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Portugal é o que os outros querem ser

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Portugal é o que os outros querem ser

Futsal. Apesar da derrota na final do Europeu, a seleção nacional mantém o estatuto de potência, mas o mundo está empenhado em aproximar-se

Desde que, em 2018, se estreou a vencer torneios internacionais, Portugal não deixou nada para ninguém. Começou por usurpar um Europeu. Continuou a coletânea com um Mundial (2021). Depois, renovou o título continental (2022). Nesse mesmo ano, para fechar a deglutição de conquistas, não perdeu a oportunidade de juntar um extra, a Finalíssima (2022).

A varridela de logros chegou ao fim. Em Liubliana, onde o sucesso começou, a seleção nacional deu folga à sua melhor versão. Oito anos depois de, no mesmo pavilhão, a equipa treinada por Jorge Braz ter festejado um troféu pela primeira vez, Portugal perdeu a final do Euro 2026 contra a Espanha (3-5).

O desaire não causou danos reputacionais ao estatuto de potência. Os especialistas ouvidos pelo Expresso dizem que, tal como Portugal, um dia, quis ser como Espanha e Brasil, agora é o mundo que quer ser como Portugal. Até Jorge Braz despistou sinais de crise: “Não é por sermos ‘vices’ que agora ‘ui, Portugal…’ Não, não. Portugal continua a disputar as oportunidades para ganhar títulos. Não conseguimos, siga, é levantar a cabeça. Há duas taças que já não fazem parte de nós, mas queremos que, no futuro, façam.”

O plantel que ganhou o Euro 2018 tem características semelhantes ao que ficou no 2º lugar do Euro 2026. A média de idades, inclusive, desceu de 30,09 para 29,07. A suave renovação manteve apenas André Coelho, Tiago Brito, Bruno Coelho e Pany Varela na seleção durante o intervalo entre as duas provas. Para os próximos tempos, é possível contar com duas gerações de campeões europeus de sub-19 para mais retoques. Lúcio Rocha, de 22 anos, encabeça o grupo de jovens bem-sucedidos na formação. Neste momento, segundo dados da Federação Portuguesa de Futebol, o número de praticantes (40.322, em 2024/25) está em níveis recorde. Em 2018/19, eram apenas 31.355.

Evolução do número de praticantes de futsal em Portugal


A falsa profissionalização

João Almeida diz “boa noite” à hora em que o saudamos com um “boa tarde”. Conta com passagens por Bahrein, Líbano, Inglaterra e Indonésia, dividindo as incumbências entre clubes e seleções. A panóplia de experiências em contextos distintos e a visão distanciada cativa o impulso para um contacto telefónico apesar da diferença horária entre Lisboa e Malásia, onde atualmente é treinador do clube detido pela família real do país, o Johor FC.

A final frente aos vizinhos ibéricos ainda é um assunto fresco. “Era aquele Europeu que eu sempre pensei que estava na mão”, admite o técnico de 39 anos, natural de Coimbra, que esperava que Portugal obtivesse um resultado melhor do que o 2º lugar. No entanto, se alguém podia superar a equipa nacional, era a Espanha, outro dos membros do G3 do futsal. “São o único país na Europa capaz de fazer frente a Portugal, tal como só Portugal é que lhes faz frente. A nível mundial, acrescentaria apenas o Brasil.”

Nesta assembleia de superforças, cada representante tem diferentes valências. Devido à sua imensa população, o Brasil usufrui de uma “grande variabilidade de jogadores”, embora fique a perder na “estruturação dos quadros competitivos”, assunto em que a Península Ibérica está “anos-luz” à frente. Portugal lidera em termos de “inovação”. “Temos os melhores treinadores do mundo”, enaltece João Almeida. Espanha conta com uma “liga muito competitiva”.

É em relação ao nível do campeonato que mais caminho existe para percorrer. Portugal vive “na ilusão de que somos das melhores ligas do mundo” e de “achar que nos profissionalizámos”, condena alguém que não vê “acompanhamento financeiro” condizente com o trabalho de topo. “Em termos de ordenados, por exemplo, os jogadores e os treinadores são mal pagos. A Polónia paga mais que Portugal. Em Espanha, o Ribera Navarra, que está em último lugar, quase condenado à descida, paga mais que o SC Braga e tem melhores condições no dia a dia.”

Europa ainda tem muito por dar

O ranking FIFA aprova Brasil (1.º), Portugal (2.º) e Espanha (3.º) como forças dominadoras do futsal. O top 10 sente falta de quatro bandeiras – Inglaterra (84º), Países Baixos (29º), Bélgica (34º) e Alemanha (48º) — presentes nas posições cimeiras da lista homóloga que ordena as melhores seleções de futebol.

Heinz-Peter Effing já esteve em Portugal duas vezes. Para o jornalista alemão que se empenha no blogue “Futsal Germany”, o país de Ricardinho é um “exemplo a seguir”. Lamenta que, na nação quatro vezes campeã do mundo de futebol, não exista “conhecimento sobre futsal” e que o dinheiro seja insuficiente para um investimento sério na modalidade da bola que pouco salta.

Jorge Braz já era selecionador há seis anos e levava Portugal a fases adiantadas de Europeus e Mundiais quando, em 2016, a Alemanha se estreou no futsal. “Precisamos de nos qualificar para um Europeu, mas continua a ser difícil. Uma boa maneira de o conseguirmos seria recebermos a competição”, propõe Heinz-Peter Effing. Desde 2021, a federação alemã encarregou-se de organizar a Futsal Bundesliga, um campeonato de dez equipas. Existem também cinco campeonatos regionais.

Na véspera de Portugal disputar a final do Euro, a Alemanha realizou um jogo amigável contra a Inglaterra. Com uma vitória por 3-1, os germânicos confirmaram que, apesar do atraso, estão muito à frente dos adversários que encontraram em Estugarda. Os ingleses conseguem a proeza de ter Vanuatu, Curaçau ou Nova Caledónia (juntos não conseguem ter um milhão de habitantes) à sua frente no ranking.

Ainda está por ser inventado uma modalidade de pavilhão que agrade aos ingleses. O netball vai dominando entre as modalidades indoor, fenómeno com prejuízo indireto para o futsal. João Almeida fez parte da equipa técnica da seleção dos Três Leões e acha que os criadores do futebol não se vão converter assim tão rápido. “Em Inglaterra há poucos pavilhões que permitam que se jogue futsal, porque a modalidade de pavilhão que faz parte da cultura é o netball, jogado num campo mais reduzido. As escolas e as universidades não têm um pavilhão como estamos acostumados em Portugal.”

A federação inglesa, a “mais rica do mundo”, chegou a interessar-se pelo futsal. Por mais rudimentar que possa parecer, estavam orçamentadas algumas tendas para serem colocadas em pontos estratégicos e difundir a prática. A covid-19 veio desorientar os planos e, explica o treinador, “a federação acabou por utilizar a pandemia como desculpa para cancelar toda a situação” e até a seleção acabou, tendo voltado em 2024 num “regime privado” – a federação cede o nome e os direitos desportivos e “há uma empresa que gere toda a liga e a seleção”.

Num país em que o futsal é visto apenas “como uma ferramenta de desenvolvimento do futebol”, os grandes clubes não o ignoram por completo. Porém, nota João Almeida, o interesse não é suficientemente grande para autonomizarem a modalidade. “A Premier League tem ligas de futsal durante o inverno para crianças entre os 8 e os 14 anos. Temos Manchester City, Arsenal, Manchester United, os melhores clubes ingleses. É pena que não continuem.”

França, Polónia — países que bateram o pé a Portugal no Euro — e Croácia são casos de maior afinco no tratamento dado ao futsal. Os gauleses, em particular, são “a federação que mais está a investir”. A disponibilidade financeira identificada por João Almeida refletiu-se num crescimento repentino. Até 2018, os franceses nunca tinham estado numa grande competição e, mesmo com pouco historial, conquistaram um 4º lugar na estreia em Mundiais (2024). O resultado foi repetido no Euro 2026.

Um português para ajudar 
onde quer que seja

Quando estava na Indonésia, a treinar o Unggul FC, João Almeida tinha entre três a quatro mil pessoas a assistir aos jogos de uma liga que, “em termos de competitividade, é capaz de ser das melhores”. O Líbano, mesmo condicionado pelos conflitos na região, é “dos países na Ásia mais estabilizados em termos de quadros competitivos”. O futsal germina e parece existir sempre um português a regar as sementes nos sítios mais recônditos.

Marcos Antunes conversa com o Expresso pouco depois de ter aterrado no Porto. Após escalas no Cairo e em Istambul, regressou da Namíbia, onde é selecionador. Nos primeiros 25 dias no cargo andou por 14 países e pôs-se a par de como vai evoluindo o futsal. Por ter apresentado trabalho em África, continente que conheceu em 2020 quando começou a trabalhar na seleção de Angola, tem sido convidado pela FIFA para instruir os treinadores locais em cursos criados para esse efeito. Também fez parte do grupo técnico da CAN feminina e, por isso, está habituado a pensar o futsal além da quadra.

Se não estivesse empregado, não teria dificuldade em arranjar uma nova ocupação. Basta apenas mostrar o cartão de cidadão. “Quando sabem que sou português, toda a gente me pergunta qual é a minha disponibilidade para assumir um cargo qualquer ou se posso indicar alguém”, confessa o treinador de 49 anos. Dos portugueses espera-se uma “nova visão sobre a modalidade” e “capacidade de organizar projetos”.

O técnico que levou os Palancas Negras à final da CAN 2024 também reconhece na “ação direta” da FIFA parte da responsabilidade pela globalização do jogo. As federações vão-se sentido “pressionadas” a não descurarem o futsal e a evolução acontece. Há dois anos, no último Mundial, marcaram presença sete países que nunca tinham jogado num Mundial de futebol: Tajiquistão, Venezuela, Líbia, Cazaquistão, Afeganistão, Tailândia e Uzbequistão. Quatro deles foram além da fase de grupos.

A FIFA atribuiu cerca de €12,6 milhões ao Uzbequistão pela organização do Mundial 2024, valor que também já tinha deixado na Lituânia, em 2021, e ligeiramente acima dos €10 milhões transferidos para a Colômbia, em 2016. Adicionalmente, desde 2024, está em curso um investimento a rondar os €24 milhões em projetos relacionados com a modalidade.

O futsal está em todas as entranhas do mundo. “Os países começam a perceber que é muito mais fácil conquistar um título grande no futsal do que no futebol e canalizam todos os esforços para o futsal”, analisa Marcos Antunes. Primeiro, terão que destronar Portugal e os vizinhos do topo. “A derrota na final do Euro foi só um jogo, não é uma quebra do domínio. Continuarei a defender que o processo será sempre muito mais importante que o resultado final.”

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