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A dupla portuguesa que sonha com a Champions ao lado da China: “Se não acreditasse em mim, quem acreditaria? Só o meu pai e a minha mãe”

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A dupla portuguesa que sonha com a Champions ao lado da China: “Se não acreditasse em mim, quem acreditaria? Só o meu pai e a minha mãe”

Jorginho, vindo dos escalões inferiores em Portugal, e Luís Mata, internacional jovem, atuam no Kairat Almaty, equipa do Cazaquistão que esta quarta-feira (20h, DAZN 1) visita o Celtic, tentando uma inédita presença na Liga dos Campeões. Em conversa com a Tribuna Expresso, ambos falam do “sonho” que se tornou “objetivo” e das diferenças para a vida a leste, com muita neve e trânsito caótico

Quem olha para o rendimento de Jorginho jamais diria que o avançado está a viver os primeiros meses da sua vida num contexto totalmente profissional. Aos 27 anos, o português brilha no Kairat Almaty, onde chegou no início de 2025 — no Cazaquistão é o arranque da época, que vai de fevereiro a novembro — vindo do Differdange, clube que ajudou a ser bicampeão luxemburguês. Antes disso estava no Pevidém, do quarto escalão português.

Ir para o Kairat Almaty foi “um choque um pouco grande”, já que o apresentou à rotina em que todos só pensam em futebol. “Em Portugal, na Liga 3, cheguei a estar em clubes em que se treinava de manhã, mas em todos eles havia gente com outros trabalhos ou part-time. No Luxemburgo, apesar de jogarmos Europa, era semi-amador, a maior parte da malta trabalhava ao mesmo tempo que jogava. É a primeira vez que estou num contexto 100% profissional”, diz.

A estreia não poderia ser melhor. Leva nove golos e 10 assistências, dando sequência aos excelentes 39 golos em 46 desafios no Luxemburgo. Em 2024, o destaque obtido ao serviço do Differdange na pré-eliminatória da Liga Conferência frente ao Ordabasy, então campeão do Cazaquistão, captou atenções a leste. Chegou a proposta do Kairat Almaty e as malas feitas para uma cidade a menos de 300 quilómetros da fronteira com a China, para onde foi, semanas depois, Luís Mata, lateral esquerdo que assinou vindo do Zagłębie Lubin, da Polónia.

No arranque da temporada, foi lançado ao plantel o repto de chegar às fases regulares das competições europeias, onde o Kairat Almaty, mais conhecido pelo futsal, só esteve uma vez, na fase de grupos da Liga Conferência de 2021/22. Gradualmente, o “sonho” metamorfoseou-se em “objetivo”, comenta a dupla portuguesa em chamada telefónica com a Tribuna Expresso.

Enquanto luta pelo título cazaque, somando os mesmos pontos do Astana, mas com mais uma ronda realizada, o Kairat Almaty mostra-se na Europa, espaço geográfico distante, mas onde competem as equipas do gigante nono maior país do mundo. Eliminados Olimpija Ljubljana, da Eslovénia, KuPS, da Finlândia, e Slovan Bratislava, da Eslováquia e presente na passada Liga dos Campeões, a fase de liga da Champions está a uma eliminatória de distância. O adversário é o histórico Celtic, com a primeira mão em Glasgow (20h, DAZN 1) e a segunda na vizinhança com a China.

Neve e físico

Rumar milhares de quilómetros a leste pode soar a exótico, mas Luís Mata garante que a adaptação “foi fácil”. “É uma cidade muito europeia, tem muitos espaços verdes e jardins, para as crianças é excelente. Os meus pais estão cá, a família do Jorginho também veio e quem vem, gosta. Quem pensa no Cazaquistão pode pensar noutra coisa, mas Almaty é uma cidade muito internacional”, explica o canhoto.

Luís Mata quando jogava no Zaglebie Lubin, na Polónia
Luís Mata quando jogava no Zaglebie Lubin, na Polónia
SOPA Images

Com 52 internacionalizações pelas seleções jovens, Mata fez 69 partidas pelo FC Porto B antes de realizar várias épocas na Polónia. Saiu porque não estava a jogar e concede que, à primeira vista, assinar pelo Kairat podia ser “um risco”, mas foi “o melhor risco” que tomou.

“Nem nas comidas sinto diferença, as minhas refeições continuam entre carne, arroz, massa. Nos supermercados vendem picanha, às vezes fazemos churrascos. Pode-se pensar em choque cultural no Cazaquistão, mas não em Almaty. O meu filho está na escola em inglês e tem sido tranquilo”, relata.

Para Jorginho, houve, sim, um “choque”.

“O clima. Estava habituado ao frio no Luxemburgo, mas quando aqui cheguei havia neve até aos joelhos”, lembra o atacante, melhor marcador do campeonato do Luxemburgo em 2023/24. Antes de emigrar, representou Merelinense, Fafe, Sanjoanense e Pevidém, sempre entre os terceiro e quarto escalões nacionais.

No Cazaquistão, “o futebol é muito diferente do que estamos habituados em Portugal”, continua Jorginho, com um foco muito grande “na parte física, na velocidade e na força” e não tanto “na organização, nos apoios, na formação das linhas”. Há muitos encontros em sintéticos num campeonato pequeno, de 26 rondas.

O Celtic…  e o Real Madrid

A aposta forte que o Kairat Almaty fez nota-se logo nas viagens. Quando foi a eliminatória frente ao KuPS, os finlandeses, entre escalas, demoraram “umas 14 horas” para aterrar a leste, conta Mata, enquanto o caminho inverso, feito em avião fretado, tardou meras cinco horas. 

O onze do Kairat antes de defrontar o Olimpija Ljubljana
O onze do Kairat antes de defrontar o Olimpija Ljubljana
Jurij Kodrun

Jorginho detesta andar de avião, mas é pelo ar que se ganha alguma vantagem competitiva, e não só na Europa. Nos anos em que esteve na Polónia, Luís Mata habitou-se a fazer “seis, sete ou oito horas de autocarro” para ir disputar um encontro. No Kairat, em 13 deslocações para a liga interna, 12 são de avião, reduzindo as distâncias num território de 2.724.910 quilómetros quadrados, maior do que França, Espanha, Alemanha, Itália e Reino Unido juntos.

“As condições do clube são muito boas. Temos grandes infraestruturas, o quarto dos atletas é top, temos piscinas, uma fisioterapia muito grande, ginásio muito grande, refeitório novo. Fiz a minha formação toda no FC Porto e este centro de treinos ainda é melhor”, sublinha Luís Mata, que em 2014 disputou o Europeu sub-17 ao lado de Rúben Dias, Rúben Neves ou Renato Sanches.

Se Mata habitou espaços destinados a jovens promessas desde sempre, o percurso de Jorginho é bem diferente. Com passagem pela formação do SC Braga, foi através do Celeirós que entrou no futebol sénior. Quando fez 25 anos, olhou em redor e pensou que tinha de “começar a orientar a vida”, porque “o dinheiro que se ganha no Campeonato de Portugal ou Liga 3 é nada para o futuro”. Empenhou-se, trabalhou, fez uma grande época no Pevidém, foi para o Luxemburgo.

Figura no Differdange, que jamais vencera a liga e foi bicampeão, cada degrau que o avançado sobe não lhe retira protagonismo. Em abril de 2023 disputava a quarta divisão portuguesa, em agosto de 2025 vai a Celtic Park ouvir o hino da Liga dos Campeões.

“Há três anos, ninguém acreditava que hoje eu estaria a dois jogos de disputar Liga dos Campeões. Eu acreditava. Podiam chamar-me maluquinho, mas aqui estou. Sonhar não custa e tem corrido bem. Eu acredito que só preciso de ter uma oportunidade. Depois, estando no meio deles, vou ser tão bom ou melhor. Se me disserem que vou para o Real Madrid, acredito que farei os mesmos números. Se não acreditasse em mim, quem acreditaria? Só o meu pai e a minha mãe”, reflete o atacante. 

A eliminatória será um embate entre quem nunca esteve para lá das pré-eliminatórias da Liga dos Campeões e quem já foi campeão europeu. O Kairat Almaty já garantiu, pelo menos, a fase liga da Liga Europa, mas Luís Mata, que falhará a deslocação a Glasgow por uma pequena lesão, almeja “colocar o Kairat nas bocas da Europa”. “O Celtic é mais um desafio. Quem sabe se não me abrirá outra porta”, diz Jorginho.

O Kairat nunca andou tão perto da maior competição europeia. Jorginho, que até há pouco nem era profissional, destaca-se internacionalmente. Mata não jogava na Polónia, mas afirmou-se no Cazaquistão. Na fronteira com a China acredita-se na Liga dos Campeões. Os dois portugueses não se habituam é ao trânsito, porque no Cazaquistão “são um pouco malucos a conduzir”, atiram os dois. 

 

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Esse Jorginho deve ter sido o maior fenómeno da AFBraga das últimas décadas, apenas se compara ao que o Hugo Vieira fez uns anos antes. O rapaz parecia um tornado. 

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