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Quando o regresso à realidade é insuportável para os atores: o caso Jon Snow

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Quando o regresso à realidade é insuportável para os atores: o caso Jon Snow

Com as emoções por ofício e sujeitos à crítica do olhar público, os atores podem ser vítimas da sua arte? Não mais que outros profissionais, dizem as atrizes que o Expresso ouviu, embora estejam talvez mais expostos se a sua estrutura emocional for mais frágil, acrescenta uma psicóloga. Kit Harrington, o Jon Snow de “A Guerra dos Tronos”, está internado - e na história da representação não foi o único a (aparentemente) ceder à pressão.

Quando em 2008 o ator Heath Ledger morreu, vítima de uma overdose de medicamentos e sem assistir à estreia do filme que lhe valeria um Óscar póstumo, não faltou quem especulasse sobre a possibilidade de ter sido a sua dedicação ao personagem Joker (em “O cavaleiro das Trevas”) a levá-lo à morte. Os relatos então recuperados pintaram a imagem de um profissional obcecado, que se trancou em casa durante um mês, a dormir uma média de apenas duas horas por noite, simplesmente porque não conseguia parar de pensar no personagem. Tal era a fixação, diziam as notícias, que os membros do elenco chegaram a ficar preocupados: Ledger falava como Joker mesmo fora das filmagens e as suas insónias persistiram após a conclusão da rodagem.

Seria um caso extremo de recusa em sair do guião, ainda que esta ideia do sofrimento dos atores seja algo recorrente, associado sobretudo aos chamados atores do Método ou do sistema desenvolvido pelo russo Constantin Stanislavski, conhecidos pela importância que dão à memória emocional como ‘ferramenta’ para a interpretação. Daniel Day-Lewis será outro exemplo. Consta que o trabalho corporal desenvolvido para dar vida ao tetraplégico Christy Brown, em “O meu pé esquerdo”, levou a que fraturasse duas costelas.

A mais recente ‘vítima’ desta dedicação pode ser Kit Harrington (Jon Snow, em “A Guerra dos Tronos”), esta semana notícia por causa do internamento numa clínica de reabilitação para receber acompanhamento psicológico por causa de problemas relacionados com alcoolismo e stress. O ator, diz-se, admitiu ter ficado abalado com o fim da série.

Ainda que esta sexta-feira tenha surgido uma ‘nuance’, com os representantes do ator britânico a suavizarem a informação, esclarecendo que Harrington está, afinal, a fazer um “retiro de bem-estar para resolver alguns problemas pessoais”, a pergunta que todos estes casos sugerem é a mesma: pode o fecho de um projeto profissional de determinada grandeza, ou mesmo a intensidade de um personagem, provocar problemas emocionais graves?

Maria João Luís, atriz portuguesa com mais de 30 anos de carreira, duvida. “Os atores são pessoas como as outras, há quem tenha estruturas emocionais fortes e quem seja emocionalmente mais frágil.” Para a também diretora artística do Teatro da Terra, “além de ser um atrevimento afirmar que o problema foi o fim da série - sem mais conhecimento sobre a vida pessoal deste ator de ‘A Guerra dos Tronos’ e sobre as circunstâncias do seu internamento”, a justificação é também pouco provável.

Maria João Luís admite já ter trabalhado com colegas que lutaram com problemas emocionais ou esgotamentos, mas acredita que estes processos “nunca resultam só de se fazer um certo personagem”. “São problemas muito sérios, mas que atingem pessoas de muitas outras profissões”, conclui.

A mesma opinião tem Elsa Valentim, atriz e professora de interpretação na escola de atores Act: “Se pensarmos nesta série em concreto, na pressão global a que os atores estiveram sujeitos, para fazer bem, para cumprir, o não poder falhar, o não poder adoecer... é um stress muito grande a que é submetido o próprio corpo. Que aguenta, aguenta, até ao momento em que não aguenta mais” - geralmente depois da missão cumprida. Bem se podem fazer exercícios de relaxamento ou coisas do género, brinca a atriz e diretora pedagógica da Act, “mas o que me parece é que o burnout é válido para outras profissões e acaba por depender das pessoas e da forma como cada uma lida com o trabalho”.

Tal como Maria João Luís, que diz perder mais horas de sono no papel de diretora artística ou encenadora, Elsa Valentim nunca foi “de levar os personagens para casa”. Algo que dependerá dos próprios métodos seguidos pelos atores, mas que entende ser também “uma questão de aprendizagem”. Com o tempo e a experiência, o processo tende a tornar-se mais natural, considera.

Vera Saicali, psicóloga clínica de saúde e terapeuta EMDR (uma abordagem especialmente direcionada para situações de trauma), fala da depressão como um dos transtornos emocionais possíveis nos atores mas também em qualquer pessoa que, de uma ou outra forma, tenha de representar um papel. Assumindo por alguma razão valores e princípios que não são os nossos, pode fazer surgir “um conflito interno de valores”.

Sobretudo, acrescenta, há no ator o risco de, ao representar certos papéis e emoções, “estas poderem ser um gatilho, impactando-o mais”. Situações que impliquem reviver divórcios, casos de violência, “memórias traumáticas no fundo”, ainda que nunca seja de mais repetir que “cada pessoa é diferente”.

Sob outro ponto de vista, Maria João Luís fala da exaustão e do cansaço como fazendo parte da sua vida como atriz. “Tenho fases em que estou estourada, sobretudo quando envolve participar em novelas e sinto que não aguento mais... mas acaba por ser uma exaustão bem-vinda. Preciso dela”, explica. “Como sou um bocadinho hiperativa” - a atriz ri-se - “alimento-me desse cansaço” e desse ritmo.

O lado terapêutico de representar

Há o lado, potencialmente mais duro, de ser uma profissão que lida com estados de alma limite, “obrigando-nos a concentrar em algumas deles durante o tempo em que estamos a fabricar um personagem,” reconhece Maria João Luís. “Se isso não é problemático no imediato, ao longo dos anos pode tornar-se complicado e difícil de gerir”, reconhece a atriz, que ainda assim não deixa de falar na dimensão - “se calhar faz sentido dizer terapêutica” - da sua arte.

Está a acontecer-lhe agora com a peça “Ermelinda do Rio”, que estreia a 7 de junho em Ponte de Sor e que depois apresenta em Lisboa. “É um monólogo, muito poético, sobre as cheias no Ribatejo em 1967, um acontecimento que me levou mais de 20 pessoas da família. É um bocadinho duro”, afirma a atriz, sem hesitação, “mas ao mesmo tempo tem essa dimensão prazerosa que caracteriza o trabalho do ator”.

Para a psicóloga Vera Saicali, faz sentido. No palco, como no seu consultório, “recuperar a memória de traumas para os reviver, mas atribuindo-lhe um novo significado” e reenquadrando-os, é uma forma de curar. Se são memórias de infância, por exemplo, ajuda olhar para elas “com a maturidade entretanto alcançada”.

As dependências como refúgio

Falando de Portugal, Elsa Valentim aponta as novelas como o exemplo mais extremo de exigência, em termos de ritmo de trabalho, “até pelo pouco tempo para estudar os textos”. “E não somos o Brasil, onde sair à rua se torna uma loucura”, lembra, chamando a questão da pressão do olhar público. Aguentar essa exposição e determinados ritmos de trabalho é, de facto, muito exigente, “a ponto de alguns atores se refugiarem em dependências para aguentarem”.

Vera Saicali fala também nessas dependências. Para qualquer pessoa sob os holofotes e a quem é cobrado sucesso - “acontece também a um cantor com um êxito prévio, de quem só se esperam novos êxitos” -, a forma de lidar com a pressão depende dos seus “recursos pessoais, sejam eles internos ou os apoios pessoais que procura”. Esse apoio externo poder ser encaminhado “num primeiro momento para o álcool, drogas ou medicação, mas se é verdade que inicialmente estes podem responder ao objetivo, ou parecer que respondem, acabam sempre por se transformar em mera anestesia”, e, por fim, num outro problema, garante.

E, pela inerência da sua função, estão os atores mais habilitados para reconhecer as emoções e perceber quando algo não está bem? “Não tenho a certeza”, responde a professora da Act. “Porque há atores viciados nas emoções e nesse ritmo que acharão que podem sempre aguentar mais. Se calhar é mais fácil para quem está ao lado perceber os sinais.”

Expresso

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O Luís Esparteiro também nunca mais foi o mesmo depois de desempenhar a personagem Vasco Figueiredo no Super Pai. 

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