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Repetir 2016 mais vezes? Aí sim, importa se jogamos bem ou mal

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Repetir 2016 mais vezes? Aí sim, importa se jogamos bem ou mal

O grande triunfo português foi há 10 anos. Terá a fórmula vencedora do Euro levado ao equívoco posterior?

Ao olhar para o lado, Fernando Santos ter-se-á sentido relativamente desamparado. Na final do Euro 2016, há exatos 10 anos, todo o banco de Portugal somava, nas respetivas carreiras, 23 golos apontados na Liga dos Campeões. Aqueles jogadores contabilizavam, entre eles, seis títulos conquistados nos cinco principais campeonatos do continente. O herói improvável seria Eder, autor de zero golos em partidas oficiais pela Seleção antes ou depois daquele 10 de julho.

Uma década passada, o contraste é brutal. Frente à Espanha, no encontro que ditou a saída do Mundial 2026, Roberto Martínez estava ladeado por suplentes com 49 golos na Champions, mais do dobro daquela final de 2016: entre os suplentes havia 15 medalhas de vencedores das maiores ligas europeias.

A qualidade multiplicou-se, fruto de anos de ouro nas seleções jovens. Há talento nacional em abundância nos colossos do futebol internacional: entre o fim do Mundial 2022 e o arranque do atual, sete futebolistas portugueses ergueram a Liga dos Campeões, mais de metade dos 12 que, entre 1955 e 2022, o fizeram por equipas estrangeiras. No entanto, Portugal não mais pisou, sequer, as meias-finais de um grande torneio, fase em que teve representantes numa mão-cheia de ocasiões entre 2000 e 2016. Mais qualidade, menos resultados?

Maximizar os recursos

Portugal apresentou-se em França carente de capacidade criativa e de desequilíbrio. Superada, com grandes dificuldades, a fase de grupos, a aposta passou por uma ideia de solidez coletiva, de pouco risco, de garantir a baliza inviolada e ser eficaz na frente.

Sem sofrer golos em três dos quatro desafios a eliminar e protagonista de paradas decisivas contra Croácia, Polónia e França, Rui Patrício foi, para o jornalista e autor Rui Miguel Tovar, “o melhor português” de 2016. A pouco espetacular natureza da equipa, com seis empates no fim dos 90 minutos em todo o Europeu, levou à popularização, entre adeptos e jogadores, de um cântico. “Pouco importa, pouco importa, se jogamos bem ou mal, queremos é levar a taça para o nosso Portugal.”

Apesar do talento disponível, Portugal não está nas meias-finais de um Europeu ou Mundial desde 2016

Presente em França ao longo do torneio, Tovar interpreta a música como “um escape bom encontrado pelos jogadores para se libertarem da pressão social-desportiva daquele mês de competição”. Quem liderou aquela Seleção, assegurando, profeticamente, que só voltaria a casa a 11 de julho e em festa, nega que aquelas palavras se tivessem tornado o mantra do grupo.

Fernando Santos rejeita que seja indiferente “jogar bem ou mal”: “Sabíamos que quem joga mal perde muitas vezes”, assegura ao Expresso, puxando de registos que englobam, também, a fase de apuramento: “Realizámos 14 jogos, incluindo a final, e não perdemos nenhum. Quer dizer que jogámos sempre muito bem ou, pelo menos, em poucos casos mal.”

A exceção feita regra

Por muito que o ex-selecionador não queira colar o lema à conquista, a mensagem entrou na consciência coletiva da bola nacional. O primeiro grande título chegara assim, privilegiando a segurança, sem a mais talentosa das gerações, então poderia erguer-se, a partir dali, uma norma. “Portugal não ter sido exatamente o campeão com mais mérito da história dos Europeus reforçou o pensamento ideológico da maior parte da escola portuguesa, colocando o resultado à frente de qualquer estética ou qualidade exibicional. Lançou, durante vários anos, a ideia de que Portugal não precisava de procurar um futebol apoiado e criativo, adaptado aos seus melhores jogadores”, resume Tomás da Cunha, analista e cronista da Tribuna Expresso.

Rui Miguel Tovar recorda como, em Saint-Denis, o prolongamento foi “todo” de domínio nacional. “Eder cabeceia para defesa apertada de Lloris aos 104’, Guerreiro acerta na trave aos 107’ e golo de Eder aos 109’”. Ali ‘matou-se’ a barreira psicológica de não ganhar. Rui Malheiro, que juntamente com Tomás da Cunha protagoniza o “No Princípio Era a Bola”, podcast da Tribuna Expresso, constata que “o crédito” da conquista “é imenso e seria mesquinho regateá-lo”.

“A Federação, de Fernando Gomes e Tiago Craveiro, deixou de ser a estrutura de um país de segunda linha e passou a sentar-se à mesa dos grandes com uma legitimidade nova. As receitas dispararam, o poder negocial de Portugal na Europa ganhou uma solidez que a mera qualidade dos jogadores nunca lhe garantira”, atesta Malheiro.

O ADN de 2016 deveria ter sido uma “solução de circunstância, não um mandamento”, diz Malheiro

Mas nem tudo foi ideal, prossegue: “Portugal consagrou um método, o do sofrimento organizado, da resistência paciente à espera do erro alheio e do lampejo salvador. Num país que idolatra o resultado, consagrar um método é transformá-lo em dogma, que não se discute, replica-se”, teoriza Malheiro, que frisa a “força cultural do resultado”, que deveria ter sido lido como “uma solução de circunstância no seu contexto, não como um mandamento a repetir”.

No Mundial e no Europeu seguintes, a seleção não superou qualquer duelo a eliminar. Aí já o ritmo de produção de talento nacional acelerara e novas fornadas adquiriam protagonismo. Só em 2022, sublinha Tomás da Cunha, é que “Fernando Santos se emancipou”, aproximando-se de “uma liberdade criativa” ainda não vista. Acabaria fora do cargo, com Roberto Martínez a reverter os sinais de futuro dados.

Não houve qualquer título para as seleções jovens entre 2003 e 2016. Na última década, é um festim: campeões da Europa e do mundo em sub-17, campeões da Europa sub-19; finais perdidas em sub-17, sub-19 e sub-21. FC Porto e Benfica ganharam a Liga dos Campeões sub-19.

Década desperdiçada?

Apesar disto, a nível sénior há um constante sabor amargo. Findos os companheiros geracionais de Ronaldo — Pepe, Quaresma, Moutinho, Nani… — uma outra camada, cerca de 10 anos mais jovem, não logra repetir o brilhantismo dos clubes. “Houve equipas tecnicamente melhores que 2016, mas poucas vezes apresentando uma identidade que valorizasse ao máximo o talento. Está a acabar uma geração de grande qualidade (Bernardo Silva, Bruno Fernandes, João Cancelo), mas as exibições memoráveis deles pela seleção não são assim tantas”, aponta Tomás da Cunha.

Não vencer dois jogos a eliminar na mesma competição desde 2016 não leva Tovar a falar em “década perdida”. O autor de vários livros atesta que “Portugal nunca foi uma potência” e deve ter como “missão prioritária” a “qualificação para as fases finais”, ao que se segue um “carrossel de emoções”, dependente de “muitos fatores”.

Rui Malheiro opta por outra expressão, classificando como “década desperdiçada”, por via de se ter produzido, nestes anos, “a geração mais profunda e completa” da história nacional. “Não falhámos por falta de jogadores, falhámos apesar de os termos todos. A seleção não pisa umas meias-finais desde 2016 porque durante demasiado tempo lhe faltou uma identidade, um modelo, uma ideia à altura desse modelo.”

Será tudo culpa de um cântico? Certamente não. Mas o êxito contagia, reproduz-se, gera descendentes. Ganhar como em 2016 foi bonito, épico, histórico, único. Ganhar mais vezes, vencer regularmente, recorrendo à fórmula de 2016 é uma impossibilidade comprovada.

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