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José Mourinho em entrevista: O treinador que jogar sem guarda-redes para bater a defesa "será considerado um génio”

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José Mourinho em entrevista: O treinador que jogar sem guarda-redes para bater a defesa "será considerado um génio”

Em entrevista a partir de Lisboa, José Mourinho diz, aos 61 anos, que está disponível para treinar clubes de segunda linha desde que definam objetivos realistas

José Mourinho está a falar sobre a perceção transmitida pelo jogo e acaba no empate sem golos do Arsenal frente ao Manchester City no final de março como um exemplo da forma como podemos retratar o futebol — e o estilo como é jogado — de maneiras tão diferentes.

Começa por dizer que gosta de Mikel Arteta, que conheceu enquanto era treinador assistente no Barcelona, logo em 1996, quando o jogador era um adolescente da academia. De facto, Mourinho ainda se refere a Arteta como “o miúdo”. “Estou feliz porque gosto do miúdo”, diz. “E fico feliz quando tudo lhe corre bem. Mas não gostei da forma como eles [o Arsenal] jogaram para conseguir aquele ponto e a forma como a comunicação social falou sobre uma estratégia mágica.”

O que quer dizer com isso? “No meu tempo, não era uma estratégia mágica”, responde, “e ganhei várias vezes no Manchester City. Mas não era uma estratégia incrível. Era um jogo defensivo. Pôr o autocarro em frente à baliza, pôr dois autocarros. Era uma perceção diferente”.

Eis José Mourinho aos 61 anos — ainda cheio de vida mas relutante em esquecer tudo o que já disseram sobre ele. A sua postura quando está em trânsito entre clubes ou quando está a trabalhar sempre foi diferente. Fica muito menos stressado, cheio de ideias e vê muito futebol na televisão. O ponto de Arteta surge no meio de uma tese mais abrangente que lhe ocorreu nos últimos 12 meses: que em breve um treinador principal, que opta pelo ataque, substituirá o seu guarda-redes por um 11º jogador avançado. As leis do jogo obrigam o substituto a usar a camisola do guarda-redes — as luvas são opcionais — mas jogará como um jogador extra que contribui para o ataque.

Será que o próprio Mourinho o faria? “Ter um jogador extra à frente... quando a outra equipa tem o bloco muito baixo e faltam 10 minutos para acabar? Vamos a isso — claro que sim!”

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No banco do Barcelona, quando foi adjunto de Bobby Robson, em janeiro de 1997

Mas estamos a adiantar-nos. Mourinho foi demitido do seu décimo clube em janeiro. Levou a AS Roma a duas finais da UEFA em dois anos, a primeira das quais resultou no primeiro troféu europeu do clube, em maio de 2022. Esta conversa decorreu em Lisboa, onde tem uma casa a 20 minutos do Estádio da Luz — foi no Benfica que começou a trabalhar como treinador há 24 anos. A sua casa em Londres fica tão perto do estádio do Chelsea em Stamford Bridge que não só consegue ouvir os festejos quando há golos mas também todas as outras reações — desde suspiros quando a bola quase entra na baliza a aplausos quando há substituições. Adoraria ir ver alguns jogos pessoalmente, mas, infelizmente, isso só causaria uma enorme confusão.

Trinta anos depois de ir para o Porto pela primeira vez, como treinador-adjunto do falecido Sir Bobby Robson, José Mourinho nunca se sentiu tão preparado como agora para enfrentar o próximo emprego. Adora esta profissão e pondera neste momento as suas próprias opções quando se espera que o próximo verão seja um verão de mudança para muitos clubes. Está frustrado com a forma como é visto. Quando lhe pergunto se os clubes não estarão um pouco assustados em contratá-lo, Mourinho apresenta-me uma lista de alguns dos seus antigos dirigentes de grande sucesso: Peter Kenyon, Massimo Moratti, Florentino Perez, assim como o presidente do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa. “É uma pena”, diz, “que eles [qualquer potencial novo empregador] não possam falar com estes dirigentes”.

Mourinho, o próprio, diz que só quer ser treinador principal numa estrutura que o apoie — e acredita que ainda vai ter uma longa carreira. “Tenho 61 anos e não quero parar aos 65”, diz. “De maneira nenhuma. Ainda tenho uma longa carreira pela frente.” Mas antes de mais nada, está preparado para voltar atrás 20 anos, para aqueles dias e semanas que mudaram a sua vida.

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Com Frank Lampard e John Terry, os esteios da equipa do Chelsea que dominou a Premier League na época de 2004/2005

O JOVEM DISRUPTOR

“Tive tantas celebrações bizarras ao longo da minha carreira, mas essa foi provavelmente a que mudou o rumo da minha carreira.” Mourinho está a falar do sprint da linha lateral em Old Trafford para celebrar o golo tardio do médio Costinha que levou a sua equipa, o FC Porto, aos oitavos de final da Liga dos Campeões. Estávamos a 9 de março de 2004 e um treinador pouco conhecido, responsável por uma equipa portuguesa modesta, eliminava o Manchester United de Sir Alex Ferguson. Mourinho já tinha vencido a Taça UEFA e estava a caminho de um segundo título português. Mas esta foi uma noite diferente.

“No outro dia, passei por um tipo na rua que me perguntou quando é que isso voltaria a acontecer em Portugal. Respondi-lhe que podemos ganhar o Euro daqui a uns meses, porque temos uma seleção nacional incrível — a melhor de sempre —, mas um clube a ganhar a Liga dos Campeões de novo em Portugal? A ver se o conseguimos voltar a fazer nos próximos 20 anos.”

Fala também dos Galácticos do Real Madrid daquela época. Quando o Porto foi empatar ao estádio Santiago Bernabéu, ainda na fase de grupos, e teve início a sua série de jogos vencedora. Sempre pronto a rebater qualquer revisionismo possível, salienta que o Lyon, que o Porto eliminou depois do United naquele ano, tinha sido várias vezes campeão de França. E que o adversário do Porto nas meias-finais, o Deportivo de La Coruña, tinha sido campeão espanhol quatro anos antes. O 11 de Mourinho para a final contra o Mónaco incluiu nove jogadores portugueses, incluindo o naturalizado Deco, a maioria dos quais jogava pela primeira vez a Liga dos Campeões.

“Depois da Taça UEFA [que venci em 2003] comecei a ter alguns clubes estrangeiros [interessados em mim], mas não os grandes e não os da Premier League”, diz. “Nessa altura, pensei: adoro estar aqui. Tenho uma boa equipa, um grande presidente, uma grande estrutura. Vou voltar a ganhar o campeonato português. Vamos aproveitar a Liga dos Campeões e ver no que dá. Tinha a sensação de que poderia sair de Portugal sempre que quisesse, mas, na altura, não seria para um dos grandes clubes. Honestamente, foi depois daquela corrida em Old Trafford que a situação mudou.”

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O sprint de Old Trafford, no jogo frente ao Manchester United, que garantiu a continuação do FC Porto na Liga dos Campeões, em 2004

Na verdade, o verão de 2004 mudou tudo. Mourinho foi para o Chelsea, um ano depois de Roman Abramovich ter entrado de rompante. Para o Liverpool, no mesmo verão, foi Rafael Benítez, o treinador com quem Mourinho viria a desenvolver uma profunda inimizade. Embora nesta ocasião use as conquistas de Benítez para enfatizar o seu ponto.

“Benítez venceu a liga espanhola com o Valência [duas vezes] e a Taça UEFA. E eu ganhei a liga portuguesa [duas vezes], a Taça UEFA e a Liga dos Campeões. Naquela altura, para ir para Inglaterra não bastava ter conseguido alguma coisa numa liga menor. Ou que o seu guarda-redes construa o jogo partindo de trás. Era preciso fazer algo realmente impressionante para abrir essa porta.”

A MÁQUINA VENCEDORA

Muitos bons treinadores falharam no Chelsea. Porque não Mourinho?, arrisco perguntar.

Responde que já tinha uma profunda compreensão do futebol inglês, principalmente através da sua longa relação de trabalho com Robson — “a Inglaterra estava sempre presente no seu dia a dia”. O treinador diz que agarrou rapidamente a mentalidade do jogo inglês e também sabia que tinha uma arma secreta. O seu regime de treino — o modelo de periodização — era, na altura, revolucionário. Tudo era focado taticamente, feito com a bola e seguindo rigorosamente o que estava planeado. “Eu sabia, do ponto de vista metodológico, que podia fazer logo a diferença porque a minha forma de treino era muito diferente do tradicional”, diz. “Depois, não cometi nenhum erro determinante.”

“Podemos ganhar o Euro, porque temos uma seleção nacional incrível — a melhor de sempre —, mas um clube português ganhar a Liga dos Campeões? 
Talvez nos próximos 20 anos”

Realça o seu “triângulo de confiança” com Kenyon e Abramovich. “Estava muito confiante no que o Chelsea já tinha. Estava muito, muito autoconfiante sobre o que sentia ser preciso para dar esse passo.” Fala das chegadas de Frank Lampard, Joe Cole e Petr Cech antes dele, bem como o desenvolvimento de John Terry. Depois fala da confiança que o clube depositou nele para contratar Didier Drogba, Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira.

“Essa equipa tornou-se imediatamente uma equipa cheia de agressividade e de poder a todos os níveis”, diz. “Então fomos andando, andando... um pouco contra as probabilidades. Os céticos diziam que, no Natal, o Chelsea caía. Depois era na Páscoa. Depois nos últimos dois ou três jogos. Mas nos últimos dois ou três jogos já estávamos a celebrar.”

Esses cinco troféus em apenas três temporadas completas à frente do Chelsea fizeram de Mourinho o treinador mais procurado do mundo. No Inter, seguiram-se dois títulos do campeonato italiano e o título da Liga dos Campeões de 2010. Depois, no Real Madrid, a épica batalha com o Barcelona de Pep Guardiola, a Taça do Rei, o título da La Liga em 2012 e também o início da reviravolta do recorde medíocre que o clube tinha na Liga dos Campeões sob os anteriores treinadores. Não tendo passado dos 16 avos durante seis anos, o Real chegou às meias-finais sob o comando de Mourinho e depois voltou a ganhar na época seguinte à sua saída.

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Quando enfrentou o treinador Pep Guardiola, já ao leme do Real Madrid, em abril de 2011

Apesar do que se seguiu ao primeiro período no Chelsea, onde esteve por uma segunda vez, é possível ver em Mourinho um certo sentimentalismo ao pensar naquela era de 2004-2007. Um clube unido à volta do seu treinador. Uma equipa construída numa base defensiva firme e sem desculpas. Quando discutimos essa era, e o que pode ser percebido como as diferentes abordagens do futebol nos anos 2000 até os dias de hoje, isso leva-o para uma nova direção. Diz que o instinto defensivo dos treinadores de topo não desapareceu. Está apenas mais bem disfarçado.

“Veja-se o Manchester City e o Arsenal — apenas para dar dois exemplos. Quantos defesas centrais têm na equipa? Às vezes têm seis. Por uma questão de princípio. Depois jogam noutras posições. Jogam como laterais direitos, laterais esquerdos, jogam no meio-campo. Mas jogam com cinco ou seis defesas centrais em campo. Porquê? Se fosse jornalista seria o que perguntava ao treinador.”

Felizmente para mim, Mourinho está preparado para responder em seu nome. “Eles sentem a necessidade de estabilidade defensiva e de uma enorme consistência defensiva”, diz. Mourinho afirma que Arteta usa Jakub Kiwior como lateral esquerdo, porque a sua capacidade física é útil para ganhar duelos e defender os lances de bola parada. Acontece o mesmo no City com Manuel Akanji à defesa ou com o duplo papel de John Stones no meio do campo. Josko Gvardiol é um defesa central que joga como lateral esquerdo.

“Sou o único treinador europeu que jogou duas finais nos últimos dois anos”

“A melhor maneira de ver isso é pensar nos anos em que o Man City não teve sucesso na Liga dos Campeões e o que mudou na época em que tiveram sucesso. E penso imediatamente numa direção — olhar para a condição física.” Tudo isso ainda importa, diz, e os clubes estão sempre a mudar o seu estilo. Interessou-se particularmente pela primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões entre o Paris Saint-Germain e o Barcelona.

“Muitos passes longos de [Marc] Ter Stegen para [Robert] Lewandowski na construção do jogo. O PSG a tentar pressionar mais; Ter Stegen para Lewandowski; Lewandowski controla com o peito e joga dessa posição. Ganhei uma final da Liga Europa com (bolas longas) de Sergio Romero a Marouane Fellaini. O Ajax a pressionar, mas a pressionar o ar, porque a bola não estava lá. Bola no peito de Fellaini. Joga dali. Dois a zero. Trouxemos a taça para casa. Três títulos. Desastre de época.”

O REGRESSO A INGLATERRA

Mourinho está, obviamente, a falar da forma como os seus anos em Old Trafford, do verão de 2016 a dezembro de 2018, são retratados. Voltou depois da segunda passagem pelo Chelsea, que rendeu mais um título da Premier League e depois o colapso, na época seguinte de 2015/2016. No United, a história tem sido mais amável com ele. Desde que foi despedido, nem Ole Gunnar Solskjaer, nem o interino Ralf Rangnick, nem agora Erik ten Hag conseguiram virar o jogo — ou fazer melhor que o seu segundo lugar em 2017/2018.

“A minha relação com [o ex-diretor-executivo] Ed Woodward era boa. Boa do ponto de vista pessoal. Mesmo atualmente trocamos mensagens. Mas, do ponto de vista profissional, não foi a melhor. Eu sou quem sou. Sou um homem de futebol. O Ed vem de um contexto diferente e o que o Ten Hag teve na sua passagem pelo Manchester United, eu não tive. Não tive esse nível de apoio. Não tive esse nível de confiança. Por isso, saí triste, porque senti que estava no início do processo. Em alguns momentos, senti que se confiassem em mim e acreditassem na minha experiência as coisas podiam ter sido diferentes. Ainda estão lá alguns jogadores que eu não queria há cinco ou seis anos. Acho que representam um pouco o que considero não ser o melhor perfil profissional para um clube de uma certa dimensão. Mas fiz o meu trabalho lá. O tempo acaba sempre por mostrar a verdade. Eu adoraria que o Manchester United tivesse sucesso.”

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O regresso do Manchester United às vitórias europeias com a conquista da Liga Europa, em 2017

Quanto ao destino da sua ex-grande estrela — Paul Pogba —, banido no mês passado por quatro anos depois de testar positivo num teste de doping, pendente de recurso, Mourinho diz que não se sente contente. “A única coisa que eu digo é que isso acontece com quase todos em algum momento da carreira: perdem um pouco a noção de quem são e do que têm de ser. Na época em que a França venceu o Campeonato do Mundo [2018], acho que o Paul voltou diferente. O Mundial levou-o a uma dimensão onde o futebol não era a coisa mais importante para ele. Partilhando a filosofia de todos; todos com o mesmo nível de responsabilidades.”

Mourinho diz que os dois não têm ressentimentos. Viram-se antes dos jogos entre a Juventus e a Roma. “Não estou a gostar desta situação do Paul”, revela Mourinho. Há cinco anos, o relacionamento deles parecia ser o mais importante na equipa. Sempre que Pogba ou Mourinho se desentendiam ou o jogador ficava de fora de um jogo, havia problemas.

“Quando somos apoiados pelo poder, pela hierarquia, a mensagem que passa para a equipa é muito positiva”, diz o treinador. “Quando não somos apoiados... porque o jogador é mais importante ou o que o jogador representa é mais importante — então estamos numa situação frágil. Mesmo quando se é um treinador com tanta experiência como é o meu caso.”

O PRECONCEITO

Começa a questionar-se se a conversa sobre a Liga dos Campeões que ganhou no FC Porto, há 20 anos, parece mais um fardo. Diz que as pessoas se esqueceram que chegou a duas finais com a Roma, a Liga Conferência Europa e, depois, no ano passado, a Liga Europa. “Sou o único treinador europeu que jogou duas finais nos últimos dois anos”, diz. “Então, falemos do meu presente. Não me sinto culpado de há 20 anos ter ganho a Liga dos Campeões. Mas se perguntarem a 90% dos treinadores se gostariam de jogar duas finais europeias, dois anos consecutivos, a maioria responderia que sim”.

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Com a Roma disputou duas finais europeias e venceu a Liga Europa, contra o Feyenoord, em 2022

Quanto ao United, destaca que tem o melhor recorde de troféus pós-Sir Alex Ferguson. O seu tempo no Tottenham, diz, foi dominado pela covid. Embora tenha chegado a uma final, seria demitido na semana anterior. A Roma era um clube que, como diz, tinha uma “história de não ganhar nada”. Com o seu sucessor, Daniele de Rossi, poderão ainda chegar a uma terceira final europeia sucessiva. Mourinho diz que tem a mente aberta sobre para onde vai de seguida. Também sabe que o preconceito de que precisa de estar num clube que luta por troféus — ou que “foi feito para vencer” — não é exata.

“Não tenho medo de trabalhar [em clubes] que não foram ‘feitos para ganhar’. Quando alguns [treinadores] atingem um certo nível talvez digam: ‘Só vou aceitar trabalhos onde possa ganhar.’ O meu trabalho é tentar transformar clubes em clubes ‘feitos para ganhar’, ou para alcançar alguns objetivos.” Discutimos as possibilidades e é aqui que me pergunto, em voz alta, se os clubes têm um pouco de medo do tamanho da sua reputação. Isso pode assustá-los?

É então que Mourinho menciona os presidentes de clubes famosos e um diretor-executivo com quem trabalhou. Como se dissesse: se eles trabalharam comigo, porque é que outros não trabalhariam? “A minha descrição de funções ideal — porque às vezes temos um cargo e a descrição de funções é outra — é a de ‘treinador principal’”, diz ele. “Esse é o meu sonho. Ser o treinador. Para ser o tipo que trabalha com a equipa, que se concentra em desenvolver jogadores, preparar jogos.”

“O que o Ten Hag teve na sua passagem pelo Manchester United, eu não tive. Não tive esse nível de apoio. Não tive esse nível de confiança. Por isso, saí triste”

“Felizmente, tive isso na minha carreira. Infelizmente, tive outras situações em que tinha de ser muito mais do que isso. Quando temos de ser muito mais do que isso, não somos um treinador tão bom quanto poderíamos ser. O clube coloca-nos numa posição onde eu não quero estar. Pensas que depois da final da Liga Europa que perdemos, nas circunstâncias em que perdemos, fiquei feliz com todas as emoções que senti? Achas que ficava feliz por ter de ser o rosto do clube nas conferências de imprensa para falar sobre estes casos? Não, odiava.”

“Se as pessoas temem algo [sobre Mourinho], não temam. Deem-me uma estrutura profissional onde eu seja apenas o treinador principal, porque é nisso que sou bom. As pessoas dizem que sou bom na comunicação. Muitas, muitas vezes dizemos as coisas erradas. Especialmente quando se tem de falar três ou quatro vezes por semana. A estrutura de um clube empurra-me na direção errada.”

O FUTURO

Esta é a primeira indicação de que carrega alguns arrependimentos, mas rapidamente passa à frente. Na Roma, os seus amigos, família e até o seu agente disseram-lhe para sair depois da final da Liga Europa no ano passado. Mas ele diz que sentiu o “apelo emocional” do clube. Diz que recusou treinar a seleção portuguesa e uma oferta lucrativa da Arábia Saudita pelas mesmas razões. No passado, rapidamente seguia em frente quando aparecia uma oferta melhor. Alguns dias antes do seu 39º aniversário, em 2002, deixou o seu segundo clube, o União de Leiria, a meio da época para se juntar ao Porto. “Era um homem muito pragmático”. Desta vez ficou.

“O que pode realmente fazer a diferença é quanto o clube me quer”, diz. “ O quanto o clube precisa de uma pessoa e de um treinador com o meu perfil. E quanta emoção, empatia eu posso sentir pela sua estrutura.”

O seu nome não foi mencionado relativamente a muitos dos grandes empregos que irão surgir neste verão. As suas ligações passadas ao United iriam, provavelmente, excluí-lo do Liverpool, e Mourinho observa que o seu nome não aparece na lista atual. Mesmo assim, sugiro, seria difícil imaginá-lo aos comandos do West Ham ou do Brighton. A menção de dois clubes específicos leva-o a sublinhar que ambos têm treinador. Mas o que se segue é deveras esclarecedor.

“A única coisa que eu quero é que as metas e os objetivos tenham de ser estabelecidos por todos de forma justa. Não posso ir para um clube onde, por causa da minha história, o objetivo seja ganhar o título. Não. A única coisa que eu quero é que o clube seja justo. Achas que se eu estivesse num grande clube da Premier League e ficássemos em sexto, sétimo, oitavo lugar, na tabela, eu ainda teria um emprego? O que estou a dizer é que as pessoas devem olhar para mim da mesma forma que olham para os outros. O que é importante para mim é o clube ter objetivos e que eu possa dizer que estou pronto para lutar por eles. Não quero dizer realistas, mas [pelo menos] semirrealistas. Porque quando fui para a Roma ninguém sonhava com as finais da Liga Europa e conseguimos. Não é possível ir para um clube quase a descer de divisão e o objetivo ser ganhar a Liga dos Campeões. É um bom objetivo, mas não é justo.”

Tudo isso parece indicar que poderia aceitar um clube como o West Ham ou o Brighton se a oferta for a correta. Ele certamente está disposto a fazer as coisas de forma diferente. A nossa conversa volta à questão de uma equipa dominante em posse de bola, tentando marcar um golo, jogando com 11 jogadores na frente. Mourinho é inflexível. “Porque é que jogas com um guarda-redes, mesmo que seja bom com os pés, quase no meio do campo, se o podes fazer com um jogador mais adequado? Posso ver essa substituição a acontecer.” Faz uma pausa. “E o treinador que o fizer será considerado um génio.”

Tradução Joana Henriques
Texto originalmente publicado no “The Daily Telegraph”

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