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A construção de um gigante: como Marrocos se tornou a nova potência internacional

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A construção de um gigante: como Marrocos se tornou a nova potência internacional

Grandes resultados nos mais diversos torneios, infraestruturas de elite, investimento em formação, capacidade de atrair a enorme diáspora, força institucional. Com apoio estatal, os marroquinos criaram um projeto que impulsionou o seu futebol, tornando viável o objetivo de vencer um Mundial. Em dia de jogo com os Países Baixos, dos 16 avos de final do Mundial, Alexandre Santos, técnico do FAR Rabat, ajuda-nos a entender esta revolução

O segredo está, em parte, na antecipação. Ou, em sentido inverso, no aproveitamento da lentidão alheia.

Ayyoub Bouaddi é, há muito, uma daquelas jovens promessas com contornos de certeza. Tem 18 anos, atua com regularidade no Lille desde os 16, aos 17 brilhou num jogo de Liga dos Campeões contra o Real Madrid. Internacional francês sub-16, sub-17, sub-18 e sub-21, tudo apontava para uma natural progressão, certamente uma vindoura transferência para um gigante endinheirado, o Mundial 2030 ao serviço dos gauleses como natural ponto de chegada.

Ainda no final de março, há três meses, o centrocampista realizou dois encontros amigáveis pela equipa de sub-21 do país onde nasceu. Mas havia quem olhasse com especial cobiça para este médio elegante, inteligente, de radar do relvado na cabeça e perfume nas botas. A federação marroquina, terra dos ascendentes de Ayyoub, avançou com uma proposta para fazer o tempo avançar, movê-lo mais rapidamente, diminuir prazos. Antecipar.

Seleção sub-21? Esquece isso. Seleção principal, Mundial 2026, fortes hipóteses de titularidade. O futuro, agora. O adolescente aceitou e Marrocos garantiu um reforço de peso, capaz de dominar o miolo contra o Brasil.

Bouaddi partilha equipa com Brahim Díaz ou Achraf Hakimi, outrosfilhos da diáspora. Divide meio-campo com Azzedine Ounahi, filho da academia Mohammed VI. Todos beneficiam de um dos mais ambiciosos — e efetivos — projetos do futebol internacional: transformar Marrocos na nova superpotência da mais popular modalidade do planeta.

Brahim e Hakimi, nascidos em Espanha, internacionais por Marrocos
Brahim e Hakimi, nascidos em Espanha, internacionais por Marrocos
Craig Williamson - SNS Group

A lista de êxitos recentes é impressionante. Vamos somente à última mão-cheia de anos.

Primeiro país africano ou árabe a chegar às meias-finais de um Mundial masculino; campeões do mundo sub-20, primeiro país árabe a lográ-lo; campeões da Taça Árabe; finalistas da CAN, derrotados em campo, vencedores na secretária; co-anfitrião do Mundial 2030, lutando com a Espanha por acolher a final do torneio; anfitriões da última CAN masculina, das duas últimas CAN femininas, da próxima CAN feminina, das duas últimas CAN sub-17 masculinas.

Vencedores da passada CHAN, uma Taça de África só para futebolistas das ligas domésticas do continente; vice-campeões da última CAN sub-20 e das duas últimas CAN femininas; tricampeões — e anfitriões das duas últimas edições e da próxima — da CAN de futsal; bronze no futebol masculino dos Jogos Olímpicos de Paris.

“Marrocos é o centro desportivo de África, não só no futebol. O país deu um enorme salto ao nível de condições e infraestruturas”, comenta, à Tribuna Expresso, Alexandre Santos, português que orienta o FAR Rabat, com quem discute o título do campeonato do país, tendo acabado de ser finalista vencido da Liga dos Campeões do continente, perdendo contra o Mamelodi Sundownsdo compatriota Miguel Cardoso.

Os responsáveis federativos não escondem que o grande objetivo é vencer um Mundial. Claro que 2030 apresenta-se como meta gulosa, mas garante-se que o processo não termina aí. E a glória até pode chegar mais cedo, já em 2026.

Em nome do rei

O começo do século foi, para Marrocos, um tempo de péssimos resultados ao nível de seleção nacional. A equipa esteve 20 anos ausente do Mundial, entre 1998 e 2018. Conseguiu ficar em segundo na CAN 2004, mas depois passou seis torneios continentais seguidos a cair na fase de grupos ou a nem chegar à fase final.

Olhando para este panorama, e sabendo do poder unificador do futebol num país apaixonado pelo jogo, o rei Mohamed VI presidiu a um projeto de forte investimento. Projectaram-se estádios, ergueram-se academias, melhoraram-se as condições de trabalho para as seleções, passou-se a trabalhar nos bastidores, com ideias como o Mundial 2030.

Alexandre Santos, o português que orienta o FAR Rabat
Alexandre Santos, o português que orienta o FAR Rabat
Gallo Images

Documentos da federação marroquina elencam “três pilares” desta aposta: “Boa governança, investimento financeiro e recursos humanos competentes”.

No primeiro aspeto, tratou-se de melhorar a estrutura organizativa. Alexandre Santos é um profundo conhecedor da “muito plural” realidade africana, com passado em Angola, Tunísia e Egito, sempre competindo na Champions, levando-o a saber que “uma coisa é jogar em Rabat ou Casablanca, outra é ir ao Congo, à Tanzânia ou ao Mali”. Nesta linha, o técnico destaca o “grande salto logístico” dado pela liga de Marrocos, ainda que não tão organizada quanto a sul-africana, a referência continental. Ainda assim, avisa, “nem tudo é perfeito”, ainda com alguma “desregulação” por parte de quem manda, sublinha.

Na vertente financeira, construíram-se centenas dos chamados “campos de proximidade”, permitindo espalhar terrenos de jogo pelo território. Mas as jóias da coroa são outras: os estádios e a academia Mohamed VI.

Desde 2010, seis recintos com capacidade superior a 20 mil espectadores foram inaugurados, quatro deles com mais de 45 mil lugares, dois em Marraquexe, um com 45.240 e outro com 69.500, um em Agadir, com 46.000, e outro em Tânger, com 75.500. A cereja no topo do bolo será o Grand Stade Hassan II, em Casablanca. Com conclusão prevista para 2028, será um gigante com espaço para 115 mil almas. É o colosso com que se pretende seduzir a FIFA a levar para lá a final de 2030.

Em Maamoura, à saída de Rabat, fica a academia Mohamed VI. Comparada a Clairefontaine, a casa das seleções francesas, não poupa nas condições de trabalho e assume-se como polo de apuramento do talento. De lá saíram Azzedine Ounahi, titular da seleção neste Mundial, Nayef Aguerd, 65 vezes internacional e só ausente das Américas devido a uma lesão de última hora, Youssef En-Nesyri, durante vários anos a referência ofensiva de Marrocos, carrasco de Portugal no Catar e só recentemente fora das contas, e Hamza Mendyl, presente no Rússia 2018 mas sem ir à equipa nacional desde 2020.

Quanto aos recursos humanos, Alexandre Santos nota que há “a contratação de muitos profissionais vindos de França, Espanha e Portugal”, com o intuito de “acrescentar conhecimento e experiência”. “É preciso, ainda, dar o salto a nível de formação de técnicos, de dirigentes, das carreiras que trabalham no jogo”, indica o português, de 49 anos, antigo adjunto de José Peseiro e tricampeão angolano com o Petro de Luanda.

Marroquinos de todo o mundo, uni-vos

Magharibat al-alam. Ou, literalmente, “marroquinos do mundo”. Este é um conceito muito importante na identidade do país, convocando os filhos e netos da nação, quase como um dever de união à terra de partida da família.

A federação de futebol de Marrocos, liderada por Fouzi Lekjaa, homem influente na FIFA — senta-se no conselho da entidade, o mais importante órgão entre conselhos —, apercebeu-se do poder da diáspora. Além dos 37 milhões de residentes no território norte-africano, calcula-se que haja mais de três milhões de emigrantes marroquinos, concentrados sobretudo em França, Espanha, Bélgica e Países Baixos. E é a essa vasta bolsa de talento que se pretende aceder.

Para maximizar o campo de recrutamento, Fouzi Lekjaa foi um dos dirigentes que mais pressionou a FIFA a mudar as regras de elegibilidade, tornando-se mais claras e facilitando as trocas de alianças. Adicionalmente, a partir de 2021, passou-se a permitir que um futebolista com até 21 anos pudesse trocar de seleção caso só tivesse sido três vezes internacional. Com isto, pretendia-se evitar que as grandes potências europeias chamassem um jovem e o utilizassem uma vez só para o reservar para o futuro, apagando a hipótese de vir a representar a nação dos pais ou dos avós. Sem esta mudança, Brahim Díaz, utilizado por Espanha num amigável em 2021, não teria autorização para vestir a camisola marroquina.

Pesquisando na plataforma da FIFA onde se registam as mudanças de filiação de jogadores, constamos que, só desde o começo de 2025, 18 jogadores deixaram de estar inscritos para atuar pelos Países Baixos, por França, pela Bélgica e pela Noruega para optar por Marrocos. Entre eles estão Annass Salah-Eddine, presente no passado Europeu sub-21 com a equipa neerlandesa e já utilizado em dois desafios deste Mundial, Issa Diop, internacional jovem francês e titular nas duas primeiras partidas de Marrocos nos EUA, e, claro, Ayyoub Bouaddi.

“O marroquino tem um grande sentimento patriótico. Isso facilita o processo de convencer jogadores”, realça Alexandre Santos. A vontade de mudança de seleção começa, muitas vezes, por ser semeada nos pais, contando com a ajuda dos progenitores na tarefa de seduzir os petizes.

Da formação à elite

Nem tudo são rosas, por certo. Antes da disputa da CAN, houve protestos de parte da população, criticando-se, entre outros aspetos, os gastos em desporto quando há escassez e carências em equipamentos básicos.

Em outubro de 2025, Marrocos ganhou o Mundial sub-20
Em outubro de 2025, Marrocos ganhou o Mundial sub-20
Buda Mendes - FIFA

Regressando ao jogo, na imensidão de um continente altamente diverso, Alexandre Santos radiografia algumas diferenças regionais: “No Norte de África a brutal paixão pelo futebol está muito ligada aos clubes, à rivalidade entre emblemas, a questões patrióticas, a querer ganhar e a ser agressivo contra o adversário. No centro, na África negra, é mais a cultura da festa, de utilizar cada jogo para um momento de celebração, de música, de dança”.

O ex-líbris da aposta da formação é a conquista do Mundial sub-20. O desgaste de Walid Regragui, associado à vontade de ter uma identidade mais ofensiva e capaz de ter bola, levou a que Mohamed Ouahbi, selecionador que conduziu a equipa no campeonato jovem, ocupasse, agora, o banco da seleção principal.

Dos 26 chamados, 18 nasceram na Europa e um, o guarda-redes Yassine Bounou, no Canadá. Não obstante, comparando com o que viu na Tunísia, onde liderou o CS Sfaxien, e no Egito, onde foi adjunto de Peseiro no Al-Ahly, Alexandre Santos confia que “o futuro passe por alguns talentos vindos de Marrocos”. “Face ao que testemunhei no Egito e na Tunísia, estão no caminho para ter mais impacto que outros países”, prognostica. A liga local, dominada por atletas autóctones, é “competitiva e imprevisível”. Duas equipas marroquinas estiveram nas meias-finais da Liga dos Campeões e a CAF Confederation Cup, segunda máxima prova continental, teve como semi-finalista o OC Safi, último classificado do campeonato.

Para Alexandre Santos, repetir o Catar 2022 — ou até mais — seria natural. “Podem chegar muito longe. É uma seleção muito organizada, rápida quando encontra espaços para transições, consciente do que quer fazer. É capaz de ter estabilidade com bola, perde poucas vezes a posse em zonas difíceis, está sempre bem posicionada. Tem agressividade e combatividade”.

Eis a aurora de uma superpotência, não uma epopeia isolada.

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