UMA QUESTÃO DE MENTALIDADE… E NÚMEROS

Francisca Jorge, de 23 anos, é o principal nome da atualidade no ténis feminino. Já durante o mês de junho, chegou ao melhor ranking da carreira, a 279.ª posição. Tem um jogo potente, de pancadas profundas, e habitou-se a fazer dupla de êxito com a irmã quatro anos mais nova, Matilde, segunda raquete nacional (635.ª do mundo). Em pares, a mais velha é 124.ª da hierarquia e a caçula é 137.ª.

As duas passam quase 24 horas juntas, reconhece ‘Kika’. Vivem no Centro de Alto Rendimento (CAR) do Jamor, onde durante muitos anos não houve vagas para as tenistas — agora, além das Jorge, está lá Elizabeth Maliy, sem ranking WTA após prolongada lesão no joelho direito, e Rui Machado, diretor técnico nacional e também dirigente do CAR, garante à Tribuna Expresso esperar que “em setembro entre mais uma ou outra, mais jovens”.

Francisca fala com maior ponderação, Matilde dispara palavras com assertividade semelhante à que apresenta quando entra em court para formar uma parelha que, na Billie Jean King Cup, foi um grande argumento competitivo para Portugal. Desafiadas pela Tribuna Expresso a explicar a razão para a disparidade de resultados entre o lado masculino e feminino, a mais velha abre o caminho: “Eles vão sempre chamar mais gente porque houve grandes nomes, como Frederico Marques, Frederico Gil, Rui Machado, João Sousa e agora Nuno Borges ou Francisco Cabral”, completando depois Matilde com uma ideia que dá pano para mangas.

“Não temos tido nenhuma top 100 ou top 200 e, se calhar, isso faz com que não haja essa perspetiva de carreira. Falta uma referência para que outras raparigas acreditem que é possível e pensem ‘se ela chegou lá, eu também consigo’. Se houver alguém a chegar lá, as pessoas acreditam mais, mais gente joga e há mais possibilidades de haver essa referência”. Pode a irmã ser esse nome-cartaz? “A ‘Kika’ sabe que eu acredito muito nela”. “E vice-versa”, interrompe Matilde.

O raciocínio das vimaranenses, que vieram para o CAR com 17 (no caso da mais velha) e 15 (a que veio ao mundo mais tarde) voltas ao sol e completaram o 12.º ano de escolaridade já residindo no Jamor, volta a atenção para a importância de captar praticantes. Os números são claros: segundo dados da Federação Portuguesa de Ténis, em 2021/22 havia, em todos os escalões etários, 17.726 homens filiados, contra 8.666 mulheres. Nos seniores, há 3.167 homens, face a 1.558 mulheres.

Com menos praticantes, perder um nome de elite faz a diferença. Ver dois retirarem-se bem cedo gera um fosso geracional.

Foi isso que, argumenta Rui Machado, sucedeu. “Tanto a Maria João Koehler como a Michelle retiraram-se muito cedo, o que gerou um hiato. Como, historicamente, não temos muitas jogadoras, perder duas deste nível tem um impacto enorme”.

Michelle, a melhor portuguesa de sempre, deixou de jogar aos 25; Koehler, segunda jogadora nacional que chegou mais alto no ranking — foi 102.ª com 20 anos —, fê-lo aos 26.

Neuza Silva, a capitã da seleção e ex-133.ª da hierarquia, estatuto que a deixa como terceira portuguesa que escalou mais alto, fala na necessidade de haver um “ajuste de mentalidade” nas jogadoras em formação, para que se convençam que “com trabalho e dedicação tudo é possível”, até porque, “se as estrangeiras conseguem”, nada impede as nacionais de atingirem os cumes do ténis.

A recordista de títulos ITF (12) coloca a lupa numa faixa etária concreta. “Nas sub-10 ou sub-12 há um leque grande de jogadoras, mas há muita tendência para desistirem depois. Temos de as fazer acreditar que podem chegar lá acima”, ideia partilhada por Rui Machado e com expressão nos números: nos sub-14, há 1.567 rapazes federados e 912 raparigas, quantidade que diminui para 1.440 no lado masculino nos sub-16 (uma queda de 8,1%) e para 752 no feminino (um decréscimo bem superior, de 17,5%).

O diretor técnico nacional, que chegou ao 59.º posto ATP enquanto tenista, aponta à “sociedade” para explicar as diferenças entre o masculino e feminino. Para o antigo jogador, há ainda “resistências” no que toca a ter mulheres a abraçarem o desporto como profissão, alguma “dificuldade” em aceitar que elas “lidem com tudo o que implica a competição”, havendo uma tendência para a “proteção” delas. “Felizmente, a sociedade está a mudar essa visão e acredito que o ténis feminino possa usufruir dessa mudança”, opina.

Francisca Jorge parece concordar com Machado: “Sem tirar qualquer profissionalismo aos treinadores dos clubes, às vezes lá ensina-se mais a jogar ténis e estimula-se menos a parte competitiva. Mas tem, também, de partir da vontade que as miúdas mais novas tenham em singrar no ténis”, defende uma das seis mulheres portuguesas que atingiu um ranking entre as três centenas de melhores.


AS VANTAGENS DE CONTAR COM TORNEIOS EM PORTUGAL

No CAR, Matilde e Francisca Jorge têm “condições muito boas e profissionais, com equipas de trabalho multidisciplinares”, garante Rui Machado, numa realidade que “não tem nada a ver” com a que existia “há 15 anos”, diz o dirigente do centro. “Eu praticamente não tive nenhum apoio para ir a nenhum torneio, estive muitos anos em Espanha às custas da minha família. Toda a minha carreira foi feita de forma privada e hoje é possível ser profissional de ténis ser ter apoios pessoais relevantes”, sustenta, partilhando ‘Kika’ a afirmação: “Eu e a Matilde não somos ricas. Sem o CAR e o apoio da Federação, não poderíamos estar ambas a competir, porque o dinheiro não dava para tudo”.

Além da aposta no CAR em três jogadoras, a outra grande marca da atuação federativa defendida por Rui Machado e Neuza Silva é o aumento do número de torneios em Portugal. Tendo em conta competições a partir da categoria ITF 25.000 dólares, de 2003 a 2014 só houve um evento por ano dessa dimensão em território nacional, o antigo Estoril Open. Entre 2014 e 2018 não houve qualquer competição desse nível internacional em Portugal.

No último lustro, o cenário mudou radicalmente. Em 2018, realizaram-se 13 torneios de 25.000 dólares; em 2019, houve oito competições de 25.000 dólares e uma de 60.000 dólares; em 2020, ano da paragem do desporto pela pandemia, houve quatro de 25.000 dólares; em 2021, 12 eventos de 25.000 dólares e dois de 60.000 dólares; em 2022, os números explodiram, com 15 torneios de 25.000 dólares, um de 60.000 e um de 80.000 dólares.

Em 2023, houve já um de 100.000 dólares, o mais importante em Portugal desde 2014, e a eliminatória da Billie Jean King Cup, a primeira vez em território nacional desde 2010.

Competir em casa “é uma grande vantagem financeira”, explica Rui Machado, a qual permite ter “mais atletas envolvidas” e dá a tal perspetiva de referências, já que “as mais novas vão assistir e a proximidade estimula o sonho”. Neuza Silva corrobora, lembrando que gastou “muito dinheiro” a viajar internacionalmente. E aqui entra o loop do ténis profissional, descrito por Francisca Jorge. “Não ganhas encontros, não ganhas dinheiro, não podes viajar para melhores torneios, ganhas menos pontos no ranking. Se ganhas menos pontos, não entras em melhores torneios, portanto ganhas menos dinheiro, a pressão aumenta, o que deverá fazer com que não ganhes encontro e, portanto, não ganhes dinheiro”.

O “DIAMANTE” E O “TRABALHO INVISÍVEL”

A beneficiar deste aumento de oportunidades está Angelina Voloshcuk. Filha de pais ucranianos e nascida em Portugal, vive em Alverca do Ribatejo e foi chamada para a seleção portuguesa aos 15 anos, altura em que já se dizia nos corredores do ténis feminino que batia Matilde Jorge, a número dois nacional, nos treinos. Neuza Silva descreve-a, à Tribuna Expresso, como “uma menina com muito talento, um diamante que está por trabalhar”.

Já em junho, com 16 recém-festejados, tornou os rumores realidade. No Setúbal Ladies Open, uma das muitas oportunidades competitivas perto de casa, bateu Matilde para chegar às primeiras meias-finais de singulares da carreira em torneios do circuito profissional, isto já depois de ter superado Eudice Chong (289.ª) Nessa fase, perdeu, por 7-5 e 6-2, diante de Arianne Hartono, 220.ª do ranking.

O brilharete permitiu à adolescente — que anda no 10.º ano na área de Ciências e Tecnologias, tendo aulas online — estrear-se na hierarquia WTA. É 851.ª, a quarta melhor portuguesa e a 14.ª jogadora com menos de 17 anos mais bem cotada a nível global.

Se Maria Garcia, também de 16 anos e em 1327 da lista WTA, era bem mais efusiva no apoio às companheiras da seleção, Angelina tem uma timidez condizente com a idade. Senta-se para falar, esboçando um sorriso quando ouve que a conversa será curta.

Expressa o “sonho” de ser “jogadora profissional”, sem colocar metas, e a “felicidade” de representar Portugal, ainda que não esperasse ser convocada. Quando tinha quatro anos, a mãe, que gostava de ténis, inscreveu-a na modalidade. Angelina lembra-se de “ter conseguido passar algumas bolas” para o outro lado da rede logo ao início, o que lhe deu motivação para continuar. É campeã nacional sub-16.

'Kika’ Jorge diz que “sente” o “talento” de Angelina quando a defronta, ainda que avise que só terá um “futuro promissor se for bem encaminhada e fizer o trabalho certo”.

Rui Machado aproveita o caso da ribatejana para sublinhar o trabalho da Federação Portuguesa de Ténis: “A expetativa é que a Angelina jogue estes torneios perto de casa, que são economicamente mais viáveis. Para quem nunca pagou nada, pode não parecer muito, mas ter torneios aqui é um apoio gigante”.

O diretor técnico nacional frisa constantemente o “muito trabalho” que tem sido feito “na sombra” para “dar oportunidades iguais a homens e mulheres”. Neuza Silva vai por caminho semelhante, classificando de “trabalho invisível” muito do que tem sido feito para elevar o ténis feminino nacional.

Os pais das irmãs Jorge eram fãs do jogo. Iam praticá-lo de vez em quando e deixavam Francisca sentada no banco. Ela ia seguindo a bola com olhar curioso e foi essa reação o gatilho para que a inscrevessem em aulas.

Quando ‘Kika’ começou a ir a torneios, ali entre os oito e os nove anos, Matilde, quatro anos mais nova, costumava desaparecer. Quando os pais davam com ela, estava ali a um canto, jogando contra a parede com uma raquete e uma bola perdidas. Foi assim que se juntou à irmã na prática.

Algum tempo depois daqueles dias de iniciação vimaranense, na mesma terra de João Sousa, as duas lideram a luta por maior relevância. E como lidam com a sombra do maior êxito masculino? Francisca Jorge centra a procura nelas próprias: “O objetivo é sermos melhores do que nós, não ultrapassarmos os homens. O Nuno Borges treina connosco no CAR, o que é muito bom para termos essa realidade aqui mais próxima, sabermos o esforço que ele coloca para estar onde está. É ali onde queremos estar”.

Quando a conversa com a Tribuna Expresso termina, três meninas esperam para que a número um nacional lhes assine umas pequenas bolas. Obtida a firma, encaminham-se para um dos courts do Jamor, com sacos quase do tamanho delas às costas, prontas para sujarem os sapatos de terra batida e, quem sabe, imaginarem-se como a tal “referência” perdida.

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