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O cérebro dos campeões do fim do mundo

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O cérebro dos campeões do fim do mundo

Suécia. O Mjällby, clube de uma aldeia de 1400 habitantes, ganhou a liga. Entrevista a Karl Marius Aksum, o treinador, doutorado em perceção visual

Em janeiro de 2024, o Mjällby Allmänna Idrottsförening era um modesto clube sueco, que subira da segunda divisão em 2019 e ficara em décimo na derradeira edição da primeira liga. Nesse mesmo mês, Karl Marius Aksum era um estudio­so do futebol, mas jamais exercera a função de treinador a nível sénior.

Janeiro de 2024 não foi há muito tempo. O Mjällby, na altura, jamais ficara entre os três primeiros da Allsvenskan, o principal campeonato sueco, e tinha por hábito ir ao patamar secundário da pirâmide, lá competindo entre 2005 e 2009, em 2015 e em 2019. Karl Marius Aksum, doutorado em perceção visual, dava palestras sobre scanning, a arte de um futebolista mover o pescoço de modo a mapear as suas redondezas em campo, ao mesmo tempo que, silenciosamente, apura o seu modelo de jogo.


 


 

Janeiro de 2024 não foi há muito tempo? Bem, talvez até tenha sido. Passados 23 meses, o Mjällby é campeão, chocando a Europa com uma caminhada para a glória em 2025, alcançada com 75 pontos, um recorde. Karl Marius Aksum era o técnico adjunto durante a derradeira campanha, mas todos no clube o identificam como o cérebro por detrás do êxito, o criador da filosofia do coletivo. A sua entrada para assistente em janeiro de 2024 revolucionou o Mjällby. É, agora, o responsável máximo pela equipa.

O Mjällby parece um belo conto de fadas. Vem de Hällevik, uma terra de pescadores com meros 1400 habitantes a mais de 500 quilómetros de Estocolmo, e protagonizou uma ascensão vertiginosa na Suécia. É comum haver um toque de humildade neste tipo de histórias, de afirmação do pequeno que se esforçou e contrariou as probabilidades, do herói improvável. Mas não há propriamente modéstia nas palavras de Aksum.

“Eu tenho um grande background, sei sobre muitos temas diferentes que são importantes para um clube”; “A minha competência é muito elevada, sobretudo nas áreas em torno do jogo. Mergulhei profundamente no estudo do futebol durante 10 ou 12 anos, analisando mesmo os jogos e criando do zero o meu modelo. Nunca me senti menos competente que ninguém, na verdade é o oposto.” Não há falta de confiança em Karl Marius Aksum.

Sem experiência no futebol profissional até chegar ao Mjällby, nesse tal janeiro de 2024 que não foi assim há tanto tempo mas até foi, é legítimo questionar se Aksum, um académico, viu as suas teorias terem de ser desmentidas pela experiência prática. Bem, não, porque os princípios que criou “foram pensados ao longo de muito tempo de análise” e testados “com êxito” no comando dos sub-19 do clube.

A revolta da aldeia

Este conto de fadas não tem modéstia nem humildade subserviente. Não tem quem peça licença para ganhar. Mas podemos ensaiar outros elementos desse tipo de histórias.

Era uma vez, numa terra muito distante, o Mjällby. “Viras à direita na estrada onde a terra acaba e o mar começa e está lá Strandvallen”, escreveu, nas redes sociais, um adepto de uma equipa que visitou o estádio dos campeões. A casa do emblema sueco localiza-se numa aldeia de pescadores, na costa do Báltico virada para a Polónia.

Sem ter trabalhado no futebol sénior até 2024, Karl Aksum revolucionou o treino e o jogo do pequeno Mjällby

A passada década do futebol sueco fora dominada pelo Malmö, campeão seis vezes desde 2015, quatro delas nas cinco temporadas antes de 2025. Os restantes vencedores recentes — Häcken, Djurgårdens, AIK — são das três maiores áreas metropolitanas, Estocolmo, Gotemburgo e Malmö. O Norrköping, vencedor em 2015, desafiou esta predominância, mas, com 163 mil habitantes, é gigante ao lado de Hällevik.

Para contrariar a lógica e levar a liga para o seu pequeno território, o Mjällby juntou Karl Marius Aksum, que orientava os sub-19 e passou a adjunto na equipa principal de Anders Torstensson, treinador a quem, em agosto de 2024, foi diagnosticada uma leucemia linfocítica crónica. Após o título, Torstensson passou a diretor técnico. O protagonismo é, agora, todo de Aksum, ainda que o próprio diga que o trabalho não mudou substancialmente: “Continua a ser o meu modelo de treino, o meu modelo de jogo.”

A transformação

O futebol do Mjällby era, até janeiro de 2024, baseado no contra-ataque, num estilo direto, de pouca posse, com uma grande aposta nas bolas paradas. Mas chegou o novo cérebro e “tudo mudou completamente”.

Karl Marius Aksum quer ter controlo nas partidas. Para isso, acredita em criar nos treinos “o máximo de situações semelhantes” às que haverá nos jogos. Como tal, não preconiza a realização de exercícios em pequenas parcelas do campo ou com poucos futebolistas. Quase tudo é “11 contra 11, em jogo corrido e no relvado inteiro”, para “colocar os jogadores em problemas específicos 100 vezes por semana”, explica.

O grande mantra do treinador é “repetir sem repetição”: “Se fazes um exercício em que A passa para B e este para C, isso é repetição e repetição. Se treinas ataque contra bloco baixo, 11 contra 11, e o fazes 10 vezes, isso é repetir sem repetição, porque cada repetição é diferente, eles têm de encontrar sempre uma solução distinta”, sublinha Aksum.

Pleno de autoestima, o treinador diz que são precisos cerca de seis meses para o seu ideário dar resultados. Em 2024, o Mjällby somou quatro derrotas nas primeiras 11 jornadas. Mas o tempo deu razão à teoria: a equipa só perdeu um dos derradeiros 13 desafios, acabando no quinto lugar, a quatro pontos do segundo, um crescimento considerável para quem vinha de terminar duas vezes em nono e uma em décimo.

Pegando no exemplo da equipa da moda da vizinha Noruega, Aksum realça a importância do “trabalho em continuidade”, uma virtude “evidente no Bodø/Glimt” e também existente no seu projeto. De 2024 para 2025, apenas dois dos 11 jogadores mais utilizados saíram. O plantel é predominantemente sueco, com nove dos titulares da campanha que levou ao título, ao passo que o toque exótico é dado pelo internacional paquistanês, nascido em Copenhaga, Abdullah Iqbal, e por Abdoulie Manneh, da Gâmbia.

“Vitinha possui o nível mais elevado de scanning que já vi”, diz o técnico do Mjällby sobre o médio português

Recorde de pontos. Apenas uma derrota em toda a liga. Uns enormes 13 pontos de vantagem para o segundo. Uma segunda metade de época arrasadora, com 14 vitórias e dois empates nas últimas 16 jornadas e somente dois golos encaixados na dezena definitiva de compromissos.

O milagre que se vinha forjando surgiu em todo o esplendor em 2025. Foi aí que o Mjällby atingiu o “ponto ótimo” de interpretação do pensamento do seu ideólogo, que não acredita num futebol de “padrões”, mas sim de “princípios” — cerca de 300 —, que, depois de ensinados aos jogadores, os “levem a decidir por eles próprios”.

Karl Marius Aksum desconfia do futuro idealizado por Luis Enrique, que antevê um futebol em que o treinador, sentado na bancada, vá dando instruções em tempo real e através de um qualquer intercomunicador: “Nós não vemos o que eles estão a ver. Pode-se tentar usar os futebolistas como se isto fosse um videojogo, mas isso é impossível e errado”, sustenta o sueco, de 36 anos.

O mestre Vitinha

Quem seguir o técnico nas redes sociais notará que tem uma frequente atividade, partilhando conceitos, ideias e pensamentos sobre equipas. O agora responsável máximo pelo Mjällby acredita numa “cultura de partilha”, que só não é mais profunda porque “não é correto para com o clube” contar demasiados segredos. “A maior parte das ideias são roubadas, eu adaptei-as e fi-las minhas”, revela.

Parte dos conteúdos que Karl divulga está relacionado com o seu muito estudado scanning. O que é? O doutorado em perceção visual detalha: “Sucede sempre que um jogador não está a olhar para a bola, mas sim a mirar em redor para reunir informação, percebendo onde estão os colegas, os adversários, o espaço...”

Da pesquisa académica que rea­lizou, Xavi Hernández tinha “os números mais altos de sempre” de scanning, fazia-o mais frequentemente que qualquer outro jogador. Mas, atualmente, há um português acima do catalão. “Vitinha possui o nível mais elevado de scanning que já vi. Fá-lo melhor que Xavi, porque o jogo está mais rápido e ele olha em redor em movimento, em velocidade, conduz a bola e descobre espaços enquanto olha para todo o lado.”

Talvez o Mjällby defronte o Paris Saint-Germain de Vitinha na próxima Liga dos Campeões. O seu objetivo para este verão é chegar à fase de liga de uma das três competições europeias. Teremos um novo Bodø? “Claro que é uma grande inspiração para nós, mas seria estúpido dizer que faremos algo semelhante, porque o que o Bodø está a fazer é inédito. Mas podemos sempre sonhar.”

NÚMEROS

0

experiência no futebol sénior tinha Karl Marius Aksum até janeiro de 2024. Antes de chegar à equipa principal do Mjällby, nunca treinara a nível profissional


9

suecos no onze titular faziam parte da equipa mais utilizada na época que levou ao título — era predominantemente nacional


75

foi o número de pontos com que o Mjällby ganhou a liga sueca em 2025, um registo recorde

 

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