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Todos festejam o Halloween: a festa foi importada dos EUA, mas as tradições portuguesas também a estão a influenciar

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Todos festejam o Halloween: a festa foi importada dos EUA, mas as tradições portuguesas também a estão a influenciar

Implantou-se graças aos programas de televisão norte-americanos, mas as suas raízes (o culto dos mortos, a colheita e o convívio) sempre fizeram parte da cultura nacional. Eis uma viagem histórica pela festa que as gerações mais jovens já não dispensam

Até há poucos anos, o 31 de outubro em Portugal era meramente a véspera do Dia de Todos os Santos, celebrado a 1 de novembro. Tradicionalmente, as famílias portuguesas reservavam (e ainda o fazem) este período para recordar os mortos, visitar cemitérios e acender velas em memória dos entes queridos. Porém, a abrangência do Halloween (uma contracção de "All Hallows Eve", cujo significado é "Véspera de Todos os Santos", também conhecido como dia das bruxas) já rivaliza ou supera mesmo esses rituais mais antigos: outrora visto como uma curiosidade estrangeira, foi sendo gradualmente apropriado e reinventado pelas novas gerações, sobretudo entre os mais jovens e nas áreas urbanas.

Artur Santos, professor universitário e investigador do património, explica ao Expresso que há uma globalização cultural que foi colocando o Halloween no calendário: Tudo começou com a influência do cinema e da televisão norte-americana, sobretudo a partir do período da Guerra Fria. Nessa altura, Portugal começou a dar os primeiros passos para criar uma cultura própria de celebração, inspirando-se em tradições estrangeiras que chegavam através dos ecrãs.”

Segundo o investigador, o contacto com este imaginário foi sendo construído de forma gradual: “Foram sobretudo os filmes clássicos da Disney, mais tarde séries icónicas como "Os Simpsons" ou "Os Marretas", que introduziram no público português a estética e o espírito do Halloween — as abóboras, as máscaras, o humor macabro e o jogo entre o medo e a diversão. A televisão teve aqui um papel fundamental na tradução simbólica dessa festa, transformando-a num fenómeno global que Portugal acabou por adotar à sua maneira”.

Esta “importação cultural”, no entanto, não se fez de forma direta nem imediata, mas antes através de um processo de apropriação e reinterpretação. “O que aconteceu não foi uma simples cópia do Halloween americano, mas uma fusão com tradições locais - como o pão por Deus -, que, embora diferentes na origem, partilham a mesma lógica de visita, oferta e ritual comunitário. É nesse cruzamento que nasce a versão portuguesa contemporânea do Halloween.”

As escolas, um "terreno fértil" para o dia das bruxas

Outra influência decisiva, segundo Artur Santos, vem das escolas. “Graças às festas - semelhantes às que temos no Carnaval - e à presença da disciplina de Inglês, o Halloween encontrou terreno fértil para se manter vivo e, aos poucos, tornar-se parte das nossas tradições escolares”, explica o investigador. “A escola funcionou como um espaço de mediação cultural, onde o contacto com a língua e os costumes anglo-saxónicos facilitou a integração da festa no quotidiano das crianças”, detalha.

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, confirma essa transformação. Destaca que o Halloween é especialmente popular entre os alunos do primeiro ciclo:

“É uma data muito celebrada nas escolas básicas. Nos anos seguintes, os alunos continuam a pedir festas ou a autorização para se mascararem. No agrupamento que dirijo, por exemplo, a associação de pais vai organizar a tradicional festa de Halloween no dia 31 de outubro”, conta ao Expresso.

A adesão crescente, aponta, deve-se, em grande parte, ao entusiasmo das famílias: “Hoje em dia são sobretudo os pais que incentivam estes momentos e a escola acaba por apoiar. Muitos deles procuram oferecer aos filhos experiências que não tiveram na infância - uma noite diferente, com partilha, fantasia e alegria - e nós, enquanto diretores, devemos contribuir para que essas situações se realizem de forma positiva e educativa.”

O responsável reforça ainda que o Halloween, mais do que uma simples festa importada, se tornou um espaço de convivência e criatividade dentro da comunidade escolar: “É uma oportunidade de aprendizagem informal. As crianças exploram o vocabulário em inglês, participam em atividades artísticas e, acima de tudo, vivem um momento de integração e expressão cultural.”

Os magustos e o pão por Deus

Para Artur Santos, é importante distinguir entre o que é uma tradição enraizada e o que é uma festa de adoção recente. Não podemos chamar ao Halloween uma tradição portuguesa, mas sim uma festa. Faz parte da humanidade celebrar, nós precisamos de festas. Já no início do século XX tínhamos o magusto, que, para mim enquanto investigador, é o verdadeiro Halloween português”, afirma.

O magusto, celebrado a 11 de novembro, coincide com o Dia de São Martinho e marca o fim da época dos frutos de outono, especialmente da castanha.

“Enquanto no Halloween se acendem abóboras e se evocam espíritos, no magusto reunia-se a família e os amigos à volta da fogueira, assavam-se as últimas castanhas, provava-se o vinho novo das vindimas e celebrava-se a abundância antes da chegada do inverno. A fogueira, chamada de fogo de São Martinho, simbolizava o calor humano e a partilha — elementos muito próximos do sentido comunitário que encontramos nas festas populares”, explica Santos.

Magusto

Magusto

Contudo, o investigador lembra que existe outra celebração portuguesa, também muito próxima do Halloween em termos de calendário e de espírito. o pão por Deus. Celebrado a 1 de novembro, Dia de Todos os Santos, esta tradição incentiva as crianças a ir de porta em porta para pedir pão, bolos, frutos secos e doces — uma prática que, à primeira vista, se assemelha ao famoso trick or treat_ norte-americano.

O pão por Deus tem origem num antigo ritual do século XV associado ao culto dos mortos, em que se partilhavam alimentos como forma de pedir pelas almas dos falecidos. Depois do terramoto de 1755, a tradição ganhou novo fôlego, quando a população mais pobre de Lisboa começou a pedir esmolas em nome de Deus e das almas.

Atualmente, o pão por Deus continua a ser celebrado em várias regiões do país, sobretudo nas zonas rurais, e preserva o seu tom mais familiar e religioso. Em vez das travessuras do Halloween, as crianças recitam versos tradicionais como:

“Pão por Deus, fiel de Deus, Bolinho no saco, andai com Deus.”

O investigador Artur Santos conclui que, embora o Halloween tenha sido adotado e reinventado em Portugal, as suas raízes simbólicas — o culto dos mortos, a colheita, a partilha e o convívio — sempre fizeram parte da cultura portuguesa.

Vilar de Perdizes, onde as bruxas são de origem portuguesa

De norte a sul do país, as celebrações assumem formas muito distintas. Artur Santos destaca essa diversidade e o contraste entre o meio urbano e o rural: “O Halloween, enquanto produto de consumo, tem uma componente claramente urbana. Ganha força nas grandes cidades, onde o comércio, as escolas e as redes sociais promovem o imaginário norte-americano. Já no interior, o movimento é inverso: procura-se resistir a essa influência e preservar as tradições locais, sobretudo o espírito do magusto, que mantém viva a identidade comunitária”, explica o investigador.

Um dos exemplos mais marcantes dessa preservação cultural é a Noite das Bruxas de Vilar de Perdizes, uma pequena aldeia de Montalegre, situada no extremo norte e interior de Portugal, junto à fronteira com Espanha.

Neste local, o Halloween ganha um significado muito diferente do modelo globalizado. O evento, profundamente simbólico e ritualizado, combina o sagrado e o profano, a superstição e a religiosidade popular.

Durante a celebração, tochas são acesas e as “bruxas” dançam à sua volta, num espetáculo que mistura teatro, mito e tradição oral. O momento culmina quando o padre da paróquia apaga as tochas e as lança numa grande fogueira — um gesto que, segundo os habitantes, serve para afastar os males e purificar o espírito da comunidade.

“Em Vilar de Perdizes, o Halloween não é uma festa importada, mas sim uma reinvenção das antigas crenças populares. Aqui, o fogo é um elemento de limpeza e de renovação. É um ritual de continuidade com o passado”, explica Santos.

Embora este ritual também se realize nas sextas-feiras 13, é na noite de 31 de outubro que ganha a sua expressão mais intensa, respeitando o ciclo simbólico do outono e reforçando o elo entre o mundo visível e o invisível.

Noite das Bruxas

Noite das Bruxas

As raízes irlandesas

A tradição portuguesa tem assim uma construção própria, mas o Halloween propriamente dito tem as suas origens na Irlanda, nas antigas celebrações celtas do festival de Samhain, que marcava o fim das colheitas e o início do inverno — a estação mais escura e fria do ano.

Os celtas acreditavam que, na noite de 31 de outubro, o véu entre o mundo dos vivos e o dos mortos se tornava mais fino, permitindo que os espíritos regressassem à Terra. Para afastar as almas malignas e proteger as aldeias, acendiam-se fogueiras e usavam-se disfarces feitos de peles e máscaras grotescas, num ritual de proteção e comunhão com os antepassados.

Com o passar dos séculos, e com a expansão do cristianismo pela Europa, esta celebração pagã foi sendo adaptada. A Igreja Católica procurou cristianizar os costumes populares e instituiu o Dia de Todos os Santos, a 1 de novembro, como forma de integrar e dar novo significado ao antigo festival. Assim, a noite anterior ficou conhecida como “All Hallows’ Eve” — a Véspera de Todos os Santos —, expressão que, com o tempo, se contraiu até formar a palavra Halloween. Ou seja, afinal até foi o catolicismo a moldar as raízes pagãs, e não o contrário.

A tradição viajou depois com os imigrantes irlandeses e escoceses para os Estados Unidos, onde ganhou novas formas e uma dimensão mais festiva e comercial. Lá, consolidaram-se práticas como o “trick or treat”, as abóboras esculpidas (inspiradas na lenda de Jack O’Lantern) e as fantasias temáticas, que acabaram por se tornar ícones globais, pela crescente presença nos meios de comunicação e, nos últimos anos, nas redes sociais.

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