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Lincoln-Coventry, o jogo que durou 63 dias

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Lincoln-Coventry, o jogo que durou 63 dias

 

Em 1962-63, um modesto encontro da 3.ª eliminatória da Taça de Inglaterra entrou para a história, graças aos 15 adiamentos sucessivos de que foi alvo.

 

Adiado. Adiado. Adiado. Nunca como no primeiro trimestre de 1963 o árbitro Bernard Goldson terá utilizado o verbo adiar com tanta insistência. E quase sempre à custa do jogo que entrou para os compêndios do futebol inglês como aquele que mais tentativas frustradas coleccionou, antes de efectivamente se realizar. Quando o Lincoln City e o Coventry City finalmente se encontraram, no dia 6 de Março desse ano, já tinham feito história mesmo antes do pontapé de saída. E o resultado desse embate passava a ser uma questão secundária.

 

Tudo começou no dia 5 de Janeiro de 1963, na terceira ronda da Taça de Inglaterra. O Lincoln, que havia afastado da competição o Darlington e o Halifax Town, preparava-se para receber o Coventry, que eliminara o Bournemouth e o Milwall. Vivia-se um Inverno rigoroso, com temperaturas negativas e já com variadíssimos adiamentos de partidas previstas para o Boxing Day. Mas ninguém adivinharia o impacto que o mau tempo viria a causar neste jogo do calendário entre uma equipa do quarto e outra do terceiro escalão da pirâmide inglesa.

 

Cerca de 72 horas antes da partida agendada para o estádio Sincil Bank, as perspectivas eram moderadamente optimistas. “O campo não está em más condições”, avaliou o técnico do Lincoln, Bill Anderson. A validade deste diagnóstico foi curta. O manto de neve que se abateu sobre a região no dia seguinte inviabilizou qualquer hipótese de a eliminatória ir avante, algo que foi confirmado com uma inspecção ao terreno de jogo na véspera do encontro: uma camada de 3,8 cm de gelo empurrava o embate para a semana seguinte.

 

Entrava, então, em cena o árbitro local Bernard Goldson para o primeiro round de uma saga improvável. Uma vistoria rápida ao recinto conduziu ao mesmo veredicto: “É demasiado perigoso para jogar. Não gostaria sequer de apitar nestas condições, quanto mais jogar”, advertiu, citado pelo site oficial do Lincoln City. “Parece um ringue de patinagem”, acrescentou, antes de se alargar o prazo mais uma semana.

 

O cenário repetir-se-ia a 16 de Janeiro, dia em que o terreno de jogo se escondia por debaixo de 7 cm de neve, a 21 – “É escusado pensar-se que se pode jogar num campo assim”, resumia Bill Anderson – e novamente a 25, com Goldson a constatar que os sólidos esforços empreendidos pelo staff do Lincoln, que tentou “desbastar” o terreno com todas as ferramentas que tinha à mão, tinham sido em vão.

 

Nova data? Quarta-feira, 30 de Janeiro. Data de mais um protelamento, pois claro. O tempo continuava agreste, o próprio campo de treinos de St. Andrews estava alagado e os jogadores dividiam os trabalhos entre o ginásio e um exíguo court de ténis. Entrávamos no mês de Fevereiro e o horizonte continuava cinzento, sem perspectivas de uma aberta que fosse. De tal forma que, volvidas mais duas tentativas, a própria federação inglesa decidiu intervir, sugerindo que o encontro se realizasse num qualquer campo neutro, desde que o piso estivesse em condições. A resposta que a direcção do Lincoln daria foi antecipada pelo próprio treinador do Coventry: “É uma excelente ideia, mas quantos clubes abdicariam do factor casa? Se nos tivesse calhado jogar em casa, seguramente que quereríamos manter essa condição”, sublinhou Jimmy Hill.

 

A novela estava para durar. Chegaram os dias 11, 13, 18, 20 e 25, sempre com Goldson como supervisor e com o mesmo veredicto. “O campo está num estado chocante”, admitiam os responsáveis do Lincoln, que tiveram de deslocar o plantel até ao litoral, mais concretamente até Skegness, para conseguirem uma sessão de treino sem sobressaltos. Sucederam-se os dias 24, 27 e 4 de Março, já com um último esforço em marcha: um apelo para uma intervenção voluntária dos adeptos.

 

Munida de vassouras e pás, esta taskforce improvisada serviu de suporte a um outro grupo, que contou com uma broca e um compressor cedidos por um dos vice-presidentes do clube. O “combate” continuava e os resultados começavam, por fim, a surgir. Dias depois, grande parte do campo estava já desimpedida e a ajuda de “mais de 30 rapazes entre os 12 e os 14 anos”, durante o fim-de-semana, a par de um contributo extra dos próprios jogadores, acabou por surtir efeito.

 

“Estamos gratos às pessoas que responderam ao nosso pedido de ajuda. Mas devemos agradecer, em especial, ao grupo de jovens entusiásticos que apareceram no sábado e no domingo. Foram uma ajuda tremenda”, reconheceu Bill Anderson, aliviado por poder começar a pôr em dia um longo calendário de compromissos que também se alargou ao campeonato.

 

Aquela quarta-feira, 6 de Março de 1963, foi, por isso, uma válvula de escape. Um momento de descompressão que finalmente punha fim a dois meses de frustrações e previsões falhadas. Lincoln City e Coventry City entraram no Sincil Bank, que ainda apresentava áreas lamacentas junto à bancada sul, 63 dias depois da data inicialmente prevista. Soou o apito inicial e bastaram 15 segundos para os visitantes darem início a uma vitória expressiva (1-5). Algarismos que ficaram também para a história das improbabilidades, com um recorde em Inglaterra de 15 adiamentos sucessivos.

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