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Os bastidores do dia da conquista do Euro 2016: superstições com um galo, charuto com cálice de vinho e bife com ovo a cavalo

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Os bastidores do dia da conquista do Euro 2016: superstições com um galo, charuto com cálice de vinho e bife com ovo a cavalo

Carlos Godinho, diretor técnica da seleção em 2016, conta alguns detalhes sobre a preparação do Europeu e da final em Paris contra a França, que ficou para sempre marcada na memória dos portugueses. Entre outros pormenores, fala de um galo que se tornou superstição, do bife com batatas fritas e ovo a cavalo após a vitória final, de charutos, vinho do Porto e conversas com emigrantes até às 2h da manhã. Também de medalhas perdidas, de lágrimas de emoção e da sua saída da FPF exatamente 50 anos depois de ter entrado. Este depoimento foi recolhido por Alexandra Simões de Abreu

Comecei a trabalhar com as seleções nacionais em 1984, mais concretamente com a seleção nacional A a partir de 1991, portanto no Europeu de 2016 eu já tinha um conhecimento profundo daqueles jogadores. As pessoas do staff que lá estavam tinham sido, na sua grande maioria, enquadradas por mim dentro da federação.

Para uma fase final de uma competição, seja ela qual for, há sempre o objetivo de chegar à final e ganhar. Disso não há dúvida. Mas se me perguntarem se nos considerávamos favoritos, diria que não. Queríamos fazer o nosso melhor, já tínhamos um passado recente a nível dos europeus muito bom, com lugares de honra e portanto um dia havia de ser a nossa vez.

A preparação

Em dezembro de 2014, já andava a ver centros de treino para 2016 e tive a felicidade de conhecer alguém dentro da UEFA que me informou, off the record, que o centro de Marcoussis ia ser colocado na lista da UEFA como centro oficial de treino. Na altura eu estava em Southampton a ver um avião que a FPF pediu para visitar, que passaria a ser a nossa base de viagens e nesse mesmo momento falei com o Tiago Craveiro, que era o diretor-geral, e disse-lhe que era importante ir logo lá ver o centro de estágios. Consegui um voo para Paris nesse mesmo fim de tarde.

Cheguei à noite a Marcoussis, o centro de treinos da federação de râguebi francesa e depois disse ao Tiago Craveiro, que terá transmitido a toda a estrutura que aquele era o sítio que teríamos de fechar imediatamente. Assim fizemos. A Federação Portuguesa de Portugal fez o pré-requisito, colocou aquele espaço como primeira opção. As outras seleções ainda não sabiam. Era um centro de treino muito espartano, tendo em conta aquilo que normalmente se escolhe para as seleções e que normalmente são instalações mais luxuosas. Aquele não era o caso. Era sobretudo um centro de treinos muito voltado para o trabalho e para o grupo estar muito fechado, muito organizado, muito perto de tudo sem ter que fazer muitas deslocações. Acho que foi a cereja em cima do bolo. A partir da fase do mata-mata‘, como dizia o Scolari, tudo o que fôssemos fazendo ia acrescentando mais valia ao nosso trabalho e ao nosso esforço de podermos atingir o ponto final.

Mas foi um percurso muito difícil. Quando atingimos a meia-final e passamos à final era a segunda vez que ia acontecer no espaço de 12 anos. Contou a experiência que eu e mais algumas pessoas, poucas, tínhamos adquirido em 2004 e que foram a base do inêxito de 2004. Embora não muito falado, serviu-nos de uma experiência muito grande.

Um treino da seleção nacional em Marcoussis, nos arredores de Paris, durante o Euro 2016
Um treino da seleção nacional em Marcoussis, nos arredores de Paris, durante o Euro 2016
picture alliance

Por exemplo, a partida para o jogo da final no Euro 2004 foi um momento de falta de concentração da equipa, porque havia muita vontade dos adeptos, muito apoio e montou-se todo aquele espetáculo espontâneo, que foi crescendo de jogo para jogo, até que quando chegou a final tivemos uma viagem entre o centro de treinos de Alcochete e o estádio que demorou 1h20m. É muito para uma final. Demorámos, com os jogadores pouco concentrados dentro do autocarro, porque tudo aquilo era uma festa à volta do autocarro da seleção, como se lembram. Não foi nada positivo. Aliás, dois dias antes da final eu tinha sugerido ao presidente da federação e ao selecionador que não vivêssemos a experiência que tínhamos tido na meia-final com a Holanda. Ou seja, disse-lhes que era melhor que fôssemos para Lisboa na véspera, ou mesmo no próprio dia, mas de helicóptero, para tentar fugir àquele movimento de pessoas que era espontâneo, era muito querido, mas não ajudava muito à concentração dos jogadores.

Tivemos uma discussão incrível, amigável evidentemente, para saber se seria o melhor, afastando expectativas do público e ao mesmo tempo dando concentração aos jogadores. O Scolari estava aberto a isso, o presidente não tanto porque dizia: “Se perdermos vou ser crucificado.”

Ora, toda esta experiência fez com que eu e as pessoas que vivemos esse momento em 2004 tentássemos transmitir a necessidade de bastante recato em 2016. Havia sempre emigrantes à porta. Aliás, na véspera da final, eu e outras pessoas do staff, depois dos jogadores se deitarem, viemos cá para fora fumar um charuto e beber um cálice de vinho do Porto, porque não é todos os dias que vamos a uma final, e a determinada altura fomos junto ao portão, saímos mesmo do centro de Marcoussis e fomos ter com os imigrantes que estavam cá fora acampados. Estivemos ali a conviver um bom bocado até cerca das 2 da manhã. Eles mantiveram-se lá, mas o nosso objetivo era que os jogadores não passassem pelo mesmo que tinham passado em 2004.

O dia da final e a saída para o estádio

Preparámos com muito método, com muito rigor a saída para o estádio.

Estávamos a cerca de 40 quilómetros do Stade de France, era uma viagem longa, o transito em Paris é diabólico, mesmo ao fim de semana. Tivemos várias reuniões com a polícia que eram dirigidas por um português que estava junto da seleção nacional e alertei para a necessidade de termos um apoio muito forte porque senão não íamos conseguir chegar dentro dos limites que tínhamos definido para nós próprios - que era uma hora e meia antes do jogo começar.

A polícia foi de uma grande atenção, de uma grande organização e depois de eu ter feito quatro percursos entre Marcoussiss e o Stade de France, um deles até com autocarro e com batedores, para tentarmos perceber o que acontecia, definimos o máximo de uma hora para chegar ao estádio. De facto, a polícia trabalhou muito bem, colocou à nossa disposição 10 batedores, com carros, pedimos atenção em relação aos emigrantes, sobretudo à frente, para não atrapalhar a circulação do autocarro da seleção. Foi tão bem feito que demorámos cerca de 48 minutos a ir de Marcoussis ao Stade de France.

Adeptos portugueses dentro do Stade de France, em Paris, a 10 de julho de 2016, dia da final do Europeu
Adeptos portugueses dentro do Stade de France, em Paris, a 10 de julho de 2016, dia da final do Europeu
Jan Kruger - UEFA

Chegámos muito cedo e com isso aconteceu uma coisa curiosa. Éramos considerados a equipa da casa e foi-nos entregue o balneário que era habitualmente da equipa francesa. Quando chegámos, os jogadores foram para a palestra que o Fernando Santos fazia sempre antes do jogo e logo a seguir vimos uma empresa a transportar muitas caixas de champanhe, iam entrar no nosso balneário e nós: Deve ser engano, nós não pedimos champanhe, não seguimos esses princípios. Entretanto, os franceses perceberam que o balneário deles não era aquele e a empresa foi entregar o champanhe ao balneário visitante.

Entretanto, já sabíamos do autocarro que eles tinham preparado para transporte da equipa no caso de vitória. Temos muitos emigrantes em França que viram o autocarro e disseram aos jornalistas, portanto, havia ali todo um esquema montado para a vitória da França, o que é normal. Felizmente, a estrutura da UEFA tinha mudado, já não era a mesma do passado e houve muita independência, muita abertura para as duas equipas, não houve nenhum forçar de situação a favor dos franceses.

No caminho para o estádio não cantámos ou pusemos música no autocarro, os jogadores iam todos muito concentrados, em silêncio. Todos percebemos a importância daquela viagem, daquele jogo, sem entrarmos nas euforias que tivemos em 2004 em que toda a gente pensava em tudo menos no jogo. Foi tudo muito tranquilo, muito calmo.

O Tiago Carveiro trocou mensagens comigo, mandei-lhe uma mensagem que ainda hoje me comovo quando me lembro, a dizer: Hoje vai ser o nosso dia. Tive esse feelling, que ia ser o nosso dia. Foi só com ele que fiz essa confidência. O Tiago Craveiro teve uma importância enorme nesse Europeu na coordenação/ligação entre as diversas áreas e sobretudo na estratégia global de comunicação.

Os jogadores gostam de sentir a família por perto, gostam de chegar ao estádio, olhar para a bancada e ver lá as suas famílias, e isso é um fator mesmo muito importante. Conseguimos que isso acontecesse, com muita dificuldade, porque há sempre muita gente a ir e organizar as viagens de avião para tanta gente é complicado. A estrutura da federação tinha um contato permanente com as famílias e os jogadores para tratar da questão do bilhetes, dos transportes, dos regressos, tudo isso tem de ser pensado e feito. Ou seja, estivemos sempre a trabalhar até ao fim.

O jogo

Eu estava no banco. O que me recordo é que estava a ser um jogo difícil, a França tinha uma excelente equipa, mas os nossos jogadores encararam o jogo como de vida ou morte, e assim foi. Quem jogou, quem ficou de fora, quem entrou, entrou decidido a não perder, a não repetir 2004. As palestras eram feitas entre a equipa técnica e os jogadores e os que trabalhavam mais diretamente com os jogadores, ninguém mais assistia, por isso não sei o que o Fernando Santos disse aos jogadores, mas senti que havia uma vontade muito grande de ganharmos.

Cristiano Ronaldo sentado no relvado do Stade de France, em lágrimas, antes de ter de ser substituído por lesão ainda na primeira parte da final do Euro 2016
Cristiano Ronaldo sentado no relvado do Stade de France, em lágrimas, antes de ter de ser substituído por lesão ainda na primeira parte da final do Euro 2016
Alex Livesey

A lesão de Ronaldo

Quando o Ronaldo se lesionou não me assustei muito porque já tínhamos tido uma experiência em 2006 com ele, também de lesão, no jogo com a Holanda, em que ele já era um jogador muito importante na equipa, embora nauqela altura houvesse outros jogadores se calhar mais importantes que ele. Portanto, já tínhamos a experiência de ele ter saído também muito cedo e acabámos por ganhar o jogo.

Recebi as informações da equipa médica de que era uma situação complicada. Mas claro que quando vemos sair aquele que é o jogador mais importante da nossa equipa ficam-nos muitas dúvidas, não vamos pensar no que aconteceu com a Holanda lá atrás, vamos pensar na importância que ele tem para a equipa, que era muito grande, era decisiva. Infelizmente para os franceses não foi tão decisiva, porque quem entrou conseguiu transmitir a mensagem que ele deixou.

Mas sentiu-se no banco algum tremor, como é lógico e normal. Estávamos a jogar com uma equipa do nosso nível, que jogava em casa. Mas uma das coisas que notei logo no inicio do jogo foi o apoio que os nossos adeptos deram no estádio, não se calaram, embora fossem menos, estavam ao nível dos franceses no apoio. Aliás, acho até que os franceses, a partir de determinada altura da primeira parte, começaram a perceber que a coisa não ia ser fácil, que a nossa equipa também era perigosa e houve um esmorecer do apoio dos franceses.

Veio o intervalo. Com o Fernando Santos nós não entrávamos no balneário, isso não acontecia. Com Roberto Martínez, sim, mas o Fernando não queria mais ninguém, a não ser a equipa técnica e as pessoas que estavam efetivamente a trabalhar com a equipa, os mais próximos, os médicos e paramédicos. Mais ninguém entrava, nem nós queríamos. Não nos sentíamos à vontade, era um assunto que não nos dizia respeito. Eles tinham que ter tranquilidade, respirar e acalmar o calor que sentiam no corpo.

Depois o Cristiano esteve cá fora a acompanhar a equipa de uma forma muito efusiva, como toda a gente se recorda das imagens. Ele sentiu que precisava dar um apoio aos seus colegas e foi muito importante, inclusivamente no momento da lesão do Raphaël Guerreiro, em que ele corre ao longo da linha, até junto do Raphaël, a impor-lhe que ele continuasse, que aguentasse, o que levou a que o Didier Deschamps manifestasse algum desagrado com aquilo. É proibido pelos regulamentos, o Cristiano não podia andar ali de uma lado para o outro em cima da linha lateral, mas o quarto árbitro, nesse aspeto, era compreensível e não houve grandes dramas.

Eder a festejar o golo que marcou na final do Euro 2016, já no prolongamento, contra a França
Eder a festejar o golo que marcou na final do Euro 2016, já no prolongamento, contra a França
Alex Livesey

O golo do Eder

Foi merecido.

Foi preciso ser o Eder a fazê-lo porque o Eder sofreu muito na seleção nacional. Antes de partirmos para França tivemos um jogo em Leiria em que o Eder foi muito mal recebido. Era quase um patinho feio da seleção nacional. Mas já tinha dado ali alguns sinais que um dia podia ser diferente E foi. Foi um dia fantástico para ele e para todos nós. Ainda bem que foi com ele porque era um jogador e é uma pessoa fantástica.

Recordo-me que dei um pulo e sentei-me logo. Aliás, se repararem nas imagens, só há uma pessoa naquele momento sentada no banco, sou eu. Como tinha tido a experiência de 2004, não queria estar com grandes festejos, porque nisto do futebol nunca se sabe e é melhor estar quieto, calado e aguentar. De um momento ao outro tudo dá a volta. Estive sempre receoso até o último momento.

Os festejos

Quando o jogo acabou talvez tenha sido mais efusivo, mas enquanto os outros celebravam já estava a preparar com a UEFA a entrega da taça e das medalhas, aquele cerimonial todo que já estava pensado antes.

Eu era a pessoa de contato direto com a UEFA e tinha de trabalhar para que tudo corresse dentro do normal - e não foi fácil fazê-los subir à tribuna com o Fernando Santos. Não festejei nada naquele momento. Apareceram algumas camisolas de Portugal com o símbolo da vitória. Quando me falaram disso, eu disse logo que não queria nem vê-las, podia alguém tratar, mas eu tinha de estar longe disso, não queria nenhum sentimento de vitória antes do jogo. Por isso foi estranho para mim quando apareceram essas camisolas.

Na cabine foi uma grande festa. Esteve lá muita gente, incluindo o Presidente da República, se não me engano. Houve um discurso do Cristiano, do Fernando. O Fernando dançou, foi um momento grande. Não sou muito efusivo nesse tipo de coisas, estava já a preparar a viagem de regresso no dia seguinte para Portugal. Estava a pensar no jantar, porque tínhamos duas opções de jantar, de vitória ou derrota. Quando vamos para uma coisa dessas temos um grupo restrito que prepara esse tipo de coisas e era eu o responsável, tinha que ter um programa para o caso de vitória e outro para caso de derrota.

Apesar de comermos no mesmo sitio, na sala de jantar do centro de estágios, ia haver festa, sobretudo a nível de comida e bebida. A comida foi o que os jogadores mais gostam - bife com batatas fritas e ovo a cavalo -, mas houve uns extras para animar o pessoal. Tínhamos de ter um bocado de tudo, marisco, champanhe, uns extrazinhos. O chef do centro de treinos da federação de râguebi era português, o que facilitou imenso. Foi ele mesmo que colocou o programa da vitória em cima da cadeira de cada um. Os jogadores e o staff estiveram muito unidos e juntos no jantar.

Como é normal houve quem se deitasse muito tarde, como foi o meu caso, o caso do Fernando Santos, devemos ter sido os últimos, deitámo-nos por volta das seis da manhã e muitos dos jogadores também se deitaram tarde, andaram por ali a festejar. Normalmente, os jogadores bebem muito pouco. Só dois ou três é que bebem, mas pouco, a grande maioria não bebe; o staff é que bebe um bocadinho mais. Por isso, andámos por ali a festejar, porque de facto foi uma coisa fantástica, o melhor que fizémos até hoje.

A passagem do autocarro com a seleção campeã europeia de 2016 pela antiga sede da FPF, em Lisboa, onde estava a foto de Eusébio
A passagem do autocarro com a seleção campeã europeia de 2016 pela antiga sede da FPF, em Lisboa, onde estava a foto de Eusébio
D.R.

As emoções e a chegada a Lisboa

Chorei muito. Também tinha a minha família na bancada e se em 2004 fui levar a medalha de prata à minha filha, desta vez levei a de ouro. Quando vi a minha família é que as coisas vieram mais ao de cima, porque sabemos aquilo que passamos, sofremos e lutámos para que fosse possível. Foram muito anos. Lembrei-me muito das pessoas que tinham passado por ali, que tinham dado muito de si e não tinha conseguido. Desde o momento em que tinha começado com o Carlos Queiroz até ao último momento com o Fernando Santos. Lembrei-me dessa gente toda que passou por nós, lembrei-me de todos e sobretudo dos momentos difíceis, e isso deixa marcas. Apesar de tudo, tenho de confessar que já chorei mais por derrotas.

Estavam dois autocarros à nossa espera quando aterrámos em Portugal. Eu estava “cego” com aquilo, com a quantidade de gente logo ali em Figo Maduro e ainda não sabíamos o que se ia passar a seguir.

Entrei no autocarro que estava ali mais à mão, só vejo pessoas do staff. O autocarro da frente não arrancava. Eu não estava a perceber nada. O Fernando Santos, o Tiago Craveiro e o Fernando Gomes mandaram alguém chamar-me porque eu estava no autocarro errado. Fui para o autocarro da frente e entrei outra vez num momento de grande emoção porque, de facto, foi uma loucura. Quando passámos em frente da antiga sede da FPF e vimos a fotografia do Eusébio foram momentos de grande emoção, grande emoção.

Depois, quando chegámos à Cidade do Futebol e as nossas famílias e colegas estavam na zona da recepção foi talvez a maior emoção que tive. Aí as lágrimas saíram com mais força. As minhas e as de todos. Houve jogadores que ficaram ainda na Cidade do Futebol a fazer recuperação, como o Cristiano e mais alguns. Estiveram nos banhos, na piscina, não saíram logo para casa e continuaram a comemorar ali.

A relação com França

Os franceses enviaram-me uma camisola de um jogador da seleção francesa, cujo nome não me lembro, que espero um dia oferecê-la ao museu da federação, se a federação fizer um museu. Depois também enviei uma camisola do Cristiano para o museu da federação francesa. Os franceses foram simpáticos, foram muito agradáveis, não foram nada rancorosos. Não há nada a apontar à equipa francesa. Tinha muito boas relações com a seleção francesa. Infelizmente para nós, felizmente para eles, ganhavam sempre. Tinha essa atravessada na garganta.

A origem da família da minha mulher é francesa, a minha filha, os meus netos andam no Liceu Francês. França, para mim, é quase como uma segunda casa, mas tinha aquelas derrotas no Euro 2000 e no Mundial de 2006 atravessadas. Sempre me custou muito perder com a França, mas desta vez ganhámos em casa deles. No centro de estágio de Marcoussis puseram as nossas cores no edifício, queriam fazer fogo de artifício mas eu disse que não porque tínhamos de respeitar quem tinha perdido.

O momento em que Ronaldo e os jogadores ergueram o troféu de campeões europeus no Stade de France, em Paris
O momento em que Ronaldo e os jogadores ergueram o troféu de campeões europeus no Stade de France, em Paris
Lars Baron

Superstições

Não era tudo tão digital como agora e ainda usávamos canetas, e normalmente eu usava a mesma caneta. Mas nada como o Fernando Santos, que era o chefe das pessoas supersticiosas.

Houve outra coisa que começamos a fazer. Quando aquilo estava a correr mal, na primeira fase, começámos a dizer que o galo estava a dar galo. É uma expressão portuguesa. Então começámos a tapar o emblema da Federação Francesa de Râguebi e a embicar o galo para a capital do país com quem íamos jogar. Ou seja, na véspera, à noite, virávamos o bico do galo para a zona do país que íamos defrontar. Punhamos os autocolantes e voltávamos o galo. A federação francesa não achava muita piada aquilo, então eu deixava lá uma pessoa para ver se eles não mexiam no galo antes do jogo. Aquilo começou a ser uma superstição. Achávamos imensa piada.

O Europeu acabou, viemos para Portugal. A seguir ia disputar-se os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro e a França tinha duas equipas de râguebi apuradas. Quando menos esperava, alguém da Federação de Râguebi Francesa ligou-me a perguntar: Ó Carlos, como é que vocês faziam aquilo do galo? Ou seja, eles não tinham achado nenhuma piada, mas começaram a acreditar numa coisa que não tem pernas para andar, mas pronto, está na nossa cabeça.

Curiosidades

O William Carvalho perdeu a medalha, pensa ele que foi no autocarro, nunca mais apareceu, tivemos que pedir à UEFA uma segunda medalha para ele. O Eliseu disse que quando acabássemos o Campeonato da Europa levava para casa a decoração que tínhamos no corredor que ia dos quartos para a sala de jantar; aquelas fotos dos jogadores em situação de festa, em situação de alegria, mas coletiva.

E ele levou mesmo aquilo, mandou embrulhar tudo e levou. Dizia que era para a garagem dele.

A saída da federação

Eu saí no último jogo da seleção da qualificação para a Liga das Nações, em 2024, no jogo com a Croácia. Exatamente 50 anos depois de ter entrado na FPF. No dia 18 de novembro de 1974 entrei na FPF e saí no dia 18 de novembro de 2024. Era um acordo que tinha com o Fernando Gomes, quando ele saísse eu também sairia, apesar de ele ter-me colocado à vontade para eu continuar, mas eu disse que estava irredutível. Já não me sentia confortável em continuar.

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