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Lajes: investigação deteta chumbo em esqueletos, reforçando suspeitas de contaminação e ligação a surto de cancros

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Lajes: investigação deteta chumbo em esqueletos, reforçando suspeitas de contaminação e ligação a surto de cancros

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Estudo da Universidade de Coimbra deteta metais pesados em humanos que viviam junto às zonas poluídas pela base militar das Lajes. Nova pista pode explicar número de doenças oncológicas, mas é preciso realizar mais estudos. Enfermeiros denunciam travões a uma investigação que tentaram fazer à incidência de cancros na Praia da Vitória

É um avanço científico que identifica nos habitantes que ali residiram os mesmos elementos tóxicos cancerígenos encontrados nos solos da Base das Lajes. Um estudo realizado na Universidade de Coimbra, no âmbito de um doutoramento em Antropologia Forense, revela que um conjunto de esqueletos de habitantes da Praia da Vitória, na ilha açoriana da Terceira — onde se situa a Base Aérea nº 4 —, apresenta concentrações de chumbo e de outros metais pesados muito superiores às dos esqueletos de Angra do Heroísmo, que fica a 23 quilómetros das zonas contaminadas pelos derrames de combustíveis realizados ao longo de décadas pelos militares norte-americanos. A tese, que será defendida este verão, pode abrir caminho a mais estudos que expliquem a perceção popular sobre a prevalência de cancros naquela zona, como relataram profissionais de saúde e membros de famílias afetadas ao Expresso.

A tese de doutoramento, realizada por Félix Rodrigues, de 32 anos, natural da Terceira, detetou concentrações “significativamente superiores de dez metais” nas ossadas de indivíduos que residiram na Praia da Vitória em comparação com os de Angra do Heroísmo. Os metais mais relevantes eram o cádmio, o crómio e o molibdénio, como “provável resultado de exposição ambien­tal durante a vida, uma vez que são contaminantes conhecidos nos solos e aquíferos da zona”, escreveu o grupo de cientistas ligados ao projeto — que é financiado pelo próprio Governo Regional dos Açores — num artigo publicado na revista científica “Springer Nature” em março de 2025.

O investigador Félix Rodrigues
O investigador Félix Rodrigues
Rui Duarte Silva

Quanto ao chumbo, só foi detetado em volume relevante quando a amostra de esqueletos cresceu de 64 para 97, e essas conclusões constarão da tese de doutoramento, explica Félix Rodrigues ao Expresso, numa conversa no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. “As concentrações de chumbo nos esqueletos variam entre 4 e 67 ppm (parte por milhão) e os testes estatísticos indicam que, no grupo da Praia da Vitória, são significativamente superiores: em média são de 12 ppm em Angra e de 18 na Praia da Vitória”, destaca o investigador, ressalvando: “É difícil interpretar estes resultados, por não haver estudos semelhantes.” Por isso, ainda considera os resultados “provisórios”. Por essa razão, será preciso perceber se este nível de concentração e exposição a metais pesados provoca cancro, mas “a literatura é abundante”, alega o antropólogo.

Este era, no entanto, um elo que faltava: há oito anos o Expresso fez uma série de reportagens na Terceira (uma delas ganhou o Prémio Gazeta) em que revelou relatórios, mantidos secretos por entidades norte-americanas e portuguesas, identificando a contaminação por metais pesados em terrenos e aquíferos da Praia da Vitória. Agora, a tese de Félix Rodrigues indicia uma ligação entre as duas contaminações, evidenciando que os elementos tóxicos encontrados na água e nos solos também estão presentes nos ossos dos humanos.

O grande problema, alegam várias fontes ao Expresso, é se um dia houver uma relação comprovada de causa/efeito entre a contaminação dos solos e as doenças oncológicas, porque haverá centenas de pessoas a pedir indemnizações ao Estado americano ou ao português.

Investigador propõe um estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças oncológicas junto à Base

“É um dado novo, mas não há certezas. São resultados que apontam para a necessidade de continuar a seguir esta via”, salvaguarda o cientista, cujo pai, com o mesmo nome, tem sido um académico e ativista interessado no tema. “Será que a população que vive em Praia da Vitoria tem metais pesados no corpo?”, questiona-se Félix Rodrigues. São precisos mais estudos: “Se a presença dos metais pesados vem da contaminação, é uma discussão profunda que se tem de fazer a longo prazo. Mesmo que os corpos dos falecidos nos possam dar algumas informações, eles não falam. Mas as pessoas vivas falam. Essa era uma investigação que poderia ser feita”, propõe, sugerindo um estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças oncológicas nas imediações da Base das Lajes.

Uma investigação aos cancros travada

Mário Terra foi tradutor na Base das Lajes durante 38 anos e morreu em 2018, aos 60 anos, com uma cirrose hepática, um cancro no pâncreas e uma massa num rim. A médica que o acompanhou no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, disse à viúva que desconfiava de ter havido contacto com ambientes tóxicos ou com metais pesados, mas depois essa dedução não foi confirmada por exames posteriores, pelo menos que viessem a ser do conhecimento da família. Mais uma vez, não se sabe se estas patologias estão relacionadas com as contaminações dos combustíveis militares. Por coincidência, a sua filha, Alexandra Terra, hoje com 31 anos — e enfermeira no Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira —, estava nessa época na faculdade a fazer uma investigação sobre a incidência de cancros na Praia da Vitória. Mário não tinha sido apenas funcionário do destacamento norte-americano: crescera na Estrada 25 de Abril, uma das zonas onde é fácil encontrar famílias devastadas por doenças oncológicas. Chamam-lhe a “estrada da morte”.

Enfermeira Alexandra Terra
Enfermeira Alexandra Terra

Alexandra Terra conta que uma tia, de 53 anos, morreu de cancro do pulmão na mesma altura do pai e que depois outra tia morreu aos 47 anos da mesma doença. Apenas uma fumava, mas ambas trabalhavam na base, e disseram-lhe “que não era do tabaco, mas de causas ambientais”, onde também releva o problema do amianto (que já foi alvo de obras e intervenções incompletas).

Quando era estudante, a enfermeira ainda fez entrevistas a habitantes do Juncal — a zona contaminada que fica entre a entrada da Base das Lajes e os enormes depósitos de combustível da South Tank Farm —, mas o projeto não avançou: “A incidência era relevante. Casa sim, casa não, havia pessoas com doen­ças oncológicas”, recorda. “É um grande problema de saúde pública”, considera, mas a Universidade dos Açores “sugeriu-nos ou obrigou-nos a mudar o tema da investigação para o impacto das reformas antecipadas nos trabalhadores da Base das Lajes”, que saíram do ativo na fase da grande redução de pessoal promovida pelos EUA em meados da década de 2010.

O coordenador desse estudo, que na época falou para a reportagem do Expresso, era o enfermeiro Norberto Messias, que deixou o ensino por questões de saúde. Natural de Porto Martins, concelho da Praia da Vitória, já foi operado a um cancro no pâncreas e está agora a ser tratado, em Lisboa, a outro cancro no fígado. “A universidade não quis que se concluísse o estudo porque tinha uma parceria com uma universidade no Massachusetts e estávamos a pôr em causa os americanos”, conta ao Expresso, queixando-se de “grande dificuldade no acesso a dados”. Segundo o antigo investigador, “não foi autorizado o acesso às certidões de óbito das pessoas da Praia da Vitória para analisar as causas de morte e a Segurança Social não disponibilizou o número de pessoas com mais de 60% de deficiência atribuída por terem cancro”.

Apesar de várias fontes apontarem para uma espécie de “silenciamento” do problema nos últimos anos, o Governo Regional está a financiar o projeto de investigação de Félix Rodrigues que encontrou chumbo nos esqueletos. Em 2021, Artur Lima, o vice-presidente do Governo Regional com a pasta da Base das Lajes, foi citado no “Diário Insular” dizendo que a situação ambiental decorrente da contaminação dos solos pela atividade norte-americana “piorou consideravelmente”. E alertou para a necessidade de haver “avanços significativos” no processo. Apesar das tentativas do Expresso, não foi possível falar com Artur Lima até ao fecho desta edição.

Chumbo, autismo e amianto

Quem não encontrou pessoas interessadas em fazer parte de uma associação foi Maria Cerqueira Gomes, também enfermeira nas Urgências do Hospital de Angra do Heroísmo e que integrou as equipas de Norberto Messias. “Fiquei sozinha”, desabafa ao Expresso, numa esplanada junto à Marina da Praia da Vitória. Em 2019 ainda criou a associação Ajudate — Associação de Jovens Unidos pela Descontaminação da Terceira, mas não teve adesão. “Alguns ofereceram-se, mas tinham medo de represálias, porque muitos pais trabalham na Câmara ou na base.” Ela própria diz que foi ameaçada, de forma velada, de que iria ter dificuldade em arranjar emprego.

Esta enfermeira, que cresceu na Estrada 25 de Abril, desfia oito casos de cancro na família, incluindo os pais, avós e tias. Tanto Maria como Alexandra descrevem casos de doen­ças oncológicas recentes de amigos, colegas do hospital (todos da zona da Praia da Vitória) e de trabalhadores da base. Maria Cerqueira Gomes acrescenta ainda suspeitas de prevalência de autismo naquela zona (chegou a escrever um artigo no “Diário Insular” sobre o tema) por alegada contaminação das grávidas com chumbo, mas também não há dados ou estudos que comprovem ou contrariem a tese.

O Expresso solicitou dados sobre os cancros na Praia da Vitória ao Centro Oncológico dos Açores, mas as questões foram remetidas para a Secretaria Regional da Saúde e não houve respostas até ao fecho da edição. Há oito anos, o Expresso publicou dados de 2011 revelando que o concelho tem 8,52% da população do arquipélago e 9,02% dos casos de cancro. Se a divergência fosse grande, a percentagem de casos seria muito superior à percentagem da população. “Não há nenhuma evidência científica dessa divergência até 2011 e o mesmo se passa com as projeções até 2014”, disse então ao Expresso Raul Rego, nessa época diretor do Centro Oncológico.

Enfermeira Maria Cerqueira Gomes
Enfermeira Maria Cerqueira Gomes

Outro problema é a saúde dos funcionários da Base das Lajes. O Expresso falou com vários trabalhadores atuais e reformados que referiram a falta de um programa preventivo de saúde por parte do empregador, a Força Aérea norte-americana. Os funcionários são apenas submetidos a um audiograma anual e só algumas categorias, como os bombeiros, fazem radiografias e análises anuais por estarem mais expostos a elementos tóxicos. Todos relatam a existência de numerosos casos de cancro e comentam que muitos dos funcionários que pediram a reforma antecipada durante o downsizing morreram de doenças oncológicas pouco depois de se aposentarem. No entanto, todos convergem na ideia de que continua a ser “especulação” ligar essas mortes à contaminação por hidrocarbonetos.

O único que aceita dar a cara é João Ormonde (os outros alegam “medo de represálias”), que presidiu à comissão de trabalhadores durante dez anos e está reformado há uma década. “Preocupa-me muito mais a contaminação por amianto do que os hidrocarbonetos. É de longe mais perigoso, porque a exposição direta causa cancro no pulmão e na pleura”, diz ao Expresso no quintal da sua casa em Angra do Heroísmo, até porque “ainda não foi todo retirado”. E algum foi depositado clandestinamente por um empreiteiro a norte da pista, recorda. Quanto à relação entre os cancros e a contaminação por hidrocarbonetos, argumenta que tem sido tudo “especulativo” e espera pela realização de estudos que o comprovem. Mas agora foi dado mais um passo.

P&R

A zona da Base das Lajes está contaminada?

Sim. Estudos confidenciais realizados desde 2004, mas só divulgados em 2018, identificaram a presença de metais pesados nos solos, com “risco carcinogénico” seis vezes superiores ao máximo tolerável para os trabalhadores da construção na Tank Farm, escreveu o Expresso numa reportagem à época. Agora, o Ministério da Defesa Nacional responde que, “apesar de já há muito terem sido desativados depósitos e pipelines de combustível mais antigos, da responsabilidade norte-americana, constatou-se terem existido ruturas e derrames no passado, originando contaminação identificada em locais delimitados, que nesse momento não terá sido adequadamente mitigada”.

Tem sido feita a descontaminação?

A palavra certa não é descontaminação, que muitos consideram impossível, mas sim mitigação, uma forma de minimizar os efeitos da poluição. Segundo o Ministério da Defesa Nacional, “os trabalhos de mitigação realizados pelos EUA nos últimos anos, em articulação com recomendações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), referem sobretudo: a inertização de pipelines inativos ou a sua remoção; remoção dos solos envolventes contaminados (cerca de 70 m2 de solos); levantamento do estado de conservação de diversos furos; construção de novos piezómetros para monitorização/extração de águas subterrâneas; e monitorização das águas subterrâneas”.

O problema está resolvido?

Não. O Ministério da Defesa Nacional diz que, “não obstante os trabalhos realizados, a matéria continua a justificar acompanhamento técnico, monitorização continuada e articulação bilateral no quadro dos instrumentos aplicáveis à presença norte-americana na Base das Lajes”. Quanto à água, “em 2025 não se registaram hidrocarbonetos acima das normas de qualidade da água, mantendo-se, por prudência, a monitorização destes furos.”

Os trabalhos têm 
tido continuidade?

Não. “No período de 2020 e 2021 não existiram ações de reabilitação ou mitigação executadas pelos EUA, mercê da posição norte-americana assumida em 2020 relativamente à inexistência de potenciais impactos da contaminação dos solos e das águas subterrâneas na saúde humana”, responde o Ministério da Defesa Nacional. Mas essa posição foi “revogada no final de 2022”. De acordo com a Defesa, “em 2023 foram equacionadas pelos EUA diversas ações de levantamento da situação, com base nas quais se propuseram e concretizaram ações de monitorização e de reabilitação em 2024”.

Força Aérea cria vacas nas zonas mais contaminadas da Base das Lajes

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Há gado a pastar e fardos de erva colhida nas piores zonas da Base das Lajes, poluídas com metais pesados há décadas. A Força Aérea tem 81 vacas criadas nas zonas identificadas com a contaminação por hidrocarbonetos, mas garante a segurança alimentar dos animais

Aquele terreno pode estar intoxicado com metais pesados, mas o açoriano Dimas Rocha pastoreia tranquilamente nove das suas vacas num dos solos mais contaminados da ilha Terceira, nas imediações da Base das Lajes. É junto aos enormes depósitos de combustível da chamada South Tank Farm — os segundos maiores tanques da Força Aérea norte-americana fora do território dos EUA —, onde houve depósito de lamas tóxicas e numerosos derrames ao longo de décadas. “Dizem que sim”, admite o criador de gado ao Expresso. “Já tenho aqui o gado há uns anos e nunca me aconteceu nada”, diz, despreocupado.

Não muito longe dali, num terreno adjacente a outra das zonas mais poluídas — junto à zona Porta de Armas da Base Aérea nº 4 —, dispersam-se dezenas de enormes rolos pretos com erva para alimentar o gado. Também é comum encontrar vacas nessas pastagens que fazem fronteira com a pista. No entanto, essa forragem e as cabeças de gado pertencem à própria Força Aérea Portuguesa (FAP), que conhece bem os locais contaminados e que possui anualmente entre 80 e 120 vacas (10% das quais usadas para consumo nas messes e o resto para venda no mercado). Segundo respostas ofi­ciais da FAP ao Expresso, este ramo das Forças Armadas tem neste momento 81 cabeças de gado, cuja exploração cumpre “todo o normativo legal vigente”.

Parte da alimentação deste gado é a forragem que a FAP corta junto à própria pista — onde ainda se observam 15 aviões reabastecedores KC-46 norte-americanos, que participaram na guerra do Irão — e que está há décadas contaminada pelos metais pesados dos combustíveis dos aviões militares. Esta poluição não se deve apenas à acumulação de poluentes documentados ao longo de décadas, mas também à atividade atual: a erva que cresce junto à pista continua a ser “regada” por hidrocarbonetos, porque os resíduos causados pela água da chuva que entra nos pits de abastecimento das aeronaves são despejados nesses solos, descrevem ao Expresso fontes da base, que pedem anonimato por “receio de represálias”.

Um antigo responsável pela área ambiental da região chegou a chamar a atenção para as vacas que pastavam nas áreas contaminadas: “Diria que devia prevalecer o princípio da precaução. Não tenho dados que digam que não faz mal ter ali vacas a pastar, mas devo considerar que fazem mal. Não se deve arriscar, e cheguei a colocar essa situa­ção de preocupação às autoridades”, diz ao Expresso, solicitando anonimato, considerando as funções que agora desempenha. A resposta que obteve é que o gado pertencia à FAP. E nada foi feito.

Militares garantem segurança alimentar

Considerando a exploração agrícola como uma “herança logística” e uma “medida de sustentabilidade e de reforço da autonomia da unidade“ — destinada “à manutenção e controlo biológico da vegetação (pastagens) em áreas confinadas do perímetro militar que não interferem com a segurança aeroportuária” —, a FAP garante o cumprimento das medidas de segurança alimentar: “A presença destes animais é regulada por entidades competentes, internas e externas, que asseguram a saúde e a qualidade de vida dos mesmos”, responde ao Expresso o gabinete de relações públicas do Estado-Maior da Força Aérea.

Não há “reportes de valores acima dos limites máximos residuais legalmente fixados”, garante a FAP

A FAP, no entanto, não nega que se encontrem resíduos, mas assegura que não ultrapassam o estipulado: “Os testes e análises às carcaças são articulados com as autoridades veterinárias regionais e são observadas escrupulosamente todas as normas de saúde pública, não tendo existido, até à data, reportes de valores acima dos limites máximos residuais legalmente fixados para a segurança alimentar”, pode ler-se numa das respostas ao Expresso. “Esta articulação conjugada com o cumprimento da lei, no que se refere ao abate dos animais e ao controlo da carne e dos produtos derivados pelas autoridades sanitárias da Região Autónoma dos Açores, é a garantia da segurança animal e alimentar”, acrescenta.

António Ventura, secretário Regional da Agricultura e Alimentação dos Açores, também garante que a região cumpre “o plano nacional de pesquisa de contaminantes”, através de análises efetuadas pelo laboratório regional de Angra do Heroísmo. “Não encontrámos, até agora, hidrocarbonetos nem metais pesados nessas análises”, assegura ao Expresso, mesmo “numa altura em que se recolheram especificamente amostras daqueles locais”. Segundo afirma, “não foram encontrados resíduos nem contaminantes nos animais”.

Em todo o caso, o secretário regional espera que essa consciencialização parta da própria FAP: “Qualquer consciência ambiental ou preocupação tem de nascer do dono da exploração, pois estamos a falar do Estado”, sugerindo: “Se calhar, deviam periodicamente fazer análises. Não estamos a falar de um proprie­tário qualquer, é a Força Aérea, e tem de ter outro nível de atuação que até sirva como exemplo para as restantes explorações”, argumenta.

Solos compactados com combustível

Mesmo que os resultados bioquímicos de gado e das plantações não revelem dados dramáticos, como estas fontes oficiais asseguram ao Expresso, aquelas são zonas consideradas críticas há muito tempo. Segundo o relatório “Hydrogeological Report, Lajes Field”, encomendado pelos militares norte-americanos há mais de 20 anos, em 2005, na zona da Tank Farm, junto à qual estavam as vacas de Dimas Rocha, “era prática comum usar o fuel para humedecer os solos debaixo dos grandes tanques, a fim de compactar esses solos e proporcionar um terreno nivelado para a construção dos tanques”. E acrescentava dados mais preo­cupantes: “Atividades históricas no South Tank Farm incluíam o enterramento de lamas junto às aberturas de acesso dos tanques, lamas essas que foram geradas durante a limpeza dos tanques”, que antes de 1982 — quando foram ali realizadas grandes obras que contribuíram para a contaminação — “continham níveis elevados de tetraetil-chumbo” e outros elementos tóxicos. “São conhecidos inúmeros derrames neste local”, constatou o relatório.

Mais tarde, em 2018, um estudo realizado pela Universidade dos Açores, em colaboração com uma equipa da Universidade Nova de Lisboa, concluiu que existe contaminação relevante e clara tanto nos solos como nas águas subterrâneas, representando um potencial de risco para a saúde humana e o ambiente. As zonas da Porta de Armas e da South Tank Farm foram identificadas como duas das três áreas mais contaminadas.

 

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Citação de Hidden, há 22 minutos:

Fuck, já lá comi uma alcatra 

RIP

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Estudo sobre cancros nas Lajes anunciado pelo Governo dos Açores está atrasado seis anos

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O Governo Regional dos Açores anunciou um estudo nas nove ilhas, para se perceber a eventual relação entre a contaminação dos solos em redor da Base das Lajes e uma alegada prevalência de cancros no concelho da Praia da Vitória, mas o processo começado em 2018 arrasta-se desde 2020

O atraso é de seis anos: pelo menos desde 2020 que se arrasta o estudo que permitirá analisar a incidência de cancro por concelho nos Açores, e perceber se a aparente prevalência de doenças oncológicas na Praia da Vitória e nos trabalhadores na Base das Lajes estão relacionadas com a contaminação dos solos, causada pelas atividades militares norte-americanas. O Governo Regional dos Açores anunciou, esta sexta-feira, que está a ser desenvolvido um estudo coordenado pelo Centro de Oncologia dos Açores - em parceria com a Universidade de Coimbra e com a Universidade dos Açores -, no entanto, Tiago Lopes, ex-diretor regional de Saúde e antigo deputado regional do PS, denuncia que, desde 2020 “nunca se conheceram desenvolvimentos” ao projeto.

O Governo Regional reconhece que o projeto esteve parado, mas garante que agora está de novo em andamento, com 2.500 inquéritos em preparação, embora não aponte prazos (num esclarecimento que enviou ao Expresso depois de publicado este artigo também não aponta prazos).

O anúncio sobre a investigação partiu da secretária Regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi (PSD), na sequência da notícia do Expresso sobre a investigação da Universidade de Coimbra, do antopólogo Félix Rodrigues, que detetou chumbo e metais pesados em esqueletos de habitantes da Praia da Vitória, na Ilha Terceira, onde funciona a Base das Lajes. Os elementos tóxicos identificados nas ossadas são os mesmos contaminam os solos e os aquíferos daquela zona, fruto de décadas de poluição pelos derrames de combustível da responsabilidade do destacamento norte-americano na ilha.

A realização de um “inquérito epidemiológico sobre fatores de risco em todas as ilhas" para se criar um “Atlas Regional da Incidência Oncológica”, como escreveu o Governo Regional em comunicado, seria uma maneira de apurar se há uma relação entre a contaminação dos solos e a aparente incidência de cancros e de outras doenças na vizinhança da Base das Lajes.

Tiago Lopes diz ao Expresso que esse estudo “começou em 2018 e que, até 2019, foram concluídas as duas primeiras fases de um total de três. Desde 2020 que ficou a faltar a terceira fase, ou seja, o inquérito à população, explica. “Vêm anunciar agora um estudo que decorre desde 2018. Parece que é algo de novo, quando recai sobre o Governo Regional a responsabilidade”, acusa. E indigna-se: “Causa-me alguma revolta, porque é uma situação que se vai protelando de ano para ano e nunca mais se chega ao fim.” Para este enfermeiro, que chegou a ser deputado regional do PS, “se há um problema de contaminação dos solos e há implicações na saúde pública tem de se fazer alguma coisa”.

Há três anos, em maio de 2023, o projeto parecia estar por semanas quando numa audição na Assembleia Legislativa Regional, o presidente do Centro de Oncologia dos Açores (CAO), João Macedo, respondeu que já tinha sido feito o registo oncológico da região para os últimos 20 anos, assim como a georreferenciação do cancro por concelho. Fez saber então que estava por “semanas” a ida para o terreno das equipas de inquiridores nas nove ilhas, que aliás já estavam “selecionadas” e só faltava “preparar a formação que seria conduzida pela Universidade de Coimbra”, de forma a recolher dados sobre “os fatores de risco distribuídos pela região”. Depois, estes elementos seriam cruzados “com os dados de georreferenciação”.

O atraso comprova-se, até porque três anos depois desta audição parlamentar regional, o relatório de atividades de 2025 do Centro de Oncologia dos Açores continuava a falar do mesmo estudo como algo que está em curso, e sujeito a contratempos. Tinha havido um problema com a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra cujo protocolo tinha “cessado”, em resultado de “fatores externos alheios às partes”, pode ler-se no documento. O relatório voltava a repetir aquilo que o diretor do CAO dissera na Assembleia Legislativa: que estavam em “preparação os procedimentos para finalização do teor do questionário e início dos inquéritos no terreno”. Em 2025, portanto, não se tinha saído da situação de 2023.

A Secretaria Regional de Saúde dos Açores reconhece que a terceira parte do estudo se “iniciou” com a Universidade de Coimbra, mas que entretanto parou: “Por questões internas daquela instituição, deixou de ser possível assegurar a sua continuidade nos moldes inicialmente previstos. Nesse contexto, a coordenação científica e operacional transitou para a Universidade dos Açores, tendo o respetivo protocolo sido assinado este ano”, respondeu ao Expresso fonte oficial do gabinete da Secretária Regional esta segunda-feira. Mas, no seu comunicado de sexta-feira, a Secretaria Regional continuava a falar da Universidade de Coimbra.

“Este terceiro estudo está atualmente em curso”, garante o gabinente de Mónica Seidi. “O questionário de investigação já se encontra concluído, tendo havido várias reuniões e trabalhos com a Universidade dos Açores para ultimar os procedimentos. Estão também a ser finalizadas as renovações dos pareceres das comissões de ética, etapa necessária para dar início ao trabalho de campo, que envolverá a realização de inquéritos em todas as ilhas dos Açores”. A secretaria Regional não se comprometeu, porém, com um prazo para o fim do estudo.

Estes atrasos somam-se a outros bloqueios e são várias as fontes do Expresso a falar em "falta de vontade" para se estudarem os cancros na Praia da Vitória. Três enfermeiros que tentaram investigar cientificamente a alegada incidência de cancros na zona da Base das Lajes disseram ao Expresso que a sua investigação foi travada pela Universidade dos Açores em 2018, o que motivou o envio de perguntas do Bloco de Esquerda ao Governo da República. Segundo Alexandra Terra, uma das estudantes que se preparava para fazer um trabalho sobre o assunto, a Universidade dos Açores “sugeriu ou "obrigou" o seu grupo a "mudar o tema da investigação para o impacto das reformas antecipadas nos trabalhadores da Base das Lajes”, que saíram do ativo na fase da grande redução de pessoal promovida pelos EUA em meados da década de 2010.

De acordo com o então coordenador desse estudo, Norberto Messias, “a universidade não quis que se concluísse o estudo porque tinha uma parceria com uma universidade no Massachusetts e estávamos a pôr em causa os americanos”, contou ao Expresso no artigo publicado na edição desta sexta-feira, queixando-se de “grande dificuldade no acesso a dados”. Segundo o antigo investigador, “não foi autorizado o acesso às certidões de óbito das pessoas da Praia da Vitória para analisar as causas de morte e a Segurança Social não disponibilizou o número de pessoas com mais de 60% de deficiência atribuída por terem cancro”. Apesar do pessimismo de várias fontes terceirenses, o Expresso tem a informação de que o Governo Regional tencionará patrocinar mais estudos sobre este assunto.

Governo nega paralização do estudo

A Secretaria Regional da Saúde dos Açores enviou um esclarecimento ao Expresso, depois deste artigo ser publicado, repetindo que este estudo se divide em três, e que as duas primeiras partes já são conhecidas e publicadas, e contestando a ideia de que “nunca se conheceram desenvolvimentos”, como denunciou Tiago Lopes (apesar de este também dar as duas partes como concluídas).

O gabinete de Mónica Seidi diz ainda que os resultados dos primeiros estudos foram apresentados publicamente por investigadores da Universidade dos Açores no evento "Oncologia: Presente e Futuro", promovido pelo Centro de Oncologia dos Açores, no âmbito do Dia Mundial do Cancro, em fevereiro de 2023. "Não existiu, por isso, qualquer ocultação dos trabalhos desenvolvidos", explicam.

Além disto, os principais resultados do estudo foram igualmente divulgados na comunicação social, em março de 2023, sob o título "São Miguel com mais cancros que todas as ilhas do grupo central", continua o mesmo esclrecimento oficial, "dando conta da georreferenciação da incidência do cancro nos Açores ao longo de 20 anos e da sua distribuição por grupos de ilhas, ilha, concelho e faixa etária". O gabinete governamental diz que "não é, por isso, rigoroso afirmar que este trabalho nunca produziu resultados conhecidos ou que permaneceu sem desenvolvimentos", embora nunca tenha respondido às questões do Expresso enviadas há uma semana, sobre a alegada incidência de cancros na Praia da Vitória, solicitando dados que nunca forma fornecidos.

Segundo o Governo Regional, "o estudo atualmente em curso não é um estudo específico sobre a Praia da Vitória", tratando-se de "um estudo epidemiológico de âmbito regional, que abrange as nove ilhas dos Açores e visa identificar e caracterizar fatores de risco associados à doença oncológica na população açoriana". Mas são várias as fontes a dizer que só um estudo desta natureza pode ajudar a perceber o problema da Praia da Vitória.

Quando a prazos, o gabinete da secretária Regional diz apenas: "As conclusões deste trabalho serão divulgadas quando estiver concluído, respeitando os critérios científicos que devem presidir a qualquer investigação desta natureza, evitando interpretações precipitadas ou associações que não sejam sustentadas pela evidência".

Nota: artigo atualizado às 12h05 com os esclarecimentos do Governo Regional

 

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EUA ameaçam parar obras de descontaminação ambiental na zona da Base das Lajes

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Força Aérea dos EUA diz que a contaminação junto à base das Lajes não é prejudicial para a saúde dos habitantes da ilha Terceira. Mas o LNEC discorda e apela aos americanos para reverem a decisão de suspenderem os trabalhos de mitigação, diz relatório confidencial

Entre 2020 e 2022, os Estados Unidos não realizaram trabalhos para remediar os danos ambientais na zona da Base das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores, por entenderem que a contaminação de solos e aquíferos — identificada desde 2003 por estudos dos próprios norte-americanos —, não é prejudicial à saúde das pessoas que ali trabalham e vivem. O ano passado, os responsáveis pela Força Aérea dos Estados Unidos na Europa (USAFE) ameaçaram voltar a parar os trabalhos de mitigação dos contaminantes nas zonas poluídas do concelho da Praia da Vitória, onde uma investigação de doutoramento, defendida esta semana, detetou metais pesados e chumbo (elementos potencialmente cancerígenos) nos esqueletos de habitantes (ver entrevista ao lado).

A intenção dos norte-americanos — que mantêm um destacamento militar de cerca de 170 efetivos na Base Aérea nº4, depois de uma grande redução há dez anos — foi comunicada numa reunião realizada por videoconferência no dia 11 de setembro de 2025. Os peritos da USAFE disseram aos responsáveis portugueses que, este ano, “ia voltar a ser aplicada a decisão” conhecida pela sigla NO-SIHHS: significa que os EUA não reconhecem a existência de impactos da poluição para a saúde humana (No Substantial Impact to Human Health and Safety).

Posição dos EUA “não abrange os interesses de proteção da saúde pública da ilha Terceira”, escreveu Governo Regional

Esta informação consta no relatório de 2025 do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de “Análise e Acompanhamento dos Trabalhos de Reabilitação Ambiental” no concelho da Praia da Vitória, classificado como “reservado”, a que o Expresso teve acesso. Neste documento, com data de abril deste ano, pode ler-se que os peritos do LNEC presentes na reunião referiram “esperar que, face à revisão dos resultados, essa decisão fosse reapreciada”. O Expresso questionou a USAFE e o Departamento de Defesa, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição. O Ministério da Defesa português também não respondeu.

Na zona da Porta de Armas da Base das Lajes, uma das mais contaminadas, onde é possível encontrar as vacas pertencentes à Força Aérea a pastar, o LNEC identificou “concentrações de hidrocarbonetos acima do limiar” das normas nacionais (mas abaixo das normas internacionais do Canadá e Países Baixos). A menos de dois quilómetros, na zona dos enormes depósitos de combustível norte-americanos, a South Tank Farm — onde o Expresso também encontrou uma manada de vacas —, os técnicos do LNEC consideraram a contaminação por hidrocarbonetos “pontual em junho” de 2025, mas identificaram combustível nos terrenos: “Ainda existe produto livre e concentrações elevadas de contaminantes, sendo urgente evitar a sua propagação para o Paul da Praia da Vitória.”

EUA escondem informação

Nos últimos anos, as relações com os EUA neste domínio não foram fáceis. Em 2021, um documento da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos dos Açores (ERSARA), a que o Expresso teve acesso, comunicava ao Governo Regional dos Açores que os norte-americanos ocultavam informação sobre as obras ambientais: “As informações sobre quaisquer trabalhos realizados pelos EUA no âmbito do processo de remediação não são, por norma, disponibilizadas voluntariamente, sendo sempre necessário esforço diplomático para obter tal informação.” Um dos casos relatados versava um furo não declarado pela Força Aérea norte-americana, em 2019, realizado junto à pista, apesar de “análises realizadas” pela USAFE (também não comunicadas) apresentarem “valores de hidrocarbonetos em concentrações elevadas”. Mais tarde, um estudo do Ministério da Defesa verificava que os valores tinham baixado, mas o LNEC não afastava riscos de contaminação.

Além disso, as autoridades portuguesas queixavam-se de os representantes norte-americanos na Comissão Técnica bilateral alegarem a “inexistência de obrigações legais por parte dos EUA na descontaminação de locais situados fora dos limites das instalações militares”, apesar de a poluição ser devido às suas atividades.

Antes de suspenderem as obras de mitigação ambiental, os norte-americanos apresentaram um relatório com o objetivo de reapreciar a contaminação em dois dos locais mais problemáticos, seguindo instruções do Departamento de Defesa emitidas em 2018, “relativas a procedimentos de reabilitação da contaminação ambiental fora dos EUA”. O relatório norte-americano, citado pela ERSARA, considerou que “a contaminação das águas subterrâneas e solos” na Porta de Armas e na South Tank Farm, “não representa um impacto substancial para a saúde e segurança humana, atendendo à exposição dos trabalhadores nesses locais”.

A apreciação das autoridades regionais foi diferente. Para o Governo Regional, como “a análise de risco” norte-americana deixava “de fora o risco potencialmente existente fora das áreas militares”, esta posição dos EUA “não” abrangia “os interesses de proteção da saúde pública da ilha Terceira como um todo”.

Nesse documento, a ERSARA concluiu que “a simples presença de hidrocarbonetos na água não é desejável”. Há neste momento obras a decorrer no valor de 5,3 milhões de euros, para mudar a captação de água em alguns locais no concelho da Praia da Vitória. Nos dez anos anteriores, tinham sido identificados “36 casos de amostras com concentrações de hidrocarbonetos acima do limite”, apesar de o LNEC considerar que a água da rede pública apresenta “parâmetros em conformidade com as normas”.

Tese causa choque no CDS

O ministro da Defesa, Nuno Melo, desvalorizou a tese de doutoramento que detetou metais potencialmente cancerígenos no esqueleto de pessoas que viveram perto da Base das Lajes, mas Artur Lima, líder do CDS Açores e vice-presidente do Governo Regional, diz que vai “manter a linha” e financiar “mais doutoramentos” sobre este tema. “O Governo Regional patrocinou esta investigação, pois não temos competência científica, e ter um júri académico e uma universidade como a de Coimbra a avaliar é quanto nos basta”, afirma ao Expresso em resposta ao líder do seu partido. Nuno Melo disse aos deputados, esta quarta-feira, que o seu “foco são entidades públicas certificadas”, com “respeito por teses legítimas”, mas que não pode “validar cientificamente”, e que disse serem “ótimas” para “efeitos de consumo da comunicação social”. O ministro desconsiderou a Universidade de Coimbra quando disse que “essa certificação não aconteceu ao nível das entidades públicas”. Para o ministro, estas são o LNEC e a ERSARA, que também têm relatórios críticos dos EUA e que apontam riscos para a saúde nos locais contaminados (ver texto principal).

 


 

PERGUNTAS A

Félix Rodrigues

Antropólogo

 

Terceirense de 32 anos, Félix Rodrigues defendeu esta terça-feira, na Universidade de Coimbra, uma tese de doutoramento em Antropologia Forense que detetou chumbo em esqueletos de pessoas que viviam perto da Base das Lajes. Foi aprovado com louvor e distinção.

Que metais é que foram encontrados que são comuns a solos e esqueletos?

O chumbo é um deles. O cádmio é outro. Estão identificados nos relató­rios técnicos e surgem nos esqueletos. Mas também aparecem em Angra do Heroísmo [que fica a 23 quilómetros]. Podem ter outras fontes. Mas aquilo que faz mais sentido neste contexto é colocar a hipótese de o chumbo poder ser resultado da contaminação. Não é inequívoco, mas pode resultar da contaminação.

O chumbo vem da contaminação feita pelo tanques de combustível, cujas lamas foram despejadas na ilha nos anos 80 e usadas para compactar terrenos?

Sim, o chumbo era utilizado no combustível à época. Não estamos a falar de uma coisa recente nem dos dias de hoje. São contaminações que, segundo os relatórios norte-americanos, provêm da década de 80. Nessa altura, os combustíveis tinham chumbo tetraetílico.

Pode-se deduzir que a aparente prevalência de cancros na Praia da Vitória pode vir daqui?

O desafio é perceber se essa prevalência existe mesmo, porque não temos estatísticas que nos digam que, em áreas mais vulneráveis ao risco, essa frequência de cancros é superior. Isso é definitivamente algo de interesse público. Devemos mesmo averiguar se isso acontece. Se isso acontecer, passamos a perceber se há uma causa e efeito. É a via que temos de seguir no futuro.

Como é que as autoridades lidaram com estas suspeitas?

Com avanços e recuos. O facto é que ainda não há um estudo de causalidade. Há relatórios que identificam a contaminação e posições que foram mudando ao longo do tempo e que não são consistentes. Enfim, nem todos os Governos tiveram a mesma atitude nem os mesmos intervenientes. Penso que não teria sido possível há dez anos o Governo Regional apoiar uma bolsa para investigar esta questão. Nem de ter a colaboração da Câmara Municipal da Praia da Vitória. Acho que há uma mudança.

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Biólogos alertam: não pode haver gado a pastar em terrenos contaminados junto à Base das Lajes

Spoiler

Há vacas a pastar em terrenos da ilha Terceira onde a água está contaminada com hidrocarbonetos potencialmente cancerígenos. “As vacas têm de sair de lá”, dizem ao Expresso dois investigadores especialistas nestas matérias, sob risco de contaminação da cadeia alimentar

Vacas a pastar em terrenos verdejantes, entre muros de pedras vulcânicas, é a paisagem típica dos Açores. Talvez por isso, poucos estranhem ver o gado a comer a erva que cresce junto à da Base das Lajes ou a ruminar perto dos grandes depósitos de combustível, que o destacamento norte-americano usa para atestar os aviões militares. Nestes postais da ilha Terceira, no concelho da Praia da Vitória, a diferença para o resto dos Açores é que, pelo menos desde 2003, aqueles terrenos estão identificados como contaminados por hidrocarbonetos, clorofórmio e combustíveis. No entanto, ao longo de mais de 25 anos, nenhuma autoridade mandou interditar aquelas terras para o pastoreio. Dois catedráticos em biologia alertam que não pode haver gado nessas pastagens, considerando os dados do relatório Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), conhecidos na semana passada. É urgente fazer análises para perceber se há contaminação dos pastos e da carne, aconselham.

Cristina Branquinho, professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com experiência em estudos de impacte ambiental em zonas com minas, cimenteiras ou bombas de gasolina, diz ao Expresso que, “se a água está contaminada não se deve pastar nos terrenos sem analisar os solos para estes contaminantes”. Depois de ver a descrição que o LNEC faz dos elementos identificados nas águas sob estes terrenos, a bióloga aconselha: “Nessas zonas não se deve dar nenhum uso que possa contaminar a cadeia humana.”

Outro professor e biólogo marinho, Miguel Pardal, da Universidade de Coimbra - e diretor do pólo da Figueira da Foz - é claro na sua opinião: “Neste tipo de solos não pode lá estar nada, por princípio de precaução”, pelo risco de os contaminantes entrarem na cadeia alimentar. “Nenhuma carne alimentada em zonas com hidrocarbonetos pode ser consumida, mesmo sem haver grandes concentrações”, diz o investigador que já orientou teses sobre a entrada na cadeia alimentar de peixes contaminados. “Se os solos estão contaminados, não podem ter usos para nenhum derivado usado para alimentação humana, nem o leite”. E apela: “Depois logo se trata dos solos, mas as vacas têm de sair de lá.”

A bióloga Cristina Branquinho diz que, “se a água está contaminada”, é de “bom senso” fazer “urgentemente análises ao solo com elevada resolução espacial para se mapear exatamente os limites dessa contaminação”. A académica alerta que “os hidrocarbonetos são bioacumulados nos tecidos gordos”, e que “alguns são associados a leucemias”, como o benzeno, por isso, “se fosse investigar ia analisar estes compostos no leite”.

Miguel Pardal reforça que se devem “analisar as plantas que as vacas comem, os músculos das vacas, e o leite. Tudo isso tem de ser analisado”, recomenda. “Se a ciência diz que um local está contaminado e é perigoso para vida, qualquer organismos que vive numa zona contaminada tem uma grande probabilidade de estar contaminado”.

O Expresso enviou uma série de perguntas ao secretário Regional da Agricultura e Alimentação, António Esteves, sobre porque é que os terrenos contaminados nunca foram interditados, porque é que a FAP faz rolos de ervas nestas zonas do aeroporto para consumo dos seus animais e para venda, ou sobre se o tipo de análises que vão sendo realizadas pelas autoridades sanitárias - como o próprio secretário Regional já tinha dito ao Expresso - incidiram sobre os animais que pastavam especificamente naquelas zonas. Apesar de o prazo limite para as respostas ter sido quarta-feira passada, ao fim de cinco dias, a Secretaria Regional não enviou as respostas.

O que diz o relatório do LNEC de 2025 sobre isto?

O relatório anual do LNEC para 2025 sobre a “Análise e Acompanhamento dos Trabalhos de Reabilitação Ambiental” no concelho da Praia da Vitória, divulgado no fim de junho, e classificado como “reservado”, confirmou níveis de poluição preocupantes pelo menos em duas áreas onde o gado se alimenta, incluindo as 81 vacas da produção pecuária da Força Aérea Portuguesa. Nesse estudo, que o Expresso revelou a semana passada, o LNEC informou as autoridades portuguesas que a Força Aérea norte-americana na Europa (USAFE) tinha tomado a decisão de parar com os trabalhos de recuperação ambiental das zonas contaminadas com hidrocarbonetos pela sua atividade, por entender que não há perigo para a saúde da população.

Apesar desta decisão ter sido transmitida pelos EUA numa reunião realizada a 11 de setembro do ano passado, o “LNEC referiu esperar que, face à revisão dos resultados, essa decisão fosse reapreciada”, porque os dados recolhidos em águas em dois dos solos mais poluídos da ilha, indicam que pode haver riscos. Foi nesses terrenos que o Expresso viu e fotografou vacas a pastar, embora os relatórios do LNEC não refiram aspetos relacionados com agropecuária e louvem como as obras de mitigação ambiental já levadas a cabo pelos EUA, que melhoraram a situação ambiental em alguns pontos.

Na Porta de Armas da Base Aérea nº4, classificada como “site 3001, em junho de 2025 “detetaram-se concentrações de Hidrocarbonetos Totais do Petróleo (HTP) acima do limiar na maioria dos piezómetros [aparelho de medição], embora em setembro os valores tenham baixado” nas análises das águas subterrâneas, pode ler-se no relatório. Segundo o LNEC, “foram encontrados vestígios de clorofórmio e vários Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos (HAP) acima dos limites nacionais, mas abaixo das normas internacionais (Canadá/Holanda)”, indica o documento. Apesar de classificado como “reservado”, o relatório foi distribuído a 29 de junho aos grupos parlamentares da Assembleia Regional dos Açores e disponibilizado publicamente no site da Câmara Municipal da Praia da Vitória.

A quase dois quilómetros, fica a chamada South Tank Farm, os enormes depósitos de combustível, onde em 1982 houve grandes derrames, e em que lamas de combustível com chumbo foram usadas para compactar os solos. Nos terrenos adjacentes aos tanques também havia gado. De acordo com o estudo do LNEC, nesta zona denominada como “site 5001”, ainda existe combustível “livre” (identificado pela sigla LNAPL ) nos solos e nas águas: “Não obstante as concentrações de hidrocarbonetos nos dois piezómetros amostrados a jusante do Site 5001 serem reduzidas, as águas subterrâneas no interior do Site 5001 apresentam LNAPL em mais do que um piezómetro, verificando-se ainda a existência de diversas áreas com contaminação por HTP, BTEX e HAP”. Os BTEX são quatro compostos químicos tóxicos encontrados em derivados de petróleo (Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno e Xilenos), com riscos cancerígenos comprovados, assim como para o sistema nervoso central.

“Neste contexto”, escreve o LNEC, “importa assegurar a implementação de medidas que evitem a propagação dos contaminantes presentes nas áreas contaminadas do site 5001 para o exterior do mesmo, com vista à proteção das águas do Paul e das águas subterrâneas desta zona”.

O que disseram o secretário regional da Agricultura e a Força Aérea Portuguesa?

A Força Aérea Portuguesa, garantiu ao Expresso, em respostas enviadas há duas semanas, que cumpre “todo o normativo legal vigente”, e que as autoridades açorianas garantem a segurança alimentar da carne que é consumida pelos militares nas messes - cerca de 10% - e a que é vendida no mercado. Segundo fonte oficial do gabinete do general Sérgio Costa Pereira, chefe do Estado-Maior da Força Aérea, “os testes e análises às carcaças são articuladas com as autoridades veterinárias regionais e obedecidas escrupulosamente todas as normas de saúde pública, não tendo existido, até à data, reportes de valores acima dos limites máximos residuais legalmente fixados para a segurança alimentar”.

No entanto, Miguel Pardal alerta que não deixa de ser perigoso consumir alimentos contaminados, mesmo que estejam abaixo do limite legal permitido, como a FAP garante. “Uma coisa é a alimentação pontual de alimentos com uma concentração inferior ao permitido, outra é uma exposição mais permanente”. O biólogo propõe o seguinte raciocínio: “Imaginemos que o valor máximo hipotético é de 0,5 para um determinado contaminante, e que o valor detetado nas análises é de 0,4, pelo que poderá ser consumido.” Mas a questão é mais complexa, e tem a ver com a frequência de exposição a alimentos contaminados por uma determinada substância: “E se eu consumir todos os dias ou todas as semanas, como é? Beber cinco copos de vinho num dia é diferente de beber cinco copos de vinho todos os dias..

Há duas semanas, o secretário Regional da Agricultura e Alimentação dos Açores, também garantia, em declarações ao Expresso, que a região cumpre “o plano nacional de pesquisa de contaminantes”, através de análises efetuadas pelo laboratório regional de Angra do Heroísmo. “Não encontrámos, até agora, hidrocarbonetos nem metais pesados nessas análises”, assegurou então, mesmo “numa altura em que se recolheram especificamente amostras daqueles locais”. Segundo afirma, “não foram encontrados resíduos nem contaminantes nos animais”.

Em todo o caso, o secretário regional disse esperar uma consciencialização por parte dos próprios militares da FAP: “Qualquer consciência ambiental ou preocupação tem de nascer do dono da exploração, pois estamos a falar do Estado”, sugerindo: “Se calhar, deviam periodicamente fazer análises. Não estamos a falar de um proprie­tário qualquer, é a Força Aérea, e tem de ter outro nível de atuação que até sirva como exemplo para as restantes explorações”, sugere.

O secretário regional ainda havia de acrescentar ainda que, no âmbito do Plano Nacional de Controlo Plurianual (PNCP), a Região Autónoma dos Açores executa diversos programas de controlo oficial nas áreas da segurança alimentar, alimentação animal e saúde animal. Segundo António Esteves, “estes controlos visam garantir a segurança da cadeia alimentar, a proteção da saúde pública e a conformidade dos produtos agro-alimentares produzidos na Região”.

Solos compactados com combustível

Mesmo que os resultados bioquímicos de gado e das plantações não revelem dados dramáticos, como estas fontes oficiais asseguraram, aquelas são zonas consideradas críticas há muito tempo. Segundo o relatório “Hydrogeological Report, Lajes Field”, encomendado pelos militares norte-americanos há mais de 20 anos, em 2005, na zona da South Tank Farm, “era prática comum usar o fuel para humedecer os solos debaixo dos grandes tanques, a fim de compactar esses solos e proporcionar um terreno nivelado para a construção dos tanques”. E acrescentava dados mais preo­cupantes: “Atividades históricas no South Tank Farm incluíam o enterramento de lamas junto às aberturas de acesso dos tanques, lamas essas que foram geradas durante a limpeza dos tanques”, que antes de 1982 — quando foram ali realizadas grandes obras que contribuíram para a contaminação — “continham níveis elevados de tetraetil-chumbo” e outros elementos tóxicos. “São conhecidos inúmeros derrames neste local”, constatou o relatório.

Mais tarde, em 2018, um estudo realizado pela Universidade dos Açores, em colaboração com uma equipa da Universidade Nova de Lisboa, concluiu que existe contaminação relevante e clara tanto nos solos como nas águas subterrâneas, representando um potencial de risco para a saúde humana e o ambiente. As zonas da Porta de Armas e da South Tank Farm foram desde então identificadas como duas das três áreas mais contaminadas e sujeitas a trabalhos de remediação ambiental que ainda não resolveram o problema.

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