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Uma tarde em Olhão com o presidente Cajuda: “Estou a implementar uma filosofia: venham os problemas, nós arranjamos as soluções”

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Uma tarde em Olhão com o presidente Cajuda: “Estou a implementar uma filosofia: venham os problemas, nós arranjamos as soluções”

O agora ex-treinador, um histórico do nosso futebol com 72 anos, foi eleito presidente do Olhanense no primeiro dia de junho. Fomos descobrir o que leva na alma, o que a lembrança guarda – os convites dos grandes, as aventuras lá bem longe – e alguns dos mandamentos sagrados, como por exemplo: “Nunca deixei de jantar por causa de uma derrota. Se eu perder o jogo e o jantar são duas derrotas”

O telefone de Manuel Cajuda começou a latir assim que chegou à porta do estádio do Olhanense. Com poucos meses na presidência do clube de Olhão, costumam ser as más notícias a entupirem-lhe o ouvido. Desta vez era sobre as receitas dos bares e uma dívida em água. Lá fora, o cinzentismo congela, parece até ter manhas para derrubar a obra soalheira. Há uma sensação de abandono no José Arcanjo, as plantas já nem reconhecem um sorriso. Depois de uma breve caminhada entre as agruras do betão esquecido, finalmente surge o verde. Estão a colocar um sintético novo, ainda que os problemas do clube com a SAD impeçam a inscrição de uma equipa sénior do Olhanense. “Temos aqui um campo, isto não é para criar batatas”, avisa o agora ex-treinador, de 72 anos, que tem uma qualidade admirável: quando diz o óbvio, não soa a óbvio. É por isso que ficou acordado ali jogar o Sporting Clube Olhanense 1912, fundado em 2017, que participará na 2.ª divisão distrital.

Cajuda olha com ternura à volta. É de Olhão, morou a 200 metros daqui e até ajudou a construir aquele estádio. “Quer dizer, cuidado, alegadamente ajudei. Andei aqui a apanhar e a levantar pedras”, revela. Este algarvio vai também inaugurando a arte de misturar relatos do passado com opções utilitárias e atuais, como a intenção de mudar os estatutos para o mandato da direção ter mais do que dois anos. “Vinha jogar aqui, nas guerras do meu bairro”, suspira. O futebol federado só se deu quando tinha 15 anos. No vizinho Farense, que usa agora como referência, passou nove anos como jogador e adjunto. Aqui só voltou como treinador. Que ninguém fale mal do Farense ao pé dele.

Os olhos azuis perfurantes do senhor Elísio, de mãos quase rudes e cheias de trabalho, colam-se à conversa. É o responsável pela implementação do novo tapete artificial. “Isto ‘tá bom é para os presidentes dos clubes, pá”, diz Elísio, num tom de voz mais suave do que era expectável. “Não ‘tá nada e vou voltar a ter uma conversa consigo. Como presidente, han?”, diz Cajuda. “Como presidente, esta merda está atrasada, muito atrasada. Como amigo, digo assim: continue, que está bonito”, diz malandramente, roubando risos a todos. Foi airoso e não deixou de dizer o que tinha a dizer.

Não foi assim há tanto tempo que o Olhanense conseguiu a melhor pontuação de sempre na I Divisão (2011/12), terminando na oitava posição, a 11 pontos da Europa. Ismaily, Salvador Agra e Dady eram algumas das figuras. Depois de cinco anos naquele escalão, a criação de uma SAD coincidiu com a descida de divisão, em 2013/14. Após algumas temporadas na II Divisão, seguiu-se a queda para o Campeonato de Portugal, onde uma inusitada trama até meteu Edgar Davids no banco. Agora, o abismo, um lugar onde as bolas são inúteis e os relvados não fazem falta.

Debaixo da pele de Manuel Cajuda, um homem que andou por muitos cantos que o mundo tem, não resta nenhuma vontade de treinar. Acabou a carreira no dia em que havia começado 40 anos antes, num 25 de março. “Saio pelo meu pé, não saio magoado com o futebol português”, confessa, infiltrando mais gravidade no rosto. “Do que se passa dentro do campo, tenho saudades. Da minha janela para fora do campo, vejo os vidros todos embaciados. Então, não tenho saudades nenhumas.”

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Esta personalidade do nosso futebol, orgulhoso dos valores que sustentam a linha reta da espinha, diz que lhe faltou coragem para dizer não ao Olhanense. Um advogado da terra desafiou-o e até atirou o barro à parede nas redes sociais. Um dos filhos, o empresário Hugo Cajuda, quando viu a promessa de frenesim, ligou para o pai. “Que merda é esta? Vais meter-te em confusões outra vez?”, escutou Cajuda. Duas semanas depois, o mesmo filho voltou a ligar. “Eh pá, pai, desculpa lá, tens de dar a mão ao Olhanense. Se não fores tu, aquilo morre”, conta Cajuda, com uma vaidade mansa. “Agora pergunto-te eu: que merda é esta, Hugo?”, questionou o filho. E ri. Assim começou a maquinaria a formar-se para avançar, não sem antes falar com o autarca da cidade. “Quem lutar contra o poder local está desgraçado”, explica este olhanense que esteve ausente nos últimos 40 anos. Diante de nós está alguém agradecido pela ajuda dos empresários e da autarquia de Olhão. “Quanto mais acima está o clube, mais todos ganham”, explicaria depois Luís Teixeira, o secretário-geral do clube que ali anda há quase 40 anos, tendo começado como moço de recados.

Viajamos até às viagens deste treinador, aos trabalhos lá longe. Regozija-se de ter sido o primeiro a abrir as portas do balneário à televisão. Tem amigos no Dubai, onde tenta ir uma vez por ano. Cruzou-se com um presidente de clube visionário na Tailândia. Na China, a alimentação foi mais complicada, chegou a jantar torradas, café com leite e fruta. Sorrateiramente, contrariando o volume que ocupam no espaço, surgem subitamente dois adeptos do Olhanense na bancada. “‘Tás bonito”, diz o presidente a um deles que tem uma camisola do clube. Ficam por ali a contar algumas histórias de antigamente. A nostalgia é quase sempre irresistível. A certa altura, recordamos Cajuda daquela mítica reportagem da SportTV em que, em pleno treino, diz algo inesquecível como “work is work, cognac is cognac, womans is womans, cold is cold…”, etc, etc, como quem diz “agora é a sério, depois brincamos”. Ainda que bem resolvido e sempre, sempre descontraído, dá ares de quem não apreciou a forma como aquilo foi explorado.

“O meu inglês era quase zero, ainda hoje é quase zero. Eu sabia o inglês de praia aqui do Algarve, mas melhorei muito graças ao futebol”, conta. “Quando eles utilizaram aquilo como chacota, porque foi usado como chacota, eu disse-lhes assim: pois é, aquele inglês de que vocês se estavam a rir deu-me para ganhar 90 mil euros líquidos por mês. Se vocês acham mal, o que vou fazer…”. Dali para a revelação de que recebeu convites de dois clubes grandes e uma sondagem do outro foi um saltinho. Foi talvez o único momento em que o silêncio foi declarado vitorioso. “Mistery is mistery”, balbucia este jornalista, tentando amolecer a parede que tapa a verdade. Os lábios de Cajuda curvam-se favoravelmente. “Uma coisa é o que eu digo, outra é o que vocês deduzem.”

Mas, afinal, porque não treinou nenhum grande? “Como humano, tenho uma filosofia de vida própria”, inicia assim a explicação. “Eu não sou treinador de futebol, a minha profissão foi treinador de futebol. Na altura, as crises nos clubes não me aconselharam a ir para lá. Houve treinadores que estiveram lá três meses e foram postos na rua. O que vou lá fazer? Tirar fotografias? Vai ficar no currículo uma coisa que não interessa para nada.” Os dirigentes que o abordaram sugeriram que fizesse coisas que não nomeia e que ele não admitia fazer, e é aqui que entra a história da filosofia, dos princípios. Prefere apontar o holofote para o que fez: “Qualifiquei sete equipas para competições internacionais”.

Cajuda vai pedindo cigarros ao Nuno Botelho, o fotojornalista. Tentamos saber se esta raposa velha do nosso futebol acredita que a modalidade está viciada nos jovens, se está esquecida dos mais velhos. Agora há só uma forma de ver o jogo? Existe uma espécie de ditadura? “Parece que sim, parece que sim”, concede. “Também há uma ditadura do espectador. Eu só vejo o que quero e não vejo a maior parte dos jogos.” Foi por isso que, antes de cair no esquecimento ou mesmo de ser empurrado para esse buraco gelado, preferiu deixar o futebol. “Mais cedo ou mais tarde ia ouvir ‘vai para casa, ‘tás a dormir, ‘tás velho’.”

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Aborrece-o que lhe falem dos grandes e não lhe perguntem o quanto se divertiu nestes 40 anos de carreira. Perguntamos isso mesmo. “Muuuuuito. Nem vale a pena.” Soa a ameaça, como se precisássemos de outra tarde como esta, que aconteceu em meados de setembro. Ganha uma gloriosa luz no rosto quando fala em como o tratam em Guimarães (“até tenho vergonha de ir lá”) e em Braga, colocando-se acima daquela rivalidade, como se fosse um santo pacificador. É reconfortante privar com quem, na dose certa, aprecia o reflexo que vê no espelho.

Já nos escritórios onde trabalha, que não são os habituais pois lá está tudo incompreensivelmente destruído, vive engolido por dossiers vermelhos que tapam as paredes despidas de memórias. O homem que foi treinador abre-se mais aqui. Mais do que uma vez fala no amor pela mulher, no sorriso bonito que tinha na juventude e que ainda tem. Quando, em tempos idos, lhe perguntaram pelo ídolo, respondeu que gostaria de ter sido uma mescla de Artur Jorge e Quinito, pela classe de um e pelo lirismo do outro. Nunca levou o futebol para casa, afirma. Nem havia cara feia depois dos desaires. “Nunca deixei de jantar por causa de uma derrota. Se eu perder o jogo e o jantar são duas derrotas”, comenta, desarmando os que o ouvem. “Chamo bluff aos treinadores que dizem que pensam 24 horas por dia em futebol. Deixa-te de arquiteturas…”.

O clube do coração é o Benfica e isso deve-se a um sportinguista. “Imaginem a província, que é esquecida pelos portugueses a não ser no verão, em 1950. Aqui o que chegava eram os relatos do Artur Agostinho, do Benfica campeão europeu.” Na família é quase tudo benfiquista, menos uma neta, que é do FC Porto, e um filho, que apoia o SC Braga, um clube que lamenta ter tido tão pouco espaço na imprensa depois do apuramento para a Liga dos Campeões. “Temos todos uma costela bracarense”, reconhece. Afinal, foram cerca de 250 jogos com aquela camisola só no campeonato. Manuel Cajuda esteve nos bancos da I Divisão em qualquer coisa como 505 partidas.

Ao longo da conversa, este dirigente vai elogiando a direção do clube, que trabalha 10 vezes mais do que ele, segundo o próprio, evidentemente agradecido. Os desafios para levantar este clube fundado em 1912 são imensos e complexos, mas este é um homem com esperança, que vê uma utilidade graciosa no humor e na decência. “A vida ensinou-me que problemas toda a gente tem, ricos, pobres. Eu também tenho. Estou a tentar implementar uma filosofia no Olhanense: venham os problemas, nós arranjamos as soluções.”

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