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Investigue-se: há uma árbitra a treinar no edifício da PJ. É Maria Heitor, a primeira portuguesa a apitar num Mundial de râguebi feminino

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Investigue-se: há uma árbitra a treinar no edifício da PJ. É Maria Heitor, a primeira portuguesa a apitar num Mundial de râguebi feminino

É em alturas como esta que “faz tudo sentido”. Maria Heitor é inspetora da PJ e também árbitra. Estará em Inglaterra, como assistente, no torneio que vem provar que “o râguebi feminino está a crescer muito”. Em entrevista à Tribuna Expresso antes de estar no jogo inaugural do Mundial, esta sexta-feira (19h20, Sport TV7), falou dos sacrifícios para chegar ali: “Valeu a pena aquele fim de semana em que andei a viajar em vez de passar a Páscoa em família.”

Soa a música para os ouvidos do Mundial de râguebi feminino falar-se em 375.000 bilhetes vendidos para a competição. O avultado número foi divulgado pela organização três dias antes do jogo inaugural, pelo que, quando Inglaterra e Estados Unidos derem o drop de saída, provavelmente carece de atualização. Ainda assim, os números alcançados são três vezes superiores aos registados na última edição, em 2021, na Nova Zelândia.

Inserida na funcionalidade de tocar a seguir está a maior assistência de sempre num jogo em que a bola oval é amarfanhada por mulheres. A convicção aponta para que as Red Roses possam estar na final, em Twickenham, na qual se esperam 82.000 pessoas (lotação já esgotada), mais do que as 66.000 que marcaram presença no primeiro dia do torneio de sevens dos Jogos Olímpicos de Paris.

A demanda nunca foi tanta. “O ambiente está ótimo. O país inteiro está cheio de cartazes e anúncios na televisão.” Maria Heitor, que já antes tinha sido pioneira ao apitar a final do campeonato masculino em Portugal, é os olhos da Tribuna Expresso na competição. Fala pouco depois de lhe ter sido entregue o apito para o arranque da prova por parte de uma atleta que fez, em cima da cadeira de rodas, uma ultramaratona em cada um dos últimos dez dias até chegar a Sunderland.

A árbitra vai “desfrutar” de ser a primeira portuguesa a integrar uma equipa de arbitragem num Mundial feminino. Começará a notar a “pressão positiva” que sente ao entrar em campo logo no jogo de abertura do torneio, no Stadium of Light, onde será assistente da sul-africana Aimee Barrett-Theron.

Inicialmente, era jogadora e árbitra em simultâneo. Deixou de jogar, em 2021, por acreditar que a arbitragem a podia levar mais longe?

Cheguei a um ponto na minha carreira enquanto jogadora em que já não havia muito mais para onde ir. Devido à idade e a já ter conquistado alguns títulos, não ia muito mais longe do que aquilo. Por motivos profissionais e porque a própria federação me trouxe o desafio de ser internacional, tive que me dedicar mais à arbitragem e deixar de jogar. Jogar é a melhor parte, mas não me trazia tanto desafio. A arbitragem podia-me trazer novas conquistas. Sou um bocadinho competitiva comigo mesma. Eram novas coisas para descobrir.

Mesmo como jogadora, foi pioneira ao ir dois anos para França.

Na altura, fui a primeira jogadora portuguesa a ir lá para fora. Tive sorte de, no ano em que fui para o Lille, termos sido campeãs nacionais. Depois, no segundo ano, perdemos a final contra o Montpellier. Acho que, no masculino e no feminino, ainda não houve ninguém a ganhar um campeonato lá fora. 

O que destacaria mais da carreira como jogadora? 

Ter jogado na seleção nacional durante quatro anos e termos conquistado a repescagem mundial olímpica. Ganhei alguns títulos no Sporting e no Benfica. Jogar nos dois grandes, em França e na seleção foram os pontos mais altos. Também ganhei duas Taças Ibéricas.

Após ter sido anunciada como parte do lote de árbitras do Mundial, o que se sucedeu em termos de preparação? 

Soubemos logo depois do torneio das Seis Nações, que foi o último casting antes do Mundial. O torneio correu-me bem. Na primeira semana de maio, cada uma de nós recebeu um telefonema a dizer se tínhamos sido escolhidas ou não. A partir daí, treinámos todas juntas em Portugal, durante uma semana, em junho, para preparar o grupo escolhido. Entre julho e agosto, fiz três jogos de preparação. Depois, viemos uma semana mais cedo para Inglaterra para estarmos todas calibradas e com a mesma linha de pensamento.

Um árbitro também percebe logo quando o jogo lhe corre bem ou é só depois, através do feedback

Sou um bocadinho negativa. Por norma, acho que os jogos me correram sempre mal. Após o jogo, temos sempre que o analisar e aí percebo que não correu assim tão mal. Se calhar, sou demasiado exigente comigo. Vemos o jogo em câmara lenta, uma, duas, três vezes, as que forem precisas, para percebermos onde é que estivemos bem e onde é que estivemos mal. Os jogos são sempre analisados e debatidos com a equipa de arbitragem e com os nossos coaches e selectors.

Como é essa relação com os "treinadores de árbitros"? 

Eles estão a viver isto connosco aqui também. É uma relação muito próxima para preparar o jogo e para o analisar. 

As Red Roses (seleção inglesa) a treinarem no Stadium of Light, em Sunderland, antes do jogo inaugural do Mundial
As Red Roses (seleção inglesa) a treinarem no Stadium of Light, em Sunderland, antes do jogo inaugural do Mundial
Stu Forster

Um árbitro também estabelece objetivos quando chega a um Mundial? 

Claro que sim. Todos os árbitros querem apitar a final, mas só o melhor é que o vai fazer. Também depende da nacionalidade, o que é sempre uma condicionante neste tipo de competições. Podemos ter a melhor árbitra, mas se o seu país vai jogar a final, ela já não a pode apitar.

O trabalho de um árbitro é muito minucioso e envolve mais do que o jogo em si. Como é que se concilia a exigência com uma carreira como inspetora da PJ? 

Com muita organização. Não dá para estar sempre presente nos convívios familiares ou com os amigos. Entre casamentos, nascimentos, perdemos muita coisa. Claro que estar aqui no Campeonato do Mundo compensa isso tudo. Tem que ser uma vida muito organizada. Treino antes do trabalho, às 7h, ou à hora de almoço. Tenho a sorte de, neste momento, ter o ginásio dentro do edifício, o que me ajuda muito a poupar tempo. Uma vez ou outra por semana também treino num campo de râguebi ou no Jamor. São treinos mais específicos. Por norma, consigo fazer 60% ou 70% dos meus treinos dentro do edifício da PJ, porque temos lá um ginásio que dá para muitas coisas. 

No trabalho, entendem a ginástica de horários que precisa de fazer? 

Sabem perfeitamente. São dos maiores apoiantes que tenho. Já recebi várias mensagens deles a desejar boa sorte e a dizer que vão estar a ver o jogo. A ajuda deles é essencial. 

Precisou de tirar férias para estar no Mundial?

Tenho a sorte de ter o estatuto de alta competição do IPDJ. Isso permite-me ter falta justificada. São cinco semanas, não temos cinco semanas de férias. Durante uns anos, quando trabalhava por turnos, fazia trocas para não ter que pôr o estatuto. Neste caso, é muito tempo seguido. Para o torneio das Seis Nações, ainda usei umas férias.

Sentiu que o esforço compensou quando foi chamada para o Mundial?

Compensa tudo quando sabemos que conseguimos atingir o topo. O Mundial é o torneio em que toda a gente quer participar. Muitas colegas, que também faziam vários sacrifícios, acabaram por ficar para trás. É uma compensação, porque valeu a pena faltar àquele evento, valeu a pena aquele treino extra, valeu a pena aquele fim de semana em que andei a viajar entre o País de Gales e Inglaterra para fazer dois jogos das Seis Nações em vez de estar a passar a Páscoa em família. Tudo vale a pena. Neste momento, faz tudo sentido. 

É um Mundial que quer quebrar barreiras. Como está o ambiente por aí? 

O ambiente está ótimo. O país inteiro está cheio de cartazes e anúncios na televisão. Vai ser o Mundial com mais bilhetes vendidos de sempre. O estádio de Twickenham já está esgotado para a final. Em Sunderland, estamos num hotel à volta do estádio e temos uma fanzone com música, com diversões, com imensas coisas. É outra dimensão. Faço o jogo em Sunderland e, no dia a seguir, temos que estar em Exeter para fazermos o França-Itália. Os dois assistentes e o TMO fazem dois jogos por fim de semana. 

Quais são as expectativas para o jogo de abertura, entre Inglaterra e Estados Unidos? Também consegue desfrutar? 

Claro que dá para desfrutar. Vai ser um jogo muito intenso. São duas seleções fortes. Vai ser um jogo muito giro, com o estádio cheio. São esses os jogos que nos dão mais gosto arbitrar. É uma pressão positiva. O râguebi feminino está a crescer muito e este Mundial é uma prova disso.

 

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