Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Lebohang

António Montez, neto de Cavaco Silva: “Só deixarei de ser associado se a minha dimensão futebolística passar a dimensão política do meu avô”

Publicações recomendadas

Citação

António Montez, neto de Cavaco Silva: “Só deixarei de ser associado se a minha dimensão futebolística passar a dimensão política do meu avô”

António Montez, a passar a bola durante um jogo contra o Mafra, é o sub-capitão da Académica
António Montez, a passar a bola durante um jogo contra o Mafra, é o sub-capitão da Académica
Gualter Fatia

Quando nasceu, em 2001, o avô já tinha conquistado duas maiorias absolutas e governado Portugal. Lembra-se de ser criança e de fazer parte da caravana que acompanhou Aníbal Cavaco Silva durante a campanha que antecedeu a primeira eleição para Presidente da República. A azáfama não o seduziu para a política e tornou-se jogador de futebol. O médio de 24 anos é sub-capitão da Académica e acaba de subir à II Liga, devolvendo o clube aos campeonatos profissionais. A promoção foi confirmada perante 26 mil pessoas

Os jogadores foram-se revezando. Na varanda da Câmara Municipal de Coimbra, à vez, pegaram no microfone e fizeram discursos sentidos. Um deles decretou que aquele era o dia mais feliz da sua vida. A multidão lançava fumos negros que adensavam a escuridão de uma noite de festa. Quando chegou o turno de António Montez se aproximar do parapeito, gritou-se Ca-va-co! Ca-va-co! Ca-va-co! na direção dos aposentos de Ana Abrunhosa, a autarca local imiscuída na farra que foi um aquecimento para a Queima das Fitas.

A Académica terminou a época a celebrar a promoção à II Liga após quatro épocas na Liga 3. O gatilho para os festejos foi a vitória por 3-0 contra o Trofense. A Briosa só na última jornada da fase de subida garantiu o segundo lugar, atrás do campeão Amarante. Fê-lo num Estádio Cidade de Coimbra que se tornou um local de culto. Nos últimos quatro jogos caseiros da temporada a assistência esteve sempre acima dos 10 mil espetadores, explodindo na hora da despedida com 26.356 pessoas, recorde absoluto do clube fundado em 1887.

António Montez patrulhou o meio-campo ao longo do percurso. Acredita que em Coimbra “toda a gente estava chateada com a Académica” devido às desilusões recentes, mas que, esta época, o clube e a cidade se reconciliaram. “Mudámos muitas questões negativas do passado recente da Académica.”

Especialista em reerguer históricos, além do desfecho que obteve na segunda época nos estudantes, alcançou também uma subida no Vitória FC, de Setúbal. Aos 24 anos, conta com um jogo na I Liga e logo num dos mais bizarros episódios da história do futebol português, quando nove jogadores da B SAD enfrentaram o Benfica. “Já estava 7-0 ao intervalo. Lembro-me do Jorge Jesus a dizer 'isto é para andar, isto é para andar'. Eu olhei para ele a pensar que não havia necessidade nenhuma.” Assume o desejo de regressar ao mais alto patamar para desfrutar a sério.

O que é que significa colocar a Académica um passo mais próximo do nível em que esteve na maior parte da sua história?

Toda a gente sentiu um orgulho enorme por termos conseguido mudar a mentalidade e a energia dos últimos anos. Sempre que tinha interações com adeptos nas redes sociais ou na rua, toda a gente estava chateada com a Académica. Epá, gosto da Académica, mas ando chateado com ela. A minha Académica já não é o que era. Havia uma relação de amor e ódio. Este ano, com resultados positivos, conseguimos trazer mais pessoas ao estádio. Depois, foi o que foi. Uma das coisas que mais gosto do Leandro Silva, o nosso capitão, é o conhecimento que ele tem da Académica. Ele dizia: Se ganharmos este jogo, no próximo vamos ter 10 mil, 12 mil adeptos. Nós dizíamos que era impossível, mas depois acontecia. O Leandro dizia-nos que, subindo de divisão, íamos ter uma visibilidade diferente que podia mudar a nossa carreira. No último jogo, acabámos com 26 mil pessoas no estádio, recorde da Académica e da Liga 3. Sou de Lisboa, não tinha noção disto. É muito engraçado, foi fantástico.

Ter 26 mil pessoas no estádio pressionou-vos?

Com adeptos ou sem adeptos, estás a jogar por ti e pelo teu trabalho. Queres sempre acertar o maior número de passes possível, desarmar, marcar golos. Claro que, com 26 mil, a pressão aumenta, mas uma das chaves da época foi mudarmos isso. Falei com pessoas que tinham medo de pôr adeptos no estádio. Ah, isto com adeptos corre sempre mal. Há uns anos foi com o Cova da Piedade [em 2017/18, a Académica hipotecou a subida à I Liga, na penúltima jornada, num jogo em que teve o apoio de mais de 20 mil adeptos]. Eu dizia para trazerem pessoas para o estádio e virem apoiar. Conseguimos filtrar muito bem a energia positiva. Esta época, estivemos fortíssimos em casa. Perdemos apenas um jogo na fase regular. Foi determinante para termos subido. Antes, dizia-se que a Académica só jogava bem fora. Mudámos muitas questões negativas do passado recente da Académica.

A Académica ficou em segundo lugar na fase de subida da Liga 3, cedendo o título ao Amarante
A Académica ficou em segundo lugar na fase de subida da Liga 3, cedendo o título ao Amarante
Gualter Fatia

Quando é que nasce o lema a jornada do herói?

Isso é engraçado. Foi o lema da época. Quem trouxe isso foi o Nuno Macedo, o guarda-redes suplente, que é um craque e não mostrou o valor dele. A jornada do herói fala sobre as adversidades e complicações que te levam a alcançar algo grande. Nós perdemos no último minuto contra o 1º Dezembro e contra o Marialvas no prolongamento. Tivemos três jogos em que nos deixámos empatar no último minuto: Amora, Mafra e União de Santarém. Depois, tivemos uma semana e meia sem treinar, porque tínhamos a academia debaixo de água. Também fomos à Covilhã, estávamos a perder 1-0 e o jogo foi interrompido, porque não se via nada devido ao nevoeiro. Voltámos lá dois dias depois para jogar a segunda parte e conseguimos empatar. Quando tivemos a oportunidade de subir, em Mafra, estivemos a perder 3-0 e conseguimos empatar 3-3. Foi um acumular de coisas que fizeram a jornada do herói.

Tinham a frase afixada no balneário?

Era mais ao longo das palestras e análise de vídeos.

Como te sentiste a desempenhar o papel de sub-capitão?

Senti imenso orgulho. O treinador falou comigo na pré-época. Na altura, tinha 23 anos. Normalmente, um capitão grita bastante e eu sou uma pessoa muito calma, falo de vez em quando. Tenho que liderar pelo exemplo. Foi assim que ganhei o respeito dos meus colegas. Não facilito em nada do que é treino e jogo. O Leandro Silva é o capitão e ele é uma pessoa muito emocionada, que sente muito o clube. Houve certas peripécias ao longo da época em que, por vezes, ele perdia um bocado a cabeça. Ficava mesmo transtornado. Ele, quando está bem psicologicamente, é o melhor jogador do campeonato. Eu tentei sempre acalmá-lo para ele não se preocupar com fatores externos, ele exalta-se muito facilmente. Depois, eu tratava das multas. O único jogo em que fui capitão desde o início foi porque o Leandro levou um vermelho direto após uma entrada. No jogo da subida, ele foi substituído e acabei com a braçadeira. Dá-me um orgulho enorme. Ser capitão deu-me uma certa responsabilidade e foi muito bonito.

Já jogaste na II Liga com a B SAD. A Académica é um clube pronto para esse patamar?

A nível da dimensão, a Académica é um clube de I Liga. Agora, o clube vem de um processo de insolvência, questões complicadas financeiramente e está agora a arrumar a casa aos poucos. Não podemos subir à II Liga e perder a cabeça, calma. Temos de pôr os pés na terra. O mais importante para a Académica é profissionalizar a estrutura e o clube. Há coisas que têm de ser muito mais profissionalizadas, desde os treinos, o estádio, a direção, a equipa técnica, tudo. A Académica tem de ser competitiva na II Liga e isso vai melhorar as hipóteses do clube chegar à I Liga. Não vai chegar uma batelada de dinheiro. Vai ter de ser aos poucos. O mais importante, que são as pessoas certas, a Académica já tem.

Que perfil traças do mister António Barbosa?

Tem um perfil que nunca apanhei no futebol. O Leandro tem 32 anos e já jogou em todo lado e diz o mesmo. É uma pessoa que fala para todos os jogadores e que se preocupa com todos. Deve saber a história de vida de todos os jogadores. Tem 90, 95% do balneário com ele. Conseguiu manter os treinos competitivos, o grupo coeso e tudo a remar para o mesmo lado. Por isso é que nunca na vida vou ser treinador. É uma tarefa muito difícil. Somos 25 jogadores, 25 jogadores diferentes, com necessidades diferentes, histórias de vida diferentes, com várias personalidades. É aí que o mister António Barbosa é completamente diferente. Ao início, as coisas não estavam a correr bem e toda a gente estava com ele. Deve ser a pessoa mais importante da história da Académica nos últimos anos e foi muito contestado. O futebol é assim. O mister acreditou em mim e devo-lhe muito. Aprendi muito com ele. Já estou a ver que, se isto sair, vão gozar comigo. [Risos] Não estou a ser pago, é mesmo verdade.

Do ponto de vista tático, jogam em 4x3x3, mas com interiores como tu, talhados para pressionar e roubar bolas em zonas altas.

A nossa filosofia é tirar o máximo partido daquilo em que os jogadores são bons. Se um jogador tem dificuldades em algo, vamos evitar que faça certas coisas. Ou seja, em todas as posições, tentamos tirar o melhor de cada um. Procuramos recuperar a bola e aproveitar logo, com passes para a frente, a exposição do adversário. Em dois, três passes, chegamos à baliza. É um futebol muito agressivo nesse aspeto. Eu e o Marcos Paulo temos essa capacidade de roubar a bola, acelerar e impor um futebol mais intenso. Não é um futebol tão pautado e apoiado. Se estivermos apertados e colocarmos uma bola nas meias da linha defensiva, eles vão ter dificuldade. Na Liga 3, eles iam ter dificuldade. Os defesas colocam a bola para lançamento, para canto ou têm dificuldades em disputar o lance. Há mais erros e soubemos jogar com isso. Eu tenho uma certa chegada à área e o Leandro fica mais atrás, em construção. Porém, o nosso meio-campo roda bastante. Temos a capacidade de nos adaptar.

Em 2023/24, o médio ajudou o Vitória FC a subir do Campeonato de Portugal à Liga 3
Em 2023/24, o médio ajudou o Vitória FC a subir do Campeonato de Portugal à Liga 3
Gualter Fatia

Vamos à noite dos festejos. Lembras-te do que te gritaram quando estavas na varanda da Câmara Municipal?

Não foi só aí... Durante o jogo contra o Trofense, fiz um corte do lado da Mancha Negra e já estavam a gritar Ca-va-co!. Depois, no meio do campo, os adeptos mandaram-me ao ar a gritar isso. É muito fixe sentir esse carinho. É normal associarem-me ao meu avô. Só vou deixar de ser associado se a minha dimensão futebolística passar a dimensão política do meu avô. Para isso, tenho que comer muita sopa e duvido que aconteça. Quando as coisas correm bem, dá-me maior visibilidade. Depois, se as coisas não correm bem, dizem vai embora, neto não sei de quem. Desde que nasci o meu avô está na política. Estou habituado. Na Câmara Municipal, chamaram-me e, antes de eu falar, estavam a gritar isso. Esta semana, fui jantar fora em Lisboa e beber um copo com os meus amigos. Não tinha noção da quantidade de pessoas de Coimbra que vivem cá. Um senhor começou-me a fazer uma vénia. Pediram-me para tirar fotografias, agradeceram-me pelo que fiz e perguntaram-me se vou ficar ou não. Sou um jogador de Liga 3 e estou a sentir aquilo que um jogador de I Liga sente. É muito fixe. Um jogador gosta de sentir esse carinho.

Alguma vez te sentiste tentado a seguir uma carreira política?

Não. Lembro-me de ser muito miúdo e do meu avô estar em campanha. Tínhamos que ir a Viseu, depois íamos a Braga, depois íamos não sei onde. Eu tinha cinco, seis anos. Nós, família, ficámos um bocado traumatizados. Depois, é todo o escrutínio que um político sofre em Portugal. Acho que nenhum de nós ficou com muita motivação para seguir essa carreira. O meu avô sempre disse para estudarmos, para darmos o nosso melhor e para termos uma carreira profissional. Nunca nos forçou a nada.

Tens uma subida do Campeonato de Portugal para a Liga 3 com outro histórico do futebol português, o Vitória FC, de Setúbal. Agora, tens esta com a Académica, para a II Liga. Ainda se nota a mística destes clubes apesar de estarem em situações complicadas?

Sim. Quando fui para o Vitória FC, também não tinha bem noção do clube. É mais bairrista, mais apaixonado. Lembro-me de irmos ao Mercado do Livramento e toda agente tinha cachecóis e calendários. As peixeiras todas gritavam pelo Vitória FC. Aquilo é uma alegria. Há muitas mulheres no estádio. Em Coimbra, é diferente. Há podcasts, há análise crítica, há o doutor que disse aquilo. É mais intelectual. São dois clubes gigantes em que senti muito essa mística que não está nada adormecida. O Vitória FC depois foi para a distrital e ainda tinha o estádio com muita gente. Há muita gente que gosta destes clubes. É um ótimo sinal para o futebol em Portugal.

Um dos nove intrépidos da B SAD que enfrentaram o Benfica durante a pandemia
Um dos nove intrépidos da B SAD que enfrentaram o Benfica durante a pandemia
Gualter Fatia

Estreaste-te na I Liga num jogo peculiar. És um dos jogadores da B SAD que enfrentaram o Benfica em novembro de 2021. O quão bizarra foi a experiência de jogar contra uma equipa do poderio do Benfica apenas com nove jogadores, dois deles guarda-redes?

Essa é só mais uma história louca do meu percurso. Assinei com a B SAD e jogava na Liga Revelação com os sub-23. Fiz a pré-época com a equipa A. Correu muito bem, o Petit gostou muito de mim e inscreveu-me na I Liga. Na altura, jogava a central. Tinha 19 anos e só de estar inscrito era o jogador mais feliz do mundo. O Petit foi despedido e foi para lá o Filipe Cândido. Estava a treinar nos sub-23, como sempre. Houve um jogo em que apareceram uns casos de covid-19 e começaram a dizer que não ia haver jogo. A Liga obrigou todos os jogadores da B SAD a fazerem teste. Eu e mais seis colegas dos sub-23 estávamos inscritos na I Liga e fomos chamados. Demos negativo. Aconteceu o mesmo com vários jogadores da equipa A, mas, como tinham sido contacto de risco, não podiam ir a jogo. O Benfica tinha jogado a meio da semana com o Barcelona para a Liga dos Campeões. Era o Jorge Jesus o treinador. Por causa do calendário, eles não conseguiam alterar o jogo. Diziam que a B SAD, se tivesse jogadores, tinha que se apresentar. Entretanto, tínhamos o mínimo de jogadores. O jogo era às 20h30 e, de manhã, estava a treinar com os sub-23 quando chegou lá um diretor a dizer malta, têm que ir fazer teste, porque, se calhar, vão jogar à noite. Fomos para casa e disseram-nos que, às 17h tínhamos que estar no Jamor com as chuteiras. Ia haver jogo.

Não se ficou por aí.

Não havia equipa técnica. Fomos aquecer sozinhos a passar a bola uns aos outros. Estávamos no túnel e apareceu um delegado da Liga a dizer: Henrique Pires, o teu teste deu positivo. Ele estava ali à nossa volta. Teve que meter uma máscara e sair. Fomos aquecer com oito em vez de nove. Quando voltámos para baixo, falámos por FaceTime com o Filipe Cândido. Disse-nos como é que nos devíamos organizar, para não nos magoarmos e para aproveitarmos um bocadinho. Ninguém nos ia pedir nada. Nessa pausa, volta a aparecer o delegado a dizer que o Henrique Pires, afinal, estava negativo. Ele disse que não tinha aquecido nem nada e mandaram-no fazer skipping no balneário. Aquilo não era nada. No jogo, foi o que foi. Tínhamos o João Monteiro, guarda-redes, a jogar no meio-campo. Aquilo não devia ter acontecido. Se calhar, foi bom para o Benfica e para o Darwin Núñez, que marcou três golos e foi o melhor marcador do campeonato. De resto, não foi bom para ninguém. Passou uma má imagem para o resto do mundo.

Depois, até acaba a meio.

Do nada, disseram para eu, que vinha de lesão, e mais um ficarmos no balneário e para o João Monteiro cair. Aí, o jogo acabou por falta de jogadores. Já estava 7-0 ao intervalo. A equipa do Benfica que jogou contra o Barcelona e a que jogou contra nós foi quase a mesma. Lembro-me do Jorge Jesus a dizer isto é para andar, isto é para andar. Eu olhei para ele a pensar que não havia necessidade nenhuma. Não sinto que me estreei na I Liga. Quero uma estreia verdadeira. Tenho esse objetivo.

  • Like 2

Compartilhar este post


Link para o post

gostando-se ou odiando-se o cavaco foi o politico português mais bem sucedido em democracia. bem sucedido no sentido de ganhar eleições, nº de votos e na influência que ainda hoje tem nos admiradores e nos opositores.

se o montez passar a dimensão dele em Portugal, diria que é uma bela noticia para o próprio e para a seleção nacional.

Compartilhar este post


Link para o post

gostando-se ou odiando-se o Ruie foi o presidente mais bem sucedido em Benfica. bem sucedido no sentido de ganhar eleições, nº de votos

Compartilhar este post


Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisa de ser membro desta comunidade para poder comentar

Criar uma conta

Registe-se na nossa comunidade. É fácil!

Criar nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Autentique-se agora
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Popular Agora

  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...