Sumudica by Night Publicado 13 Junho 2017 As lições do professor MourinhoHá maior estratego do que José Mourinho no futebol mundial? O treinador português mostrou que não, ao explicar, ponto por ponto, aos alunos da FMH e à Tribuna Expresso, como é que o Manchester United preparou — e ganhou — a final da Liga Europa ao Ajax (2-0) Faltavam ainda 80 minutos por jogar na Friends Arena, em Estocolmo, quando José Mourinho se virou para Rui Faria e pôs as mãos nas calças. A mensagem para o fiel adjunto era clara: “Já os temos no bolso.” A história foi contada pelo próprio treinador do Manchester United, esta segunda-feira, num dia dedicado ao High Performance Football Coaching, pós-graduação internacional da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa que tem o cunho pessoal de Mourinho, doutor honoris causa da instituição, e que já vai na segunda edição. “Nasceu de um projeto que eu e o Mourinho começámos a idealizar em 2009 e que foi posto em prática em 2015, com uma visão completamente diferente do tradicional, que incluísse uma abordagem de base académica muito forte mas sempre procurando responder às reais questões que se colocam a um treinador de elite no seu trabalho”, explica ao Expresso o professor catedrático António Veloso. Mourinho confirma a ideia durante a sua longa “aula”, dividida entre uma manhã passada a explicar como preparou a final da Liga Europa e uma tarde recheada de perguntas dos alunos/treinadores do curso — provenientes de mais de uma mão cheia de países, ainda que haja também entre eles dois portugueses bem conhecidos no futebol: Rúben Amorim, ex-jogador do Benfica, e Pedro Madeira Rodrigues, ex-candidato à presidência do Sporting. “Hoje em dia as portas estão abertas para todos. Na minha altura, quem tinha formação académica ainda era visto como ‘o professor de ginástica’ ou ‘o preparador físico’. Agora até temos aqui um ex-jogador de top, algo que não aconteceria há 30 anos, porque ele acharia que não precisava de estar aqui”, diz Mourinho. “A mim, chamavam-me o que queriam, desde que me dessem um trabalho no futebol”, graceja o treinador de 54 anos. “Fiz de tudo. Comecei como apanha bolas, fui jogador e fui analista do meu pai no Vitória. Apanhava o autocarro em Setúbal e ia para Lisboa, com 14 anos, analisar adversários, porque ele nem adjuntos tinha. Escrevia tudo em papel e metia autocolantes com os números dos jogadores”, recorda. Hoje, ninguém adivinharia, a avaliar pelo grau de pormenor e sofisticação tecnológica nos vídeos utilizados no United. “Ainda faço rabiscos em papel, mas são os nerds dos vídeos que fazem o resto e os jogadores gostam”, explica, ao mostrar os filmes editados, que têm sempre de ser curtos, tal como as palestras. “No meu primeiro jogo na Champions, em 2002, quando chego ao FC Porto a meio da época, estávamos a ter reunião e estava eu de costas para eles quando oiço alguém a roncar. A sério [risos]. Era o Pena.” PREPARAR A FINAL EM TRÊS DIAS Mal tinha encerrado a Premier League no 6º lugar, com uma vitória sobre o Crystal Palace, a 21 de maio, e Mourinho já preparava a final de dia 24 — essencial não só para garantir um lugar na Liga dos Campeões da próxima época, mas também para conquistar o terceiro troféu do ano, depois da Supertaça e da Taça da Liga. Ainda antes de qualquer treino ou abordagem ao jogo, a equipa técnica entregou aos jogadores vídeos de cerca de cinco minutos sobre cada um dos adversários que provavelmente encontrariam na sua zona — os médios do United viram os médios do Ajax e assim sucessivamente. “O objetivo é conhecer melhor o adversário direto”, justifica, dizendo que entrou em ação de forma mais coletiva depois, três dias antes do jogo, depois de 67 jogos desgastantes e apenas 15 jogadores disponíveis a 100%. O formato do planeamento foi — e é, independentemente do adversário — sempre o mesmo: de manhã, uma análise de vídeo sobre um momento de jogo do adversário (no primeiro dia, sobre a organização ofensiva adversária, no segundo, sobre a organização defensiva e, no terceiro, sobre os esquemas táticos), de 20 minutos, apesar de o vídeo só ter sete ou oito; pequeno-almoço; treino de 75 minutos, para os jogadores perceberem o que o treinador quer para o jogo; almoço; e outra sessão de 20 minutos com imagens estáticas sobre o adversário e as estratégias a adotar. “Vi oito jogos do Ajax”, diz Mourinho, antes de enumerá-los todos. “Em Inglaterra vejo só dois ou três, porque já conheço o adversário, mas em competições europeias não. Para mim, a análise do adversário é muito importante, porque jogo em relação ao adversário e defino o treino em relação a isso”, explica. Foi assim que surgiu a estratégia para bater os holandeses. “Deixá-los sem conforto mental, criar instabilidade”, explica. “Deixávamos que saíssem a jogar, mas bloqueando o central direito, o De Ligt, e deixando a bola ir para o esquerdo, o Sánchez, que tinha mais dificuldades”, pormenoriza, acrescentando que, no treino, colocava uns elásticos no campo para cada um dos jogadores entender as referências da posição inicial da equipa. Depois, mudou a orientação do triângulo do meio-campo [dois trincos, Herrera e Pogba, e um ‘dez’, Fellaini] para encaixar no dos holandeses, que saíam a jogar através de um ‘seis’, colocando dois médios à frente. Isso obrigava a que Sánchez lançasse uma bola longa para o avançado, e aí Mourinho estava tranquilo: “Dominamos e temos estatura mais elevada.” De facto, o United ganhou 65% dos duelos aéreos e enervou o adversário, que não conseguia sair a jogar de forma apoiada como pretendia, apesar de ter tido mais posse de bola (67%-33%). Outra opção foi não obrigar Pogba a seguir as desmarcações do médio Klaassen, por lhe faltar disciplina mental para isso, quando o adversário mudava o centro do jogo. “Pusemos o nosso lateral a fechar bem por dentro esse espaço no corredor central e, caso a bola entrasse no corredor lateral, para o extremo, o lateral saía e era o Herrera a fechar o espaço no meio. Mas o que interessa é os jogadores perceberem, especialmente defensivamente, porque aí não há espaço para dúvidas — criatividade defensiva só em situações de emergência”, avisa. “Numa final há uma tensão diferente e, independentemente da experiência dos jogadores, eles vão pensar menos, por isso alguém já tem de ter pensado por eles antes para se sentirem mais livres. O que interessa é a equipa ficar confortável. Preparamos melhor o jogo quando conhecemos as nossas fraquezas”, admite. “Todos diziam que o Ajax jogava bonito, e que interessa muito a beleza do jogo, e blá blá blá. Disse aos nossos: para mim, bonito é não dar ao adversário o que ele quer. Até brinquei com o Smalling: ‘Com esses pés não vamos sair a jogar curto’”, revela, explicando a ideia principal em organização ofensiva. “Acho que foi aí que ganhámos o jogo. Na primeira fase de construção, nunca jogámos dos nossos centrais para os médios, porque eles (Ajax) eram muito perigosos a recuperar bolas de forma alta. E eles não ganharam uma única bola no nosso meio-campo assim. Se a bola não está lá, eles vão pressionar o quê?” MOURINHO, O POETA É inegável a enorme (e crescente) importância do plano estratégico na forma de jogar das equipas de Mourinho. “Há treinadores que não querem saber do adversário, mas não sou assim. Fui dos primeiros a falar em modelo de jogo e, para mim, na altura, havia apenas um sistema e um conjunto de princípios. Agora, já acho o modelo muito mais estratégico, por isso, no início da época, treino mais do que um sistema e mais do que uma forma de jogar. Acho que todas as equipas são melhores quando se adaptam.” Por outras palavras, este Mourinho já não é aquele (poeta?) do início da carreira, ainda que admita que “a equipa melhor preparada na globalidade” que teve foi a União de Leiria, porque tinha muito mais tempo para treinar. “Era muito fundamentalista quando era mais novo, agora sou mais pragmático, mais estratégico e menos arrogante. Quando cheguei ao Inter, apercebi-me da contradição entre as ideias que tinha e a equipa que tinha para fazê-lo. Os defesas eram trintões (Materazzi, Córdoba, Lúcio) e ninguém queria jogar com um bloco alto, com espaço nas costas, como jogava no FC Porto e no Chelsea. Tentei, tentei, mas não consegui. Teve de ser um bloco baixo.” A cedência (ou não) nas ideias é o que distingue os treinadores, considera Mourinho. “Aí, ou és fundamentalista ou tentas adaptar-te. Uma coisa é o United enquanto clube, outra é o potencial que temos. No início da época, dominávamos e houve jogos em que acabámos com 70% de posse e 28 remates. Mas empatávamos. Tive de ser mais pragmático”, explicou, voltando a mencionar a ideia que referiu depois de conquistar a Liga Europa: “Os poetas sonham com coisas que nem sempre são possíveis. O que interessa é o jogador estar confortável com o que joga e estar feliz”, diz. “Nos cantos ofensivos contra o Ajax, eles às vezes deixavam três cá atrás e decidimos que íamos deixar dois defesas e o Mkhitaryan a meio caminho. Há um canto e começo a ver que estava o Herrera cá fora e o Mkhitaryan na área. Até tenho vergonha de admitir, como treinador, mas não pensei naquilo. Depois o Herrera explicou-me: o Mkhitaryan já tinha amarelo e assim se fosse preciso fazer alguma falta fazia o Herrera. No canto, o Mkhitaryan fez o 2-0”, conta. “No final, são sempre os jogadores que decidem Tribuna Expresso Compartilhar este post Link para o post
Mesut Ozil Publicado 13 Junho 2017 No meu primeiro jogo na Champions, em 2002, quando chego ao FC Porto a meio da época, estávamos a ter reunião e estava eu de costas para eles quando oiço alguém a roncar. A sério [risos]. Era o Pena.” :lol: Mou :heart: Compartilhar este post Link para o post
BSD< Publicado 13 Junho 2017 (editado) "Até brinquei com o Smalling: ‘Com esses pés não vamos sair a jogar curto’, revela, explicando a ideia principal em organização ofensiva." :funny: Editado 13 Junho 2017 por BSD< Compartilhar este post Link para o post
ZeroZeroPeras Publicado 13 Junho 2017 “Nos cantos ofensivos contra o Ajax, eles às vezes deixavam três cá atrás e decidimos que íamos deixar dois defesas e o Mkhitaryan a meio caminho. Há um canto e começo a ver que estava o Herrera cá fora e o Mkhitaryan na área. Até tenho vergonha de admitir, como treinador, mas não pensei naquilo. Depois o Herrera explicou-me: o Mkhitaryan já tinha amarelo e assim se fosse preciso fazer alguma falta fazia o Herrera. No canto, o Mkhitaryan fez o 2-0”, conta. “No final, são sempre os jogadores que decidem E tudo se resume a isto, cabe ao treinador preparar os jogadores. Mou :prayer: para mim, o melhor treinador de sempre. Compartilhar este post Link para o post
Sumudica by Night Publicado 13 Junho 2017 Mourinho: “Sou péssimo a escolher equipas, escolho sempre as que estão em ‘big trouble’. Inter, Real, Manchester, todas em ‘big trouble’”José Mourinho deu-nos cinco minutos do seu tempo e falou do seu tempo de estudante na Faculdade de Motricidade Humana e também de como o tempo o poderá ter mudado ao longo de uma carreira em que conquistou vários títulos, em vários países. Por outro lado, o português assume que escolhe sempre clubes em conjunturas difíceis, em “big trouble”, e que o Manchester United é um deles. “Uma coisa é a história do clube, outra é a atualidade do clube” No seu tempo de jovem treinador, quem é que lhe deu ‘lições’? Há 30 anos, mais ou menos, eu saí da faculdade e fui até à Escócia tirar o curso de treinador e tive a sorte de ter encontrado algo um bocadinho adiantado no tempo, comparável a isto que está a acontecer aqui na FMH, que é um número interminável de gente de diferentes países. Na altura aquilo foi feito em regime de internato, ficámos ali dois meses, todos juntos, e, sem termos tido um treinador de primeira linha, como eu sou agora, que tivesse ido lá falar. Obviamente, naquela altura, quando cada um foi para o seu país, a comunicação não continuou com a facilidade com que isso acontece hoje, mas mantivemos contacto e trocávamos ideias e treinos regularmente. Acho que isso foi um momento chave na minha formação, porque saio já da faculdade com uma ideia formada de que é preciso sempre mais e mais e mais e mais para evoluir, e depois entro num curso de treinadores onde encontro este tipo de dinâmica. O caminho tem de ser sempre acharmos que sabemos pouco. Mas não é possível ensinar futebol, ou é? Não. Acho que se ensina é a pensar. Ensina-se... não direi analisar, porque isso depende muito de quem o faz, mas acho que as linhas mestras de organização de um pensamento podem ensinar-se. O mais importante é aquilo que tu pensas e, depois, é conseguir operacionalizar aquilo que tu pensas. Não há uma app que te ensine isso, não há um site especializado que te ensine isso, não é a ir ver um determinado treinador a treinar e registar num bloco de notas os exercícios que se fazem. O mais importante são as ideias. Depois, há diferentes modos de pensar. Há treinadores que são muito mais radicais. Que só querem saber do modo de jogar da própria equipa? E não só, é no sentido de “estas são as minhas ideias e com estas ideias eu vou até ao fim”. E há outras pessoas, como eu, por exemplo, que acham que se deve fazer... É um bocadinho contraditório, porque as pessoas dizem que não sou humilde. Mas acho que sou humilde neste aspeto. Sou humilde no sentido de dizer que, por vezes, as minhas ideias não são as mais corretas em função de determinado objetivo ou em função do material humano que tenho à minha disposição. Dou-te um exemplo muito claro: há quem diga assim: “As minhas equipas pressionam todas alto.” Eu não digo. Não tenho essa arrogância. Eu digo: “As minhas equipas pressionam de acordo com as características do adversário e de acordo com os meus jogadores.” Mas este Mourinho não é o mesmo Mourinho que tínhamos no União de Leiria, no FC Porto... Não dá agora uma importância muito maior ao lado estratégico do jogo? Não sei se é mais estratégico. Para começar, sou péssimo a escolher equipas. Escolho sempre equipas, como se diz em Inglaterra, em “big trouble”. O Inter estava em “big trouble”, o Real Madrid em “big trouble”, o Manchester United em “big trouble”, ou seja, sempre em “big trouble”. E o que é que significa este “big trouble”? Significa que são equipas que querem ganhar, mas estão a milhares de quilómetros de distância de ganhar. Uma coisa é a dimensão do clube e a história do clube e outra coisa é a atualidade do clube. Dou-te um exemplo muito claro: o capitão do Real Madrid [sergio Ramos] que levantou a Taça no outro dia, e que é agora tricampeão europeu, quando cheguei ao Real Madrid, em 2010, nunca tinha jogado [destaca pausadamente cada palavra] os quartos de final. Não é nem a final nem a meia-final, ele nunca tinha jogado os quartos de final da Champions. Não é? E eu chego agora ao Manchester United e sabes quantos jogadores destes é que foram campeões? Os ‘velhotes’ que estão a acabar e que ainda vêm da era Ferguson. Não sabem o que é ganhar. O que significa que há passos a dar e os passos que se têm de dar são simultaneamente o desejo e a necessidade de que o clube volte a ganhar, mais a qualidade, ou a pouca qualidade, e a pouca experiência dos jogadores que neste momento compõem a equipa. E a tal maneira ‘XPTO’ de jogar. A maneira de ganhar? Estratégia. O treinador português é agora visto como um dos melhores do mundo, depois do ‘efeito’ Mourinho? Não sei, não sei. Acho que há treinadores que marcam e que ganham num determinado momento e há outros que ganham num espaço temporal grande. Acho que, no meu caso, ganhar há 14 anos transformou-me num daqueles treinadores que ganha no tempo, que ganha durante uma carreira e não apenas num momento, e acho que eventualmente pode ter criado uma onda de curiosidade, de se querer saber porquê. Pode ter tido uma influência positiva nas oportunidades que começaram a ser dadas a treinadores portugueses. A partir daí, a minha influência é zero e a influência passa a ser daqueles que constroem as suas carreiras noutros países e noutros níveis de exigência. Portanto, acho que sim, acho que eventualmente influenciei a maneira e a curiosidade com que se olhou para os treinadores portugueses, mas a partir desse momento são os treinadores portugueses que têm feito coisas muito boas, permitindo que exista esta aura positiva à volta do treinador português. Como existiu também nos espanhóis, no pós-Guardiola, e nos italianos na primeira geração pós-Sacchi e Trapattoni, e agora pós-Ranieiri, Conte e Ancelotti. Acho que os grandes nomes, em qualquer área, podem ser sempre influências positivas e nunca negativas. Negativas só se se tentarem fazer cópias, tentando insistir para que haja mais. Em Portugal houve uma altura que era... O “novo Mourinho”. Era o novo Mourinho, o novo Eusébio, agora se calhar um miúdo faz três golos num jogo e já dizem que é o novo Ronaldo... Acho que as pessoas têm de aprender a respeitar não só aqueles que o são como também aqueles que o querem ser. Porque aqueles que o são estão num patamar diferente e aqueles que o querem ser merecem viver e crescer sem esse tipo de comparação e de pressão. Tribuna Expresso Compartilhar este post Link para o post
Mesut Ozil Publicado 13 Junho 2017 O Porto da altura também se podia considerar "big trouble". Substituir uma equipa montada pelo Octávio e muito mal na classificação é osso duro de roer. Compartilhar este post Link para o post
Che Publicado 13 Junho 2017 O Inter... Eu vou extrapolar e dizer que se referia ao contexto europeu e não ao contexto interno, onde o Inter da segunda-metade da década passada não tinha rivais directos e andava a disputar campeonatos com a AS Roma. Compartilhar este post Link para o post