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“Às vezes custa dormir à noite, porque 40 milhões de pessoas sonham com isto”: dentro da “ambição” do Iraque em estar no Mundial 2026

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“Às vezes custa dormir à noite, porque 40 milhões de pessoas sonham com isto”: dentro da “ambição” do Iraque em estar no Mundial 2026

A seleção iraquiana, que só esteve numa vez na fase final do maior torneio (no México 1986), pode voltar, 40 anos depois, à competição. Antes de dois encontros fundamentais da qualificação, Jesús Casas, espanhol que orienta o Iraque, fala, em conversa com a Tribuna Expresso, do “choque” que foi passar de adjunto de Luis Enrique para líder de uma equipa que “mais parecia uma excursão do secundário”, com condições parecidas às da “terceira divisão espanhola nos anos 90”. Mas o treinador, que orienta um grupo de jogadores cheio de filhos de emigrantes na Suécia, Inglaterra ou Alemanha, acredita que “é possível” estar no Mundial

“Nem penses!”

Foi esta a resposta que a mulher de Jesús Casas lhe deu quando o treinador contou que recebera um convite para ser selecionador do Iraque. “Pela imagem que se tem do país na Europa”, com uma ideia “ainda muito ligada à guerra”, explica o técnico, quem lhe é mais próximo desaprovou com veemência a ideia de uma mudança para o Médio Oriente.

Mas Casas quis informar-se. Falou com o embaixador espanhol em Bagdade e a resposta vinda do diplomata surpreendeu-o. Após refletir e pensar, o técnico, convidado devido à paixão que o presidente da federação iraquiana tem pelo futebol espanhol, decidiu, mesmo, fazer as malas para o Iraque. Estávamos em novembro de 2022.

E “fazer as malas” não é uma força de expressão. Não faltam exemplos de selecionadores nacionais que não vão viver nos países que orientam, mas Jesús “não conceberia não viver no Iraque”, diz à Tribuna Expresso: “Tens de te integrar. Estando aqui, obtenho um conhecimento enorme da liga iraquiana, dos jogadores, do futebol que se pratica, até porque muitas equipas são da capital, permitindo ver vários encontros em poucos dias”, conta.

À chegada, o técnico viveu “um choque”. Jesús Casas vinha de muito tempo a trabalhar na elite do futebol internacional, como membro da equipa técnica de Luis Enrique no Barcelona e na seleção espanhola, primeiro mais em funções de análise de vídeo, depois mais num trabalho de campo, como treinador-adjunto. O técnico “sabia que as condições seriam piores”, mas “nunca” imaginou “que estivesse tudo num nível tão básico”.

Não havia nenhum tipo de academia, cidade desportiva ou centro de treinos para preparar a equipa. E isto não significa que a seleção não tivesse esse tipo de infra-estrutura, significa que não há, de todo, um complexo assim no Iraque, seja da seleção ou de um clube. Não havia nutricionista na federação. Não havia médicos especializados em desporto. Não havia fisioterapeutas.

O espanto foi total perante o primeiro contacto com esta realidade: “Quando cheguei, o primeiro estágio parecia mais uma excursão do secundário do que o estágio de uma seleção nacional de futebol. Era tudo como eu conheci quando jogava, tendo sido um futebolista muito modesto, na terceira divisão espanhola nos anos 90”.

Mas, simultaneamente a este “impacto complicado”, Jesús Casas teve outra surpresa. “Há muito talento”, aponta, referindo-se quer à liga iraquiana, quer aos muitos jogadores da diáspora do país espalhados pelo mundo.

Os primeiros resultados foram animadores. A equipa venceu a Taça do Golfo e, subitamente, a perceção da qualidade bruta existente, a conquista de um troféu regional e “a euforia generalizada no país” levaram ao assumir de uma “ambição”: estar no Mundial de 2026.

A expansão da maior competição planetária, de 32 para 48 equipas, levou ao engordar das vagas para cada confederação. Na Ásia, os cinco bilhetes diretos de 2022 tornaram-se oito lugares mais um via play-offs, abrindo espaço para que mais sonhem.

E o Iraque de Jesús Casas tem sonhado. Ganhou tranquilamente o seu grupo na segunda fase de apuramento, com seis vitórias em seis desafios contra Indonésia, Vietname e Filipinas.

Na terceira fase, com três grupos de seis equipas cada que apuram diretamente os dois primeiros, os iraquianos começaram com sinal positivo, batendo Omã e empatando com o Kuwait. Têm, no Grupo B, os mesmos 4 pontos que Jordânia e Coreia do Sul. Esta janela internacional traz compromissos decisivos nesta campanha, com a receção à Palestina (quinta-feira, 19h00) e a visita à Coreia do Sul (terça-feira, 12h00).

Criar uma “cultura desportiva”

Voltando ao começo da aventura de Casas no Médio Oriente, uma das suas primeiras preocupações foi instalar o que o espanhol apelida de “cultura desportiva”. Melhorar “hábitos de alimentação”, criar “rotinas de ginásio”, valorizar “o descanso”. Deixar de parecer a tal visita de estudo do secundário.

Outro problema que surgiu prendia-se com o aproveitamento de uma vantagem. Não havia qualquer software para monitorizar os muitos descendentes de iraquianos que vivem no estrangeiro, nomeadamente na Europa, filhos de gente que fugiu à guerra e à miséria e que é elegível para representar a equipa nacional. “Chamavam os jogadores de ouvido, porque alguém lhes dizia que havia um iraquiano aqui ou ali, mas sem nunca os terem visto jogar”, atesta Casas.

Cavalgando nos bons resultados que teve inicialmente — também chegou aos oitavos de final da Taça da Ásia, derrotando o Japão na fase de grupos —, o espanhol diz que ganhou "legitimidade para pedir mais recursos”. E deram-lhe um médico, um fisioterapeuta e o tal software para observar futebolistas.

Farejando melhor o talento iraquiano que nasceu ou viveu boa parte da vida no estrangeiro, a seleção de Casas tem uma fortíssima componente da emigração, com protagonistas vindos de Inglaterra (Ali Al-Hamadi, do Ipswich da Premier League ou Zidane Iqbal, formado no Manchester United e jogador do Utrecht), da Suécia (Montader Madjed, do Hammarby, ou Danilo Al-Saed e Hussein Ali, que atuam no Heerenveen) ou da Alemanha (Merchas Doski, do Slovácko da Chéquia, ou Youssef Amyn, que está no Al-Wehda). Ponto fundamental: todos os nomes citados acima têm 25 anos ou menos.

Quando o técnico chegou ao cargo, disseram-lhe que no passado houvera “problemas” na relação entre os jogadores filhos da diáspora e os que sempre viveram no Iraque. Mas Casas assegura que, desde o primeiro momento, a “palavra ‘família’ foi colocada no centro de trabalho, criando-se um grupo muito unido”.

Além da adaptação dos futebolistas às exigências do espanhol, também se deu o processo inverso. Habituado a planear jogos contra o Real Madrid ou a seleção de França, Jesús Casas estava, agora, observando as equipas das Filipinas ou do Vietname.

“Seja qual for o contexto, o que importa é dar soluções aos jogadores. As minhas ferramentas são diferentes, quando estava no Barcelona as minhas ferramentas eram o Messi, o Neymar e o Suárez e, bem, agora tenho outras ferramentas [risos]. Mas o fundamental não muda, que é ler um jogo, ler uma equipa e dar aos meus soluções para criar problemas ao adversário”, explica o homem de 50 anos que não abdica do motorista em Bagdade, cidade onde “conduzir é uma loucura”, porque “parece que não há regras”, conta.

A “euforia” e o “sonho”

“Estamos aqui porque acreditamos que é possível”. Jesús Casas não foge à “ambição” de estar nos Estados Unidos, no México e no Canadá em 2026. Se o Iraque ficar nos dois primeiros lugares desta fase, a qualificação fica garantida, se for terceiro ou quarto, poderá garantir a presença através de fases de apuramento seguintes.

O Iraque só esteve num Mundial, no México 1986, perdendo os três jogos que fez. O grande feito da história do futebol do país foi a vitória na Taça da Ásia em 2007.

Nas ruas de um país “com uma paixão brutal pelo futebol”, onde o estádio se enche “duas horas antes dos jogos da qualificação”, Jesús Casas sente “a expectativa das pessoas”: “É uma responsabilidade enorme esta que temos. Às vezes custa dormir à noite, porque 40 milhões de pessoas sonham com isto. A cabeça vai para este pensamento, é uma grande responsabilidade, sabemos que temos o sonho de tanta gente nas mãos”, confessa o espanhol.

No Iraque, já se fazem as contas ao que é preciso obter em cada jogo para assegurar, logo em junho de 2025, quando termina esta fase de qualificação, a presença no Mundial, quebrando um jejum de 40 anos. O selecionador tenta contribuir com alguma prudência, contando que procura “colocar um pouco toda a gente com os pés no chão”, porque “a euforia não ganha jogos”.

Já ídolo nacional, não é preciso pesquisar muito para ver fotografias de Jesús Casas visitando escolas ou participando em iniciativas de solidariedade. São tentativas, diz o técnico, “de devolver à sociedade parte do enorme carinho” que recebe: “Num país com tantas necessidades, devemos tentar ajudar. Já fizemos doações a colégios e orfanatos, visitámos um hospital dos Médicos Sem Fronteiras na Jordânia…”, conta.

Talvez esteja nas mãos do espanhol fazer com que, no futuro, quem seja convidado para selecionador não receba, imediatamente, recusas familiares. Talvez esteja aqui, nesta campanha de futebol, a hipótese de tornar o Iraque conhecido por coisas diferentes, por coisas melhores. Por construir memórias através do futebol.

Jesús Casas é consciente do potencial daquilo que está a construir: “Ir ao Mundial poderia ajudar a mudar a imagem do Iraque, fazê-lo conhecido por outras razões. Seria fechar algumas feridas, mostrar este país como uma nação em evolução. Seria bonito”, remata o comandante do sonho de 46 milhões de iraquianos.

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