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“Se a miúda é tão boa como eu acho que é, não joga porquê?”

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“Se a miúda é tão boa como eu acho que é, não joga porquê?”: como Olivia Smith, a jogadora mais cara de sempre, foi descoberta pelo Sporting

Há 24 meses, uma canadiana que até era suplente no futebol universitário captou a atenção dos leões devido à "combinação de qualidades". Transferida para o Liverpool após uma época em Alvalade, a jovem está prestes a rumar ao Arsenal por €1,16 milhões, no maior negócio da história do futebol feminino. João Almeida Rosa, então coordenador do scouting dos leões, liderou o processo que trouxe Olivia para Portugal e conta como o talento foi detetado

Certa tarde, durante a época 2023/24, Olivia Smith estava a almoçar na Academia de Alcochete e foi picada pela curiosidade. A jogadora, então com 19 anos, queria saber como é que tinha ido ali parar, como e quando é que os responsáveis do Sporting repararam nela e decidiram tirá-la da Pennsylvania State University, do lado de lá do Atlântico, para a recrutar para Alvalade.

A canadiana sabia bem a quem perguntar. Virou-se para João Almeida Rosa, então coordenador do scouting do clube, e questionou-o acerca da circunstância em que o seu jogo foi notado. O interlocutor respondeu-lhe que a descoberta se dera durante os campeonatos universitários norte-americanos. Só que algo não batia certo.

"Como assim? Se eu joguei tão mal, se a época me correu tão mal...?", retorquiu a adolescente. O diálogo é contado, à Tribuna Expresso, por João Almeida Rosa. Diz o algarvio, que entretanto saiu do Sporting, que Olivia estaria "à espera" que a resposta indicasse "as seleções jovens do Canadá" como a chave da contratação, já que, nesses encontros internacionais, a futebolista "marcava quatro golos por encontro a adversárias como Trinidade e Tobago" e outras equipas da CONCACAF.

Esta conversa encerra parte do mistério que, antes da aterragem de Smith em Portugal, inquietou João Almeida Rosa. O também antigo treinador-adjunto do Sporting, que durante este Europeu e ao longo do passado Mundial escreveu sobre adversárias de Portugal — e não só — na Tribuna Expresso, lembra que, quando viu a jovem pela primeira vez, ficou "convencido relativamente rápido".

"Chamou-nos muito a atenção a combinação de qualidades que ela tem e não são comuns na mesma jogadora. No mercado norte-americano é comum vermos boas atletas, e ela é muito boa atleta, mas junta a isso um nível técnico muito acima da média. Tinha tudo o que procurávamos: primeiro toque, muito forte no remate, cruzamento, executa de pé direito e pé esquerdo. Não menos importante, mostrava atitude competitiva muito acima da média, era intensa, tinha muita fome", descreve Almeida Rosa.

Um ano depois de chegar ao Sporting, Olivia Smith saiu para o Liverpool
Um ano depois de chegar ao Sporting, Olivia Smith saiu para o Liverpool
Gualter Fatia

A mistura de virtudes transportou, então, o observador para uma pergunta. “Se a miúda é tão boa como eu acho que é, não joga porquê?". Olivia até fora um fenómeno de precocidade no Canadá, estreando-se pela seleção principal aos 15 anos, a mais nova de sempre. Com formação dividida entre os North Toronto Nitros e os Super REX Ontario, a passagem para o futebol universitário a sul não lhe correu muito bem.

"O desafio não foi identificar as qualidades da Olivia, porque qualquer pessoa que olhasse para ela as notava. O desafio foi entender as razões para que não fosse titular na equipa universitária", recorda João Almeida Rosa.

Investigando, chegou-se a algumas conclusões. Uma lesão limitara a época da jogadora, com a agravante de, explica quem a recrutou, o calendário universitário ser muito compacto, "portanto se és baixa três semanas falhas muitos jogos". Além disso, nos States, a canadiana atuava como média-interior, enquanto a estrutura do Sporting a considerava uma extrema, com mais relação com o desequilíbrio e a baliza. Em suma, "ela não tinha muito rendimento, mas era claro que as características demonstravam que poderia chegar a um grande rendimento".

Respondida a questão que inquietava João Almeida Rosa, o Sporting avançou para a contratação. Seguiu-se uma história de enorme êxito: 16 golos e 10 assistências em 28 desafios em Portugal em 2023/24, o que valeu uma venda por €25 mil para o Liverpool, tornando a adolescente que meses antes não jogava na universidade na compra mais cara da história dos reds.

Em Inglaterra, Smith marcou nove golos em 25 jogos, apontando quase um terço dos 22 festejos do Liverpool no campeonato. Agora, a talentosa jovem vai para a história, de acordo com a imprensa britânica. O Arsenal, recém-sagrado campeão da Europa em Lisboa, está quase a gastar €1,16 milhões para a contratar, tornando canadiana a futebolista mais cara de sempre. Olivia bate os €940 mil da ida de Naomi Girma, em janeiro, dos San Diego Wave para o Chelsea.

Com apenas 15 anos, Olivia Smith tornou-se na jogadora mais jovem de sempre a representar a seleção A do Canadá
Com apenas 15 anos, Olivia Smith tornou-se na jogadora mais jovem de sempre a representar a seleção A do Canadá
Hector Vivas - FIFA

João Almeida Rosa não disfarça o "orgulho" pelo "trajeto" da ex-Sporting, mas retira-se dos louvores, porque "o fundamental é ela". "É muito ambiciosa, trabalhadora e humilde, toda a gente gosta dela. Adicionalmente, os pais são o que devem ser os pais de uma profissional", nota.

Para convencer, em 2023, uma promissora canadiana a cruzar o Atlântico, foi "apresentado" um "contexto" que seria "o ideal para a evolução", diz o interlocutor daquela conversa ao almoço. Explicou-se que seria importante "ter continuidade numa posição diferente", que o futebol seria "mais posicional e menos de transição", favorecendo o drible e o golo.

Sob a orientação de Mariana Cabral, prometeram-se "melhorias na tomada de decisão e entendimento do jogo", o que sucederia. "O Sporting é um clube que tem todas as condições para ser apelativo para este perfil de jogadora", resume Almeida Rosa.

Já 15 vezes internacional A pelo Canadá, a adaptação às exigências da liga inglesa foi plena. "Ficaria surpreendido era se ela não tivesse tido êxito", aponta o responsável pela vinda para a Europa sobre uma jogadora "rápida, forte a atacar o espaço, forte no um contra um, que gera permanentemente vantagens através do drible e com excelente capacidade de finalização".

“Se a miúda é tão boa como eu acho que é, não joga porquê?”: como Olivia Smith, a jogadora mais cara de sempre, foi descoberta pelo Sporting
Liverpool FC

“Um investimento, não um custo”

Os últimos anos levaram João Almeida Rosa a mergulhar profundamente no mundo da prospeção de talento no futebol feminino. As bases do trabalho, diz, são semelhantes ao que se faz no masculino, mas com a eterna questão dos orçamentos a trazer desafios. Há menos capacidade para ir ao vivo, há menos olhos para farejarem qualidade. No Sporting, o scouting do futebol profissional feminino estava a cargo de somente duas pessoas.

Com menor concorrência do que há no masculino, Almeida Rosa não duvida que a observação deve ser vista como "um investimento, não um custo". Essa aposta, assegura, tem "trazido frutos" a quem a faz, como se vê por Olivia, que trouxe muito rendimento desportivo e financeiro ao Sporting.

Nos principais torneios internacionais, jovens ou não, há cada vez mais olheiros procurando pérolas desconhecidas. Não se vê é muitos de clubes portugueses, assegura quem fala com conhecimento de causa.

Ainda assim, o campeonato nacional "tem tido cada vez mais jogadores vindas de fora, particularmente dos campeonatos universitários, o que é positivo", comenta Almeida Rosa, que dá os exemplos de Racing Power, Valadares, Damaiense, Torreense ou Marítimo.

"É preciso apostar no scouting e dar condições a quem trabalha na área de forma estruturada", sem ser "só o treinador que de vez em quando vê highlights", avisa o ex-Sporting. Há "outros mercados interessantes" além do universitário norte-americano, adverte.

Em dois anos, Olivia Smith passou dos bancos de suplentes na universidade para figurar em livros de recordes. Mas, apesar do incentivo à prospeção, quem a recrutou avisa: "Não há Olivias em cada esquina".

 

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