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Nos Alpes franceses, o "comboio das pinhas" transporta os turistas a todo o vapor. E é português

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Nos Alpes franceses, o "comboio das pinhas" transporta os turistas a todo o vapor. E é português

Resgatada há 40 anos por um grupo de entusiastas, a “Portugaise”, locomotiva centenária, mostra como é possível fazer turismo sobre carris a todo o vapor

São 11 da manhã de um sábado à beira do verão. Do lado esquerdo, os carros buzinam e as pessoas acenam e gritam pela estrada, como se tivessem saído de um casamento. A apitar, uma locomotiva a vapor com mais de 100 anos faz as delícias de locais e turistas no sul de França. Estamos no “Train des Pignes”, o comboio das pinhas, que trepa os Alpes franceses no espaço de uma hora. Um passeio para toda a família, que mostra como o material ferroviário histórico pode circular, sem ficar parado num museu. As viagens para este ano já estão à venda.

O ponto de partida é Puget-Théniers, típica vila da Provença com menos de 2000 habitantes e a mais de 60 quilómetros de Nice. Por entre alguns prédios de três andares, vemos muitas construções típicas em pedra, mas a sua antiguidade não transparece, graças a uma manutenção cuidada. Depois de tomar o pequeno-almoço — pedido em português — chegamos à estação. Ainda falta quase uma hora para a partida e já está tudo pronto: a locomotiva E211 já fumega em todo o seu esplendor. Faltam agora os passageiros, que irão preencher as sete carruagens da nossa viagem.

O comboio é como um ponto de encontro da história da emigração lusitana, com passagens por França e pela Suíça. À cabeça, a locomotiva tem escritas a dourado as letras CP. No caso, não significa Chemins de Fer de Provence mas sim Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, a anterior designação da CP – Comboios de Portugal. Fabricada na Alemanha em 1923, a E211 circulou durante mais de 60 anos no Vouga e no Corgo, duas linhas de via estreita, ou seja, com os carris à distância de um metro, ideais para percursos mais montanhosos e com menos espaço disponível. Da linha do Vouga apenas sobraram menos de 100 quilómetros, entre Espinho e Aveiro; a linha do Corgo foi fechada em duas fases, em 1990 (Chaves-Vila Real) e 2009 (Vila Real-Régua).

Em meados dos anos 80, Portugal decidiu encostar esta e outras locomotivas fabricadas no mesmo ano. Os franceses tiveram sentido de oportunidade e compraram a E211, que chegou ao sul do país em julho de 1986 depois de ter sido adquirida pelo grupo de amigos dos caminhos de ferro da Provença (GECP). Após dois anos de reparações, voltou aos carris em junho de 1988 para cinco temporadas de viagens turísticas. Em 1992, a locomotiva foi declarada como monumento histórico, mesmo antes de ter sido encostada. Foi preciso esperar até 2005 para mandar a composição para uma reparação profunda em Itália, que durou cinco anos e representou um investimento significativo. O esforço recompensou e desde 2010 que a “Portugaise”, como é conhecida, tem encantado os turistas.

Saímos às 11 horas em ponto de Puget-Théniers. A bordo já se ouve o trio musical, composto por uma contrabaixista, um tocador de concertina e um baterista. Os três integrantes vieram por causa do Festival da Música, que certamente celebra os músicos amadores no país no solstício de verão. O trio vai acompanhar-nos ao longo da viagem e entreter os passageiros (e não só), sobretudo nas duas paragens programadas em pouco mais de uma hora. Com mais de 20 graus lá fora, era irresistível abrir totalmente as janelas para apreciar ainda melhor as vistas, sempre com cuidado. “É perigoso pendurar-se”, avisa um letreiro escrito em quatro idiomas.

Sentamo-nos na cauda do comboio, na carruagem B33, a mais moderna do comboio. Fabricada em 1939, circulou durante quase 80 anos na ferrovia Rética da Suíça. Juntou-se à frota do passeio em 2019 e tem a entrada principal no meio da carruagem. É de lá que vemos a primeira ponte de ferro do percurso, sobre o rio Var, e depois muitas árvores e alguns campos agrícolas. Em 15 minutos, chegamos à vila medieval de Entrevaux, local da nossa primeira paragem.

Enquanto o comboio descansa alguns minutos, os passageiros vão à dianteira tirar fotografias à locomotiva. Para garantir o cumprimento do horário, os voluntários do GECP espalham-se pela plataforma para avisar os passageiros que têm de regressar às carruagens. Aproveitamos para espreitar a carruagem seguinte, B32, de 1911. Tem a particularidade de ter menos lugares sentados porque há uma secção que serve como loja sobre carris: dá para comprar postais, bonés e t-shirts, por exemplo. A B32 tem uma história comum com a carruagem seguinte, B31: ambas circularam em locais como St. Moritz, Davos e ainda em Lugano, mostrando algumas das melhores paisagens da Suíça.

O comboio é como um ponto de encontro da história da emigração lusitana, com passagens em França e na Suíça

Seguimos viagem e começamos a entrar pelos túneis. Dentro de momentos vamos deixar de ver os nossos colegas de carruagem. Com as janelas bem abertas, o fumo da locomotiva irrompe pelo comboio e acrescenta mistério a uma viagem preenchida pela história. Recuamos a 1902, ano de fabrico da B-220. A carruagem rolou na Suíça durante mais de 60 anos, sobretudo em Friburgo, na zona mais próxima de França. Depois de sair dos carris, esteve 10 anos num museu até ser doada ao GECP, que deu uma nova vida de serviço aos passageiros.

O rio ficou para trás e agora só vemos montanhas. Voltamos a parar por alguns minutos, em Pont de Gueydan, na localidade de Saint-Benôit, com menos de 200 habitantes. Com algum contorcionismo, o trio musical saiu do comboio e atua debaixo de umas árvores. Dezenas de passageiros deixam-se embalar pela música e dançam. Os cães brincam entre si. Todos ficam entretidos enquanto há operações na locomotiva, como repor os líquidos dos freios.

Voltamos à viagem passados 10 minutos. Entramos pela carruagem AB-25, de 1892. É uma autêntica sobrevivente da era do vapor: circulou durante décadas na Provença, onde ficou encostada quando o material circulante começou a largar o carvão. Quando se pensava que poderia virar mais uma peça de museu, mudou-se para perto de Lyon em 1972, tendo prestado serviços turísticos no Chemin de Fer du Vivarais por três décadas. Classificada como monumento histórico em 1992, a AB-25 regressou a Provença em 2003 e passou mais de uma década a ser recuperada. Em 2015, voltou a circular sobre carris.

Com a temperatura amena que se faz sentir, nada melhor do que haver alguém a passar com umas bebidas para repormos os líquidos. Voltando a 1892, temos ainda as carruagens B-505 e B-508, que também circularam na Provença durante décadas mas chegaram a ser requisitadas pelo Exército francês na I Guerra Mundial para transportar trabalhadores de uma fábrica de pólvora. Regressaram a “casa” e sobreviveram até ao fim da II Guerra Mundial. No final da década de 40, escaparam à demolição e foram usadas na manutenção da rede ferroviária local. Voltariam a receber passageiros em 1980, quando o GECP iniciou o comboio histórico. Como não se encontraram os assentos originais, aproveitaram-se bancos de comboios já fora de circulação do metro de Paris.

Passam cinco minutos do meio-dia quando chegamos a Annot. Mesmo com mais de 100, a “Portuguesa” chegou a horas e deixou-nos já a 700 metros de altitude. Com 1000 habitantes, a vila histórica cercada por rochas é conhecida por receber trepadores de toda a Europa, inclusive sobre carris. Saindo da estação, percorremos 10 minutos a pé até chegarmos ao centro histórico, onde reina a tranquilidade.

Depois das 15h30, fazemos a viagem de regresso, em que os freios são constantemente testados. No caminho, fica a reflexão de uma viagem que funciona como uma prova de resistência: contra todas as adversidades, os voluntários franceses têm sabido valorizar a paisagem, o património ferroviário e atraído apaixonados pelos comboios e pela Natureza para conhecerem este tesouro à beira de Nice. Muito mais interessante do que ver, o material histórico sobre carris também pode ser homenageado e respeitado com manutenção constante, dedicação e visão turística.

Todos a bordo — Prepare a sua viagem

Como chegar a Nice

A partir dos aeroportos de Lisboa, Porto e Funchal há ligações para Nice: de Lisboa, há 15 voos semanais pela TAP (pelo menos um por dia) e um voo por dia pela easyJet; do Porto, há um voo diário pela easyJet; a partir de junho, a easyJet vai ligar Funchal à cidade francesa com uma ligação às terças e sábados, pelo menos até março.

Como chegar a Puget-Théniers

Na Gare de Nice CP, apanhe o comboio em direção a Digne-les-Bains, para onde há apenas três ligações por dia por sentido. A viagem demora hora e meia e custa 11,10 euros (por trajeto). Em alternativa, compre o passe SudAzur, para todos os transportes públicos na Provença e no Mónaco de forma ilimitada: 35 euros (três dias) e 50 euros (sete dias). Em Annot, terá de encontrar local para almoçar e reservar lugar porque não há muitos restaurantes. A pizzaria Le César e o Café du Commerce são as nossas sugestões.

Calendário de viagens e preços

Para apanhar o “comboio das pinhas”, atente à programação para este ano: as viagens começam em maio, todos os domingos; em junho, o ritmo aumenta para todos os sábados e domingos; no mês seguinte, todos os domingos e quartas e quintas da segunda quinzena; em agosto, todas as quartas, quintas e domingos. O ritmo modera em setembro, com viagens todos os sábados e domingos. Em outubro, há partidas todos os domingos. Cada adulto paga 19 euros pela viagem de ida (Puget-Théniers até Annot) ou 24 euros de ida e volta. Cada criança paga 15 ou 19 euros. Se viajar em família (2 adultos e 2 crianças), a ida e volta fica por 65 euros. Menores de quatro anos não pagam bilhete.

Viagens temáticas

Se o calendário permitir, vale a pena experimentar as viagens temáticas: dança, em 17 de maio; azeitonas, a 14 de junho; música a bordo, a 20 e 21 de junho; património ferroviário, a 19 e 20 de setembro; dia das bruxas, a 31 de outubro e 1 de novembro; por último, a festa da castanha encerra a temporada, a 7 de novembro.

Portuguesa na oficina

Dentro da oficina do “comboio das pinhas” encontrámos outra locomotiva com um passado português. Fabricada na Alemanha como parte das indemnizações da I Guerra Mundial, a locomotiva E182 chegou a Portugal em 1923 para os comboios de bitola de 0,90 metros da Linha do Porto à Póvoa e Famalicão. Depois de a linha passar para bitola métrica, em 1930, a locomotiva também circulou no Vouga, Corgo e Sabor. Na década de 80 foi encostada e depois comprada por um empresário espanhol que queria fazer um serviço turístico em Alicante. Nunca aconteceu e a locomotiva ficou guardada perto de Valência durante 35 anos. Os associados franceses conseguiram comprar a E182, que chegou a Puget-Théniers em março de 2020. Devolvê-la aos carris é a missão para cumprir até ao final da década.

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