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Noruega.O segredo não está só na neve e no dinheiro

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O segredo não está só na neve e no dinheiro

Noruega. O modelo desportivo do país é um êxito. As razões? Cultura de vida ativa, foco na inclusão e rejeição da especialização precoce

Pouco antes de Erling Haaland estrear-se, com 15 anos, a nível sénior pelo Bryne, o adolescente ainda fazia parte de uma equipa cujo único critério de entrada era querer jogar futebol na pequena cidade localizada a mais de 500 quilómetros de Oslo. Eram 39 rapazes e uma rapariga, um grupo que se foi mantendo junto com o passar dos anos, sem haver desistências ou dispensas por não se ser suficientemente bom.

O caso do Bota de Ouro de 2022/23 ilustra o “compromisso” manifestado por Lars Audun Granly, diretor-geral do departamento da sociedade civil e desporto do ministério da cultura e igualdade do reino nórdico: “A nossa filosofia essencial é o desporto para todos, é garantir que todas as crianças têm acesso a praticar desporto nas suas comunidades locais”, num ambiente de “alegria, inclusão e desenvolvimento de longo prazo” em vez de “competição precoce”.

Os princípios do desporto jovem norueguês estão vertidos no barneidrettsbestemmelser, ou “indicações para o desporto de crianças”, explica Lars Audun Granly ao Expresso. O documento determina que, para criar a tal atmosfera aberta a todos, não se registem resultados, classificações ou qualquer tipo de ranking em provas até aos 12 anos. “O objetivo é ter a maior base de praticantes possível, que joguem por diversão, e que não deixem a atividade.”

Como resume Geir Jordet, professor na escola norueguesa de ciências do desporto, o país de 5,7 milhões de habitantes “não se pode dar ao luxo de desperdiçar talento.” É, também, essa a lógica de incentivar a prática de mais de uma modalidade em simultâneo, experimentando diferentes atividades. Haaland praticou andebol, atletismo e golfe; Jakob Ingebrigtsen, craque do atletismo, fez esqui de fundo e futebol; Johannes Høsflot Klæbo, 11 vezes campeão olímpico, não sabia, aos 16 anos, se ia centrar-se no esqui ou no futebol; Caroline Graham Hansen, estrela do Barça, dividiu a bola com o xadrez.

Privilegiar a vertente lúdica e formativa, e não a apologia da competitividade precoce, não tira carácter vencedor. Antes pelo contrário.

A Noruega acaba de liderar o medalheiro dos Jogos Olímpicos de Inverno, com 41 medalhas, 18 delas de ouro, um recorde numa só edição. Mas não só no frio se forja esta potência: nos Jogos de verão de Paris, os nórdicos foram o nono melhor país em ouros per capita, numa tabela distorcida pelas minúsculas Dominica ou Santa Lúcia.

No futebol, o Bodø/Glimt, próximo adversário do Sporting na Liga dos Campeões, é a equipa da moda na Europa, acabando de derrotar, de seguida, Manchester City, Atlético de Madrid e Inter. Haaland foi o Bota de Ouro de 2022/23, Ada Hegerberg foi a Bola de Ouro de 2018. No ténis, Casper Ruud foi vice-líder do ranking ATP e finalista de Roland-Garros e US Open. Jakob Ingebrigtsen é bicampeão olímpico e mundial no atletismo, Solfrid Koanda foi ouro no levantamento de peso em Paris 2024. A seleção feminina de andebol é campeã do mundo.

Mexer-se na natureza

Frilufasli é uma expressão usada para descrever o amor dos noruegueses pela vida ao ar livre, em comunhão com a natureza. Popularizada a meio do século XIX pelo dramaturgo e poeta Henrik Ibsen, tanto se aplica a ir passear o cão num parque natural como a praticar desporto na neve.

Um olhar para as rotinas de Johannes Høsflot Klæbo mostra-nos a aplicação prática desta ideia. O esquiador de fundo, capaz de uns inéditos seis ouros nos Jogos de Milão-Cortina, gosta de pescar, fazer montanhismo ou caçar com a família, tipos de atividades que também são do agrado de Haaland, regularmente visto a aproveitar dias de folga pescando na costa da Cornualha.

Pegando nesta tradição, as autoridades norueguesas pretendem incentivar o desporto enquanto parte da comunidade, não como atividade milionária vedada à maioria da população e cujo único objetivo é ganhar medalhas. É por isso que as modalidades de trenó nos Jogos de Inverno — Luge, Skaleton, Bobsleigh — não costumam ter vencedores noruegueses, por serem muito caras, pouco acessíveis e apresentarem escassa penetração no lazer nacional.

Caso oposto é o das diferentes formas de esqui. “Esquiar e uma atividade familiar, é parte básica do quotidiano”, aponta Geir Jordet. Há um clube de esqui por cada cinco mil habitantes e 25 das 41 medalhas em Milão-Cortina foram obtidas no biatlo e no esqui cross-country. A patinagem de velocidade, que deu quatro pódios nos Jogos de Inverno, é outra brincadeira de fim de semana que vira fonte de glória pátria.

Segundo dados do governo da Noruega, 93% das crianças e jovens do país praticam regularmente desporto. Tendo como referência o Eurobarómetro de 2022, 73% das pessoas em Portugal diziam “nunca” exercitar-se ou praticar desporto, ao passo que apenas 4% responde que o faz “regularmente”.

Para promover um ambiente lúdico, na Noruega não se registam resultados de crianças até aos 12 anos

Do outro lado do Atlântico, um estudo da academia norte-americana de pediatra, de 2024, mostrou que 70% dos adolescentes desistem de uma modalidade aos 13 anos, apontando o cansaço, a exigência excessiva ou mazelas físicas como principais causas. É isso que se pretende evitar na Noruega. “Somos poucos, temos um reduzido leque de escolha, portanto temos de cuidar de todos”, explicou, à CNN, Tore Øvrebø, responsável pelo programa de elite desportiva, mas atento à base da pirâmide.

Os clubes locais

A Noruega possui condições perfeitas para modalidades de inverno: montanha e floresta, frio e neve, uma antiga cultura de prática de esqui. Tem muito dinheiro, sendo o quarto país da OCDE em PIB per capita e o segundo em Índice de Desenvolvimento Humano. No entanto, os €85 milhões de orçamento público para o programa olímpico e o desporto de alto rendimento — o valor para o desporto de base não entra nesta conta — não chegam aos calcanhares dos €78 milhões que a Alemanha (26 medalhas) investiu só na preparação de Milão-Cortina. Ou dos €28 milhões colocados pela Grã-Bretanha (cinco medalhas) com o mesmo propósito.

Não é só a natureza ou o PIB que explica que se lidere o medalheiro em 11 Jogos de Inverno, prevalecendo nas últimas quatro edições. Não é só isso que justifica que, com 5,7 milhões de pessoas, se faça melhor que Estados Unidos da América (342 milhões de habitantes), China (1,4 mil milhões), Alemanha (84 milhões), França (69 milhões), Itália (59 milhões) ou Canadá (40 milhões). Mesmo nações pequenas à escala global, e também endinheiradas e desportivamente fortes, são bem maiores que os noruegueses: a Suécia tem 10 milhões de cidadãos, os Países Baixos 18 milhões.

O diretor-geral do departamento da sociedade civil e desporto do ministério da cultura e igualdade destaca o papel autónomo dos clubes locais. Historicamente, estas instituições funcionam na base do voluntariado, com grande financiamento público, mas “liberdade para tomarem decisões segundo a sua realidade local”. Estas mais de 12 mil agremiações “são a espinha-dorsal do desporto norueguês”.

Com uma população pequena, o país incentiva o desporto para todos, tentando ao máximo evitar desistências precoces

O governo de Oslo vê o desporto como “um direito básico”. É por isso que, anualmente, €340 milhões, vindos da lotaria nacional, são investidos em “infraestruturas, qualificação de treinadores, material e subsídios para manter o desporto como um custo baixo para as famílias”, diz Granly.

Orgulhoso do seu país, o governante aponta ainda para o “papel do estado social”. Como “a educação, os cuidados de saúde e as condições básicas de vida” são “garantidas”, os jovens podem “perseguir uma carreira sem sentirem uma extrema pressão financeira”. Esta “estabilidade” é tida como “chave” para evitar a perda de talento, desígnio que é quase obsessão nacional.

A casa da elite

“Colaboração, comunicação e cuidado.” Estas três palavras são, segundo Geir Jordet, essenciais nesta arquitetura. A colaboração fica evidente no Olympiatoppen, uma organização que junta cientistas, treinadores e diversos profissionais da atividade física, em estreita colaboração com o mundo académico e em contacto permanente com vários dos melhores atletas do país.

Ao contrário da maioria dos países, na Noruega não há bónus por cada medalha. Se em Singapura um ouro vale um cheque de €686 mil e em Itália implica uma transferência de €180 mil, em Oslo defende-se outra política. Há bolsas para ajudar no dia a dia e na preparação do atleta, a mira portanto posta na formação, no processo, e não num resultado que pode estar carregado de aleatoriedade.

Apesar do reluzir dos ouros que chegam da neve, Tóquio 2020 e Paris 2024 mostraram o esforço de diversificação feito a partir do Olympiatoppen. Houve ouros em atletismo, triatlo, andebol e voleibol de praia — evidenciando que não há alergia ao calor — e ainda pódios em remo, vela e luta greco-romana.

Enquanto se sobem degraus até à elite, é comum haver, nas diferentes federações, estritos códigos de conduta, penalizando severamente os maus comportamentos. A cultura de entreajuda é comum, com estrelas como Klæbo a terem o hábito de ajudar a financiar as despesas de colegas com viagens ou estágios, onde dividir quartos é a regra.

Uma Potência de inverno... e não só

Estrelas de Milão-Cortina

A Noruega liderou o medalheiro dos Jogos de Inverno, com 41 subidas ao pódio. Os seus 18 ouros são um novo recorde numa só edição.

O Bodø e a seleção

Após triunfos consecutivos frente a City, Atlético e Juventus, o Bodø é a equipa da moda na Europa. Defrontará o Sporting nos oitavos de final da Liga dos Campeões. A seleção masculina de futebol estará, 28 anos depois, de volta a um Mundial.

Jakob Ingebrigtsen

Campeão olímpico nos 1500 metros em Tóquio e nos 5000 em Paris, apresenta ainda quatro medalhas em Mundiais e seis títulos europeus.

Ténis e ciclismo

Casper Ruud chegou à vice-liderança do ranking ATP e disputou três finais de Grand Slams. Nas bicicletas, a Uno-X, equipa esmagadoramente composta por ciclistas noruegueses, corre no World Tour, tendo vencido uma etapa no passado Tour de France.

Levantamento do peso e andebol

Solfrid Koana foi campeã olímpica no levantamento de peso em Paris. A seleção feminina de andebol é campeã do mundo.

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Tenho ideia do primeiro treinador do Magnus Carlsen também ter sido jogador de futebol de nível interessante (dentro do país) e jogado inclusivé pela seleção norueguesa

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