Longineu Publicado 5 Abril 2015 Não é “arte” para qualquer um. Para ser carteirista a sério “é preciso ser muito educado”. Várias vezes alguém reparou que Paulo lhe estava a tocar e ele desfez-se em sorrisos. “Olhe, desculpe, foi uma tentação.” Já lhe aconteceu ter a carteira na mão. “Olhe, desculpe, você deixou cair isto.” Uma vez, Paulo foi apanhado em flagrante. Ia no autocarro 78, a caminho da Foz do Douro, quando viu uma mochila aberta. “Principalmente as mulheres, usam mochila às costas. É uma tentação. Tenho tendência a pegar. Ia para meter a mão, um polícia a paisana meteu-me as algemas.” Não ficou em prisão preventiva. Se a "coisa furtada for de diminuto valor”, ditou o legislador, não há prisão preventiva e a pena a que se arrisca não será superior a três anos. Ora, menos cem euros é "diminuto valor". Não há muita gente a andar com mais de cem euros na carteira. Nos registos oficiais, nenhum crime aumentou tanto como o de furto cometido por carteiristas. O Relatório Anual de Segurança Interna, divulgado segunda-feira pela secretária- geral do Sistema de Segurança Interna, Helena Fazenda, dá conta de uma subida de 10263 para 13984 ocorrências entre 2013 e 2014 Não será puro reflexo de crescente popularidade de tal prática. Nas áreas urbanas mais procuradas pelos turistas, houve um “maior esforço operacional na prevenção e na investigação”, refere o documento. As autoridades montaram acções mais “sistemáticas de controlo, vigilância e fiscalização”. “Muitas vezes, o cidadão só se apercebe de que lhe tiraram a carteira quando o polícia chega ao pé dele e lha devolve”, comenta o superintendente do comando da PSP de Lisboa, Jorge Maurício, na quarta-feira. Esta Páscoa, para que os proventos de uns não seja o desespero de outros, há mais uma centena de agentes nas ruas. Não procuram só dinheiro. Pode haver bilhetes de jogos ou concertos nas carteiras. “Vende-se logo aos candongas”, torna Paulo. E há sempre telemóveis. “Telemóveis é dinheiro em caixa. Mulheres que andam com mochila. Miúdos que vão, muito à vontade, com os telemóveis nos casacos de malha.” Paulo começou nos idos anos 80. Quem o desafiou foi “o filho de um casal de carteiristas”. Disse-lhe: “Ouve lá, vamos fazer feiras, futebol e isso”. Era dinheiro certo. “Antes, não havia cartões de crédito nem nada.” Num ajuntamento, num instante, a dupla fazia dinheiro para a semana inteira. Não havia nada melhor do que um jogo de futebol ou uma feira de gado. “Um homem recebia o dinheiro de uma vaca, já viu? Falava com um, falava com outro, descuida-se.” Vai nos 52 anos, 30 dos quais como carteirista. Tem 19 processos arquivados. Nunca foi condenado por furto. “Não dá nada porque não toco na pessoa, não lhe faço mal”, enfatiza. “Furto é diferente do roubo”, apressa-se a explicar. “No meu tempo, para partir para a violência, ui, tinha de se fazer muito, muito. Agora, não. Agora, os miúdos partem logo para a violência. Não respeitam ninguém… Apontam uma faca ou uma piscola: ‘Passa para cá o telemóvel!’ Eu, da actividade que tenho, sei muito desta vida. Se não põem a mão a estes miúdos, não sei onde isto vai dar…” Tem a sua ética. Não rouba grávidas, não rouba idosos pobres, não rouba deficientes. Uma vez, no metro do Porto, tirou uma carteira de uma mochila que um homem trazia às costas. Ia a sair, ouviu a bengala a esticar. “Valha-me Deus!”. Tornou atrás. “Olhe, desculpe, deixou cair isto”. Correndo bem, a vítima não percebe que Paulo lhe está a tirar a carteira. Correndo menos bem, há a palavra de um contra a do outro. “A senhora está a dizer que fui eu?! Não tenho nada.” Se tiver, faz o número do cego, devolve-a, com gentileza, dizendo uma frase-chave. “Desculpe, deixou cair a carteira”. Foi afinando estratégias para as vítimas “não se porem aos gritos ou chamarem a polícia”. A vítima olha para ele, bem vestido, bem penteado, bem-educado. “Fica na dúvida. Será que tirou? Será que não tirou? Será que deixei cair?” Recebe a carteira, agradece, por vezes até pede desculpa por ter desconfiado. Quem se dedica “a esta arte”, não pode andar desmazelado, nem armado em fino. Tem de passar despercebido. Tem de ser invisível. Essencial também é encontrar “maneira de esconder o braço, porque as pessoas que estão longe podem reparar”. Paulo usa um casaco por cima do braço. Há quem use mapas, jornais, malas para que ninguém veja as mãos a entrar nos bolsos ou malas alheias. Há toda uma linguagem: a “culatra” é o bolso de trás das calças e o “grilo” o bolo da frente; a “prateleira” é o bolso de fora camisa ou do casaco; o “poço” é o bolso de dentro. “O poço é mais difícil”, diz. “Tem de ser com dois para haver possibilidade da pessoa se baixar e de uma mão entrar.” Podem actuar sozinhos, mas o mais comum é trabalharem em grupos de “dois ou três”. “Uma pessoa está a distrair, outra está a encobrir, outra está a tirar”, descreve o homem, de mão finas, longas. Na versão mais clássica, um dá um “empurrão”, outro faz de "tampão", outro tira a carteira e passa-a. Paulo nunca usou cartão de crédito alheios. Nunca ficou com documentos. Livra-se logo deles. De preferência, mete-os numa caixa de correio. “Se ficar com eles, estou sujeito à polícia me mandar parar e ver que tenho documentos que não são meus. Dinheiro não fala. Se der, até o arrumo. Se a pessoa dizer qualquer coisa, eu posso dizer: tenho aqui 100 euros, mas são meus; é uma nota assim, uma nota assado.” Estratégias semelhantes terão os grupos estrangeiros que se movimentam pela Europa, conforme já clarificou subintendente da PSP do Porto Paulo Ornelas Flores. Alojam-se em pensões e seguem pelas ruas. Também retêm os bens o mínimo de tempo para, em caso de detenção, não serem apanhados com a prova do crime. Os carteiristas portugueses também se movimentam. Podem seguir a agenda dos festivais de verão, dos grandes jogos de futebol, dos acontecimentos religiosos, por exemplo. Paulo já chegou a ir a concertos a Madrid e a Barcelona. “As pessoas facilitam”, diz. “Basta um milésimo de segundo e ficam sem a carteira.” A Fátima só foi uma vez e jurou não voltar. “Um amigo teve uma bronca com uma rapariga. Ela foi caça. Queimaram-lhe o cabelo. Se não vem a polícia, o que não lhe faziam!” Conhece os polícias à distância. Os polícias conhecem-no. É assim também em Lisboa. Agentes conhecem carteiristas e carteiristas conhecem os agentes. No Euro 2004, levavam Paulo e outros para a esquadra, a pretexto de o identificarem e deixaram-nos estar, até passar a hora crítica. Ninguém conhecerá tão bem os carteiristas como os agentes da Divisão de Segurança e Transportes Públicos de Lisboa. Procuram-nos nas paragens e dentro dos eléctricos, dos autocarros, das carruagens de metro e comboio, mas também nas gravações da videovigilância que nem lhes servem os intentos, porque alguns carteiristas colam pastilhas elásticas ou papéis nas câmaras de filmar. O sítio mais crítico é o eléctrico 28, que circula entre Campo de Ourique e a Graça ou o Martim Moniz. No mapa de registos, segue-se o 15, que vai da Praça da Figueira até Algés. O Elevador da Glória, dos Restauradores ao Príncipe Real, e o Elevador de Santa Justa, da Rua do Ouro à Rua do Carmo, são outros pontos negros. Podem nem entrar. Podem atacar na paragem. O aumento destes crimes nota-se, em particular, nas áreas turísticas da Grande Lisboa. O número de participações em esquadras de turismo passou de 5409 para 7506 de um ano para o outro. O de detenções, esse, segundo o comandante metropolitano da PSP de Lisboa, o superintendente Jorge Maurício, cresceu 202%. Na Área Metropolitana do Porto a tendência tem sido inversa, conforme já antes informou o subintendente Paulo Ornelas Flores, com a PSP a registar 3150 denúncias em 2010, 3010 em 2011, 2570 em 2012, 2477 em 2013. A maior parte (68%) no centro do Porto, em particular nas zonas de maior afluência de turística, sobretudo às sextas e aos sábados, entre as 14h e as 17h. Paulo decidiu retirar-se. Esteve seis meses atrás das grades por causa de uma multa que não pagou. Um dia, a filha apareceu-lhe lá a pedir: “Ó pai, deixa essa vida; já que não me criaste, olha para a tua neta.” Ele ficou a pensar naquilo. “Aquilo mexeu mesmo comigo! Agora, às vezes peço dez cêntimos para comprar um pão e as pessoas não se acreditaram. Pensam que ando na mesma vida. É a tal coisa. É o carteirista. Tem dinheiro, tem dinheiro, tem dinheiro. E não tenho.” Todos os dias sente-se tentado a furtar. “Eu estou a viver com 189 euros de rendimento social de inserção. Para quem tinha, no mínimo, 50 euros para gastar todos os dias! Pago a casa. Fico com 130. Isso tem de dar para comer, para luz, para água, para gás. Não dá. Tenho a luz desligada.” No dia em que falou com o PÚBLICO tinha 40 cêntimos no bolso e uma ideia a martelar o cérebro: “Se me apetecer, vou ao aeroporto e volto com dinheiro. Ou vou preso ou venho com dinheiro. Hum… preso nunca vou. Eu sei o que faço. Para fazer uma coisa tenho e ver quem está ver e quem não está. São muitos anos disto. Pode ser um vício. Você anda na rua e não tem tentações e eu tenho.” @ Publico Compartilhar este post Link para o post