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O puto sem medo de voar

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O puto sem medo de voar

Trampolins. Quinto classificado nos Jogos Olímpicos de 2024, Gabriel Albuquerque, de 19 anos, continua a elevar a fasquia. Los Angeles 2028 é a grande meta do ginasta que escreve letras de rap

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Para Gabriel Albuquerque, aquele impulso inicial ter-se-á assemelhado a quando um rapaz elege o Pokémon que o acompanhará numa aventura. Tinha 4 anos, estava numa feira em Almada com várias atrações, mas, quando viu os trampolins, virou-se para os pais e não duvidou. “Escolho-te a ti.”

Os saltos foram vistos por Filipa Vítor, treinadora no Clube Recreativo e Desportivo Brasileiro/Rouxinol, em Corroios, que perguntou se a criança não queria lá ir experimentar mais. João Pedro Monteiro, espécie de Professor Oak que tutela a aventura, foi avisado que apareceria um menino “espetacular” no ginásio. O que os olhos viram superou a descrição. Ali estava uma criança “cheia de energia”, a “querer fazer tudo”, com uma “noção do corpo fora de série”.

Esta história começa em Almada, vai para Loulé, alarga-se a todo o mundo. A criança virou homem, ainda jovem, e João Pedro, ou somente J.P., continua a ser o treinador, o mentor. E o menino “espetacular” virou craque internacional.

Gabriel Albuquerque, o mais novo português nos Jogos Olímpicos de 2024, foi, aos 18 anos, quinto no trampolim individual de Paris, o melhor resultado nacional de sempre na competição. No ano anterior já fora quarto nos Mundiais e em 2025 elevou a fasquia: conquistou, juntamente com Lucas Santos, o ouro no trampolim sincronizado nos Jogos Mundiais, e foi bronze, em equipa com Pedro Ferreira e Diogo Abreu, nos Mundiais de Pamplona, onde foi quarto na prova individual.

Salir

João Pedro Monteiro não chegou àquela conversa com o intuito de “convencer” nem com o objetivo de “demover”. Depois de aceitar um convite para ir para Loulé, a primeira pessoa que procurou foi a mãe de Gabriel. A relação do treinador com o miúdo de 11 anos já era especial. Albuquerque vencera as primeiras competições internacionais aos 10 e, preocupado com a gestão daquele potencial, J.P. sugeriu alguns clubes para a continuação do percurso.

“Para meu espanto, no final, ela pergunta-me se, em vez de ele ir para outro clube, não podiam eles vir para o Algarve. ‘Acho que ele merece continuar a ser treinado por si’”, foi a resposta da mãe de Gabriel, lembra o treinador. Tradutora que pode trabalhar à distância, a flexibilidade da mãe era — e é, porque ainda vivem juntos em Loulé — ponto fundamental na dinâmica familiar.

O menino do Colégio Moderno foi avisado que ir significaria perder amigos, que vinha aí a adolescência, que seria uma alteração para uma realidade diferente. Mas optou-se, aos 11 anos, pela mudança.

Salir. Fosse isto espanhol e significaria “partir”, “ir”, “sair”. Como é português, refere-se ao nome da aldeia para onde Albuquerque foi viver. Ainda que, na verdade, a aceção castelhana se adeque à circunstância. A adaptação “não foi fácil”, explica Gabriel. Saiu de um grande centro urbano para uma povoação pequena, a uns 25 minutos de carro do centro de Loulé.

“Depois do primeiro dia de escola, disse à minha mãe que não percebia nada do que me diziam, porque tinham um sotaque tão serrano que não os entendia”, relembra quem, a voltar dos treinos na cidade para casa, “ficava tonto” com as curvas e contracurvas da serra. Passado um ano em Salir, a família Albuquerque fixou-se em Loulé, na cidade. E lá ficou, sem “partir”, “ir” ou “sair”.

Aos 11 anos, Albuquerque trocou Lisboa por Loulé para continuar a ser treinado por João Pedro Monteiro

O campeão dos Jogos Mundiais continua a ser atleta da Associação de Pais e Amigos da Ginástica de Loulé (APAGL). Entrar no pavilhão onde treina é aceder a uma realidade de contrastes: Gabriel, olímpico, partilha metros quadrados com meninos em idades de aprendizagem; João Pedro, o chefe da operação que junta dezenas de jovens adultos, adolescentes e crianças, tanto dá instruções a um candidato a uma medalha nos Jogos de 2028 como explica regras básicas a quem sairá do pavilhão para ir rever a tabuada dos oito.

No pavilhão de escola decorrem vários treinos dentro do treino. Gabriel pega numa folha, uma cábula com as instruções para aquela sessão, e inicia o aquecimento, evidenciando, logo ali, uma flexibilidade que o assemelha a um boneco de borracha. J.P., que se multiplica dando instruções, não deixa esquecer que “esta é uma modalidade de risco: os pais, quando eles vêm para cá, têm de saber isso. Tem de haver regras, com momentos para tudo, para treinar, divertir e brincar”. O aparato não se assemelha aos espaços quase laboratoriais onde habitam muitos desportistas de elite. Há um certo caos ordenado que diferencia o ambiente de fim de dia de semana do ar assético e impessoal dos centros de estágio por esse mundo fora.

Albuquerque sente-se “confortável”. “Gosto muito do sítio onde treino, as condições são bastante boas, não tenho nada a queixar-me. Não é uns Estados Unidos, não é uma China, mas é um espaço cosy.” Alguma vez lhe passou pela cabeça que o alto rendimento seria incompatível com este ambiente de atividade extracurricular? “Nunca me passou pela cabeça sair.” Salir ficou para trás.

Bolha

“Ahhh... Desculpa, o que é que me tinhas perguntado?” Não é preciso falar muito tempo com Gabriel para o ver distrair-se com quem passa ali por perto, com um barulho, com um salto que está a suceder lá ao fundo. Os olhos pensantes, a cara de quem está ali connosco, mas no instante seguinte já ali não está, tudo desenha o retrato de um adolescente ativo na ação e na mente. Estes saltos cerebrais, que acompanham os físicos, foram diagnosticados quando ele era pequeno. Tinha défice de atenção. Também para isso, o elo que criou naquela feira, o Pokémon que o acompanharia na viagem, seria uma ajuda.

Diagnosticado com défice de atenção em criança, Gabriel sente-se “numa bolha” quando salta nos trampolins

Nos trampolins, Gabriel encontra “um foco”. Em “tudo o resto”, ele “dispersa”. Ali, a voar, “desliga”. Só importa ele, o corpo, o voo, as alturas, a chamada, as acrobacias, a sinfonia para a qual contribuem a máquina saltitante, as pernas, os braços, o cérebro, um concerto em Gabriel maior orquestrado por Albuquerque. “Quando subo para lá, é como se tivesse uma bolha a envolver-me, nada entra, nada sai. Só conta o que está dentro da bolha. Fico 100% focado, com um hiperfoco.”

Qual Astérix que bebe a poção e ganha poderes, voar torna o rapaz em super-herói, rosto pronto para a competição. Talvez no futuro, quando não lutar por medalhas, salte por aplausos, com uma carreira como acrobata no Cirque du Soleil, como fizeram outros ex-olímpicos.

Rap e “o Albuquerque”

Durante Paris 2024, Gabriel sentava-se nos autocarros, auscultadores nos ouvidos, escrevendo poemas e letras de canções, ao estilo de Eminem em ‘8 Mile’. A escrita não parou. No futuro, gostaria de “lançar algo”, de ir para estúdio, mas não será já. “Escrevo sobre coisas abstratas. Tento falar sobre o que se passa na mente.” XTinto e Johnny Virtus são as maiores inspirações.

“Dá-me uns anos e chego ao nível destes gajos.” A despedida dos Jogos de 2024 teve contornos de promessa. Menos de duas voltas ao sol depois, o voador já se sente no patamar daqueles tipos. “Sempre tive o objetivo de ser campeão olímpico.” Los Angeles 2028 é a grande meta.

O ginasta está a trabalhar no “Albuquerque”, um movimento inédito em competição que levaria o seu nome

Há uma permanente ambição em Gabi. “Via alguém bem mais velho a fazer um salto, virava-me para o J.P. e dizia: ‘Quero fazer aquilo’”, recorda o ginasta. Aos 6 anos, quando começou a fazer duplos mortais, alguém por perto aterrou um duplo com pirueta e imediatamente o feito que acabara de lograr se transformava em novo horizonte a perseguir.

Esta criatividade chegou a outro patamar. Albuquerque pretende seguir os passos de Filipa Martins, que cunhou “o Martins”, um movimento com o nome da portuguesa, porque foi ela a primeira a fazê-lo em competição. Há todo um secretismo à volta da invenção, em torno “do Albuquerque”, para preservar a intenção de ser o pioneiro. Para já, a manobra fica guardada, como fórmula mágica, no ginásio de Loulé.

Filipa Martins usou “o Martins” para obter um resultado histórico em Paris 2024. Em LA 2028, irá outra criação portuguesa desbravar o inédito? A competição de trampolins será na casa dos LA Lakers, recinto onde Kobe Bryant tantas vezes brilhou. Talvez, citando Prof Jam e João Maia Ferreira em ‘24’, canção cheia de referências a Bryant, seja lá que Gabriel fique “no topo do game”.

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