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Os últimos baleeiros dos Açores: as histórias de quem caçou em alto mar "monstros" de 20 metros

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Os últimos baleeiros dos Açores: as histórias de quem caçou em alto mar "monstros" de 20 metros

Proibida desde a década de 80, a caça à baleia continua a marcar a história e a memória dos Açores. Fomos ouvir os antigos baleeiros e conhecer as novas formas de integrar os cetáceos na vida do arquipélago

Entrar na garagem de Almerindo Lemos, 81 anos, na Calheta de Nesquim, no Pico, é como fazer uma viagem no tempo. As paredes estão carregadas de fotografias da época que mais lhe deixa saudades: a da caça à baleia, nos idos anos 70. Ali guarda fotografias e diversos objetos feitos em osso de baleia, recortes de notícias de jornal em que apareceu e até duas velhas revistas da “National Geographic” onde foi entrevistado, ambas de 1976. A memória é doce para este filho e neto de baleeiros. “A minha vida era andar no mar”, conta ao Expresso, com um sorriso nos olhos. Começou na pesca do atum, passou pela lagosta e só depois chegou à caça da baleia. “Arriei um ano como marinheiro. O trancador que arriava com a gente foi para o Canadá e no segundo ano eu é que fui fazer o lugar dele”, recorda. O trancador acaba por ser o elemento mais importante que segue no bote baleeiro. É o responsável por arpoar a baleia, o mesmo é dizer, “trancá-la” numa primeira fase. Só depois desse primeiro passo é que se seguem os restantes, na luta entre o homem e o gigante dos mares. “O trancador tranca, mata, faz o bloco e amarra a baleia com a ajuda dos outros marinheiros: é a pessoa com o papel mais importante no barco”, explica o antigo baleeiro. Almerindo Lemos diz que tem “muitas saudades da caça à baleia”, porque “aquilo era um vício. Depois de chegar à América, quando emigrei, muitas vezes sonhava com as baleias”.

“O trancador tranca, mata, faz o bloco e amarra a baleia com a ajuda dos outros marinheiros: é o mais importante no barco”, explica Almerindo Lemos

E como se sentia quando apanhava uma baleia, quisemos saber. “Ficava contente, satisfeito. Quando era uma grande, ficávamos todos vaidosos. E aconteceu-me várias vezes”, assegura. Almerindo apanhava, em média, 35 baleias por ano. Enquanto foi baleeiro, estima que tenha apanhado umas 200. Na altura foi notícia nos jornais por isso mesmo. “Nunca me assustei”, jura. Mas soube de várias mortes relacionadas com a baleação. “Ali no Faial, certo dia, morreram dois homens. Lembro-me de outro aqui do Pico, da freguesia de São Mateus, que também morreu.” Quando era criança, Almerindo ouviu falar da morte de outros dois homens. Um deles, embrulhado na linha que prendia a baleia, outro depois de o cetáceo ter embatido na proa do bote, destruindo-o. O momento em que a baleia era arpoada “era uma coisa séria, pois caía uma bomba de água em cima”, ilustra, acrescentando que a baleia “é um animal que impõe muito respeito” e obriga a cuidados redobrados no mar.

Da baleia, tudo era aproveitado: os dentes, os ossos e a gordura que depois era derretida. Funcionava como combustível para maquinarias diversas, nada sendo desperdiçado. Almerindo confirma que, nesta atividade, “ganhava-se bem”, mas “só se recebia ao fim de um ano ou dois”, o que obrigava os baleeiros a terem outras atividades além da baleação.

Numa das mesas da sua garagem-museu repousa uma réplica do “Claudina”, o seu antigo bote baleeiro. “Para balear, são precisos sempre sete homens a bordo, cada um com a sua função”, explica. E tudo começava em terra, com o foguete lançado para o ar pelo homem que avistava as baleias no mar. “Largávamos tudo o que estávamos a fazer. Quem estava nas terras, deixava as terras, quem estava a ordenhar, deixava as vacas, quem estava a pintar, deixava as pinturas a meio, e íamos todos a correr arriar o bote para o mar”, conta o picoense.

Depois de arpoar a baleia, ela puxava o bote mar afora: “a baleia ia puxando o bote enquanto arriávamos a linha para ficarmos mais distantes”. Almerindo diz que se sentia “tranquilo” e “bem-disposto” quando chegava à parte de ser puxado pelo animal. E recorda alguns sustos. “Uma vez, tranquei uma baleia e ela deu uma pancada na popa do bote, que partiu: fez um buraco e o bote começou a meter água.” Noutra ocasião, chegou a ficar uma noite inteira no mar, porque os homens demoraram a dominar a baleia, uma vez que durante a noite, em alto-mar, era perigoso interagir com ela sem qualquer tipo de luz.

“Era preciso ter uma grande coragem”

Almerindo só deixou a baleação quando a atividade passou a ser proibida, nos anos 1980. Depois disso, emigrou para a Califórnia, nos Estados Unidos da América. Lá trabalhou em empresas de limpeza e foi músico aos fins de semana. Tem várias fotografias na parede da sua garagem, de farda branca, com outros músicos, a tocar saxofone. “Foram belos tempos os da América, muito diferentes dos anos que vivi no Pico. A gente divertia-se muito e ganhava uns trocos”, diz o açoriano, sobre uma vida que contrastava com a pobreza que vivia na ilha.

Manuel Jorge, de 69 anos, também vem de uma família de baleeiros. O avô e o pai eram baleeiros em São Mateus. “Cresci com a caça à baleia, morávamos todos perto. Eu ajudava a varar os botes para terra e tudo o que era preciso fazer ou que eu pudesse fazer, fazia”, conta. A primeira história que lhe vem à memória é a do tio que “andou preso na boca de uma baleia durante uns dez minutos”. Manuel Jorge não assistiu à cena, mas garante que foi “impressionante” e deixou ferimentos no seu familiar, ainda que sem gravidade. Recorda-se também do dia em que apanhou “três baleias” em sociedade com outro bote. “Primeiro lançava-se um arpão para que ela ficasse presa. Aquilo é um monstro ao lado de uma canoa”, diz o antigo remador. Manuel Jorge tem ideia de umas “quatro mortes” na caça à baleia nos Açores. Não se sabe ao certo quantos homens morreram, mas sabe que foram várias as vítimas da baleação. “Gostava daquela sensação de trazer uma baleia para terra. E os dentes eram nossos, ficavam para quem a caçava. De resto, tudo era vendido e aproveitado: o óleo, a carne para os animais… e ainda eram feitas farinhas, tudo tinha um propósito”, diz. O remador lembra-se perfeitamente “do cheiro forte a óleo e da farinha que se fazia, era um cheiro forte a peixe que durava dias”. Este antigo baleeiro diz que não tem saudades da baleação e recorda “a dificuldade que era ter uma embarcação relativamente pequena ao lado de um monstro daqueles. Apanhá-lo era muito difícil, muito difícil mesmo — era preciso ter uma grande coragem”.

Recorda-se que, numa das missões, “uma baleia veio por baixo, depois de ter sido trancada, e de repente partiu o bote”. A tripulação foi ajudada pela lancha que se encontrava por perto. Manuel Jorge afirma que sempre que apanhavam uma baleia “era uma vitória e uma alegria muito grande e nessa altura nem pensava muito no perigo”. Na maioria das vezes, confessa, não tinham muito tempo quando ouviam o barulho do foguete a anunciar que tinha sido avistada uma baleia. Apenas punha “bolo de milho e um pouco de queijo” numa cesta e seguiam para o mar, sem saber quando voltariam.

Manuel Jorge sublinha “o enorme respeito” que havia pela baleia: “é um monstro que está lá no mar. Uma baleia grande é o equivalente a 50 bidões de azeite: é um monstro, pois tem 20 metros de comprimento. Não tínhamos medo, mas sim respeito”, esclarece. Quando era atingida, “formava-se um mar de sangue em torno do bote”, o que atraía muitos tubarões. Mas isso não os demovia de voltar a caçar. Depois de deixar a baleação, Manuel Jorge foi trabalhar como funcionário público na Câmara da Madalena.

Ossos das baleias eram frequentemente transformados em objetos de arte
Ossos das baleias eram frequentemente transformados em objetos de arte
Rui Soares

Continuamos na costa sul do Pico, onde encontramos Manuel Medina. Tem 96 anos e era remador. A memória já lhe vai falhando, mas ainda se lembra dos tempos em que foi baleeiro. “Estive na caça à baleia durante 20 anos”, começa por revelar. “Fui para o Canadá, onde estive uma dúzia de anos para ganhar dinheiro para fazer este palácio”, conta, entre risos. A baleação aconteceu antes de emigrar. “Não havia mais nada para ganhar dinheiro, por isso tínhamos de ir para a caça à baleia”, explica. “Matei dezenas de baleias e foi o meu avô, que também era baleeiro, que me ensinou”, diz. “A parte mais difícil era caçar”, acredita. Diz que “revirou” pelo menos três vezes nos botes em que seguiu, devido à força das baleias. “Era preciso saber nadar”, sublinha. Manuel afirma que não assistiu a nenhuma fatalidade, mas sabe que, enquanto baleou, “pelo menos cinco pessoas morreram” na caça à baleia. Garante que “metia o medo para trás das costas”, mas admite que este “era real”.

“O bote baleeiro faz virar cabeças em todo o mundo”

Manuel Silva, 77 anos, não guarda nada do tempo em que foi baleeiro, à exceção de duas fotografias na parede da sua cozinha, na Calheta de Nesquim, onde se vê em plena caça, em alto-mar. Foi marinheiro de um bote baleeiro e mestre de três lanchas que davam apoio à baleação.

“Comecei na baleação por necessidade. Saí da tropa, não tinha emprego, o meu pai tinha um barco para ir ao mar e a baleia era um complemento para conseguirmos amealhar qualquer coisa”, começa por contar. “Estávamos nas terras e depois corríamos para apanhar a embarcação. Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que apanhámos uma baleia, ela ficou presa”, diz. “A gente não tinha medo de apanhá-la, nem tínhamos medo de morrer. Fiquei satisfeito quando apanhei uma baleia, a primeira”, partilha.

Bote baleeiro utilizado na baleação exposto no Museu das Lajes do Pico
Bote baleeiro utilizado na baleação exposto no Museu das Lajes do Pico
Rui Soares

Tem saudades desse tempo? Manuel é perentório na resposta: “Não, não tenho saudades nenhumas do mar. Era muito duro, havia muito mau tempo. Eu não gostava daquela vida. Íamos à baleia porque não havia mão de obra. Se fosse uma vida boa, não faltava gente para ir à baleia. Na altura, não havia emprego, era uma necessidade.”

“Numa das vezes em que fui à baleia, um senhor mais velho do que eu caiu ao mar e ficou à deriva uns 10 minutos. Depois, um bote de São Mateus veio salvá-lo. Partiu um bocado do bote… era uma baleia grande, mas não me tocou, só no bote”, recorda. O antigo baleeiro diz que chegou a “apanhar três baleias num único dia”, mas às vezes “demoravam um dia inteiro para matar uma”, até porque “quando está na altura de morrer, a baleia é muito perigosa, pois não sabe o que faz”. Para Manuel Silva, este era “um trabalho que tinha que ser feito com respeito e certeza”. Sublinha que é preciso não esquecer que “o bote é apenas a meia baleia”. O antigo baleeiro da ilha do Pico pode não ter saudades do que já lá foi, mas recorda com nostalgia as conquistas que alcançou após o período da baleação: “ganhei 24 corridas de botes baleeiros”, relembra satisfeito.

A cultura do bote baleeiro

Os botes baleeiros ganharam uma nova vida, e um novo uso, depois da proibição da caça à baleia no final dos anos 80. Filipe Fernandes, 39 anos, é um apaixonado pelo bote baleeiro do Pico. Atualmente trabalha na Casas dos Botes, nas Lajes do Pico, e ajuda a manter viva esta cultura. É oficial de bote baleeiro e faz parte do Clube Náutico das Lajes do Pico. “O bote baleeiro é um produto incrível e toda a gente que faz vela e anda nele tem uma reação de espanto e fica fascinada”, acredita o picoense. “Já tive oportunidade de levar um bote à Volvo Ocean Race, em 2017, e já levei um bote a Itália onde estavam pessoas da mais alta nata da vela, que quando viram o bote pararam. O bote baleeiro faz virar cabeças em todo o mundo e isso mostra-me que não é só uma questão cultural nossa”, acredita.

“É uma embarcação de tamanho médio, e tem um navegar muito doce, muito suave. É muito estreito e leve, com uma área vélica colossal. Uma embarcação muito reativa, que mais faz lembrar barcos de competição menores, muito ativos e vibrantes. Tem um ADN de desempenho muito grande, servia para chegar rápido para apanhar baleias. A prioridade do bote era a velocidade e andar nele é muito excitante”, assegura.

O município das Lajes do Pico apostou na recuperação dos botes baleeiros existentes no concelho há cerca de 15 anos. Atualmente, realizam-se várias regatas na ilha do Pico exclusivamente com botes baleeiros. “O que acontece aqui no Pico é único e difícil de replicar noutros sítios. Em terra estão sempre dezenas de pessoas a vibrar com as regatas. Cheguei a ir a eventos internacionais de vela, em Lagos, com catamarãs com os melhores velejadores do mundo e também reparei que a quantidade de pessoas a assistir era inferior a uma regata de botes baleeiros no Pico. Quando lhes mostrei fotos das regatas do Pico, os remadores ficaram incrédulos, porque nas regatas deles não era nada assim”, conta Filipe Fernandes. ”Não é um barco aborrecido, é de uma elegância brutal”, afiança.

Da caça à observação de cetáceos

No Museu dos Baleeiros, no centro das Lajes, existe um bote baleeiro, em tempos usado na caça à baleia. O espaço guarda a memória de outros tempos. Nele se guardam fotografias da época, objetos feitos com osso, dentes de baleia e utensílios usados na baleação. Manuel Costa Júnior é diretor do Museu dos Baleeiros há 26 anos. O historiador explica que a entrada dos açorianos na indústria baleeira “ocorreu muito antes de a atividade se tornar costeira nas ilhas, conectando-se diretamente ao sonho americano e à sobrevivência económica”.

Segundo Costa Júnior, a participação açoriana na baleação mundial começou como um ato de desespero e coragem no século XIX, impulsionada pela fome e pelo colapso da produção vinícola. Os jovens das ilhas aproveitavam a escala dos navios americanos para fugir clandestinamente. “Os açorianos entraram duas vezes para a baleação. Uma vez quando, por via da falta de terra, da fome, da miséria e da pobreza, grupos de jovens aproveitavam a presença dos navios e, pela calada da noite, faziam a imigração de salto: o salto para a América, de forma clandestina, através da baleação.” Para alcançar o porto de New Bedford, nos EUA, os jovens ficavam presos aos navios por safras que duravam anos. “O preço de chegarem era: enquanto o navio estivesse no mar, eles tinham de estar. Se a viagem levasse três anos, seriam três anos no mar”, relata o diretor.

“Uma baleia grande é o equivalente a 50 bidões de azeite: é um monstro, com 20 metros de comprimento. Não tínhamos medo, mas sim respeito”, diz Manuel Jorge

A excelência dos marinheiros açorianos não passou despercebida. Costa Júnior recorda que até Herman Melville, autor de “Moby Dick”, imortalizou a bravura destes homens na sua obra. Foi essa experiência acumulada nos navios americanos que permitiu, mais tarde, a sedentarização da baleação nos Açores, utilizando técnicas e equipamentos importados. “O know-how é americano, os equipamentos e a utensilagem adquirem uma dimensão especial porque muda de figurino: deixa de ser uma atividade itinerante pelos mares do mundo para ser uma atividade local e regional”, explica.

Para o historiador, a baleação nunca foi uma pesca comum. Descreve-a como um confronto místico e perigoso na “arena do mar”, característica que justifica que essa atividade se tenha tornado património musealizado e respeitado. “Isto não é como quem apanha com um anzol um peixe. É um confronto no grande mar aberto. Um confronto corpo a corpo entre o homem e o animal envolto nesse mistério, nesse magnetismo, nessa imagética simultaneamente mágica, mítica, épica e mística.” Para o historiador, “os baleeiros não são criminosos, não são matadores, não são mercenários que vão para o oceano com o desejo e a pulsão destrutiva e destruidora de saciar a sua gula por esse confronto”. Costa Júnior considera que “esse confronto é um confronto leal, que pode parecer desleal, à luz de uma ecologia contemporânea muitas vezes espúria e pouco lúcida. Mas é um embate entre homens que passam fome, homens que têm famílias numerosas, que não têm pão para pôr na mesa, que precisam de trazer pão para as famílias, para os filhos e para os agregados familiares que são numerosos, numa ilha pobre”.

Os últimos baleeiros dos Açores: as histórias de quem caçou em alto mar "monstros" de 20 metros
Direção Regional Da Cultura/Museu Do Pico

E embora o perigo seja inerente a qualquer atividade marítima, Costa Júnior destaca que a caça ao cachalote possuía uma “heroicidade” única que a distingue de qualquer outra faina, consolidando-se como o pilar cultural que o Museu do Pico preserva até hoje.

Da baleação fica a memória, musealizada, e humanizada entre os últimos baleeiros. A caça à baleia foi oficialmente proibida em 1984, mas a última captura ocorreu no Pico em 1987.

Os últimos baleeiros dos Açores: as histórias de quem caçou em alto mar "monstros" de 20 metros
Direção Regional Da Cultura/Museu Do Pico

Em 1989 surge o Espaço Talassa, a primeira empresa de observação de cetáceos dos Açores. Alexandra Teles conta que foi “numa visita ao Pico que surgiu a intenção de criar este espaço de whale watching. Vim mostrar o Pico ao meu marido, Serge Viallelle. Quando vamos ao museu, em conversa com o funcionário do museu, que acabaria por ser o nosso primeiro vigia, surgiu esta ideia: até então, não existia whale watching, fomos os primeiros”.

A proprietária do Espaço Talassa diz que “não foi fácil implementar o whale watching aqui. Toda a gente ainda tinha muito na memória a caça”. Mas, ultrapassados os obstáculos, lá se conseguiram afirmar e contaram com a ajuda de antigos baleeiros para lançar o negócio. “Quem nos ajudou a criar esta empresa foram os verdadeiros baleeiros, o Gil e o nosso vigia. O nosso primeiro programa era o Homem, o mar e a terra. Se não houver respeito por essas três coisas, não vale a pena ir para o mar”, resume a empresária.

Alexandra Teles garante que não havia fricções com os baleeiros: “As fricções não eram diretamente connosco, a nossa perspetiva foi sempre a de utilizar o local, o que temos de bom, de forma responsável.” Refuta que tenha havido “guerra”, mas admite que “as pessoas têm resistência a tudo o que é novo e, portanto, as mudanças custam”.

Sobre o futuro da observação de cetáceos, Alexandra afirma que a guerra no Médio Oriente vem lançar incerteza sobre o turismo nos Açores. “Não sabemos, com a guerra, como ficará esta atividade. Pode afetar-nos muito, e ao turismo nos Açores. Vamos ver o que acontece, com o preço das coisas vai subir. As pessoas vão ter dificuldade em viajar... é uma bola de neve”, prevê.

Os últimos baleeiros dos Açores: as histórias de quem caçou em alto mar "monstros" de 20 metros
Direção Regional Da Cultura/Museu Do Pico

Atualmente, a empresa tem quatro embarcações para observação de cetáceos, operando duas delas por dia, em época alta. Sobre a atividade, Alexandra Teles diz que a prioridade continua a ser a mesma: “a nossa principal preocupação em relação à atividade é fazê-la com qualidade para que os clientes queiram vir. Para fazer mais barcos e dar má qualidade de serviço, acho um erro”, considera. Para a empresária, o “melhor fiscal que pode existir é o cliente”, sublinhando: “é preciso mostrar responsabilidade, dentro de uma atividade que tem de ter o máximo respeito pelo animal. Quando não o têm, já se estão a prejudicar a si próprios. O animal é a nossa estrela. Às vezes as pessoas só pensam nos números, e os números não são tudo”, alerta.

Nenhum dos baleeiros entrevistados nesta reportagem fez observação de cetáceos, finda a caça à baleia. Fica a memória do que já foi e do que não volta a ser numa ilha fortemente marcada pela baleação, capítulo que ninguém esquece e que vive na memória dos últimos baleeiros do arquipélago.

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