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Na rota dos escravos pela África Ocidental, com factos, emoções e outros 'fantasmas'

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Na rota dos escravos pela África Ocidental, com factos, emoções e outros 'fantasmas'

Na África Ocidental concentram-se alguns dos lugares mais relevantes associados ao tráfico transatlântico de escravos, como São Jorge da Mina, Gorée, Aného e Ajudá. Percorrer esta rota, por terra, ajuda-nos a distinguir a História da memória — e os factos das emoções

Depois de uma hora na monótona estrada que separa Lomé de Aného, a conversa parece esgotar-se e não há mais paciência para palavras de circunstância. O mal-estar agrava-se com o calor húmido do meio-dia, que parece derreter os ponteiros do relógio, como naquela famosa “Persistência da Memória”, de Salvador Dalí. Quando o aborrecimento se instala definitivamente, uma nuvem de mosquitos lembra-nos que, afinal, o tempo também voa, e serve-nos de aviso: está na hora de encontrarmos um local arejado para almoçar, nas margens do rio.

O Mono nasce a norte, a 400 km de distância dali, e dirige-se para sul, acompanhando a fronteira entre o Togo e o Benim. Ao aproximar-se do oceano, o caudal flete para leste, passando por um extenso sistema lacustre de água salobra, antes de desaguar do outro lado da fronteira, em La Bouche du Roi, não longe de São João Batista de Ajudá.


 

Na rota dos escravos pela África Ocidental, com factos, emoções e outros 'fantasmas'

 

Do lado de cá, nas margens de Aného, um braço do rio antecipa-se à foz e, sem pedir licença, faz uma incisão na linha costeira, para se encontrar com o Atlântico. Foi precisamente ali que, no final do século XVII, os anés, originários da antiga Costa do Ouro, procuraram refúgio dos ataques do Império Denkyira, cujos grupos armados procuravam sequestrá-los, fosse para os escravizar, fosse para os vender a mercadores europeus, através de intermediários da etnia fante. Sendo originários do local onde, 200 anos antes, os portugueses haviam construído o Castelo de São Jorge da Mina (no atual Gana), os anés passaram a integrar o conjunto de povos chamados Mina.

Uma vez em Aného, ao invés de serem capturados, os anés passaram a capturar ou comprar escravos oriundos do interior para os vender a negreiros europeus, transformando Aného numa das principais praças comerciais da Costa dos Escravos. Mesmo assim, e apesar da sua fuga bem-sucedida, alguns dos seus membros continuaram a ser sequestrados, muitas vezes com a cumplicidade de líderes locais, que lucravam com o negócio. Eram depois embarcados em navios negreiros, em direção ao Brasil, onde eram bastante apreciados, pelos seus conhecimentos de mineração e metalurgia.

Naquele local proscrito, na margem esquerda do rio, a lassidão torna-nos insensíveis ao destino dos minas. Sentados à mesa, na esplanada do restaurante de um pequeno hotel, a quem alguém— certamente com fina ironia — decidiu de chamar Oásis, pedimos uma cerveja para enganar a fome. Ao passarmos os olhos pelo menu, verificamos que, afinal, o nosso preconceito não é digno do estabelecimento. Na nossa visão simplista, o Togo é sinónimo de fufu, essa massa espessa e elástica à base de inhame ou mandioca, normalmente servida com óleo de palma, pasta de amendoim ou pimenta. Naquele local, porém, somos surpreendidos pela forma como o cozinheiro decide aprimorar as receitas de alguns pratos tradicionais. Sem hesitar, peço um peixe-capitão fumado, acompanhado por asas de raia com molho de alcaparras.

O meu colega David olha-me com surpresa, porém: como é possível eu escolher o peixe-capitão, se o menu oferece tilápia?

— Tilápia, David? (olho para o David com um misto de gozo e sobranceria).

— Sim, tilápia! O peixe-capitão sabe a mar, e eu gosto dos sabores dos rios e dos lagos, são eles que matam a fome dos africanos. Este continente inteiro alimenta-se de tilápia, peixe-capitão é coisa de colono!

Engulo em seco a provocação e decido não comprar aquela guerra — até porque aquela não é uma receita qualquer: os filetes de peixe são envoltos num recheio cremoso à base de espinafres e cozidos com ervas aromáticas e vinho branco. A famosa tilápia enrouléet.

Alheio ao meu desinteresse, o meu colega prossegue na defesa da sua tese, em castelhano. À boleia das suas convicções, David fala sofregamente como quem galopa, usando a abusando das consoantes fortes e vogais abertas da sua língua materna, enquanto gesticula energicamente. Parece uma fanfarra que toca quando o exército avança triunfantemente sobre o inimigo. Faz-me pensar como é diferente o meu português, com as vogais reduzidas e os sons nasais, e traz-me à memória a sentença de Cervantes, quando se referia à língua de Camões como uma língua modulada, de textura suave, para ele um “castelhano sem ossos”. Unamuno, aludindo ao veredicto de Cervantes, sublinhava a natureza supostamente mais doce e flexível do português, como se fosse um polvo, em contraste com castelhano, rígido como uma lagosta.

No século XIX, o Brasil assistiu a várias revoltas de escravos. Alguns conseguiram comprar a sua alforria e voltar aos seus lugares de origem

Não sei se concorde com Unamuno, mas não consigo deixar de dissociar a sua imagem com a natureza polimorfa e tentacular que o antropólogo brasileiro Gilberto Freyre atribuiu aos portugueses, quando sublinhou a sua presumível capacidade de miscigenação com outras raças e culturas, fermento de sociedades coloniais híbridas, a ideia-chave da tese luso-tropicalista (hoje caída em desgraça). Para ele, foi esse temperamento que criou um ambiente propício para o desenvolvimento de línguas crioulas.

Quando regresso dos meus pensamentos, ouço David prosseguir na defesa da sua tese:

— A tilápia é rica em proteínas magras de alta qualidade. Além do mais, contém cálcio, fósforo e potássio, que ajudam a prevenir a osteoporose, enquanto o selénio atua como antioxidante, prevenindo infeções...

David é doutorado em astrofísica, foi professor universitário e fez investigação sobre a formação das galáxias, mas a sua sede de aventura no mundo real roubou-o aos observatórios astronómicos. Trabalhou em África e nas Caraíbas, e tornou-se um cidadão do mundo. Ainda assim, o método científico jamais o abandonou, até nas mais simples conversas: para ele, a lagosta é um crustáceo e o polvo é um molusco — não a característica de uma língua, e muito menos de um povo!

Fico com a impressão de que as nossas diatribes navegam entre dois mundos diferentes, que o acaso quis cruzar junto ao leito daquele rio. Não estamos “entre dos aguas”, algures entre o Mediterrâneo e o Atlântico, como naquela rumba flamenca de Paco de Lucía. Estamos algures num ponto imaginário de equilíbrio, que apenas o compromisso de duas pessoas razoáveis permite alcançar.

No fim da refeição, pomo-nos a caminho de Agbodrafo. Antes, porém, atravessamos a ponte para a margem direita e dirigimo-nos para a barra daquele braço do rio Mono. Não longe da costa, vemos um grupo de três homens aproveitar o swell do oceano, cuja energia aumenta à medida que se aproxima do canal mais estreito do rio, amplificando a ondulação. A imagem é surreal. A julgar pela sua aparência, são yovowo (estrangeiros) e ali estarão de passagem.

Ignoram, por certo, que alguns dos escravos para ali trazidos, agrilhoados, preferiam atirar-se ao mar, antes de embarcar. Desconhecem, seguramente, que muitos deles terão perecido justamente ali, debaixo das ondas que deslizam com as suas pranchas de poliéster. Mesmo que o soubessem, jamais acreditariam que as suas almas se libertaram do corpo acorrentado e viajaram até Orun, onde se reuniram com os seus antepassados. A ignorância e o desinteresse têm as suas vantagens: frequentemente, a memória é um fardo pesado que nos impede de ser plenamente livres.

O episódio recorda-me a célebre cena do filme “Apocalypse Now”, quando o tenente-coronel Kilgore (Robert Duvall) ordena um ataque violento e desnecessário a uma aldeia controlada pelos vietcongues (apelidados “Charlie” pelas forças norte-americanas), para que um grupo de soldados pudesse praticar surf num ponto onde as ondas “rebentam para os dois lados” e é um “paraíso para os tubos”. Quando questionado pelos seus homens sobre o risco da operação, ao dizerem-lhe que a aldeia era um lugar perigoso, infestado de vietcongues, Kilgore respondeu simplesmente: “Charlie don’t surf.” Porventura, seria essa também a mentalidade de todos quantos participaram no comércio de escravos: os fins justificavam os meios. E, se vivessem no século XXI, também diriam que os minas não sabem surfar.

Chegamos finalmente a Agbodrafo, onde o nosso motorista nos deixa numa rua empoeirada, junto a um muro com uma porta de metal enferrujada. Do lado de dentro, entramos num pátio de terra batida, onde uma mulher lava a roupa num pequeno tanque, rodeada por crianças. Um homem de meia-idade, estacionado na escadaria de acesso à casa em ruínas, vem ao nosso encontro. É ele quem nos serve de guia.

Começa por nos explicar que, em 1835, John Henry Wood, um traficante de escravos escocês, decidiu construir aquele imóvel para alojar e esconder transitoriamente centenas de escravos, numa altura em que o tráfico era oficialmente proibido (e policiado) pela Inglaterra. Assiakoley, um chefe do clã Adjigo, da etnia mina, não estando disposto a perder os lucros que se habituou a obter com a sua participação no negócio, associou-se a Wood. Construída em estilo afro-brasileiro, a casa era suficientemente distante da orla marítima para que, com a ajuda da vegetação, não pudesse ser vista pelas autoridades, garantindo o embarque “seguro” dos escravos nos navios negreiros.

Mulheres aguardam o <span class="italico">ferry </span>para Dacar, em Gorée
Mulheres aguardam o ferry para Dacar, em Gorée

A casa tem seis quatros, distribuídos em torno de um salão principal, no meio do qual um quadrado rasgado no soalho de madeira revela a existência de um alçapão. Sem nos dizer uma palavra, o guia convida-nos a descer até ao piso subterrâneo, deixando-nos à nossa sorte — e à dos espíritos. A cave ocupa todo o subsolo do perímetro da casa e tem um metro e meio de pé-direito. Era ali que Wood e os seus homens obrigavam os escravos, acorrentados, a sentar-se e deitar-se, tendo de rastejar para se poderem movimentar. Era ali que, doentes e desesperados, na mais profunda miséria e escuridão, homens, mulheres e crianças aguardavam semanas, às vezes meses, até que alguém abrisse as pequenas janelas de ferro que os separavam do mundo exterior. Na verdade, era também através dessas frechas que acediam à sua clausura, pois não eram sequer dignos de ali chegar através do alçapão situado no salão principal. Uma parte significativa desses escravos morreu naquela masmorra, antes mesmo de ver a luz do dia. Não tiverem direito ao toque de tambores, ninguém evocou os antepassados para guiarem a sua alma, nem foram sacrificados quaisquer animais em honra dos seus deuses. No lusco-fusco daquele purgatório, os gritos das almas penadas continuam a amaldiçoar os visitantes.

É com alívio mal disfarçado que regressamos ao exterior, através das frechas que gentilmente nos foram abertas, e prosseguimos a nossa visita. Mais à frente, no caminho que nos leva até à orla do mar, encontramos um poço, onde os escravos tomavam o seu último banho — e em torno do qual, acorrentados, eram forçados a dar sete voltas, antes de embarcarem. Acreditava-se que este ritual de purificação faria com que perdessem toda a memória das suas origens e laços familiares, facilitando a sua submissão e refreando quaisquer tentativas de insubmissão.

Félix de Souza foi a versão daomeana do Mr. Kurtz de “Coração das Trevas”: comerciante genial e louco, perdido num reino sanguinário da África negra

Pouco avesso a explicações sobrenaturais, David prossegue:

— Esse esquecimento tem um nome científico: chama-se “amnésia dissociativa” e é um fenómeno psíquico através do qual a nossa mente apaga as lembranças de eventos dolorosos, como autoproteção. Tudo o mais são superstições...

Fantasia ou não, do outro lado da fronteira, entre a cidade de Ajudá e a praia, também existia um baobá (atualmente replantado), ao qual os negreiros chamavam de “árvore do esquecimento”. Neste caso, porém, o ritual servia os interesses dos escravos: quando os homens e mulheres circundavam a árvore sagrada, acreditavam que ficava garantido o regresso dos seus espíritos ao lugar de origem, quando morressem.

Como David não tivesse uma explicação racional para justificar este fenómeno sobrenatural de torna-viagem, eu antecipo-me:

— Os espíritos podem não ter voltado, David, mas alguns escravos, ou os seus descendentes, acabaram mesmo por regressar...

O surpreendente retorno tem uma explicação: no século XIX, o Brasil assistiu a várias revoltas de escravos, causando enorme pânico nas autoridades brasileiras. Muitos deles foram considerados uma ameaça e acabaram por ser deportados, ou pressionados a deixar o Brasil; outros, acabaram por conseguir juntar os recursos necessários para comprar a sua alforria e pagar os custos de transporte de volta aos seus lugares de origem. Um número significativo de escravos libertos foi acolhido em Ajudá, no atual Benim. Movido pela curiosidade de conhecer esta cidade, decido atravessar a fronteira.

A saga de Francisco Félix de Souza

O turismo ocupa um lugar central na pequena economia de Ajudá, assim como em tantos outros lugares de memória do comércio de escravos, como São Jorge da Mina, no Gana, ou Gorée, no Senegal. O projeto A Rota do Escravo da UNESCO, lançado em 1994, com a pretensão de promover o estudo das “causas, consequências e formas de resistência” dos escravos, vem atraindo milhares de turistas a estes locais, provindos de todo o mundo, atraídos pelo esforço de preservação dos lugares de memória do tráfico transatlântico.

Num passado com uma herança tão difícil de gerir pelos descendentes dos algozes e das vítimas, é fundamental procurar um equilíbrio no conteúdo e na forma como se narra a História. Os factos têm de ser transmitidos de forma objetiva e com todas as suas cores; o papel de todos quantos beneficiaram com o tráfico, e as consequências trágicas da deslocalização forçada de 12 milhões e meio de almas para o outro lado do Atlântico, não podem ser menorizados; ao mesmo tempo, não pode ser esquecido o contexto histórico em que a escravatura ocorreu, nem ser invocados argumentos que frequentemente fazem parte da memória, mas não da História. O meu guia local, Boris Medatinsa, tem o raro dom de cumprir todos esses requisitos.

Começa por me explicar que Ajudá é o aportuguesamento de Uidá, o nome da povoação onde o rei D. Pedro II decidiu mandar erguer uma fortificação, em 1680, para proteger o comércio de escravos na região. Mas o edifício que me dá a conhecer apenas foi construído em 1721, com o apoio de capitais levantados pelos comerciantes da capitania da Bahia, mediante a cobrança de um imposto sobre os escravos africanos desembarcados na cidade do Salvador. O forte militar, abaluartado, aproveita uma pequena elevação, sobranceira ao caminho que conduz à praia, a cerca de três quilómetros.

Quando o visito, surpreende-me por estar tão bem preservado, mas Boris nem me dá tempo para lhe pedir uma explicação:

— Depois de o reino de Daomé (atual Benim) ter declarado a independência da França, em 1960, as autoridades deram um ultimato ao Governo português para o abandonar, até 1 de agosto de 1961. O vosso primeiro-ministro acabou por ser ver forçado a fazer-lhes a vontade, mas nos seus próprios termos: no último dia do prazo, deu ordens aos dois últimos representantes do Império que incendiassem a fortaleza, antes de a abandonarem.

Não contendo o riso, Boris diz-me que já sabe com quem os africanos aprenderam as más maneiras. Venho depois a saber que a Fundação Calouste Gulbenkian financiou a recuperação e restauro do forte, em 1987, mitigando a má imagem deixada pela desonrosa ordem de saída do mais pequeno território colonial do mundo, dada por Salazar.

Boris conduz-me depois através de um percurso que termina junto à praia, na Porta do Não Retorno, um grande monumento em forma de portal, destinado a assinalar a partida de cerca de dois milhões de escravos para as Américas, desde o golfo do Benim. Pelo meio, visitamos antigas casas de negreiros, árvores sagradas, templos vudu e uma vala comum, onde eram deitados os despojos dos escravos que morriam antes de embarcar. Uma hora passada a ouvir Boris, concluo que a história de Ajudá — e do reino de Daomé, em geral — é fascinante, mas, se a tivesse de resumir numa personagem, ela teria apenas um nome e dois apelidos: Francisco Félix de Souza.

Sentamo-nos numa esplanada do restaurante Citro Grill, para que Boris me conte a vida superlativa daquele homem, que não cabe nas páginas deste artigo, mas sim numa obra de fôlego — como o romance histórico “O Vice-Rei de Ajudá”, de Bruce Chatwin. Animado com o meu interesse, convida-me a experimentar o sodabi, um destilado artesanal obtido a partir do vinho de palma, frequentemente usado em cerimónias religiosas. O teor alcoólico é comparável ao da vodka, pelo que me fico por uma água de coco.

— Francisco Félix de Souza nasceu na Bahia, filho de português e de índia, na segunda metade do século XVIII. Por razões que se desconhece, estabeleceu-se no então Reino de Daomé em 1800. Tornou-se responsável do forte português de São João Baptista de Ajudá na idade adulta (onde antes havia trabalhado como escrivão), embora sem autorização do governo português, que à data mostrava pouco interesse pelo forte. Aos poucos, foi ganhando interesse no comércio de escravos e, de forma muito astuta, garantiu a proteção do próprio rei de Daomé, tornando-o no seu maior aliado e fornecedor.

Boris faz uma breve pausa, enquanto olha para a praça onde se localizava o antigo mercado de escravos, mesmo à nossa frente, antes de prosseguir:

— Quando já estava muito rico, Francisco afrontou o rei Adanuzam, por não ter recebido os escravos pelos quais pagara adiantadamente com mercadorias. Caiu em desgraça e foi preso quando visitava a cidade de Abomei, a capital do reino. Valeu-lhe a tradição da família real, segundo a qual o branco era a cor da morte, pelo que matar um branco, mesmo que fosse mulato, era um sacrilégio. O rei ordenou então que Francisco Félix fosse imerso em tonéis de índigo para que ficasse azul-escuro e nunca mais usasse a cor da pele como arma para o afrontar.

Interrompo a conversa para dar uma enorme gargalhada, mas recomponho-me rapidamente: em Ajudá, troçar com tais figuras em público é punido com pena capital. Boris prossegue seriamente a sua explicação:

— Nesta época, Francisco conheceu Guapê, meio-irmão do rei, tornou-se seu amigo e, com a sua ajuda, acabou por ser libertado. Ambos decidiram então conspirar contra Adanuzam, o que acabaram por fazer com sucesso. Guapé tornar-se-ia rei de Daomé em 1820. Um ano depois, decidiu atribuir a Francisco o cargo de primeiro conselheiro, o controlo absoluto do comércio externo do reino e o título de “Chachá” (possivelmente porque, quando as pessoas o procuravam, dizia que as atenderia em breve, com um “já, já!”).

É a minha vez de olhar para aquele antigo mercado, e de imaginar a voracidade com que Francisco enriqueceu, sem jamais lhe ter passado pela cabeça, um segundo que fosse, que a sua fortuna se fez à custa do rapto, desterro e morte de milhares de vidas alheias. Francisco morreu nonagenário, deixando viúvas 53 mulheres, 80 filhos homens e dois mil escravos. Teve direito ao funeral de um grande chefe daomeano, incluindo até a oferenda de sacrifícios humanos. O seu túmulo é até hoje reverenciado pelos seus descendentes e pela comunidade afro-brasileira de Ajudá. Boris termina a história com um sorriso nos lábios, intuindo facilmente o impacto que a mesma me provocou — como se fosse um truque fácil que utilizasse com frequência para atrair a atenção dos visitantes.

Aos meus olhos, Francisco Félix de Souza foi a versão daomeana do Mr. Kurtz do “Coração das Trevas”, de Conrad: um lendário comerciante genial e louco, perdido algures num reino sanguinário da África negra, venerado como um semideus pelos seus súbditos. A personificação da corrupção moral, da barbárie e do horror absoluto. Não por acaso, foi justamente a obra de Conrad que inspirou o argumento de “Apocalypse Now” e a figura do Coronel Kurtz, interpretada por Marlon Brando.

Paradoxalmente, ou talvez não, “Chachá” foi reverenciado pelas primeiras comunidades de escravos alforriados, oriundos do Brasil. Embora se tivesse tornado no maior traficante de escravos de que há memória na região e personificasse a perfídia absoluta, Francisco acabaria por apoiar a plena integração desses retornados na sua rede comercial e social, bem como financiar a construção de muitos dos bairros afro-brasileiros de Ajudá.

A chave deste enigma talvez se encontre na tese defendida, em Portugal, pelo historiador João Pedro Marques, para quem os escravos, através das suas revoltas, procuravam simplesmente a sua própria libertação ou a melhoria das suas condições de trabalho, alimentação e tratamento, mas não necessariamente a erradicação da escravidão.

Alheios à verdade dos factos, grande parte dos africanos originários da região veneram os membros da família Souza, em particular os detentores do título de “Chachá”, que passou a ser hereditário desde a morte de Francisco.

Respeitar a História, honrar a memória

A África Ocidental é um laboratório de lugares tenebrosos, histórias macabras e figuras lendárias, onde é frequentemente difícil distinguir a realidade da imaginação. É esse o caso de Kunta Kinte, o célebre jovem escravo que, no século XVIII, teria sido capturado nas margens do rio Gâmbia, e dali levado por negreiros britânicos para Gorée, antes de partir para os Estados Unidos, onde acabaria por ser vendido e torturado.

O escritor norte-americano Alex Haley, suposto descendente de Kunta Kinte, celebrizou a figura através do romance “Raízes”, publicado em 1976 como obra de “não-ficção”, tendo baseado o seu relato na investigação que realizou junto de fontes locais. “Raízes” vendeu um milhão e meio de exemplares em sete meses, e foi adaptado para a televisão, tendo transformado a perceção da maioria dos cidadãos norte-americanos sobre a escravatura: no lugar de um evento histórico frequentemente visto como distante e desonroso, passaram a interpretá-lo como uma narrativa pessoal de sobrevivência e de orgulho na herança cultural africana. Decidido a compreender melhor o personagem que deu origem ao mito, aproveito uma viagem de trabalho para visitar Jufureh, nas margens do rio Gâmbia.

Há 570 anos, Luís de Cadamosto, navegador veneziano ao serviço da coroa portuguesa, realizou uma célebre expedição de exploração daquele longo rio, que dá nome ao país homónimo. Um dos seus oficiais acabou por falecer a bordo, tendo o seu corpo sido enterrado na minúscula ilha de Santo André, em frente de Jufureh. A ilha (hoje James Island) tornou-se depois um pequeno entreposto dos traficantes de escravos britânicos, que para ali os traziam, com o objetivo de os enfraquecer com um jejum forçado de duas semanas, antes de serem levados para Gorée, no Senegal, e daí para as Américas.

Defronte da ilha, vislumbro Jufureh, uma pequena povoação ribeirinha outrora pertencente ao reino de Niumi, com uma localização estratégica no controlo das rotas de navegação do rio Gâmbia. Começo por visitar as ruínas da antiga igreja portuguesa de São Domingos, nas redondezas, antes de ser apresentado aos descendentes da família da Kunta Kinte. Numa cerimónia estudada, duas mulheres mandinga contam-me, num francês aceitável, a história heroica do seu ilustre antepassado, com a mesma diligência seca da voz automática de um gravador de chamadas. Sinto que toda aquela produção se destina a contar uma história com pés de barro, com o único propósito de alimentar um mito e, com isso, atrair turistas e melhorar as parcas economias da aldeia...

Com efeito, pouco tempo depois da minha visita, venho a confirmar que a minha intuição estava correta: anos depois da publicação do livro, veio-se a descobrir que, Alex Haley, antes de se deslocar à Gâmbia para fazer o trabalho de investigação que antecedeu a redação do livro, articulou-se com as autoridades gambianas, para que estas dessem previamente a conhecer as venturas de Kunta Kinte a um falso griot. O objetivo era que este presumível depositário fiel da tradição oral africana contasse a Haley a história que o próprio escritor já conhecia, e que ele mesmo queria ouvir. O escândalo não foi mesmo assim capaz de travar o sucesso do livro e da série televisiva, o impacto social da narrativa e a fortuna do seu autor...

A célebre ilha de Gorée, no Senegal, também é vítima frequente de excessos e manipulações históricas. Património da Humanidade e must see do turismo cultural africano, Gorée é basicamente uma ilha-postal com uma interessantíssima arquitetura colonial, em que uma estratégia de comunicação deliberada exagerou os traços mais grossos do seu passado escravocrata.

A famosa Casa dos Escravos, outrora pertencente a uma mulher de origem senegalesa que integrava uma minoria de origem mestiça, ligada ao tráfico negreiro, é o ponto alto da visita a Gorée. A casa foi transformada num museu pelas mãos do seu carismático conservador Joseph Ndiaye, conhecido pelas suas visitas guiadas carregadas por uma forte carga emocional, através das quais pretendia resgatar o legado africano da oralidade contra a epistemologia ocidental da História. Com as suas performances espetaculares, conseguiu transformar Gorée, e a Casa dos Escravos, num local de visita obrigatória para dezenas de chefes de Estado de todo o mundo.

A determinado ponto, Ndiaye chegou mesmo a dizer que 20 milhões de africanos escravizados teriam passado pela ilha, em direção às Américas — mesmo quando os mais recentes dados indicam que esse número não terá ultrapassado os 30 mil.

Gorée é uma ilha-postal de interessantíssima arquitetura colonial, em que uma estratégia de comunicação exagerou os traços mais grossos do passado escravocrata

Ndiaye exagerava deliberadamente nos números, com um propósito de manter viva a memória da tragédia. Não estando em causa a importância de Gorée como lugar simbólico da consciencialização e memória do tráfico negreiro, a verdade histórica ficou a perder.

Em bom rigor, quando comparada com a dimensão e o impacto que o castelo de São Jorge da Mina teve na história do tráfico transatlântico de escravos, Gorée teve um papel real muito modesto.

O castelo, erigido em 1482, foi desenhado em Portugal e construído como um Lego. Os materiais (pedra lavrada e numerada, gesso e cal) foram transportados desde Lisboa e utilizados como lastro dos navios. Em poucos meses, 600 homens, apoiados por uma centena de pedreiros e carpinteiros, ergueram uma enorme fortificação, com funções de feitoria. Inicialmente planeado para proteger o comércio de ouro na região, rapidamente passou a ser utilizado como entreposto para o comércio transatlântico de escravos. Ao longo de cinco séculos, o castelo viria a ser sucessivamente ocupado e administrado por portugueses, holandeses e britânicos. Muitos dos cerca de 700 mil escravos que partiram para as Américas desde a Costa do Ouro, apenas no século XVIII, foram levados desde este lugar.

Os relatos das atrocidades cometidas impedem alguns visitantes de chegar ao fim da visita, junto à “porta do não retorno”. Imagino os escravos acorrentados atravessarem, um de cada vez, essa pesada porta de ferro, em direção às canoas que os levarão até aos navios negreiros. Ofuscados com o brilho do sol, depois de semanas, ou mesmo meses, nos calabouços escuros, fétidos e sobrelotados do castelo, provavelmente desconhecem que não voltarão a regressar. Espera-lhes uma viagem de dois meses rumo às Américas e às Caraíbas. Um sexto deles morrerá pelo caminho. A maioria dos sobreviventes irá trabalhar nos engenhos de açúcar da Bahia e Pernambuco.

Mais do que uma descida ao coração das trevas, São Jorge da Mina é um tratado implacável sobre o lado mais sombrio da condição humana. Mas a história da humanidade é mesmo assim: uma pele cheia de cicatrizes. É preciso revisitá-la com frequência, como quem cura os seus traumas no divã do psicanalista. Como diz Isabel Allende, “contar a nossa história é a única forma de não sermos devorados por ela”.

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