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Lajes: investigação deteta chumbo em esqueletos, reforçando suspeitas de contaminação e ligação a surto de cancros

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Lajes: investigação deteta chumbo em esqueletos, reforçando suspeitas de contaminação e ligação a surto de cancros

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Estudo da Universidade de Coimbra deteta metais pesados em humanos que viviam junto às zonas poluídas pela base militar das Lajes. Nova pista pode explicar número de doenças oncológicas, mas é preciso realizar mais estudos. Enfermeiros denunciam travões a uma investigação que tentaram fazer à incidência de cancros na Praia da Vitória

É um avanço científico que identifica nos habitantes que ali residiram os mesmos elementos tóxicos cancerígenos encontrados nos solos da Base das Lajes. Um estudo realizado na Universidade de Coimbra, no âmbito de um doutoramento em Antropologia Forense, revela que um conjunto de esqueletos de habitantes da Praia da Vitória, na ilha açoriana da Terceira — onde se situa a Base Aérea nº 4 —, apresenta concentrações de chumbo e de outros metais pesados muito superiores às dos esqueletos de Angra do Heroísmo, que fica a 23 quilómetros das zonas contaminadas pelos derrames de combustíveis realizados ao longo de décadas pelos militares norte-americanos. A tese, que será defendida este verão, pode abrir caminho a mais estudos que expliquem a perceção popular sobre a prevalência de cancros naquela zona, como relataram profissionais de saúde e membros de famílias afetadas ao Expresso.

A tese de doutoramento, realizada por Félix Rodrigues, de 32 anos, natural da Terceira, detetou concentrações “significativamente superiores de dez metais” nas ossadas de indivíduos que residiram na Praia da Vitória em comparação com os de Angra do Heroísmo. Os metais mais relevantes eram o cádmio, o crómio e o molibdénio, como “provável resultado de exposição ambien­tal durante a vida, uma vez que são contaminantes conhecidos nos solos e aquíferos da zona”, escreveu o grupo de cientistas ligados ao projeto — que é financiado pelo próprio Governo Regional dos Açores — num artigo publicado na revista científica “Springer Nature” em março de 2025.

O investigador Félix Rodrigues
O investigador Félix Rodrigues
Rui Duarte Silva

Quanto ao chumbo, só foi detetado em volume relevante quando a amostra de esqueletos cresceu de 64 para 97, e essas conclusões constarão da tese de doutoramento, explica Félix Rodrigues ao Expresso, numa conversa no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. “As concentrações de chumbo nos esqueletos variam entre 4 e 67 ppm (parte por milhão) e os testes estatísticos indicam que, no grupo da Praia da Vitória, são significativamente superiores: em média são de 12 ppm em Angra e de 18 na Praia da Vitória”, destaca o investigador, ressalvando: “É difícil interpretar estes resultados, por não haver estudos semelhantes.” Por isso, ainda considera os resultados “provisórios”. Por essa razão, será preciso perceber se este nível de concentração e exposição a metais pesados provoca cancro, mas “a literatura é abundante”, alega o antropólogo.

Este era, no entanto, um elo que faltava: há oito anos o Expresso fez uma série de reportagens na Terceira (uma delas ganhou o Prémio Gazeta) em que revelou relatórios, mantidos secretos por entidades norte-americanas e portuguesas, identificando a contaminação por metais pesados em terrenos e aquíferos da Praia da Vitória. Agora, a tese de Félix Rodrigues indicia uma ligação entre as duas contaminações, evidenciando que os elementos tóxicos encontrados na água e nos solos também estão presentes nos ossos dos humanos.

O grande problema, alegam várias fontes ao Expresso, é se um dia houver uma relação comprovada de causa/efeito entre a contaminação dos solos e as doenças oncológicas, porque haverá centenas de pessoas a pedir indemnizações ao Estado americano ou ao português.

Investigador propõe um estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças oncológicas junto à Base

“É um dado novo, mas não há certezas. São resultados que apontam para a necessidade de continuar a seguir esta via”, salvaguarda o cientista, cujo pai, com o mesmo nome, tem sido um académico e ativista interessado no tema. “Será que a população que vive em Praia da Vitoria tem metais pesados no corpo?”, questiona-se Félix Rodrigues. São precisos mais estudos: “Se a presença dos metais pesados vem da contaminação, é uma discussão profunda que se tem de fazer a longo prazo. Mesmo que os corpos dos falecidos nos possam dar algumas informações, eles não falam. Mas as pessoas vivas falam. Essa era uma investigação que poderia ser feita”, propõe, sugerindo um estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças oncológicas nas imediações da Base das Lajes.

Uma investigação aos cancros travada

Mário Terra foi tradutor na Base das Lajes durante 38 anos e morreu em 2018, aos 60 anos, com uma cirrose hepática, um cancro no pâncreas e uma massa num rim. A médica que o acompanhou no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, disse à viúva que desconfiava de ter havido contacto com ambientes tóxicos ou com metais pesados, mas depois essa dedução não foi confirmada por exames posteriores, pelo menos que viessem a ser do conhecimento da família. Mais uma vez, não se sabe se estas patologias estão relacionadas com as contaminações dos combustíveis militares. Por coincidência, a sua filha, Alexandra Terra, hoje com 31 anos — e enfermeira no Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira —, estava nessa época na faculdade a fazer uma investigação sobre a incidência de cancros na Praia da Vitória. Mário não tinha sido apenas funcionário do destacamento norte-americano: crescera na Estrada 25 de Abril, uma das zonas onde é fácil encontrar famílias devastadas por doenças oncológicas. Chamam-lhe a “estrada da morte”.

Enfermeira Alexandra Terra
Enfermeira Alexandra Terra

Alexandra Terra conta que uma tia, de 53 anos, morreu de cancro do pulmão na mesma altura do pai e que depois outra tia morreu aos 47 anos da mesma doença. Apenas uma fumava, mas ambas trabalhavam na base, e disseram-lhe “que não era do tabaco, mas de causas ambientais”, onde também releva o problema do amianto (que já foi alvo de obras e intervenções incompletas).

Quando era estudante, a enfermeira ainda fez entrevistas a habitantes do Juncal — a zona contaminada que fica entre a entrada da Base das Lajes e os enormes depósitos de combustível da South Tank Farm —, mas o projeto não avançou: “A incidência era relevante. Casa sim, casa não, havia pessoas com doen­ças oncológicas”, recorda. “É um grande problema de saúde pública”, considera, mas a Universidade dos Açores “sugeriu-nos ou obrigou-nos a mudar o tema da investigação para o impacto das reformas antecipadas nos trabalhadores da Base das Lajes”, que saíram do ativo na fase da grande redução de pessoal promovida pelos EUA em meados da década de 2010.

O coordenador desse estudo, que na época falou para a reportagem do Expresso, era o enfermeiro Norberto Messias, que deixou o ensino por questões de saúde. Natural de Porto Martins, concelho da Praia da Vitória, já foi operado a um cancro no pâncreas e está agora a ser tratado, em Lisboa, a outro cancro no fígado. “A universidade não quis que se concluísse o estudo porque tinha uma parceria com uma universidade no Massachusetts e estávamos a pôr em causa os americanos”, conta ao Expresso, queixando-se de “grande dificuldade no acesso a dados”. Segundo o antigo investigador, “não foi autorizado o acesso às certidões de óbito das pessoas da Praia da Vitória para analisar as causas de morte e a Segurança Social não disponibilizou o número de pessoas com mais de 60% de deficiência atribuída por terem cancro”.

Apesar de várias fontes apontarem para uma espécie de “silenciamento” do problema nos últimos anos, o Governo Regional está a financiar o projeto de investigação de Félix Rodrigues que encontrou chumbo nos esqueletos. Em 2021, Artur Lima, o vice-presidente do Governo Regional com a pasta da Base das Lajes, foi citado no “Diário Insular” dizendo que a situação ambiental decorrente da contaminação dos solos pela atividade norte-americana “piorou consideravelmente”. E alertou para a necessidade de haver “avanços significativos” no processo. Apesar das tentativas do Expresso, não foi possível falar com Artur Lima até ao fecho desta edição.

Chumbo, autismo e amianto

Quem não encontrou pessoas interessadas em fazer parte de uma associação foi Maria Cerqueira Gomes, também enfermeira nas Urgências do Hospital de Angra do Heroísmo e que integrou as equipas de Norberto Messias. “Fiquei sozinha”, desabafa ao Expresso, numa esplanada junto à Marina da Praia da Vitória. Em 2019 ainda criou a associação Ajudate — Associação de Jovens Unidos pela Descontaminação da Terceira, mas não teve adesão. “Alguns ofereceram-se, mas tinham medo de represálias, porque muitos pais trabalham na Câmara ou na base.” Ela própria diz que foi ameaçada, de forma velada, de que iria ter dificuldade em arranjar emprego.

Esta enfermeira, que cresceu na Estrada 25 de Abril, desfia oito casos de cancro na família, incluindo os pais, avós e tias. Tanto Maria como Alexandra descrevem casos de doen­ças oncológicas recentes de amigos, colegas do hospital (todos da zona da Praia da Vitória) e de trabalhadores da base. Maria Cerqueira Gomes acrescenta ainda suspeitas de prevalência de autismo naquela zona (chegou a escrever um artigo no “Diário Insular” sobre o tema) por alegada contaminação das grávidas com chumbo, mas também não há dados ou estudos que comprovem ou contrariem a tese.

O Expresso solicitou dados sobre os cancros na Praia da Vitória ao Centro Oncológico dos Açores, mas as questões foram remetidas para a Secretaria Regional da Saúde e não houve respostas até ao fecho da edição. Há oito anos, o Expresso publicou dados de 2011 revelando que o concelho tem 8,52% da população do arquipélago e 9,02% dos casos de cancro. Se a divergência fosse grande, a percentagem de casos seria muito superior à percentagem da população. “Não há nenhuma evidência científica dessa divergência até 2011 e o mesmo se passa com as projeções até 2014”, disse então ao Expresso Raul Rego, nessa época diretor do Centro Oncológico.

Enfermeira Maria Cerqueira Gomes
Enfermeira Maria Cerqueira Gomes

Outro problema é a saúde dos funcionários da Base das Lajes. O Expresso falou com vários trabalhadores atuais e reformados que referiram a falta de um programa preventivo de saúde por parte do empregador, a Força Aérea norte-americana. Os funcionários são apenas submetidos a um audiograma anual e só algumas categorias, como os bombeiros, fazem radiografias e análises anuais por estarem mais expostos a elementos tóxicos. Todos relatam a existência de numerosos casos de cancro e comentam que muitos dos funcionários que pediram a reforma antecipada durante o downsizing morreram de doenças oncológicas pouco depois de se aposentarem. No entanto, todos convergem na ideia de que continua a ser “especulação” ligar essas mortes à contaminação por hidrocarbonetos.

O único que aceita dar a cara é João Ormonde (os outros alegam “medo de represálias”), que presidiu à comissão de trabalhadores durante dez anos e está reformado há uma década. “Preocupa-me muito mais a contaminação por amianto do que os hidrocarbonetos. É de longe mais perigoso, porque a exposição direta causa cancro no pulmão e na pleura”, diz ao Expresso no quintal da sua casa em Angra do Heroísmo, até porque “ainda não foi todo retirado”. E algum foi depositado clandestinamente por um empreiteiro a norte da pista, recorda. Quanto à relação entre os cancros e a contaminação por hidrocarbonetos, argumenta que tem sido tudo “especulativo” e espera pela realização de estudos que o comprovem. Mas agora foi dado mais um passo.

P&R

A zona da Base das Lajes está contaminada?

Sim. Estudos confidenciais realizados desde 2004, mas só divulgados em 2018, identificaram a presença de metais pesados nos solos, com “risco carcinogénico” seis vezes superiores ao máximo tolerável para os trabalhadores da construção na Tank Farm, escreveu o Expresso numa reportagem à época. Agora, o Ministério da Defesa Nacional responde que, “apesar de já há muito terem sido desativados depósitos e pipelines de combustível mais antigos, da responsabilidade norte-americana, constatou-se terem existido ruturas e derrames no passado, originando contaminação identificada em locais delimitados, que nesse momento não terá sido adequadamente mitigada”.

Tem sido feita a descontaminação?

A palavra certa não é descontaminação, que muitos consideram impossível, mas sim mitigação, uma forma de minimizar os efeitos da poluição. Segundo o Ministério da Defesa Nacional, “os trabalhos de mitigação realizados pelos EUA nos últimos anos, em articulação com recomendações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), referem sobretudo: a inertização de pipelines inativos ou a sua remoção; remoção dos solos envolventes contaminados (cerca de 70 m2 de solos); levantamento do estado de conservação de diversos furos; construção de novos piezómetros para monitorização/extração de águas subterrâneas; e monitorização das águas subterrâneas”.

O problema está resolvido?

Não. O Ministério da Defesa Nacional diz que, “não obstante os trabalhos realizados, a matéria continua a justificar acompanhamento técnico, monitorização continuada e articulação bilateral no quadro dos instrumentos aplicáveis à presença norte-americana na Base das Lajes”. Quanto à água, “em 2025 não se registaram hidrocarbonetos acima das normas de qualidade da água, mantendo-se, por prudência, a monitorização destes furos.”

Os trabalhos têm 
tido continuidade?

Não. “No período de 2020 e 2021 não existiram ações de reabilitação ou mitigação executadas pelos EUA, mercê da posição norte-americana assumida em 2020 relativamente à inexistência de potenciais impactos da contaminação dos solos e das águas subterrâneas na saúde humana”, responde o Ministério da Defesa Nacional. Mas essa posição foi “revogada no final de 2022”. De acordo com a Defesa, “em 2023 foram equacionadas pelos EUA diversas ações de levantamento da situação, com base nas quais se propuseram e concretizaram ações de monitorização e de reabilitação em 2024”.

Força Aérea cria vacas nas zonas mais contaminadas da Base das Lajes

Spoiler

Há gado a pastar e fardos de erva colhida nas piores zonas da Base das Lajes, poluídas com metais pesados há décadas. A Força Aérea tem 81 vacas criadas nas zonas identificadas com a contaminação por hidrocarbonetos, mas garante a segurança alimentar dos animais

Aquele terreno pode estar intoxicado com metais pesados, mas o açoriano Dimas Rocha pastoreia tranquilamente nove das suas vacas num dos solos mais contaminados da ilha Terceira, nas imediações da Base das Lajes. É junto aos enormes depósitos de combustível da chamada South Tank Farm — os segundos maiores tanques da Força Aérea norte-americana fora do território dos EUA —, onde houve depósito de lamas tóxicas e numerosos derrames ao longo de décadas. “Dizem que sim”, admite o criador de gado ao Expresso. “Já tenho aqui o gado há uns anos e nunca me aconteceu nada”, diz, despreocupado.

Não muito longe dali, num terreno adjacente a outra das zonas mais poluídas — junto à zona Porta de Armas da Base Aérea nº 4 —, dispersam-se dezenas de enormes rolos pretos com erva para alimentar o gado. Também é comum encontrar vacas nessas pastagens que fazem fronteira com a pista. No entanto, essa forragem e as cabeças de gado pertencem à própria Força Aérea Portuguesa (FAP), que conhece bem os locais contaminados e que possui anualmente entre 80 e 120 vacas (10% das quais usadas para consumo nas messes e o resto para venda no mercado). Segundo respostas ofi­ciais da FAP ao Expresso, este ramo das Forças Armadas tem neste momento 81 cabeças de gado, cuja exploração cumpre “todo o normativo legal vigente”.

Parte da alimentação deste gado é a forragem que a FAP corta junto à própria pista — onde ainda se observam 15 aviões reabastecedores KC-46 norte-americanos, que participaram na guerra do Irão — e que está há décadas contaminada pelos metais pesados dos combustíveis dos aviões militares. Esta poluição não se deve apenas à acumulação de poluentes documentados ao longo de décadas, mas também à atividade atual: a erva que cresce junto à pista continua a ser “regada” por hidrocarbonetos, porque os resíduos causados pela água da chuva que entra nos pits de abastecimento das aeronaves são despejados nesses solos, descrevem ao Expresso fontes da base, que pedem anonimato por “receio de represálias”.

Um antigo responsável pela área ambiental da região chegou a chamar a atenção para as vacas que pastavam nas áreas contaminadas: “Diria que devia prevalecer o princípio da precaução. Não tenho dados que digam que não faz mal ter ali vacas a pastar, mas devo considerar que fazem mal. Não se deve arriscar, e cheguei a colocar essa situa­ção de preocupação às autoridades”, diz ao Expresso, solicitando anonimato, considerando as funções que agora desempenha. A resposta que obteve é que o gado pertencia à FAP. E nada foi feito.

Militares garantem segurança alimentar

Considerando a exploração agrícola como uma “herança logística” e uma “medida de sustentabilidade e de reforço da autonomia da unidade“ — destinada “à manutenção e controlo biológico da vegetação (pastagens) em áreas confinadas do perímetro militar que não interferem com a segurança aeroportuária” —, a FAP garante o cumprimento das medidas de segurança alimentar: “A presença destes animais é regulada por entidades competentes, internas e externas, que asseguram a saúde e a qualidade de vida dos mesmos”, responde ao Expresso o gabinete de relações públicas do Estado-Maior da Força Aérea.

Não há “reportes de valores acima dos limites máximos residuais legalmente fixados”, garante a FAP

A FAP, no entanto, não nega que se encontrem resíduos, mas assegura que não ultrapassam o estipulado: “Os testes e análises às carcaças são articulados com as autoridades veterinárias regionais e são observadas escrupulosamente todas as normas de saúde pública, não tendo existido, até à data, reportes de valores acima dos limites máximos residuais legalmente fixados para a segurança alimentar”, pode ler-se numa das respostas ao Expresso. “Esta articulação conjugada com o cumprimento da lei, no que se refere ao abate dos animais e ao controlo da carne e dos produtos derivados pelas autoridades sanitárias da Região Autónoma dos Açores, é a garantia da segurança animal e alimentar”, acrescenta.

António Ventura, secretário Regional da Agricultura e Alimentação dos Açores, também garante que a região cumpre “o plano nacional de pesquisa de contaminantes”, através de análises efetuadas pelo laboratório regional de Angra do Heroísmo. “Não encontrámos, até agora, hidrocarbonetos nem metais pesados nessas análises”, assegura ao Expresso, mesmo “numa altura em que se recolheram especificamente amostras daqueles locais”. Segundo afirma, “não foram encontrados resíduos nem contaminantes nos animais”.

Em todo o caso, o secretário regional espera que essa consciencialização parta da própria FAP: “Qualquer consciência ambiental ou preocupação tem de nascer do dono da exploração, pois estamos a falar do Estado”, sugerindo: “Se calhar, deviam periodicamente fazer análises. Não estamos a falar de um proprie­tário qualquer, é a Força Aérea, e tem de ter outro nível de atuação que até sirva como exemplo para as restantes explorações”, argumenta.

Solos compactados com combustível

Mesmo que os resultados bioquímicos de gado e das plantações não revelem dados dramáticos, como estas fontes oficiais asseguram ao Expresso, aquelas são zonas consideradas críticas há muito tempo. Segundo o relatório “Hydrogeological Report, Lajes Field”, encomendado pelos militares norte-americanos há mais de 20 anos, em 2005, na zona da Tank Farm, junto à qual estavam as vacas de Dimas Rocha, “era prática comum usar o fuel para humedecer os solos debaixo dos grandes tanques, a fim de compactar esses solos e proporcionar um terreno nivelado para a construção dos tanques”. E acrescentava dados mais preo­cupantes: “Atividades históricas no South Tank Farm incluíam o enterramento de lamas junto às aberturas de acesso dos tanques, lamas essas que foram geradas durante a limpeza dos tanques”, que antes de 1982 — quando foram ali realizadas grandes obras que contribuíram para a contaminação — “continham níveis elevados de tetraetil-chumbo” e outros elementos tóxicos. “São conhecidos inúmeros derrames neste local”, constatou o relatório.

Mais tarde, em 2018, um estudo realizado pela Universidade dos Açores, em colaboração com uma equipa da Universidade Nova de Lisboa, concluiu que existe contaminação relevante e clara tanto nos solos como nas águas subterrâneas, representando um potencial de risco para a saúde humana e o ambiente. As zonas da Porta de Armas e da South Tank Farm foram identificadas como duas das três áreas mais contaminadas.

 

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Citação de Hidden, há 22 minutos:

Fuck, já lá comi uma alcatra 

RIP

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