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O quinto momento

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O quinto momento

O analista de futebol explica como o desporto-rei está a mudar na Premier League. E como o segredo pode estar nas bolas paradas

No futebol, moderno e antiquado sempre foram conceitos que se confundiram. Há uns anos, as marcações individuais caíram em desuso. Colocar lançamentos laterais diretamente na área era coisa para as equipas com poucos argumentos, tal como a dependência de pontapés de canto. O jogo está em constante evolução, mas sempre recuperando e adaptando ideias anteriormente rejeitadas. Nunca as bolas paradas foram tão importantes, estrategicamente e pelo peso que representam nas decisões de resultados.

“O futebol tem cinco momentos. Antes só tinha quatro, mas eu fiz crer a todo o mundo que tem cinco”, dizia Jorge Jesus no final de 2020. Podemos atribuir ao treinador, com esta e outras declarações ao longo do tempo, o mérito de ter contribuído para novos horizontes de linguagem e de treino. O que não se treina não se reflete em campo, pelo menos em escala de frequência. Isso não significa que o quinto momento não existisse no jogo, até porque as regras e os objetivos essenciais não se alteraram em décadas. Agora, as equipas de topo apostam na segmentação e procuram especialistas em bolas paradas para descobrir soluções e maximizar o rendimento. O cruzamento de influências com outras modalidades, como o basquetebol e o futebol americano, tornou-se constante. Falar em bloqueios, trajetórias e indicadores de probabilidades entrou no quotidiano da análise.

A seleção nacional partilha Austin McPhee, responsável pelas bolas paradas, com o Aston Villa. Nicolas Jover, cérebro do Arsenal, tem um mural dedicado nos arredores do estádio Emirates e o cântico “set piece again” virou tradição nos encontros dos gunners. É a romantização de uma função anteriormente ignorada ou desconhecida dos adeptos. O clube deve-lhe muito, de facto. Segundo informações do “The Athletic”, o contrato do francês Nicolas Jover inclui bónus por cada golo marcado através de cantos, livres ou lançamentos laterais. Na Premier League, o investimento cresceu até patamares impensáveis e há transferências recorde, batendo cláusulas de rescisão. É o caso de Bernardo Cueva, que se mudou do Brentford para o Chelsea. Gianni Vio, antigo técnico do Tottenham, destacou-se por estudar o tema bem antes de se popularizar. Tinha milhares de variações analisadas. Descreve o quinto momento como “um jogo dentro do jogo”, expondo um raciocínio com tanto de simples como de complexo. Numa altura em que há um nivelamento tático e físico entre as equipas, não dá para desperdiçar uma arma significativa na decisão dos resultados.

Historicamente, o termo kick and rush sempre foi associado à forma como os britânicos interpretavam o futebol. Chutar a bola, correr muito e lutar por ela. Mais transpiração do que inspiração

Enquanto técnico do Bayern, Nagelsmann defendeu que o futebol e a NFL deveriam aprender um com o outro. O atual selecionador da Alemanha, assumindo a veia experimentalista, chegou até a sugerir que houvesse comunicação com o relvado através de auriculares. No fundo, sonhando com a ideia de um jogo em que os treinadores estão no comando e os executantes perdem autonomia. Se houvesse um capítulo futebolístico de “Black Mirror”, a série em que se projetam os perigos tecnológicos, talvez seguisse este caminho. De qualquer modo, vai surgindo uma nova realidade. No próximo Mundial, devido às condições meteorológicas e a compromissos publicitários, aplicam-se obrigatoriamente intervalos para hidratação (justificando, lá está, os compromissos publicitários) a meio de cada parte. Qualquer momento de ascendente ou surpresa tática anula-se rapidamente, além do desconforto a que as equipas ficarão expostas. No recente particular entre Estados Unidos e Bélgica, já nas devidas posições, esperaram cerca de um minuto até o jogo recomeçar.

Quando o espaço de intervenção dos treinadores aumenta, retira-se peso aos jogadores. Uma de muitas razões para que o risco na tomada de decisão, por vezes, não seja bem-vindo, já que a cabeça está focada na palestra inicial ou no ajuste tático. A dinâmica do futebol atual trouxe uma notória falta de continuidade — natural, mas também provocada. Fabian Hürzeler, técnico do Brighton, queixou-se de que o Arsenal demora o tempo que quer nas reposições de bola. De resto, em média, os jogos desta época de Premier League ficam parados 10 minutos e 42 segundos, falando apenas de lançamentos laterais. Ainda mais problemático é o desconto de tempo forçado pela queda do guarda-redes, habitualmente simulando uma lesão, permitindo à equipa juntar-se na linha lateral a ouvir o treinador. Estes esquemas pensados e legitimados pelas regras em vigor, mesmo desrespeitando princípios básicos de fair-play, obrigaram as instituições a acelerar o processo de revisão de leis. O Mundial deste ano vai servir como teste de viabilidade.

“Jogar com o relógio” banalizou-se. Quando passa os limites, torna-se antijogo descarado e consentido pela passividade do árbitro. Não colocando todas as equipas no mesmo saco, a linha entre comportamentos dos mais fortes e dos mais fracos passou a ser ténue. Nesse sentido, a FIFA e o IFAB (International Football Association Board) já confirmaram uma série de medidas para tentar aumentar o tempo útil. Haverá apenas cinco segundos — após autorização — para repor a bola em jogo. Não cumprindo, o lançamento passa para o adversário ou, tratando-se de um pontapé de baliza, haverá canto. No caso das substituições, o escolhido para sair tem dez segundos para abandonar o relvado e dar o lugar. Desrespeitando a contagem, o suplente a entrar é obrigado a aguardar um minuto e deixa a equipa temporariamente com dez elementos. Para desincentivar a simulação de lesões, quem receber assistência médica ficará um minuto de fora, a menos que a falta tenha sido punida com cartão vermelho.

Enquanto se procura ganhar tempo, o VAR reforça poderes e o Mundial vai trazer uma paragem obrigatória em cada parte, quebrando inevitavelmente o ritmo do jogo. Não encontra vida própria, não tem forma de se descontrolar, parecendo mais uma sequência de jogadas estruturadas. À imagem de outros desportos, desenha-se na cabeça dos treinadores. A crise de identidade não se explica apenas por questões táticas ou individuais, também pela dificuldade de acertar calendários, atualizar formatos competitivos e regras sem destruir a essência e agarrar as novas gerações de adeptos. Por imposição, chegaremos ao futebol em velocidade 2.0, diminuindo a margem para pensar. Está a contar. Não haverá maior sintoma da incapacidade de reflexão conjunta.

Chuta, corre, bloqueia

Historicamente, o termo kick and rush sempre foi associado à forma como os britânicos interpretavam o futebol. Chutar a bola, correr muito e lutar por ela. Mais transpiração do que inspiração, mais coração do que cabeça. Não tinham a ginga brasileira, o toco y me voy argentino, o ataque total dos neerlandeses, a fiabilidade alemã ou o catenaccio italiano. Passaram pela idade das trevas na segunda metade da década de 80, sentindo as consequências do que aconteceu no Heysel Park. A final da Taça dos Campeões Europeus de 1985 ficou marcada por confrontos entre adeptos do Liverpool e da Juventus, que provocaram 39 mortos e centenas de feridos. Com a responsabilidade atribuída aos hooligans ingleses, os clubes do país foram banidos das provas internacionais. A campanha antifutebol por parte do Governo de Margaret Thatcher usava todos os argumentos para apertar medidas e tentar diminuir a credibilidade do desporto. Um editorial do “Sunday Times” escrevia: “Football is a slum sport played in slum stadiums and increasingly watched by slum people.” Diretamente no coração das classes populares.

Não há nenhum momento tão vantajoso ofensivamente como os pontapés de canto. O critério largo dos árbitros, ignorando faltas evidentes, traduz-se num cenário de luta. Compensa ter os mais fortes

O desastre de Hillsborough acabou por acentuar a guerra aberta entre a “Dama de Ferro” e os adeptos de futebol, sobretudo os do Liverpool. Inicialmente, a responsabilidade pelo que aconteceu em Sheffield — uma bancada sobrelotada provocou a morte imediata de 94 pessoas — foi atribuída aos excessos dos reds. Servia a narrativa dominante. Mais tarde, o “Taylor Report” viria a confirmar negligência policial, alertando também para a necessidade de reformulação dos estádios. Pelo meio, a decisão do campeonato de 1989 lançava um raio de luz em período de escuridão. O Arsenal foi a Anfield roubar o título nos descontos, com o 0-2 marcado por Michael Thomas. Além do desfecho memorável e surpreendente, contou com uma audiência de milhões para um espetáculo televisivo imperdível. Em 1990, no Mundial italiano, o receio levou as autoridades a colocar os ingleses em Cagliari, com o objetivo de os isolar. A fama não iria desaparecer tão cedo. Mas essa competição, sob a liderança de Paul “Gazza” Gascoigne, representaria definitivamente uma nova conexão entre as pessoas e o futebol. São os dois marcos do renascimento do beautiful game.

Estes anos originaram a nova Premier League, lançada na época 92/93. Tornou-se uma máquina de valorização dos clubes, alcançando um mercado global. Não perdendo o estilo old school, sobretudo pensando no domínio do Man. United com Alex Ferguson, ganhou outros registos de treino e de jogo com o Arsenal de Arsène Wenger e, mais tarde, com o Chelsea de José Mourinho. A chegada do investimento estrangeiro (que daria muito pano para mangas) permitiu construir uma autêntica superliga, sugando quase tudo à volta. Guardiola, Klopp, treinadores e jogadores portugueses (ou com ligações ao futebol nacional) elevaram o patamar de interesse. Nos últimos 30 anos, a Premier League veio associada ao entretenimento e à competitividade.

Esta época, no entanto, vai contrariando todo o imaginário. A discussão entre treinadores, jogadores, adeptos e críticos anda à volta do nível de exibição das equipas e da qualidade dos espetáculos proporcionados. Arne Slot, ainda campeão em título, admitiu que “a maior parte dos jogos não são divertidos de ver”. Anthony Gordon, referência do Newcastle, destacou a predominância do físico sobre a técnica, a importância dos duelos e das bolas paradas. “Parece um jogo de basquetebol, com transições constantes”, salientou. A média de golos não é tão alta como em 2023/2024 (3,27), mas o atual registo de 2,77 não quebra a normalidade, ainda que o protagonismo dos atacantes vá diminuindo. Em 2025/2026, apenas três alcançaram, por agora, a fasquia dos 15 golos (Haaland, Igor Thiago, Semenyo).

Algumas das críticas feitas ao futebol inglês não são exclusivas da Premier League, entenda-se. Esse raciocínio não se aplica em relação às bolas paradas. Tornaram-se uma selvajaria. Crescemos com a ideia de que qualquer sopro no guarda-redes dava falta. Agora, não existe qualquer proteção. Os árbitros perderam o controlo e a coerência na análise dos lances, permitindo bloqueios e agarrões ostensivos. É neste espaço cinzento de interpretação que as equipas se vão movimentando. O Arsenal, líder destacado, leva 16 golos na sequência de pontapés de canto e tem tudo para superar o recorde, deixando para trás o Oldham e o West Bromwich. Outros tempos. Com mais ou menos glamour, a variabilidade e a eficácia dos gunners impressionam.

As tendências espalham-se rapidamente, os treinadores consideram todos os detalhes para se superiorizarem aos restantes. Outros casos mostram-nos como a visão de negócio pode ferir a valorização desportiva

Tudo começa nos executantes. Saka e Declan Rice levantam a bola com extrema precisão. Gabriel Magalhães é a referência, embora Saliba também assuste os adversários. O resto vem do laboratório de Nicolas Jover, mas sem os ingredientes anteriores não daria para passar da teoria à prática. Nos jogos mais equilibrados, o fator bola parada resolve imensas vezes a favor dos londrinos. Ao longo dos anos, Arteta caminhou no sentido do pragmatismo e ganhou uma capa “antirrisco”. Desenvolveu a organização defensiva mais completa da atualidade, pelo trabalho na pressão e com o bloco baixo. Procurou aumentar a profundidade do plantel e robustecer os diferentes sectores com peças de alto valor tático e físico. O jogo dos gunners tornou-se mais mecanizado, sem tanto espaço de improviso, nem sequer nos pés de Saka e Ødegaard. É justo relembrar que, antes de Wenger, George Graham liderava uma equipa conhecida como “boring Arsenal”. Não sofrer e marcar um golo chegava. A identidade dos clubes não tem carácter imutável.

A fama de bully do recreio contrasta com a ideia de ingenuidade competitiva que marcou os últimos anos. Tenta quebrar um jejum que dura desde 2003/2004, quando os “Invincibles” de Thierry Henry e companhia não perderam qualquer jogo na Premier League. Alcançando o objetivo, talvez Arteta consiga soltar-se noutra direção. Por agora, prevalece a lógica de eficiência. Nesse campo, e a nível de maturidade do projeto, vai conseguindo diferenciar-se dos rivais. Mesmo numa liga com diversidade de estilos, as melhores equipas definem sempre algumas tendências a seguir e provocam reações. Mas ninguém joga sozinho. Os clássicos do futebol inglês têm sido menos ricos em conteúdo (recorrendo a um eufemismo), principalmente pela necessidade de controlo e pela aversão ao risco. As oportunidades de bola corrida escasseiam.

Não há nenhum momento tão vantajoso ofensivamente como os pontapés de canto. O critério largo dos árbitros, ignorando faltas evidentes, traduz-se num cenário de luta. Compensa ter os mais fortes. Muitas equipas rejeitam a elaboração de laboratório e limitam-se a cruzar para a zona da pequena área. Essa ironia reflete-se no rendimento do Liverpool, que despediu o treinador de bolas paradas no final de 2025. Desde então, passou a marcar mais. Nos tempos de Klopp, foram os reds a introduzir uma nova perspetiva, integrando Thomas Gronnemark como especialista em lançamentos laterais. Viria a notabilizar-se ao serviço do Brentford e, agora, trabalha como consultor do Arsenal. As abelhas vieram do futuro. Já o fazem há anos. Em 2025/2026, a média de lançamentos longos para a área situa-se nos 3,92 por jogo, contra os 1,52 da época passada. Um salto considerável. O Stoke City, com o especialista Rory Delap, só pode ficar orgulhoso.

A Premier League atravessa um período de transição. Depois da saída de Kevin De Bruyne, Salah vai deixar o campeonato no final da temporada. Partem os dois maiores astros da última década. Klopp acusou o desgaste e meteu pausa na carreira. Guardiola vai construindo uma nova cara do Man. City, tentando adaptar-se, mas não se sabe o futuro próximo. Proporcionaram uma rivalidade quente, bonita, marcada pela admiração mútua. Melhoraram o jogo e fizeram o tempo voar. Deixando o efeito da nostalgia à parte, percebe-se que não há comparação. Sem que a competência dos profissionais tenha piorado, antes pelo contrário, as prioridades mudaram. Os níveis de investimento, bem como a pressão interna e externa, obrigam a alcançar resultados. As tendências espalham-se rapidamente, os treinadores consideram todos os detalhes para se superiorizarem aos restantes. Outros casos mostram-nos como a visão de negócio pode ferir a valorização desportiva. Veja-se o rumo do Chelsea, abandonando o que procurou no século XXI. Quebrando a ordem e o rigor, há o talento de Bruno Fernandes e Cherki, que definem as próprias regras e não param de surpreender. No futebol, nada dura para sempre. Mas, se calhar, a superliga não será nada do que imaginávamos...

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