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Uma vida à espera de um momento assim

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Uma vida à espera de um momento assim

O entusiasmo reinou na receção ao Casa Pia
O entusiasmo reinou na receção ao Casa Pia

Torreense. O clube vive “a melhor época” da história com a ida ao Jamor e a possível subida à I Liga. A cidade nunca esteve tão mobilizada

O edifício da antiga sede do Torreense está engalanado. A localização central torna-o um local apetecível para a divulgação do lema do clube: “O orgulho do Oeste somos nós.” No entanto, o apoio está borrifado por todo o lado. Junto ao mercado existem imagens das figuras de proa do plantel e não há loja cuja montra se esquive a um toque de azul-grená.

Setenta anos depois, o Torreense vai disputar a final da Taça de Portugal (domingo, 17h15, RTP1). Carlos Matias é ligeiramente mais velho. Tem 74 anos e esteve lá na primeira presença do Sport Clube União Torreense (SCUT) no Jamor. Lembra-se de ver camiões a rumarem ao Estádio Nacional com pessoas na carroçaria. O resultado foi desfavorável: 2-0 para o FC Porto. Desta vez espera um desfecho diferente.

“Quando era putozinho, com 5, 6 anos, os jogadores iam treinar e eu ia para trás da baliza apanhar as bolas.” Foi uma prematura paixão passada por um tio e que quer continuar a transmitir. Uma das netas, Maria do Mar, tem 4 anos e meio, a mesma idade que Carlos tinha quando se estreou no Jamor. Uma emotiva coincidência: “Tem mexido comigo.”

Esta época, Carlos Matias não falhou um jogo do Torreense, mesmo fora de casa. Recentemente teve um “problema de saúde” que o deixou “às portas da morte”, mas ninguém diria. Tira do bolso o seu iPhone e mostra uma fotografia a abanar um cachecol enquanto se empoleira na janela de uma carrinha durante a receção que os adeptos fizeram à equipa na meia-final, diante do Fafe.

Matias chegou a ser mecânico do clube quando Jesualdo Ferreira passou pelo Torreense e cuidava do Opel do treinador. Veste um polo grená e traz um cachecol no bolso. É intercetado por um indivíduo mais velho que lhe pergunta se ainda há bilhetes. A cidade está em gáudio. Em poucos dias, o Torreense jogou a 1ª mão do play-off de subida à I Liga contra o Casa Pia (0-0), vai disputar a final da Taça de Portugal frente ao Sporting e vai realizar o segundo jogo frente aos gansos, decisivo para uma possível promoção ao patamar onde a equipa não está desde 1992.

Azul-grená de todas as maneiras

Até chegar ao Jamor, o Torreense eliminou Correlhã, Oliveirense, Lusitânia de Lourosa, Casa Pia, U. Leiria e Fafe. O percurso bem-sucedido permitiu ao clube tornar-se na sétima equipa dos escalões inferiores — no caso, a II Liga — a marcar presença na final da Taça. “Mesmo que não consigamos colocar a cereja no topo do bolo, a época já está ganha.” A satisfação é expressa por Toínha. A figura mítica tem um espaço reservado no museu do clube que assinala os 50 anos de dedicação ao emblema de Torres Vedras. Foi jogador, treinador e presidente e nunca viu nada como o que se está a passar. “O Torreense está a viver a melhor época.”

O ponto de mudança, para Toínha, foi a alteração na estrutura. A entrada de Nuno Carvalho, que, através da empresa Agriloja, é o principal investidor, permitiu fazer do Torreense “um clube com pujança e vigor”. A partir daí, “o Torreense foi sempre a subir, a inovar, a melhorar, a fortificar-se”.

Torreense é a 7ª equipa dos escalões inferiores a chegar ao Jamor. Primeira vez na final da Taça foi há 70 anos

Toínha percorre a exposição. Os troféus estão livres de vitrines. O conhecimento enciclopédico dos artefactos permitir-lhe-ia trabalhar como guia. Aponta para uma fotografia dele próprio numa eliminatória da Taça de Portugal, em 1987, na Luz. Por cima está José Couceiro. Certo dia chocou com o colega e partiram a cabeça um ao outro. Mesmo assim, num ato de resiliência e de amor ao símbolo, continuaram em campo.

Desses tempos não faltam histórias: “Na altura, o treinador era o grande Mário Wilson. Fomos jogar à Tapadinha, contra o Atlético. Almoçámos em Lisboa, no Hotel Embaixador. No dia do jogo há sempre aquele formigueiro. Faltavam cinco minutos para sairmos e disse a um dos capitães que ia à casa de banho. O autocarro arrancou e eu não estava lá. Nos anos 80 não tinha telemóvel. Tive que arranjar táxi. Demorei mais de meia hora a conseguir um. Cheguei à Tapadinha, disse que era jogador do Torreense, mas o porteiro não me deixou entrar. Precisei da ajuda de um adjunto do Atlético que tinha estado no Torreense. Os meus colegas estavam a aquecer, o Mário Wilson já tinha dado a palestra e eu ia jogar de início. Ninguém deu pela minha falta.”

Recordar o percurso de Toínha é percorrer muita da história do Torreense. Não se esquece de mencionar a subida à I Liga, que permitiu ao clube, em 1991/92, atingir as seis participações no nível mais elevado, a maioria delas na década de 50, quando a equipa era conhecida por onde passava como os “Milionários do Oeste”. Como presidente, entre 2014 e 2018, orgulha-se de ter liquidado as dívidas que constrangiam a organização do clube, mas também de ter recebido o antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no centenário, em 2017. “O pai dele tinha vários quadros dos clubes de que era sócio honorário, mas o único que estava emoldurado era o do Torreense.”

Um fulgor maior que o estádio

Os adeptos do Torreense caminham sobre as nuvens dirigindo-se ao Estádio Manuel Marques antes do jogo da 1ª mão do play-off, contra o Casa Pia. Afinal, vivem o momento de uma vida. A linha de comboio passa por trás do campo e a estação nas imediações poderia muito bem indicar “Paraíso”. O pão com chouriço e a cerveja motivam as gargantas para que o apoio não esmoreça nos momentos em que a equipa precisar. Também servidos em boa quantidade são os cachecóis, comemorativos da final da Taça de Portugal.

José António, adepto que aguarda a hora do princípio do jogo, nunca presenciou nada assim. “A malta está mobilizada. Vê-se pelo ambiente.” Tem 83 anos e é orgulhosamente o sócio nº 797. Quando emigrou, nos anos 70, era do Torreense que sentia falta de receber notícias.

A fila para entrar quase sai do perímetro do estádio. Após se passar os torniquetes, os adeptos quase vão parar dentro de uma das balizas. É atrás do posto do guarda-redes que se posicionam os mais ruidosos e a proximidade torna impossível que Patrick Sequeira não tenha ouvido os impropérios que lhe foram dirigidos durante as sucessivas assistências médicas que o guardião do Casa Pia solicitou. O jogo terminou com um nulo.

José António é um dos indefetíveis. Diz logo: “Só sou do Torreense.” Com adeptos mais ou menos assíduos, as bancadas preenchem-se. O número de sócios do SCUT já ultrapassava os cerca de 2500 lugares do estádio. Com o furor provocado pelo bom momento, mais se quiseram juntar. “O Torrense tinha 3 ou 4 mil sócios. Agora penso que já vai nos 8 ou 9 mil. Foi uma coisa impressionante”, descreve Toínha. “Contra o Fafe houve por volta de 200 a 300 pessoas que tinham bilhete que nem conseguiram entrar.”

Uma notícia do “Record” deu conta de que houve adeptos do Sporting a fazerem-se sócios do Torreense para conseguirem estar no Jamor a apoiar a equipa verde e branca. “Quando fui levantar os meus sete bilhetes, vi pessoas pagarem quase €200 de quotas para arranjarem bilhetes”, conta Carlos Matias. O clube, que não partilhou com o nosso jornal o atual número de sócios e o crescimento desde o início da época, optou por não alimentar a teoria, defendendo que a cidade está totalmente mobilizada.

José Carlos Franco, outro dos que disputa a sombra à entrada do estádio, acha “normal” que o bom momento atraia as pessoas. “É como tudo na vida”, reflete aquele que foi massagista do Torreense durante 30 anos. Ao lado tem o compincha Hélio Feliciano. Ainda não decidiu se vai abancar no Jamor na véspera ou no dia da final, mas a ementa está escolhida: “Duas pernas de javali, caracóis e moelas.” Carlos Matias vai apostar no “peixe e marisco”. Toínha leva “o churrasco, a carne, o porco no espeto, o frango assado e um bom vinho de Torres Vedras”. Mas todos querem mesmo é conhecer o sabor da vitória.

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