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Inglaterra-Argentina: uma rivalidade com tons de Malvinas, Maradona e choque cultural (e Messi em estreia)

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Inglaterra-Argentina: uma rivalidade com tons de Malvinas, Maradona e choque cultural (e Messi em estreia)

Camisolas da Argentina e de Inglaterra e, atrás, o golo de Maradona com a mão em 1986
Camisolas da Argentina e de Inglaterra e, atrás, o golo de Maradona com a mão em 1986
Yui Mok - PA Images

Pela primeira vez em mais de 20 anos — e pela primeira vez a eliminar no século XXI — ingleses e argentinos medirão forças (20h00, Sport TV5/TVI). Inicialmente uma relação entre “mestres e aprendizes”, datada do tempo em que os britânicos levaram o futebol para as Américas, a consolidação da identidade argentina e, sobretudo, a Guerra das Malvinas levou à criação de enorme animosidade, ainda que mais sentida de um dos lados da rivalidade, que a expressa em cânticos e bandeiras

Uns quantos minutos, poucos minutos, concentraram os dois lados do génio. O rebelde, o fora da lei, o batoteiro, o esperto, segundo a interpretação de cada um, e o artista, o êxtase técnico, a perfeição, a obra de arte, na conceção de todos.

Argentina-Inglaterra, quartos de final do Mundial 1986, começo da segunda parte. Diego Armando Maradona marcou primeiro com a mão, a 'mão de deus', e depois fintando meia equipa adversária, o 'golo do século'. A mais humana das divindades, como escreveu Galeano, parte trampa, parte maravilha, demónio e anjo.

O encontro, um dos mais míticos e mitificados da história do futebol, disputou-se quatro anos depois da Guerra das Malvinas, ou Falkland. Seria o jogo mais marcante de uma rivalidade antiga, a qual teve naqueles minutos de Diego os momentos mais incríveis.

Em abril de 1982, Argentina, então governada pela ditadura militar, tomou controlo das Malvinas, localizadas diante da ponta sul do país. O Reino Unido, na posse do que para os britânicos são as Falkland, respondeu e, num conflito que durou 10 semanas, readquiriu controlo total sobre o território ultramarino, nas suas mãos desde meados do século XIX.

As feridas da guerra sentiram-se, e sentem-se, profundamente nos argentinos. A partida de 1986 foi, por isso, uma pequena vingança futebolística, com os ingredientes perfeitos: na modalidade levada para o país pelos britânicos, com uma dose de magia, outra de batota, a roçar a justiça poética.

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Quatro décadas passadas, as Malvinas marcam, ainda, o imaginário coletivo dos argentinos, o qual se transporta para o futebol e para a seleção nacional. Em 2022, na música popularizada no apoio ao conjunto que venceria o Mundial do Catar, cantava-se “pelos míudos das Malvinas que jamais esquecerei”. Agora, na versão 2026, entoa-se “por Malvinas, pelo Diego, pelo último [Mundial] do Leo”.

Da parte inglesa, a importância desta guerra é menor, talvez porque, se Buenos Aires tem nas Malvinas o seu único conflito armado minimamente recente, Londres viveu, além das duas Guerras Mundiais do século XX, as guerras do Iraque ou do Afeganistão. Seja como for, nos relvados esta é uma das maiores rivalidades do futebol global, uma que, ao contrário de outras (Brasil-Argentina, México-Estados Unidos) não se cimenta num antagonismo regional.

Em Atlanta (20h00, TVI/Sport TV5), o 15º capítulo anglo-argentino será conhecido. Nunca antes esteve algo tão importante em causa: um lugar na final do Mundial, onde aguarda a Espanha.

Colégios e caminhos de ferro

Ainda antes da independência da Argentina face aos espanhóis, declarada em 1816, já os britânicos haviam tentado invadir Buenos Aires. No entanto, com o passar dos anos do recém-soberano Estado, o Reino Unido tornar-se-ia no mais importante parceiro comercial argentino, comprando carne, financiando caminhos de ferro... e levando para o lado de lá do Atlântico um novo jogo de bola.

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O primeiro encontro de futebol em território argentino disputou-se em 1867, enfrentando duas equipas de trabalhadores de caminhos de ferro britânicos. O jogo floresceu numa Buenos Aires em crescimento no final do século XIX, apoiando-se na grande comunidade de ingleses e escoceses.

Alexander Watson Hutton, escocês, é mesmo considerado o pai do futebol argentino. Ensinou a modalidade em colégios britânicos e, em 1891, criou a liga de futebol argentino, o mais antigo campeonato fora de Inglaterra ainda em atividade, daí nascendo a AFA, a federação do país.

Nas duas primeiras décadas, os clubes britânicos dominaram as competições no país. Só que, com o pós-I Guerra Mundial, deu-se, na Argentina, uma espécie de processo de busca e consolidação da identidade nacional, como explica o autor, jornalista e historiador de futebol Jonathan Wilson em Angels With Dirty Faces, livro sobre o futebol no país.

Nos anos 20, alguns políticos e intelectuais defendiam que a alma da nação estava na Pampa, nas grandes planíceis, e nos homens que lá tinham grandes ranchos e gigantescas manadas de gado. É por isso que, de maneira algo estranha, se começam a ver indíviduos a passear por uma industrializada Buenos Aires com chapéus de cowboy, surgindo, igualmente, aqui a tradição do asado, do churrasco.

Ora, também de acordo com Wilson, este movimento chegou, igualmente, ao futebol. Entendia-se que, ao passo que os britânicos aprendiam a jogar em colégios, com amplas áreas para correr e um árbitro para interromper os desafios caso se faltasse ao desportivismo, os argentinos evoluíam nos potreros, nos terrenos baldios e abandonandos, em superfíceis irregulares, promovendo a técnica, a imaginação, o pensar rápido e fora da caixa. Nesta conceção, o futebol britânico era sobre correr, resistência e fair-play e o argentino sobre habilidade, criação e uma certa maldade de rua.

O potrero seria o habitat do pibe, um conceito muito anterior a Maradona, mas em que Diego encaixou na perfeição. O menino do bairro pobre que cresce a ter de sobreviver à base de talento, em todas as definições da palavra, talento como a forma de encontrar soluções para problemas.

É por isto que a eliminatória de 1986 toca tão fundo no coração argentino: a seleção ganhou com a mistura das qualidades cozinhadas no potrero, a técnica e a pillería, a travessura.

Lost in translation, ou o incentivo à criação dos cartões

A Argentina foi a primeira seleção que não a Escócia jogar em Wembley. Em 1951, Inglaterra venceu (2-1) um amigável que foi descrito na imprensa do país sul-americano como um embate entre “mestres e aprendizes”, entre quem criou o jogo e quem o procurou reinventar.

A estreia em confrontos em Mundiais deu-se em 1962, no Chile, com um 3-1 para os europeus na fase de grupos. Foi uma pouco sísmica ocasião, totalmente antagónica ao que seguir-se-ia.

Depois do arranque em 1962, houve mais quatro Mundiais com um Inglaterra-Argentina, todos marcantes à sua maneira. Em 1966, no campeonato que organizou, a formação europeia triunfou, nos quartos de final, por 1-0, num dia recheado de polémica.

Antonio Rattín, defesa e capitão dos sul-americanos falecido há poucos dias —, foi expulso aos 33', na sequência de duas irregularidades no espaço de três minutos. A primeira foi uma falta sobre Bobby Charlton, a segunda uma discussão com o árbitro alemão Rudolf Kreitlein. Ao receber a ordem para sair de campo, num tempo em que não havia cartões, Rattín recusou-se a abandonar o relvado, pedindo um tradutor para o ajudar a dialogar com o juiz germânico. Foi necessária a intervenção de dirigentes da FIFA, estando o jogo parado durante 10 minutos.

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A confusão, acredita-se, foi o gatilho para, no Mundial seguinte, se introduzirem os amarelos e os vermelhos. Os argentinos perderam por 1-0, com um golo de Geoff Hurst que os derrotados alegam ter sido fora de jogo. A partida, bastante dura, ficaria conhecida como “roubo do século” na imprensa da Argentina. Por sua parte, Alf Ramsey, selecionador inglês, criticaria a falta de fair-play dos argentinos, a quem chamou animais, proibindo os seus futebolistas de trocarem camisolas com os opositores.

Uma relação complexa

A Guerra das Malvinas acentuou uma animosidade já existente. Note-se como, na final da Taça Intercontinental de 1986, os jogadores do Estudiantes cometeram, na primeira mão, 35 faltas contra os do Manchester United. Na segunda mão, George Best e José Hugo Medina foram expulsos na sequência de uma zaragata. A equipa de La Plata levou o troféu e, ao tentar dar uma volta de honra em Old Trafford, foi presenteada com uma chuva de objetos vindos das bancadas.

Ainda assim, os impactos da influência inglesa do outro lado do oceano são evidentes. Os Oasis ou os Beatles são altamente populares e, no futebol, emblemas criados por britânicos (Rosario Central, Newell's Old Boys, Quilmes) não foram propriamente refundados com o passar do tempo, tal como o River Plate não apagou as marcas britânicas do seu nome.

Adicionalmente, o léxico do futebol argentino está, hoje em dia, cheio de expressões anglófonas, marcas vindas do século XIX ou da aurora do século XX que não caíram em desuso: lê-se e ouve-se regularmente córner e não saque de esquina para mencionar um canto, ”wing“ e não ”extremo“, ”offside“ e não ”fuera de juego“, ”foul" e não “falta”, "nocaut“ como corruptela de ”knockout", jogo a eliminar.

O ténis e o râguebi, outras modalidades com raízes britânicas, têm na Argentina a nação da América do Sul que mais as cultivaram. Uma vez mais: a rivalidade, mais visceralmente vivida de Buenos Aires contra Londres e não do lado europeu face ao sul-americano, não significou apagão cultural, ainda que se cante contra Inglaterra, se recorde as Malvinas e se imprimam bandeiras pouco simpáticas para monarcas ou Margaret Thatcher.

Beckham, Simeone, Verón... e Messi

Lionel Scaloni já tentou acalmar os ânimos para as meias-finais. “É só um jogo”, lembra o técnico. As autoridades de Atlanta reforçaram o policiamento, temendo o que possa suceder antes ou depois do desafio.

Depois de 1966, o choque seguinte em Mundiais foi o já referido de 1986. A Argentina venceria a caminho do seu segundo título planetário.

As duas outras versões desta contenda no torneio tiveram David Beckham como protagonista, ainda que em lados diferentes dos holofotes. Em 1998, o agora co-dono do Inter Miami foi vilão.

No Mundial de França, a primeira parte ofereceu um incrível 2-2, com Michael Owen, adolescente, a brilhar do lado inglês e o livre ensaiado apontado por Javier Zanetti a ser o ponto alto da exibição sul-americana. Já no segundo tempo, Beckham caiu numa ratoeira montada por Diego Pablo Simeone, acabando expulso, no que os argentinos consideram mais um exemplo da sua malandrice (ou esperteza) contra uma certa ingenuidade do outro lado.

Os ingleses, com menos um, aguentaram até aos penáltis, onde, como quase sempre, perderiam. Becks veria a sua cara queimada em pubs, seria assobiado em estádios na Premier League e teria um título marcante no 'Mirror' do dia seguinte: “10 leões heróicos, um rapaz estúpido.”

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Em 2002, no Japão, chegaria a redenção de David. Na fase de grupos, uma falta sobre Owen levaria Beckham para a cobrança de um penálti. O então craque do Manchester United não falhou, fazendo um 1-0 que ajudaria à eliminação precoce dos argentinos de Bielsa. O encontro, na cultura futebolística da Argentina, ficaria marcado pela péssima exibição de Juan Sebastián Verón, capitão de equipa e também do Manchester United, acusado por imprensa e jornalistas — e Maradona — de “traição” e de se vender ao inimigo.

O Mundial do Oriente foi o derradeiro precedente oficial desta rivalidade. O último jogo foi um particular em 2005, que de amigável teve pouco, com um bis de Owen, novamente Owen, a transformar uma derrota inglesa em vitória por 3-2.

Mais de 20 anos depois, o choque reedita-se. Não se disputa num Mundial há 24 anos, não é a eliminar há 28 voltas ao sol. E tem protagonista em estreia.

Por incrível que pareça, ainda há primeiras vezes para Lionel Messi. Nas 205 internacionalizações do segundo homem que mais vezes representou uma equipa nacional há espaço para três confrontos com Espanha e com França, para dois com Portugal e Itália, para um com Alemanha e Países Baixos. Inglaterra? Zero. A primeira vez será, quase certamente, a última vez. E dificlmente se imaginaria cenário mais brutal para uma partida que une história, cultura, enfim, futebol, sempre mais que futebol.

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Se aumentar o WC para 64 equipas der a oportunidade a um EUA vs. Vietnam, sou completamente a favor.

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Não sei até que ponto não preferia um Israel v Irão...

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Era as Falkland criarem uma seleccao a pressa e jogarem...bem na qualificacao Africana e vencerem um grupo com Sao Tome, Lesotho, Seychelles, South Sudan e Botswana...irem ao Mundial em 2030 e ficarem no grupo da Argentina.

Bastava o UK querer e "naturalizarem" umas dezenas de jogadores da League One ou assim...

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Citação de Burkina2008, há 2 horas:

Era as Falkland criarem uma seleccao a pressa e jogarem...bem na qualificacao Africana e vencerem um grupo com Sao Tome, Lesotho, Seychelles, South Sudan e Botswana...irem ao Mundial em 2030 e ficarem no grupo da Argentina.

Bastava o UK querer e "naturalizarem" umas dezenas de jogadores da League One ou assim...

Quando estava a viver em Jersey, vi um jogo ao vivo no Island Games entre Shetland e Falkland islands. Curiosamente, o melhor jogador das Falkland era argentino.

https://www.international-football.net/country?team=Falkland Islands

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