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Atleta queixa-se de assédio moral e laboral da Federação Portuguesa de Ciclismo

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Atleta queixa-se de assédio moral e laboral da Federação Portuguesa de Ciclismo

Bernardo Vieira, heptacampeão nacional e medalhado em Europeus de paraciclismo, acusa direção de Cândido Barbosa de imposição de treinador, com episódios de chantagem e intimidação

O verão de 2023 fora de êxitos para Bernardo Vieira. Duas medalhas nos Europeus de paraciclismo de Roterdão eram o melhor mote a um ano de distância dos Jogos Paralímpicos, mas uma lesão grave matou o sonho de Paris. Na primavera seguinte, para se focar na recuperação de vá­rias operações à perna esquerda, viria a sair do projeto paralímpico.

Quando regressou à competição, o panorama da modalidade mudara. As eleições na Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) elegeram Cândido Barbosa como novo presidente e, meses depois, os problemas começaram.

Telmo Pinão, diplomado paralímpico em Tóquio 2020 e Paris 2024 e prata nos Europeus de 2021, ainda era um atleta em atividade, mas nos primeiros tempos de Cândido na direção já exercia, em diversos momentos, como selecionador “de facto”. Foi nesse âmbito que, já em 2025, entrou em contacto com Bernardo Vieira para que este participasse, por Portugal, na Taça do Mundo, na Bélgica. O paraciclista rejeitou, preferindo competir em nome individual, sem pressão depois de uma longa paragem.

Na prova, Vieira seria 7º na sua categoria, C1, quer na corrida em linha quer no contrarrelógio. Essas prestações, em teoria, permitir-lhe-iam reentrar no projeto paralímpico. “Foi aí que começou a guerra com a Federação”, lembra Bernardo.

Uma prática quebrada com coação

Desde 2022 que Bernardo Vieira vem sendo orientado por André Nunes, um técnico externo à FPC, a quem paga mensalmente. Heptacampeão nacional e com duas medalhas europeias, o corredor entende que os seus melhores resultados se deveram ao trabalho com Nunes.

Com a anterior direção da Federação, de Delmino Pereira, havia uma cooperação entre Nunes e José Marques, o antigo selecionador de paraciclismo. Como o técnico de Bernardo não tinha o nível necessário para receber a bolsa do projeto paralímpico, e visto que José Marques também participava na sua preparação, era Marques quem assinava a documentação oficial enquanto técnico.

O problema, para Bernardo, deu-se quando a nova direção rejeitou que esse modelo continuasse, com a partilha entre Nunes e Marques, figurando o selecionador nas burocracias. Esta recusa é prévia a José Marques ser oficialmente substituído por Telmo Pinão, em novembro de 2025. Quatro meses antes, em julho, o paraciclista encontrava-se a estagiar, a nível individual, quando recebeu um e-mail de um vice-presidente da Federação. “Dizia que o meu treinador não cumpria os requisitos e que a Federação tinha de me impor um treinador, que era alguém com quem já trabalhara no passado [Gabriel Mendes] e não correra bem. Não queriam que o técnico na documentação fosse o José Marques e nunca apresentaram um motivo para tal. Disseram-me que, se não aceitasse, não iria ao Mundial”, revela.

Nova direção da federação rejeitou que Bernardo Vieira fosse orientado pelos seus dois treinadores

A dias do Mundial de paraciclismo, Bernardo ainda desconhecia se participaria. Procurou a media­ção de José Marques, que falou com Cândido Barbosa, mantendo-se o presidente intransigente. A Comissão de Atletas Paralímpicos e Surdolímpicos mediou o conflito, propondo que fosse feita a integração no projeto sem técnico da FPC associado. Foi assim que se deu a participação no Mundial, na Bélgica, ficando em 9º no contrarrelógio e na prova em linha. No entanto, não se deu a prometida integração na bolsa paralímpica.

Insultos, gritos, impasse

Entre 16 e 19 de outubro decorreram, no Brasil, os Mundiais de Paraciclismo de Pista. Portugal fez-se representar por dois atletas: Telmo Pinão, que realizou a última prova antes de mudar de funções, e Miguel Pacheco. José Marques era o vigente selecionador nacional, mas não viajou com a comitiva. Além disso, os convocados não foram escolhidos pelo técnico.

Após as opiniões de José Marques não terem sido consideradas, o selecionador paralímpico viria a ser afastado imprevisivelmente do cargo, passando a coordenar as escolas de ciclismo, segundo o organigrama federativo. Em simultâneo, Pinão foi anunciado como sucessor.

A mudança formal de líder da equipa nacional deu-se em novembro de 2025. Telmo Pinão convocou então Bernardo Vieira, tal como outros corredores, para uma reu­nião. Aí, garante o atleta, o novo responsável transmitiu que, se Vieira não aceitasse os critérios impostos pela FPC, seria “expulso” da seleção e do projeto paralímpico. A meio desse encontro, Bernardo foi mandado sair, descrevendo as “asneiras” utilizadas no vocabulário de Pinão. Ao Expresso, a FPC nega esta chantagem. Já em janeiro houve uma outra reunião, em que a mensagem foi reforçada: “Se eu não aceitasse as condições, não seria reintegrado no projeto paralímpico”, assegura o campeão nacional de fundo e contrarrelógio na categoria C1.

“O Telmo quer pôr e dispor à maneira dele. Sempre estive disponível para colaborar e arranjar uma solução, mas não pode ser com este ‘quero, posso e mando’. Já estive no passado em projetos com o Telmo e tenho-me vindo a afastar por não gostar da forma de ele trabalhar. Estou a ser obrigado a treinar com alguém de quem só quero distância”, desabafa Bernardo, que fala em “assédio moral e laboral”.

A Comissão de Atletas Paralímpicos e Surdolímpicos lembra, através de declarações ao Expresso de Nelson Lopes, o presidente, que “nos contratos-programa para LA 2028 está explícito que a escolha do técnico é da total responsabilidade do atleta” e que “não se compreende esta intransigência”.

Em fevereiro, o heptacampeão nacional soube que não lhe tinha sido atribuída qualquer competição para 2026

Entretanto, e já depois de ser proposto que Pinão tivesse o controlo de dois treinos por semana do paraciclista — fórmula que o selecionador disse ser a única aceite por Cândido Barbosa e rejeitada pelo corredor —, houve um encontro, a 13 de fevereiro, para apresentação do planeamento e orçamento da nova temporada. Bernardo foi surpreendido com o facto de não lhe ser atribuída qualquer competição para 2026. Nesse mesmo dia deram ao paraciclista documentação para assinar. Tratava-se da justificação de despesas de 2025, em rubricas como nutricionistas e psicólogos. No entanto, Vieira assegura não ter utilizado quaisquer desses serviços no ano passado. A Federação, em resposta ao Expresso, garante que “todos os procedimentos administrativos e financeiros são conduzidos em conformidade com as normas aplicáveis, garantindo controlo, validação e transparência na gestão dos recursos”.

A postura da FPC liderada por Cândido Barbosa é descrita, quer por Bernardo Vieira, quer por outras fontes, como agressiva, de coa­ção. Quando o atleta falou com o Comité Paralímpico ou com a Comissão de Atletas, a Federação contactou-o de forma intimidatória, para impedir gestos semelhantes no futuro.

Comissão de Atletas Paralímpicos fala em posição “pouco democrática” da federação, que nega acusações

“Isto coloca em causa a minha carreira. Eles não estão habituados a que os enfrentem”, atira Bernardo Vieira, que aguarda por uma solução para nova polémica a envolver a direção do ex-ciclista. Em dezembro, a Procuradoria-Geral da República confirmou ao Expresso que o líder da FPC estava a ser investigado por alegada venda fictícia da StrongSpeed, empresa que se dedica à montagem de estruturas de corridas e que durante 2025 foi contratada para eventos da FPC. No mesmo mês, o ex-assessor José Carlos Gomes, revelou a intenção de ir para tribunal contra a FPC por assédio laboral.

O presidente da Comissão de Atletas Paralímpicos e Surdolímpicos manifesta “apreensão, surpresa e preocupação” pelo problema. “Não conseguimos perceber a posição da Federação”, diz Nelson Lopes, que classifica de “pouco democrática” a atitude para com Bernardo, utilizando a mesma expressão do paraciclista para descrever o modus operandi da direção de Barbosa: “Tivemos conhecimento de comentários da Federação que traduzem uma situação de ‘quero, posso e mando’.”

Contactada pelo Expresso, a FPC diz “não ter conhecimento de qualquer acusação de assédio moral ou laboral” e refere “desconhecer a ligação entre o treinador André Nunes e o atleta Bernardo Vieira”, já que “todo o percurso” do corredor “dentro da Federação” foi com a orientação de José Marques. Apesar de “todos os atletas terem liberdade para escolher a sua equipa técnica”, vinca que a “integração em projetos de preparação e representação nacional está sujeita a um modelo técnico e institucional definido pela Federação, aplicável de forma transversal a todos os atletas de alto rendimento”, o qual “visa garantir coerência, equidade, controlo e qualidade no acompanhamento desportivo, sendo condição para a participação em ações oficiais, nomeadamente no âmbito do projeto paralímpico”.

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