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Nairo Quintana, o eldorado que foi perdendo brilho

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Nairo Quintana, o eldorado que foi perdendo brilho

Esta vai ser a última temporada do ciclista colombiano como profissional. Sairá sem a desejada conquista na Volta a França, mas com um legado inapagável de um dos melhores trepadores da história.

Reza a história que a lenda do eldorado teve origem na cultura muísca, povo que vivia na região dos Andes onde nasceu Nairo Quintana. E este ciclista colombiano chegou a parecer mesmo o eldorado do ciclismo sul-americano – para muitos, até mundial. Mas ele foi perdendo o brilho e, há quatro dias, anunciou que vai deixar o ciclismo profissional no final desta temporada. Antes da reforma vamos a contas: Quintana deve algo ao ciclismo ou o ciclismo é que deve algo ao Quintana? A resposta tem várias camadas.

Quintana sai do ciclismo profissional aos 36 anos como um corredor muito titulado - são factos, não opiniões. Cinquenta e uma vitórias, um Giro e uma Vuelta não é palmarés de vão de escada. Mas também sai do ciclismo como um derrotado quando o tema é a Volta a França - e também este é um facto, mesmo que três pódios não sejam desdenháveis.

Qual das dimensões conta mais quando se fala de Quintana? A esta pergunta é que os factos já não respondem - depende do que mais valorizamos.

Mais ou menos evidente é que o Quintana vai acabar com menos brilho do que se chegou a pensar. E é também relativamente claro que foi um dos grandes prejudicados com algumas mudanças no ciclismo mundial.

As pedaladas mais duras

Nairo Quintana começou a correr - e a escalar - na Colômbia quando pedalava longas distâncias para ir para a escola. Fazia todos os dias 15 quilómetros, preferindo guardar o dinheiro do autocarro para outras necessidades. Pelo caminho, por vezes apanhava grupos de ciclistas com bons equipamentos e bicicletas reluzentes. No dia em que os bateu e chegou primeiro do que eles ao cume da montanha, Quintana chegou a casa e disse que queria ser ciclista.

Depois de impressionar em algumas corridas na Europa, foi contratado pela Movistar com 22 anos e passou rapidamente a um projeto de estrela. Em 2013, no seu primeiro Tour, ia para apoiar Alejandro Valverde. Acabou a plantar a ideia de que, no futuro, seria o espanhol a apoiá-lo a ele. Ficou cedo claro nessa corrida que Quintana era o único capaz de acompanhar Chris Froome, mas a Movistar inibiu-lhe os planos para o colombiano ser útil a Valverde. Só mais tarde na corrida, com o espanhol apanhado num corte, a equipa permitiu a Quintana seguir estrada fora e selar o segundo lugar na prova - venceu as camisolas da Montanha e da Juventude. O que ali estava era uma estrela e confirmou-o no ano seguinte.

Polémica em Itália

No Giro, Quintana começou aos "soluços" - o que no léxico deste colombiano significa ter de correr um contra-relógio. Chegou a estar a mais de três minutos da camisola rosa, mas a etapa 16 tinha algo reservado para Quintana.

A meteorologia no Stelvio levou a Organização a anunciar a neutralização da corrida, mas Quintana decidiu atacar, enquanto grande parte dos demais decidiu parar. Afinal, a verdade no meio do caos é que a corrida estava aberta e Quintana venceu a prova italiana. Para uns, foi apenas um ciclista precavido e atento. Para outros, ficou como o "chico-esperto" que acabou a ser beneficiado por uma falha de comunicação da organização da corrida.

Quem defendia a segunda tese acabou por ter de mudar de ideias. Quintana fez a sua carreira com uma postura de fair-play e avesso a grandes atritos. A calma do colombiano alargou-se também à forma de correr. Apesar de ser um trepador e de ter algum poder de explosão, Quintana foi acusado várias vezes de ser pouco audaz na bicicleta.

Uma vez mais, como em tanta coisa com Quintana, há duas forma de ver o tema. Por um lado, o colombiano manteve-se várias vezes quieto nos duelos com Froome e a Sky, esperando que a montanha resolvesse por ele o que ele não se atrevia a começar. Por outro, a falta de ousadia poderia ser apenas o assumir de impotência perante um adversário tão forte e, sobretudo, tão bem organizado - e Quintana disse mais do que uma vez que só atacaria se tivesse pernas para isso.

Os duelos com Froome

Entre Quintana e Froome, tudo era diferente. Um, educado numa escola privada, com um corpo desenvolvido ao pormenor para se tornar uma máquina desportiva. Outro, vindo das montanhas dos Andes, cresceu com muito pouco e subiu a pulso. Um, com quase 190 centímetros de ser humano e um estilo metódico e trabalhado. Outro, que não chegava sequer a um metro e setenta ou aos 60 quilos, era um projeto mais cru à espera de conquistar a Europa. Um, com crescimento moldado ao pormenor e com estágios permanentes em zonas elevadas,. Outro, coma força de quem cresceu em altitude e não precisava disso para ter uma vantagem marginal logo à partida. Um, como chefe de uma equipa bem oleada. Outro, frequentemente deixado ao abandono numa tantas vezes caótica Movistar. Um, com a corrida pensada ao detalhe. Outro, exposto ao improviso de uma equipa que demasiadas vezes parecia pensar depois da corrida começar. Entre método e intuição ganhou mais vezes o método.

No duelo com o britânico houve novo segundo lugar em 2015 - outra vez atrás de Froome e outra vez batendo Contador. E novamente com um problema habitual: o contra-relógio, sempre ele, e a propensão para ficar em cortes com o vento lateral. E em 2016 foi terceiro: novamente "engolido" no contra-relógio e novamente impotente para atacar na montanha.

Mais um ano, mais do mesmo. Em 2017, no Giro, parecia ter a prova "no bolso", mas foi destruído por Tom Dumoulin num contra-relógio. Todos os anos acontecia a mesma coisa: Quintana perdia tempo na luta contra o cronómetro e, impotente, não atacava muito para recuperar as perdas - seja por inércia ou falta de capacidade.

A queda

Os resultados foram estagnando, problemas com Mikel Landa dentro da Movistar também não contribuíram, uma lesão grave após ser atropelado adicionou uma camada de problemas e, em geral, Quintana nunca se adaptou ao facto de muitos dos principais rivais serem fortes no contra-relógio. E, para piorar, a maior preparação dos trepadores para essa vertente seduziu as organizações a darem peso ao "crono", prejudicando ciclistas como Quintana, Bardet, Pinot ou Landa.

Tudo isto junto fez Quintana descer alguns patamares de relevância e passar a ser um homem de top-10 em "grandes voltas" - e não de top-3. E muito menos de top-1, como chegou a ser.

Quando foi contratado pela Arkea, em 2020, Quintana queria ter uma equipa montada em seu redor. O problema é que o colombiano já não era o mesmo que apareceu em 2013 e também não teria, em tese, a possibilidade de estar em provas como o Giro ou a Vuelta, dado que a equipa francesa precisaria de convite para lá estar. O desempenho pelos franceses não foi mau, já que teve algumas vitórias relevantes, mas em "grandes voltas" Quintana já não era o mesmo. Em 2020, no Tour, foi engolido numa etapa montanhosa, algo que não parecia possível uns anos antes. E já nem era, nesta fase, o melhor colombiano - esse já era Egan Bernal.

Competindo durante anos contra a armada da Sky, Quintana foi somando desaires uns após os outros, e os adeptos de ciclismo disparavam contra todos: contra a Sky, que tornava as corridas aborrecidas, e contra Quintana, que pouco fazia contra esse marasmo.

Doping mais ou menos

Em 2022, Quintana esteve pela primeira vez envolvido num problema com o doping - embora num caso muito particular. O uso de tramadol não era violação das normas antidoping, já que a substância não era catalogada como dopante, Mas a União Ciclista Internacional tinha uma regra específica a respeito do tramadol, pelo que Quintana, apesar de não ter tido um castigo por doping, teve um castigo pela via desportiva.

"As infrações à proibição de uso de tramadol em competição são infrações à luz das regras médicas da UCI e não constituem violações das regras antidoping. Por se tratar de uma primeira infração, Nairo Quintana não é declarado inelegível e, portanto, pode participar em competições", referiu na altura o organismo, justificando a decisão de permitir a Quintana continuar a temporada.

O ciclista foi, ainda assim, desclassificado do Tour, perdendo o sexto lugar conquistado ao serviço da Arkea, e esteve um ano sem equipa - e sem ciclismo. No regresso à "sua" Movistar, já ninguém acreditava que ele seria um campeão no Tour. Seria útil para ajudar outros mais capazes e até como mentor de jovens talentosos. E isso não é coisa pouca. Até ao final de 2026, Quintana vai estar pela última vez em cada corrida em que participar. "Cada corrida que fizer durante este ano será uma grande festa, um último baile em cada competição" disse o colombiano no anúncio da reforma.

Aconteça o que acontecer durante esta época, é mais ou menos evidente que Quintana não falhou na promessa de ser o eldorado do ciclismo sul-americano. Talvez só tenha perdido o brilho um pouco cedo.

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