Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Lebohang

[SL Benfica] Homenagem a Figuras Históricas do Clube

Publicações recomendadas

espiritosanto5psv9.jpg

 

Nome Completo: Guilherme Santa Graça ESPÍRITO SANTO

Posição: Extremo Direito / Avançado Centro

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 30-08-1919

Data de Falecimento: 25-11-2012

Número da Camisola: 7

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 14

Total de Jogos pelo Benfica: 211

 

Títulos pelo Benfica:

 

4 Campeonatos Nacionais (1936/37, 1937/38, 1944/45 e 1949/50)

3 Taças de Portugal (1939/1940, 1943/44 e 1948/49)

1 Campeonato de Lisboa (1939/40)

 

Percurso como jogador: Benfica de Luanda (1943/35 a 1935/36) e Benfica (1936/37 a 1949/50)

 

Palmarés: 4 Campeonatos Nacionais (1936/37, 1937/38, 1944/45 e 1949/50), 3 Taças de Portugal (1939/1940, 1943/44 e 1948/49) e 1 Campeonato de Lisboa (1939/40).

 

| Notícias |

 

Morreu Espírito Santo, antiga "glória" do Benfica

 

Espírito Santo, que foi quatro vezes campeão nacional pelo Benfica, nas épocas de 1936-37, 1937-38, 1944-45 e 1949-50, destacou-se pelo seu ecletismo enquanto atleta, chegando a ser praticante de atletismo. Como futebolista do Benfica, com a alcunha de “pérola negra”, fez 207 jogos e marcou 147 golos, entre quatro competições: campeonato nacional, campeonato de Lisboa, campeonato de Portugal e Taça de Portugal. Na selecção portuguesa, teve oito internacionalizações, estreando-se em 28 de Novembro de 1937, em Vigo, num jogo em que Portugal bateu a Espanha por 2-1.

 

No atletismo, chegou a ser recordista nacional de salto em altura, comprimento e triplo salto, conquistando também aqui vários títulos de campeão nacional nas três especialidades, e muito mais tarde praticou ténis. A chegada à pista de atletismo por parte do antigo jogador aconteceu quase por acaso, quando Espírito Santo, durante um treino da equipa de futebol, saltou um obstáculo para ir buscar a bola e um grupo que praticava atletismo ficou impressionado. Na ocasião saltara 1,70 metros, uma marca que ninguém conseguia naquele tempo.

 

O seu ecletismo e comportamento valeram-lhe em 1999 a distinção “Fair-Play” por parte do Comité Olímpico de Portugal, enquanto no Benfica recebeu o mais alto galardão da história do clube, a “águia de ouro”.

 

 

| Perfil |

 

Aquele traço afro numa cultura centenária. Que bem fica ao Benfica. Aquela multirracialidade nas suas hostes. Aquele apego aos valores da negritude. Aquele vermelho solidário. Aquela paz nos dois lados da trincheira colonial. Aquele carruagem africana de Eusébio, de Coluna, de Santana, de Rui Rodrigues, de Jordão, de Shéu, de Mantorras. Aquele precursor, Guilherme Espírito Santo – a Pérola Negra.

 

De ascendência angolana, nasceu em Lisboa, menos de um anos depois de ter sido assinado o armistício que punha termos à I Guerra Mundial, de 14-18. Tinha oito anos, quando a família regressou a Luanda, na expectativa de melhorar as condições de vida. Cedo se iniciou no futebol, jogando em meados dos anos 30 na filial luandense do Benfica. “Sou benfiquista desde os três anos. Havia na altura uns maços de tabaco com as figuras dos jogadores da época. Eu gostava especialmente do Vítor Silva e foi a partir dessa altura que fiquei a torcer pelo clube”.

 

Como ninguém resiste à usura do tempo, haveria Espírito Santo de substituir Vítor Silva no eixo do ataque do Benfica. Ele que, regressado a Lisboa, já amigo de Peyroteo, passou a equipar de rubro, a partir de 36/37. Era ágil e rápido. Subtil também. Atributos que disfarçavam uma compleição meã. Destacava-se também por um tocante fair-play. “O cavalheirismo das suas atitudes foi faceta evidenciada logo no começo da sua carreira e mantida pelo tempo adiante, com uma dignidade que era motivo de orgulho para os seus amigos e admiradores”, elogiou Ribeiro dos Reis.

 

Estreou-se em mês de vindimas, na cidade do Sado, em 1936, num embate que se inscreveu no âmbito da transferência do defesa António Vieira para o Benfica. No registo da vitória encarnada, não consta nenhum golo de Espírito Santo, que actuou na metade complementar. Mas nesse mesmo ano, um outro registo, histórico e até à data imbatível, dá conta dos nove golos (!) que apontou no triunfo (13-1) sobre o Casa Pia. Um triplo hat-trick produzido por um temível goleador.

 

Foi ao FC Porto que mais golos marcou ao longo de 12 temporadas no Benfica. Duas dúzias de vezes obrigou os guarda-redes portistas a olharem com desalento para o fundo das redes. No final da década de 30, numa meia-final da então menina Taça de Portugal, no Estádio do Lima, o Benfica perdeu (6-1) com o FC Porto. Na segunda mão, no Campo das Amoreiras, o triunfo (6-0) foi retumbante. Espírito Santo marcou dois golos e, naquele que terá sido um dos seus melhores recitais, outros golos poderia ter marcado se o jogo não durasse apenas 75 minutos, porque os portistas, humilhados, decidiram… abandonar o campo.

 

Fez 199 golos em 285 jogos. Esteve duas temporadas sem actuar (41/42 e 42/43), vitima de um grave problema de saúde, que degenerou numa inflamação dos pulmões. Quando regressou, sem prejuízo das suas faculdades, enveredou pelo posto de extremo-direito, optimizando a sua velocidade. Ele que se destacou também no atletismo. “Estava num treino e a determinada altura a bola saiu do campo, fui a correr apanhá-la e sem dar por isso saltei uma barreira de salto em altura. Estava a 1,70 metros e ninguém tinha conseguido fazê-lo”. Não enjeitou o convite para incursão fazer no atletismo. Bateu o recorde nacional, com 1,80 metros, só ultrapassado vinte (!) anos mais tarde. Foi ainda campeão nacional de salto em comprimento e triplo-salto. “Deve ter sido porque em Angola fui mordido por um macaco”, diz meio a sério, meio a brincar.

 

Oito vezes internacional, venceu dois Campeonatos da I Liga, dois Nacionais e três Taças. Nessa época, o despique Benfica-Sporting era muito também o despique Espírito Santo-Peyroteo. “O Guilherme sempre foi melhor jogador de futebol que eu: mais técnica, mais jogo. Menos prático, menos golos, etc.? Sim, também é verdade. Mas mais jogador”. Com a humildade que caracterizava os melhores, era assim Peyroteo, na primeira pessoa do singular.

 

Atleta eclético, jogador à Benfica, Guilherme Espírito Santo unia, não dividia. “Naquele tempo, existiam alguns preconceitos por causa dos jogadores de cor. Um dia, em 1947, num hotel da Madeira, queriam colocar-me num anexo por ser negro. Os jogadores do Benfica disseram que para onde eu fosse eles também iam. E acabamos todos no anexo”. Nesse momento, num outro jogo, perdeu o repugnante racismo, venceu o multirracial Benfica. Assim foi sempre doravante.

 

Águia de Ouro, prémio Fair Play do Comité Olímpico Internacional, Guilherme Santana da Graça Espírito Santo, já octogenário, é o decano dos jogadores do Glorioso. Presidente das comemorações do Centenário, ele simboliza a generosidade misturada com a paixão sem limites e uma longa modéstia, que só os grandes possuem. Com o Benfica, pelo Benfica.

 

Texto: Memorial Benfica, 100 Glórias

 

Em nome do Pai, do Filho e do…

 

Guilherme Espírito Santo nasceu em Lisboa, de ascendência angolana. Aos oito anos, a família regressou a Luanda e aí começou a jogar futebol e viver aquela magia que em África anda a par do desporto. De águia ao peito. Jogou no Benfica de Luanda nas épocas de 1934/35 e 1935/36, antes de regressar a Portugal para desenvolver a sua arte.~

 

Espírito Santo concentrara no corpo de gazela um dom inato para o desporto. Foi grande no futebol, deixou em delírio grandes multidões, mas certo dia, em entrevista concedida ao Jornal A Bola , admitira que não fora no desporto-rei que vivera o momento mais emocionante do seu percurso desportivo. Aconteceu numa competição com os espanhóis do SEU, a primeira vez que Espírito Santo defrontava estrangeiros, em Agosto de 1940. Nessa reunião bateu o recorde ibérico do salto em altura, com a marca de 1,88 metros. Um êxito estrondoso, muito festejado no Estádio das Salésias. A marca resistiu 20 anos como melhor marca nacional.

 

Viveu com êxito para o êxito. Espírito Santo estreou-se pelo Benfica em 20 de Setembro de 1936 , em Setúbal. Os benfiquistas venceram por 5-2 mas não marcou nenhum golo. Raridade. Mas, no Campeonato de Lisboa, seria autor da proeza histórica marcando nove dos treze golos na goleada ao Casa Pia.

 

Pérola Negra lhe chamaram. Arrebatadora paixão pelo atleta perfeito que o sangue quente de Angola ajudou a moldar. Por esse tempo, a revista Stadium promoveu uma votação destinada a eleger o desportista mais popular. Ganhou Espírito Santo, o futebolista e saltador.

 

O povo venerou-o, partilhou com ele alegrias de grandes feitos, festejou com ele golos atrás de golos. Sofreu quando o viu sentir as agruras da vida, como quando o seu palmarés fora afetado pelos períodos de doença que o afastaram do desporto e, por isso, não consta da lista de campeões nacionais de 1941/42 e 1942/43.

 

Nessa época fez jogos dispersos, mas para merecer o título de campeão, pelos regulamentos da FPF, era preciso somar um certo número de jogos. Ora, Espírito Santo nem sequer pôde estar presente na inauguração do Campo Grande, a 5 de Outubro de 1941, ele que vivera uma época em que o Benfica sofria com a falta de um terreno próprio.

 

Em 8 de Dezembro de 1949, com 30 anos, despediu-se da atividade. Tinha sido um campeão de atletismo e um futebolista de exceção. Os desportistas portugueses admiravam-no porque aquele homem bem formado sempre tivera vontade imensa de vencer, de conquistar títulos, mas cultivava o fair-play como valor intrínseco.

 

Dele disse Ribeiro dos Reis: “O cavalheirismo das suas atitudes foi faceta evidenciada logo no começo da sua carreira e mantida pelo tempo adiante, com uma dignidade que era motivo de orgulho para os seus amigos e admiradores.”

 

Na história fica uma apaixonante rivalidade com Fernando Peyroteu, que conhecera ainda em Angola. Jornalistas e público consumiam-se em acesas discussões. Qual deles era melhor jogador: Espírito Santo, com o seu estilo ágil e hábil, ou o violino, espantoso rematador e jogador de formidável arcaboiço?

 

Exatamente no dia da consagração de Guilherme Espírito Santo, Peyroteu dá resposta que traduz a dignidade daqueles homens. Com desassombro: “Ora todos sabem o que se passou depois dos primeiros pontapés que dei na bola. Ficou famoso o duelo Espírito Santo-Peyroteu. Gastaram-se rios de tinta, manifestando uns a opinião de que Espírito Santo era melhor do que eu; outros pensando o contrário. As opiniões dividiram-se, mas a verdade é que a corrente mais favorável pendia para Espírito Santo, com inteira justiça. O Guilherme sempre foi melhor jogador de futebol do que eu: mais técnica, mais jogo. Menos prático, menos golos? Sim! Também é verdade! Mas mais jogador! Esta polémica não alterou em nada a amizade que nos uniu. Antes pelo contrário, foi um elo para a manter firme.”

 

Texto: A Bola, 60º Aniversário

 

 

| Imagens |

 

esanto2.jpg

 

Compartilhar este post


Link para o post

julinho7quwo.jpg

 

Nome Completo: Júlio (JULINHO) Correia da Silva

Posição: Ponta de Lança

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 01-12-1919

Data de Falecimento: 18-03-2010

Número da Camisola: ?

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 10

Total de Jogos pelo Benfica: 200

 

Títulos pelo Benfica:

 

1 Taça Latina (1949/50)

3 Campeonatos Nacionais (1942/43, 1944/45 e 1949/50)

2 Taças de Portugal (1942/43 e 1943/44)

 

Percurso como jogador: Boavista (1936/37 a 1939/40), Académico FC (1940/41 a 1941/42) e Benfica (1942/43 a 1952/53)

 

Palmarés: 1 Taça Latina (1949/50), 3 Campeonatos Nacionais (1942/43, 1944/45 e 1949/50) e 2 Taças de Portugal (1942/43 e 1943/44)

 

| Notícias |

 

Do Bessa para Lisboa

 

O Portuense Júlio Correia da Silva começou a carreira no Boavista antes de mudar para o Académico do Porto. Em 1943 abandonou a sua cidade natal para ir vestir a camisola do Sport Lisboa e Benfica, a troco de 25 contos para o Académico e dez de “luvas” para o próprio Julinho.

 

Iniciaram-se então onze anos de águia ao peito, com muitos golos e vitórias, três Campeonatos Nacionais, duas Taças de Portugal e uma Taça Latina.

Julinho, como era conhecido pelos adeptos, marcou 202 golos em 200 jogos pelo Benfica, uma marca impressionante, mesmo tendo em conta a época em que tais números foram atingidos; tendo ainda vencido o prémio de melhor marcador por duas vezes: 1942/43 e 1949/50.

 

Num tempo em que não havia substituições, e muitos poucos encontros internacionais eram disputados, pois a II Guerra Mundial parou o futebol na Europa entre 1939 e 1945, Julinho vestiu apenas por uma vez a camisola das quinas, acabando por viver à sombra desse monstro sagrado do futebol que era Fernando Peyroteo, autor de 529 golos em 327 jogos com a camisola do rival Sporting.

 

Dois dias para a história

 

Seria muito por causa de dois jogos que Julinho ficaria na história do futebol português: o primeiro foi no dia 7 de Fevereiro de 1943 quando o Benfica recebeu e venceu o FC Porto por 12-2 na maior vitória de sempre sobre os rivais nortenhos; Julinho não foi nada meigo para os seus conterrâneos e apontou cinco dos doze golos com que os encarnados cilindraram os portuenses. Jogaram-se então não um, mais dois desesperantes prolongamentos de 30 minutos, e quando os jogadores de ambas as equipas literalmente se arrastavam pelo campo, Julinho fez aos 146 minutos o golo que deu a Taça Latina ao Benfica, e a primeira grande vitória da história ao futebol português.

 

Três anos depois, o herói da Taça Latina despediu-se do Sport Lisboa e Benfica e do futebol, defrontando o Belenenses, que curiosamente tinha sido o primeiro adversário que tinha encontrado quando se estreou com a camisola das papoilas saltitantes.

 

O segundo jogo marcante da carreira de Julinho foi disputado no Estádio Nacional em Lisboa no dia 18 de Junho de 1950. Após um empate a 3-3 no primeiro jogo, Benfica e Bordéus tiveram que disputar um jogo de desempate para se encontrar o vencedor da Taça Latina. Os franceses estiveram em vantagem desde os 8 minutos até que Arsénio empatou o jogo aos 90 minutos.

 

Fonte: Zerozero

 

 

| Perfil |

 

O golo de Julinho, no segundo prolongamento da Taça Latina, em 1950, merece ser elencado no topo da hierarquia das glórias benfiquistas. Afinal, garantiu o primeiro grande triunfo internacional de uma equipa portuguesa, na altura em que parecia ser de anos-luz a nossa distância relativamente ao que de melhor se fazia na Europa.

 

Júlio Correia da Silva nasceu em Ramalde, no Porto, a 1 de Dezembro de 1919. A sua afabilidade valeu-lhe, desde cedo, o diminutivo de Julinho. Começou no Boavista, clube que representou durante seis temporadas, no termo das quais passou a exibir os seus dotes no Académico. Era um goleador inveterado.

 

Ao cabo de duas épocas mudou-se para o Benfica. Recebeu dez contos, enquanto o grémio nortenho foi premiado com 25 notas de mil. À época a transação pareceu elevada, ainda que o FC Porto até se tenha disponibilizado para gastar o dobro. Para não variar, o conhecido Necas Maneta, espinha cravada na garganta dos portistas, ele que já havia desviado Francisco Ferreira para o Benfica.

 

No gozo da indumentária rubra, Julinho integrou a famosa linha ofensiva conhecida por Cinco Diabos Vermelhos, ao lado de Mário Rui, Arsénio, Espírito Santo e Rogério.

 

Logo na estreia, o Benfica garantiu o seu primeiro duplo na história, com o novo recruta a situar-se no cimo da lista de melhores marcadores, mercê do registo de 24 golos em 16 jogos. A façanha viria a ser reeditada, em 1950, ano da conquista da Taça Latina.

 

Julinho tinha na grande área o curto território das suas batalhas, às quais emprestava raro sentido de orientação pelos ainda mais estreitos atalhos. Era perito a desviar as sentinelas e a desferir o golpe fatal. Sempre intrépido e persuasivo, conquistou três Nacionais e seis Taças de Portugal, chegando à Selecção, numa altura em que a concorrência era feroz na sua posição. Chegou a ser o melhor goleador de sempre do Benfica. Hoje, meio século após se ter despedido da competição, ainda figura no top tem, creditado na sétima posição. Facturou 272 vezes nos 269 jogos oficiais e particulares em que interveio.

 

Cumprimentou a massa simpatizante do Benfica, pela derradeira vez, no Dia de Portugal do ano de 1953. Os aplausos ainda parece que se ouvem tal como se veem os seus golos. É que Julinho perdura no horizonte vermelho.

 

Fonte: Sport Lisboa e Benfica: 100 gloriosos anos

 

 

| Imagens |

 

 

Compartilhar este post


Link para o post

josguas1tls85.jpg

 

Nome Completo: JOSÉ Pinto de Carvalho Santos ÁGUAS

Posição: Ponta de Lança

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 09-09-1930

Data de Falecimento: 11-12-2000

Número da Camisola: 9

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 13

Total de Jogos pelo Benfica: 381

 

Títulos pelo Benfica:

 

2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62)

5 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1959/60, 1960/61 e 1962/63)

7 Taças de Portugal (1950/51, 1951/52, 1952/53, 1954/55, 1956/57, 1958/59 e 1961/62)

 

Percurso como jogador: Lusitano Lobito (1948/49 a 1949/50), Benfica (1950/51 a 1962/63) e Áustria FK (1963/64)

 

Palmarés: 2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62), 5 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1959/60, 1960/61 e 1962/63) e 7 Taças de Portugal (1950/51, 1951/52, 1952/53, 1954/55, 1956/57, 1958/59 e 1961/62)

 

Percurso como treinador: Atlético CP (1967/68), Leixões (1968/69 a 1969/70) e Oriental (1971/72)

 

Palmarés: 1 II Divisão (1967/68)

 

| Perfil |

 

Nasceu em Luanda, mas cedo chegou ao Lobito. O pai, de nome Raul, por África diligenciava conforto para o clã Águas. Mais tarde, pouco mais, já viúva, a mãe, desfeita em preces, aos filhos pediu privações. Logo, José Águas, com apenas 15 anos, dactilógrafo se fez na Robert Hudson, empresa concessionário da Ford, que os tempos, esses, de suave nada tinham. Tornou-se jogador da equipa da firma. Instintos revelados, passou a representar o Lusitano do Lobito.

 

Nasceu benfiquista por influência paterna. Da então metrópole chegavam noticias de uma equipa que a Taça Latina havia ganho. Um poster, já amarelo de gasto, devotadamente colocado no quarto, inspirava o jovem, numa altura em que até nem se (re)via no meio daquelas estrelas, sobretudo Rogério e Julinho, para ele as mais cintilantes. Menos ainda cogitaria José Águas a hipótese de alguma vez defrontar semelhante naipe de campeões. Enganou-se.

 

Ainda o júbilo pela arrebatante vitória sobre o Bordéus animava as hostes do Benfica, já a equipa peregrinava por África. No Lobito, uma selecção local constituía um dos cartazes. Quando soube que havia sido seleccionado, José Águas sentiu um frémito e tardou a recompor-se. Custa até imaginar como ficou depois do jogo, que venceu por 3-1, com dois tentos da sua lavra, quando os dirigentes benfiquistas lhe pediram para passar no hotel, depois daquele feito perene, intrigante para Ted Smith, treinador inglês do Benfica.

 

O FC Porto, por telefone, depressa convidou José Águas para férias fazer na Invicta e… treinar-se na Constituição. “Amanhã respondo”, terá dito e desligado de seguida. Só que o amanhã chamou-se mesmo Benfica e vezes sem conta olhou, sempre de soslaio, por timidez até na intimidade, a moldura que lhe dava vida ao quarto, onde só mais uma noite passou a sonhar com delicias garridas. Contrato rubricado e com os novos companheiros partiu à conquista de outras paragens africanas.

 

Chegou a Lisboa no dia 18 de Setembro de 1950. Na Tapadinha se estreou. Nunca tinha visto um campo relvado, botas de pitões também não. Com apenas um treino realizado, o debute nada teve de auspicioso. Empate a duas bolas com o Atlético, sem que os créditos de goleador fossem exibidos. Mas antes que as criticas subissem de tom, na ronda imediata, com o Sporting de Braga, no Campo Grande, quatro golos marcou, num invejável 8-2.

 

Pelo Benfica, José Águas viveu muitos anos em que a fábula e a realidade pareceram caminhar de mãos dadas. Cansou-se de vencer, de marcar, de contagiar. Foi ele, é ainda, a papoila mais saltitante do hino de Piçarra ou o melhor intérprete do jogo aéreo que o Benfica alguma vez teve. E Portugal também. É o segundo melhor marcador da história encarnada, depois de Eusébio. Só Eusébio, de resto, poderia relativizar José Águas. Mais ninguém!

 

Atravessou toda a década de 50 em sistemática laboração pelo golo. Fixou-se no topo dos marcadores em cinco ocasiões. Levantou, triunfante, na qualidade de capitão, as duas Taças dos Campeões, sendo mesmo o artilheiro-mor da primeira. Nos Nacionais, apontou mais golos (290) do que jogos efectuou (282). Já não esteve presente na terceira final europeia, por opção do chileno Fernando Riera. “Algum tempo depois, pediu-me desculpas por não me ter colocado a jogar. Disse-lhe que até ficaria satisfeito com os golos de Torres. Era a verdade, era a voz do meu coração de benfiquista, mas Fernando Riera parece não ter ficado muito convencido”. Nem os adeptos com… Torres.

 

Pela equipa nacional, 11 golos marcou em 25 jogos. Apreciável registo, em tempos marcados ainda por um certo complexo de inferioridade, que não poucas vezes encolhia, amarfanhava mesmo, os nossos melhores atletas.

 

Ainda no apogeu, José Águas fez uma revelação surreal. Confessou que vestia o traje de futebolista com “o mesmo espírito com que o operário veste o fato-macaco”, porque era assim que ganhava a vida, já que até “não gostava de jogar à bola”. E se gostasse? Dele, sempre gostaram os benfiquistas, numa divida imorredoura de gratidão.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

O pai chamava-se Raul. Era daqueles homens que foram para o Sul de Angola em busca de horizontes mais largos para a vida e logo se apaixonaram pela terra quente sempre a cheirar a sonho. Trabalhava muito, não lhe faltando tempo para se dedicar ao boxe. Para criar a prole, a mãe, que tão cedo enviuvara, teve de pedir sacrifícios aos filhos. Por isso, aos 15 anos, José Águas empregou-se como dactilógrafo na Robert Hudson, empresa de venda de automóveis Ford. Para a equipa de futebol da companhia entrou de imediato, que havia muito que o jeito se lhe notara. Pouco depois estava a jogar no Lusitano do Lobito.

Os seus ídolos eram, então, Rogério e Julinho. O Benfica uma parte de si, do seu coração. Por isso, quando os benfiquistas ganharam a Taça Latina mandou comprar um poster da equipa, que, garbosamente, afixou no seu gabinete de trabalho. Não imaginara, sequer, que pouco depois jogaria com eles. Mais: que lhes ganharia.

 

Após a conquista da Taça Latina o Benfica partiu em digressão por Angola. Ao Lobito foi jogar com uma selecção do distrito. Quando soube que fora um dos seleccionados para defrontar o Benfica José Águas ficou por minutos em silêncio — como se tivesse descoberto o caminho para um paraíso qualquer e isso lhe arrebatasse a voz. Imagine-se, então, o que sentiria naqueloutra tarde mágica em que a sua equipa bateu o Benfica por 3-1, com dois golos seus, e os dirigentes benfiquistas lhe pediram, entusiasmados, que passasse pelo hotel onde estavam hospedados, ao fim do dia. O F. C. Porto acenara-lhe com convite para testes na Constituição. Pagavam-lhe as passagens de Angola a Portugal. Poderia vir de férias. O canto da sereia não o empolgou. Ainda se fosse o Benfica... Por delicadeza respondera com uma desculpa esfarrapada, prometendo que talvez no ano seguinte. Mas quando Francisco Retorta lhe perguntou se gostaria de jogar no Benfica, José Águas vibrou como se tivesse ganho a lotaria. Assinou logo contrato e pelo Benfica jogou os restantes jogos na digressão angolana. Chegou à Portela a 18 de Setembro de 1950, estreando-se a 24, contra o Atlético. Não foi promissora a estreia. «Quando me deram as botas com pitons foi uma surpresa. Nunca tinha visto tal. Só com travessas. E bem mais surpreendente foi jogar na relva. «Senti-me tão pequenino e tão desorientado que tive vontade de chorar e de pedir que me tirassem dali, que me mandassem de volta ao Lobito.» Jogou mal. Mas oito dias volvidos, com quatro golos ao Braga, conquistou, definitivamente, o coração dos benfiquistas. O Benfica ganhou por 8-2 e nesse dia mostrou à saciedade e à sociedade o jogador que de facto era — não um daqueles aríetes que tentavam furar a defesa adversária em jeito de cunha, valendo-se para o efeito dos seus recursos físicos, mas um avançado-centro habilidoso, com uma extraordinária souplesse de movimentos e um poder de salto que lhe permitia chegar (tantas vezes com sucesso) às bolas altas em pleno coração da área.

 

Nesse tempo Águas ainda não bebia vinho. Por isso os companheiros chamavam-lhe... Águas do Castelo. Gostava de ir para os jogos de chapéu de aba alta. Um dia, antes de uma partida com o Sporting, os colegas queimaram-no, no balneário. Eram as tradicionais partidas ao caloiro.

 

As garrafas de vinho verde...

 

Trabalhou com Otto Glória, trabalhou com Béla Guttmann. Talvez o austro-húngaro tenha despertado em si maiores fascínios. Apesar da sua fama de treinador sempre de chicote na mão. A propósito desse jeito quase pretoriano de comandar homens, uma história deliciosa, pouco antes daquele dia de sonho em que José Águas se tornaria o primeiro português a tocar, com os olhos humedecidos de emoção, na Taça dos Campeões. O Benfica, ainda sem Eusébio, ganhara ao Ujpest, que representava meia selecção magiar, por 6-2. Mas Guttmann apenas permitiu que os seus pupilos deixassem o estágio no outro dia às oito da manhã, dizendo que para se ser campeão da Europa eram precisos muitos sacrifícios. Como nenhum director se encontrava, então, no Lar dos Jogadores, José Águas, na sua condição de capitão de equipa, pediu ao mordomo que mandasse buscar uns borrachinhos para uma petiscada, que na terça-feira contaria tudo a Guttmann. Encomenda feita, vieram os pombinhos e... seis garrafas de vinho verde. «Depois de comer tivemos o cuidado de embrulhar os ossinhos, tudo muito bem arrumadinho. As garrafas vazias ficaram em cima do armário. E aí é que foi o diabo! Sempre a tomar conta da situação, às sete da manhã do dia seguinte virei-me para o Cavém, que usava um malão para transportar os equipamentos, e pedi-lhe que metesse as garrafas no saco e as levasse para casa. Mas ele, de tão ensonado, esqueceu-se. Na terça-feira, Guttmann perguntou-me o nome dos jogadores que haviam estado na festança e avisou logo que estavam multados em mil escudos. E ficou pior quando soube que o Cruz, de quem ele gostava muito, também fazia parte do rol. Ele, eu, o José Augusto, o Cavém e o Costa Pereira. Por mais que lhe jurasse que lhe contaria tudo, não perdoou um tostão à multa. Depois de muito suplicar, apenas aceitou que o castigo não ficasse afixado no placard, para que os miúdos não vissem. Mas nenhum de nós lhe levava a mal ser assim. Porque sabíamos todos que o que Guttmann queria era a glória do Benfica e o sucesso de todos nós.»

 

«Doping» era... brande

 

De Béla Guttmann se foi dizendo, pelo tempo fora, que, mais que o controlo policial até dos sentimentos dos jogadores, o seu sucesso se fazia, perversamente, através de doping dissimulado em chávenas de chá quente. Para José Águas isso são mentiras mil vezes repetidas até parecerem verdades falsas. «Ainda hoje seria capaz de pôr as mãos no fogo por Guttmann. As nossas vitórias são limpas, limpas como a água mais pura. O nosso doping era outro... Por exemplo, antes da final com o Barcelona, quando ganhámos a primeira Taça dos Campeões, tive um descuido, a sonhar, depois de 11 dias em estágio sem relações sexuais. Desabafei com o médico do Benfica, Sousa Pinho, que me disse que falasse com ele antes do jogo. Assim fiz. Levou-me ao bar e mandou vir um café e um brande. Foi o meu doping...»

 

Não gostava de jogar à bola...

 

Depois das vitórias de Berna e Amesterdão, ambas como capitão de equipa, José Águas ainda esteve, em 1963, em Londres, na terceira final consecutiva do Benfica na Taça dos Campeões Europeus. Guttmann já lançara a maldição e Riera fora a primeira vítima disso. Contra o Milan, o chileno decidiu lançar José Torres em vez de Águas, que assim, com alguma surpresa, foi para o banco de suplentes. «Algum tempo depois Riera pediu-me desculpa por não me ter colocado a jogar. Disse-lhe que quando me afastou da equipa já tinha contrato para ir para a Áustria, onde ganharia umas centenas largas de contos e até ficaria satisfeito com os golos de Torres. Era verdade, era a voz do meu coração de benfiquista, mas Fernando Riera parece não ter ficado muito convencido...»

 

Da Áustria voltou mais rico. Ainda foi para o Atlético. Como treinador. E, com Matateu na sua equipa, conquistou o título de campeão nacional da II Divisão. Mas não quis seguir a carreira de treinador por muito mais tempo. Preferiu continuar vendedor de automóveis. Aliás, não foi muito de admirar, já que, no seu período áureo, confidenciara que vestia o equipamento de futebolista com «o mesmo espírito com que um operário veste o facto-macaco», porque era assim que ganhava dinheiro e porque «não gostava de jogar à bola».

 

Fonte: A Bola: "100 figuras do futebol português"

 

 

| Vídeos |

 

 

 

Parte

,
e

 

Compartilhar este post


Link para o post

germanobly9m.jpg

 

Nome Completo: GERMANO de Figueiredo

Posição: Defesa Central

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 23-12-1932

Data de Falecimento: 14-07-2004

Número da Camisola: 6

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 7

Total de Jogos pelo Benfica: 131

 

Títulos pelo Benfica:

 

2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62)

4 Campeonatos Nacionais (1960/61, 1962/63, 1963/64 e 1964/65)

2 Taças de Portugal (1961/62 e 1963/64)

 

Percurso como jogador: Atlético CP (1951/52 a 1959/60), Benfica (1960/61 a 1966/67) e Salgueiros (1966/67)

 

Palmarés: 2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62), 4 Campeonatos Nacionais (1960/61, 1962/63, 1963/64 e 1964/65) e 2 Taças de Portugal (1961/62 e 1963/64)

 

| Notícias |

 

Foi no Benfica (1960-61 até 1965-66) que atingiu os píncaros da fama. Era um verdadeiro comandante da equipa, com visão exacta da melhor estratégia a seguir.

 

Defesa central de excelente domínio de bola, distribuía-a aos médios e avançados com admirável rapidez e precisão e a elegância de quem sabe o que faz e o que deve fazer.

Logo em 5 de Janeiro de 1961, a revista inglesa “Football Magazine” considerava Germano o 3º melhor defesa da Europa. O RECORD no seu livro “100 Melhores do Futebol Português” entende que Germano foi “o mais completo jogador de futebol que Portugal conheceu”.

 

No entanto, Germano trazia consigo um coração todo feito de amargura. Tinha 11 anos quando o pai faleceu. Três anos depois, é a morte da mãe. Para cúmulo, a saúde de Germano fora-lhe madrasta. Uma pleurisia líquida e problemas pulmonares obrigaram-no a interromper o futebol e a albergar-se no Hospital do Caramulo. Em 1956-57 não houve futebol para Germano. Na altura, era jogador do Atlético desde 1951-52. O sol brilhou, e Germano Figueiredo regressou curado. Em 57-58 voltava a jogar no Atlético, mas encontrou o clube na II Divisão. Germano dava nas vistas, e, em 58-59 o seu Atlético é campeão da II Divisão.

 

Entra no Benfica em 1960-61 e, logo nessa época, faz parte dos vencedores da “Taça dos Campeões Europeus”, tal como em 1961-62. A 27 de Maio de 1965, em S. Siro, tarde de glória para Germano. O Benfica jogava com o Inter de Milão numa final da Taça dos Campeões Europeus. Lesionou-se o guarda-redes Costa Pereira que, momentos antes, consentira um golo, vulgo “frango”. Aos 57 minutos Germano foi para a baliza. Até ao fim brilhou entre os postes e defendeu tudo. O Benfica fora derrotado, mas pela infelicidade do golo infeliz de Costa Pereira.

 

Na Selecção Nacional fez 24 jogos. Germano era um senhor.

 

Ao terminar a carreira no Salgueiros, em 1967-68, há um episódio curioso que vale a pena recordar. Era seu treinador o célebre Frederico Barrigana, ex-guarda-redes do Futebol Clube do Porto. No balneário, Barrigana, eufórico dissera: Ó Germano, lembras-te quando estávamos na Selecção... Germano, muito sereno, atalhou de imediato: “Ó senhor Barrigana, Germano, não, senhor Germano! Nós nunca estivemos juntos na Selecção. O senhor Barrigana é mais velho do que eu...”

 

Era assim o senhor Germano: um filósofo do futebol, sempre de livro debaixo do braço, pronto para ler, olhar distante fora do relvado, muito confiante nas suas ideias, não dando nenhuma confiança ao mundo que o rodeava, dialogando silenciosamente com o seu íntimo. Germano: um excelente praticante de futebol, um introvertido cheio de simpatia.

 

Fonte: Zerozero

 

 

| Perfil |

 

Quando Vinicius de Moraes escreveu “tristeza não tem fim, felicidade sim”, não consta que se inspirasse em Germano. Talvez até jamais o tivesse conhecido. Mas aquele olhar melancólico, cheio de humanidade; aquele rosto austero, anunciando à vida inclemência; aquele porte rígido, transporte de aflições ou até raivas, era Germano, personalidade singular.

 

Nos seus tempos, infanto-juvenis, logo recebeu golpes pungentes. Perdeu o pai, três anos depois a mãe, entregue aos carinhos de uma irmã mais velha ficou. Talvez por essa altura só o futebol, embrionária paixão, lhe resgatasse a alma.

 

Nasceu no pitoresco bairro de Alcântara, de raízes populares, em 1932, por coincidência ano em que Salazar iniciou funções como Presidente do Conselho. O Atlético Clube de Portugal, por quem veio a suspirar, ainda não existia, era Carcavelinhos e União de Lisboa, mais tarde sim, deu-se a fusão, nascendo uma das mais emblemáticas agremiações desportivas. Era também Carlos Baptista, o seu ídolo, de Alcântara, é claro, nele encontrou o apelo pela bola, pelo jogo, pelo futebol.

 

Em 1947, Germano começou a militar nos infantis do Atlético. Optou pela baliza, guarda-redes seduzia-o, mas o treinador, esse mesmo, Carlos Baptista, referência maior do ainda miúdo, nele achou redutor a defesa das redes e metamorfoseou-o avançado-centro. O ciclo estava, porém, incompleto. A defesa-central se quedaria. Conclusivamente.

 

Quis o destino que se estreasse na equipa de honra do Atlético e logo frente ao Benfica. Ocupou o lugar de Armindo, defesa duro e experimentado, cuja lesão obrigou Janos Biri a chamar o jovem Germano. Venceu o Benfica, por 4-3. No rescaldo, nada em desabono do debutante. Mesmo assim, foi relegado para as reservas, que a idade não ajudava. Só que na segunda volta, ainda no Campo Grande, em grande jogou, titular se afirmou, logo Salvador do Carmo o fez internacional, frente à Áustria, quando substituiu o magoado Cabrita, marcou a estrela Orkwie e, naquele empate, se afirmou em definitivo.

 

A desdita não lhe dava tréguas. Em novo suplicio mergulhou. O pré-aviso foi uma constipação. Coisa pouca parecia. Em Braga, jogou debaixo dos rigores do Inverno minhoto e sentiu-se mal no fim da contenda. Como arribou um pouco, não se demitiu de fazer a digressão pela Turquia e pela Egipto, ao serviço da equipa nacional. Seguiu-se Madrid, com a farda da Selecção de Lisboa, em jogo organizado por um tal Carmen Franco, mulher do ditador espanhol. A virose que há muito transportava revelar-se-ia, sobretudo nas horas infindas, no aeroporto da capital espanhola, com a comitiva a desesperar por um avião de regresso.

 

Já em Lisboa, enfermo, deu entrada no Santa Maria. Acusou pleurisia líquida, que curou mal, para o Sanatório do Caramulo haveria de ir, gorando-se a já acertada transferência, por 400 contos para o Atlético e 100 para Germano, a caminho de Alvalade. Ultrapassado o infortúnio, com a resposta afirmativa dos revigorados pulmões, ainda chegou a tempo de comemorar, na Tapadinha, o titulo nacional da II Divisão. E de rumar ao Benfica. Coluna, Águas, Costa Pereira, Cavém e tantos outros receberam o novel recruta sem parcimónia. Estávamos em 60/61. Campeão nacional, o Benfica preparava-se para revalidar o titulo e flores tentar fazer na Taça dos Campeões. Béla Guttmann, nesse particular, era o mais optimista.

 

Sabia-se que, um ano antes, pedira para que fosse exarado no novo contrato 200 contos de prémio em caso de triunfo na prova máxima dos clubes europeus. “Oh homem, ponha até mais 100!”, terá dito um incrédulo dirigente. Guttmann não se fez rogado. E pôs.

 

Provavelmente, terá sido essa, a de 60/61, a melhor temporada do centenário Benfica. A primeira das sete de Germano. Ao Campeonato juntou-se o maior dos desideratos, o titulo europeu. Só que a Taça falhou, porque naquele jogo com o Vitória de Setúbal, apesar de haver já Eusébio, não havia mais titulares, de partida estavam para Berna, onde o Barcelona os esperava, tudo devido a um ridículo regulamento. E ainda hoje se fala da protecção das instâncias do futebol ao Benfica. Balelas, isso sim!

 

Com um Costa Pereira seguro, um Germano imperial, um Coluna autoritário, um José Augusto estonteante, um Águas concretizador, mais os outros, todos os outros companheiros de jornadas épicas, lá foi o Benfica, para conforto nacional, ultrapassando, sucessivamente, opositores como o Hearts, o Ujpest, o Aarhus, o Rapid e o Barcelona. No Estádio Warkdorf, na Suiça, no último dia de Março de 1961, pela primeira vez uma equipa lusa arrebatava o titulo europeu. Na manhã seguinte, o Mundo acordava muito mais… português.

 

Foi uma final comovente e sortuda para o Benfica. Kubala, Kocsis e Czibor eram do melhor que até então a Europa havia visto. Germano e seus pares da defensiva, não poucas vezes, viram-se em bolandas para os travarem. Valeu a solidariedade, valeu a mística. E Germano foi dos primeiros a fazer profissão de fé.

 

No ano imediato, igual cometimento. Frente ao Real Madrid, o Benfica bisava, transformando-se na mais famosa equipa do Velho Continente. Com o inevitável concurso de Germano, com Eusébio e Simões ainda na flor da juventude. Tudo eram rosas para o central encarnado, cujo futebol, de tão perfumado, aromava todas as veredas que atravessavam a aldeia da bola.

 

Germano manteve-se imperturbável. A fama e os louvores não buliram com aquela postura característica. Continuava a cultivar a diferença. Até nos estágios, por essa altura saturantes, porque muito prolongados. Conta Eusébio que “o Germano andava quase sempre com um livro debaixo do braço, enquanto nós, nas concentrações, só líamos jornais e revista”. De tal sorte, que a língua viperina, mas carregada de humor, de Mário João, não tardou a alcunhá-lo de “Mister Book”, para insatisfação do visado. “Ainda por cima eram sempre livros com mais de 500 páginas”, completa Ângelo, sem muito puxar pela memória. Do álbum de recordações, lugar destacado para Germano. Tão igual no apego à bola, tão diferente nas (outras) opções de vida. Mas sempre simpático, que introvertido não é sinonimo de arrogante.

 

Perdida a terceira final consecutiva, frente ao AC Milan, sem Germano, sempre a padecer de lesões, afastado por Riera, a 27 de Maio de 1965 abria-se ao Benfica a hipótese de garantir o tricampeonato da Europa. Um temporal diluviano abatera-se sobre Milão, chegando a temer-se a realização do embate. O árbitro foi o suíço Gottfrield Dieusf que, um ano depois, estaria envolvido naquela controvérsia que até hoje dura, a da validação do terceiro golo da Inglaterra à Alemanha, no Mundial de 66.

 

O Inter abriu o activo, por intermédio do brasileiro Jair. Costa Pereira aprendeu talvez a dizer frango em italiano, tão mal batido foi. Abalado, macambúzio, lesionou-se e o frágil alicerce anímico insusceptibilizou também a recuperação. Foi assim que, aos 12 minutos da metade complementar, na impossibilidade de proceder a substituições, Germano calçou a luvas, ocupou lugar entre os postes e… defendeu tudo. Porém, não chegou, que a linha avançada, essa, demasiado abúlica, não conseguiu desfeitear o guardião transalpino.

 

Perdia-se assim aquela que o Benfica apelidou de taça da vergonha, disputada no terreno do adversário, coisa engendrada no silêncio dos bastidores, de nada valendo a justa contestação encarnada.

 

Durante um ano mais, Germano continuou a exibir-se ao melhor nível. Para trás ficava o calvário das lesões, que lhe havia tolhido a alma. Estávamos na antecâmara do Mundial de Inglaterra. Convocado foi e, mais importante ainda, era o capitão da equipa, sinal de incontestável liderança. Contudo, na mais brilhante operação do futebol português a nível de selecções, apenas se mostrou num jogo, o da vitória, por 3-0, com a turma nacional búlgara.

 

Quando regressou de Inglaterra, soube que estava na lista de dispensas de Fernando Riera. Apopléctico ficou, confrontada com a (má) nova. Poderia ter retaliado. Nessa altura ou mesmo pela vida fora. Mas não. Muitos anos depois, foi possível recolher-lhe uma das raras declarações, justamente sobre o homem que da Luz lhe deu guia de marcha: “Fernando Riera foi um grande treinador, uma pessoa amável, profundo conhecedor do futebol, incapaz de cometer injustiças no relacionamento com os jogadores”. Também por aqui se explica esse traço incomum do seu temperamento.

 

Ao Benfica regressaria, a meio da época 67/68, quando Otto Glória reassumiu a liderança do futebol, substituindo Riera. Integrou como adjunto a equipa técnica da final europeia, de Wembley, ante o Manchester United. Mergulhou, depois, Germano, num silêncio quase permanente. E numa ausência dolorosa até à sua morte, ocorrida, por sardonismo, no ano do Centenário. Dele ficou rico legado.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

Duas Taças dos Campeões ganhou Germano ao serviço do Benfica. Viveu também a grande epopeia do Campeonato do Mundo de 1966 e à chegada a um Portugal – um país amargurado naqueles tempos em que as suas gentes pereciam perdidas na pobreza – sentiu o significado da palavra herói. Foi assim que foi olhado. Era o maior, diziam. O Mundo nunca conhecera defesa assim.

 

Germano nasceu para o futebol na Tapadinha. Inscreveu-se nos infantis do Atlético, radiante por poder ser treinado por o seu grande ídolo: Carlos Baptista, homem que depressa percebeu que lhe chegara um diamante às mãos e depressa o transformou de guarda-redes em avançado-centro.

 

Germano haveria de estrear-se na equipa de honra do Atlético cinco anos depois de chegar à Tapadinha, numa altura em que já tinha recuado muito no relvado e actuava como defesa-central. Quis o destino que Armindo se lesionasse e fosse o jovem Germano lançado às feras. Quis o destino que o adversário fosse o poderoso Benfica. Entrou alvoraçado em campo mas saiu-se muito bem.

 

Na segunda volta voltou a defrontar os encarnados, no Campo Grande, pois por essa altura conquistara já o estatuto de titular. Foi ganhando fama. De tal forma que Salvador do Carmo o convocou para a Selecção Nacional, estreando-se em Setembro de 1953, no Jamor, frente à Áustria.

 

Talento e autoridade não lhe faltavam. Germano parecia ter encontrado o caminho do sucesso quando de pesadelo se falou. Tudo começou com uma constipação. Abatido teve de jogar em dia de temporal numa gélida tarde em Braga. Lutou muito em campo e quando tomava duche desfaleceu. Foi levado de automóvel para casa, sentiu-se melhor.

 

Dias depois foi com a equipa das Quinas jogar a Madrid. Horas de espera no aeroporto com um frio de rachar derrubaram-no. Quando chegou a Lisboa sentia-se sem forças, não parava de tossir. Foi ao Hospital de Santa Maria e internado ficou. Um mês esteve retido no leito.

 

Mal se sentiu curado correu para o campo, era a jogar futebol que se sentia bem. Mas os vestígios da doença não desapareceram e quando foi submetido a rigorosa inspecção militar descobriram-lhe problemas pulmonares. Acabou por ser internado de emergência no Sanatório do Caramulo. Por essa altura estava já acordada a sua transferência para Alvalade, mas a pretexto de tal internamento o Sporting recuou. Em má hora.

 

Voltou à Tapadinha mal sentiu que purificados estavam os pulmões e em 1959 deu o ambicionado salto para o Benfica. Começaram os dias de sonho.

 

Tornou-se bicampeão europeu ao lado de Águas, Simões, Coluna e, mais tarde, Eusébio. Outra Taça dos Campeões esteve quase a vencer, numa tarde ingrata, em San Siro, contra o Inter. Talvez tenha sido a mais injusta final da Taça dos Campeões. Tiveram os jogadores do Benfica de suportar a inclemência do tempo, um relvado quase transformado em piscina, o ensurdecedor barulho de uma multidão em transe no apoio à sua equipa na própria casa. E a adversidade, que de sorte nem ponta. Costa Pereira lesionou-se e foi Germano para a baliza do Benfica. Esteve quase uma hora a defender as redes e as esperanças lusitanas e nem um golo sofreu. No dia do regresso às origens – foi para ser guarda-redes que se inscreveu nos infantis do Atlético – a grande mágoa de ter perdido. Ele que só sabia vencer. Que venceu a doença. Que ganhou tudo…

 

Em San Siro, Germano viveria a sua última final europeia. A estrela empalidecera. Do Benfica saltaria para o Salgueiros, do Salgueiros para o Atlético, que ainda trenaria. Mas, de súbito, decidiu mudar de rumo, virar costas ao futebol. Nunca mais se viu nos locais de culto onde viveu grande felicidade e onde espalhou sorrisos entre multidões, os estádios de futebol. Parece que é assim que se sente bem o homem que não deixou o ar triste apesar da farta glória conquistada…

 

Fonte: ABola: 60 Anos

 

Compartilhar este post


Link para o post

ottoglria45pbi.jpg

 

Nome Completo: Otaviano “OTTO” Martins Glória

Posição: Treinador

Nacionalidade: Brasileiro

Data de Nascimento: 09-01-1917

Data de Falecimento: 04-09-1986

 

Épocas ao serviço do Benfica: 8

Total de Jogos pelo Benfica: 247

 

Títulos pelo Benfica:

 

4 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1967/68 e 1968/69)

5 Taças de Portugal (1954/55, 1956/57, 1958/59, 1968/69 e 1969/70)

 

Percurso como treinador: Botafogo (1948), Vasco da Gama (1949 a 1951), América FC (1952 a 1954), Benfica (1954/55 a 1958/59), CF “Os Belenenses” (1959/60 a 1960/61), Sporting CP (1960/61 a 1961/62), Marselha (1961/62), Vasco da Gama (1963), FC Porto (1963/64 a 1964/65), Sporting CP (1965/66), Portugal (1966), Atlético de Madrid (1966/67 a 1967/68), Benfica (1967/68 a 1969/70), América RJ (1970), Grémio (1971 a 1972), Portuguesa (1973 a 1975), Santos (1976 a 1977), Monterrey (1977/78 a 1978/79), Nigéria (1979/80 a 1981/82), Portugal (1981/82 a 1982/83) e Vasco da Gama (1983)

 

Palmarés: 1 Taça das Nações Africanas (1980), 6 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1961/62, 1965/66, 1967/68 e 1968/69), 6 Taças de Portugal (1954/55, 1956/57, 1958/59, 1959/60, 1968/69 e 1969/70), 1 Campeonato Paulista (1973), 1 Campeonato Carioca (1948)

 

| Perfil |

 

Neto de portugueses, nasceu no Brasil e fez história em Portugal. Comandou Benfica, Sporting, Belenenses, FC Porto e a selecção portuguesa, como treinador de campo, rumo ao terceiro lugar no Mundial de 66, tendo-lhe pertencido também o comando da selecção no inicio da qualificação para o Euro 84. É ainda o técnico com mais títulos de campeão nacional pelos benfiquistas, e só este facto serve para entrar na lista dos notáveis. Mas há mais…

 

Otto Glória chegou a Lisboa em 1954 para limpar a face ao futebol amador português. O Benfica contratou-o para profissionalizar o clube e Otto Glória revelou-se à altura do desafio. Criou o Lar do Jogador, implementou concentrações e estágios com regras rígidas (os jogadores foram proibidos de jogar cartas ou dados e de falar calão), proibiu o próprio presidente do clube (Joaquim Bogalho) de ir ao balneário ou falar com os futebolistas e introduziu a táctica 4x2x4, que já se praticava no Brasil. O novo sistema implementado – a célebre “diagonal” – que fez furor no futebol português.

 

Não era “bruxo” nem fazia milagres: a sua receita era trabalho, organização e disciplina. E um perfume de criatividade que tornou o futebol português mais bonito, mais artístico e… mais eficaz.

 

À fama de disciplinador e duro, juntava-se uma outra personalidade paternalista e humana. Aliás, essa faceta ficou bem à vista aquando da segunda passagem pelo Benfica, em 1968. Chegou a cinco jornadas do fim, foi campeão nacional e não quis ficar com o prémio de 50 contos. Propôs à Direcção que o desse, na sua totalidade, aos jogadores. “Eles é que merecem”, justificou. Ficou sem dinheiro, mas ganhou ainda mais respeito e admiração de todos. Um senhor!

 

Otto Glória conquistou quatro Campeonatos Nacionais e cinco Taças de Portugal, mas a nível europeu não foi particularmente feliz no seu regresso ao clube. Foi finalista vencido, após prolongamento (1-4), em Wembley, frente ao Manchester United de Charlton, Law e Best, na época de 67/68.

 

Otto Glória fez o primeiro jogo como treinador do Benfica a 12 de Setembro de 1954, numa vitória sobre o Vitória de Setúbal (5-0), no Jamor, tendo disputado o último jogo, a 8 de Fevereiro de 1970, numa derrota frente à CUF (0-1), no Jamor.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

Brasileiro que descobriu Portugal...

 

Otto Glória, natural do Rio de Janeiro, primeiro dos meninos do Rio como diz a célebre canção de Caetano Veloso. Foi realmente um menino do Rio que descobriu um pouco de Portugal e do seu futebol, invertendo a lógica e as orientações da História Universal.

 

Tudo porque em Portugal treinou as melhores equipas da sua altura, foi quatro vezes campeão no Benfica, outra no Sporting e arrecadou uma Taça no Belenenses. Só no FC Porto nada ganhou. Destacou-se igualmente na Selecção Nacional que dirigiu no inesquecível Campeonato do Mundo de 1966, com a conquista do terceiro lugar, o mais prestigiante de sempre de uma selecção A, a par do vice-campeonato da Europa em 2004.

 

Foi especialmente bem descrito pelo benfiquista Costa Pereira: "Otto não é um, são dois, como a personagem do romance de Daudet. A sua personalidade desdobra-se consoante as circunstâncias. Se um jogo corria mal, porque os jogadores não obedeciam às suas recomendações, insistentemente produzidas antes de ele começar, era vê-lo entrar na cabina, fulo, palavroso, iracundo, ameaçando a terra, o mar, o Mundo. Nesse momento era o Otto D.Quixote que nos surgia e cada qual procurava refúgio no recanto mais escondido. Mas quando o jogo terminava, mesmo com a derrota, e a culpa era do valor e da tática do adversário, e não nossa, então surgia o outro Otto, paternal, amigo, jovial, com uma palavra de conforto para cada um dos jogadores, um pequeno gesto de resignação e esperança, uma atitude de compreensão que nos sensibilizava e dava alento. Era o Otto Sancho, filósofo e bonacheirão..."

 

Entrou no futebol português pelo Estádio da Luz, por alturas em que o presidente era Joaquim Bogalho, líder que queria apenas treinadores da prata da casa, mas que ficara encantado com o futebol praticado pelo América, treinado por Otto, numa digressão europeia. Para Lisboa acabou por vir o brasileiro, a troco de um salário mensal de 12 contos, mais 60 de luvas e 100 contos por cada título nacional conquistado.

 

Glória tinha comportamentos marcantes e com ele chegaram ao nosso País grande parte dos primeiros métodos profissionais, de intransigente disciplina. Por isso Carlos Pinhão, no dia da morte de Otto, não deixou de sublinhar: "A revolução no futebol português começou no dia em que Glória proibiu Bogalho de ir à cabina ou simplesmente o proibiu de falar com os jogadores". Mas a contestação no Benfica aumentou assim que Bogalho saiu e Otto foi para o Belenenses, onde venceu a Taça com um golo de Matateu, que no final disse: "O Senhor Otto é bruxo!"

 

Passou depois pelo Sporting, onde voltou a ser campeão e onde se celebrizou também pela frase "Não posso fazer omeletas sem ovos". Era um poeta do futebol, com orações sempre na manga. Sempre foi desta forma: revolucionário nos costumes e nos métodos. Os sportinguistas, de resto, desconfiaram dele, de sua eventual tendência benfiquista, chamaram-lhe de melancia: verde por fora, vermelho por dentro. Saiu, mas acabaria por regressar a Alvalade.

 

Mais tarde deixou Portugal e embarcou em aventuras que chegaram a passar por trabalhos de formação de jogadores na Nigéria, ainda hoje visíveis, ou melhor, hoje mais visíveis do que então. Em 1980 colocou-se a hipótese de regressar ao Sporting. Porém recusou a proposta de João Rocha. Voltaria, isso sim, para o cargo de seleccionador, em 1983, responsável pela preparação do grupo que foi à França disputar o Campeonato da Europa. Teve, no entanto, de renunciar ao cargo, afirmando que a FPF não lhe oferecia condições.

 

Otto Glória, brasileiro que conquistou Portugal nos títulos e nas inversões de métodos, em alguns dos primeiros passos sérios que foram dados realmente para a frente. Já se falou de um Scolari parecido...

 

Fonte: ABola: 60 Anos

 

 

| Vídeos |

 

 

Parte

e

 

Compartilhar este post


Link para o post

cavmrtjb9.jpg

 

Nome Completo: Domiciano Barrocal Gomes CAVÉM

Posição: Defesa/Extremo Direito/Esquerdo

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 21-12-1932

Data de Falecimento: 12-01-2005

Número da Camisola: 4

Pé Preferido: Esquerdo

 

Épocas ao serviço do Benfica: 14

Total de Jogos pelo Benfica: 415

 

Títulos pelo Benfica:

 

2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62)

9 Campeonatos Nacionais (1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68 e 1968/69)

4 Taças de Portugal (1956/57, 1958/59, 1961/62 e 1963/64)

 

Percurso como jogador: Lusitano VRSA (1949/50 a 1952/53), Sporting da Covilhã (1953/54 a 1954/55), Benfica (1955/56 a 1968/69), Nazarenos (1969/70) e Académico de Viseu (1972/73 a 1973/74)

 

Palmarés: 2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62), 9 Campeonatos Nacionais (1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68 e 1968/69) e 4 Taças de Portugal (1956/57, 1958/59, 1961/62 e 1963/64)

 

| Perfil |

 

Ainda não estava sequer matriculado na escola primária, quando Cavem descobriu, na singela casa da família, em Vila Real de Santo António, um retrato do pai, equipado à futebolista, com uma pose de tal ordem que o puto ficou fascinado. Na génese da paixão, como tantos outros, logo se dedicou ao muda-aos-cinco-acaba-aos-dez, afigurando-se jogador de futebol.

 

Norberto Cavém, assim se chamava o procriador, havia defendido os emblemas do Lusitano de Vila Real e do Olhanense, com nota acima do suficiente. Ao ponto de chegar a treinar-se no Benfica. Na capital só não ficou porque ao bucólico chamariz da terra irresistiu. De vermelho vestiria, mais tarde, o filho Domiciano, enquanto o primogénito Amílcar, no Sporting da Covilhã, assinaria também trabalho meritório.

 

Cavém era pouco dado ao universo dos livros. Aos 14 anos, aprovado no exame da quarta classe e já a bulir nos estaleiros navais, inscreveu-se no Celeiros. Nome bizarro esse, o do pequeno clube que arraiais assentou num espaço contíguo à estação de caminhos-de-ferro, mesmo ao pé dos armazéns de cereais. Está percebido.

 

Logo chamado pelo pai, quando começou a treinar o Lusitano, cujo quadro registava a baixa, entre outros, de um tal José Maria Pedroto, a caminho de Belenenses, por imperativos militares. Não obstante o concurso de Cavem, caiu o Lusitano à III Divisão e, para o adolescente, pior ainda, o incumprimento de uma promessa de emprego.

 

Partiu para a serra. Dois anos jogou, ao lado do irmão Amílcar, no Sporting da Covilhã. Foi interior, avançado-centro e extremo-esquerdo. Trabalho é que não, tal como no Algarve, também na Beira o prometido não parecia ser devido. Contumaz, preparou-se para representar o Vitória de Setúbal, a troco também de um lugar na Câmara Municipal da terra do poeta Bocage. Só que o Benfica foi mais veloz, mostrou o pilim, conquistou Cavém e transformou-o profissional de futebol.

 

Na Luz, teve direito ao baptismo internacional, frente ao Valência. Fixou-se na equipa por mérito próprio, ainda que a lesão de Fialho abrisse uma vaga na ala esquerda do comando de ataque. De 56 a 69, o Benfica foi a sua vida. Ele que até era sportinguista, sem que saiba bem porquê, ao longo de 14 épocas incorporou o esquadrão rubro. Fez mais de 400 jogos, ultrapassou a centena de golos. Começou a extremo, médio se fez, terminou defesa, indistintamente à esquerda ou à direita, alardeando uma polivalência só ao alcance dos efectivamente dotados. “O Barrocal, como nós lhe chamávamos, era um grande colega e um jogador espectacular, do melhor que alguma vez se viu passar pelo nosso Benfica”, diz Mário João, companheiro de tantas jornadas inesquecíveis. “Que mais posso eu dizer?”. Se calhar, nada.

 

Com aquela habilidade virtuosa, Cavém deixou marcas logo no final da década de 50. Equilibradas estavam muito as forças no futebol nacional, com Benfica, FC Porto e Sporting a chegarem ao titulo ou aos títulos. A partir de 60, sempre com ele também, disparariam as águias para o mais pronunciado domínio de sempre. Teve, assim, o privilégio de actuar na era vermelha. E de a tornar possível.

 

Supersticioso, conta que uma vez, num sonho, lhe apareceu uma imagem, exigindo que barba usasse em troco de triunfo certo. Pela manhã, exibiu os primeiros sinais de obediência. Dias depois, ganhou o jogo. “Ainda hoje me arrependo de não ter jogado de barba na final de Wembley, com o Inter”, confessa, mergulhado numa áurea de misticismo.

 

Na Selecção Nacional também fez figura, entre 57 e 63. Foram seis anos em que se revelou imprescindível, começando a dar corpo a uma geração que, em Inglaterra, chegaria ao fastígio. No Mundial de 66 já não esteve. Trintão, caminhava para o final da maior aventura da sua vida. A derradeira pelo Benfica aconteceu em Setembro de 68, com o Vitória de Setúbal, na Luz, tinha já 36 anos.

 

Notabilizou-se ao marcar um golo ao FC Porto, com apenas 16 segundos de jogo, numa final da Taça. Hoje, recorde ainda. Por muitos anos, decerto, também.

 

Amarguras, essas, sobretudos as teve depois de pendurar as botas. Com carta de treinador na algibeira, feliz não foi por onde passou. E do Benfica, do Benfica apresenta as queixas de quem não viu pagar amor com amor. “Penso que por aquilo que ajudei a conquistar para o clube, merecia outro tipo de tratamento. Não tenho jeito para mendigar, nunca tive, mas não deixa de ser verdade que outros que não deram tanto prestigio ao Benfica como eu dei foram auxiliados e, quanto a mim, se calhar por não viver em Lisboa, fui esquecido”.

 

Não foi na festa de inauguração do novo Estádio da Luz. Veio de Alcobaça. E que bom rever Cavém! Para mais na última viagem com a bandeira da mística.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

Cavém foi um futebolista de excepção no seu tempo e é um dos melhores futebolistas portugueses se sempre, contabilizando o futebol português – ou melhor, o futebol jogado em Portugal - cerca de 138 anos – iniciando a contagem em 1875, data da chegada a Portugal dos técnicos ingleses (e com eles as bolas e o jogo de Foot-Ball) para instalarem o Cabo Submarino (telecomunicações) entre Lisboa (Europa) e Nova Iorque (América).

 

Nascer no Algarve...

 

Domiciano Barrocal Gomes Cavém nasceu na acolhedora e soalheira Vila Real de Santo António, em 21 de Dezembro de 1932. Cresceu numa família de futebolistas. O pai Norberto Gomes Cavém, nascido em 3 de Outubro de 1904, é um dos pioneiros do futebol algarvio, jogando na delegação do Benfica local, o Lusitano FC – fundado em 15 de Abril de 1916 - e no SC Olhanense, o emblema mais prestigiado do Sotavento algarvio. Depois de intensa actividade como jogador, nos anos 20 e 30, tornou-se treinador do Lusitano FC nos anos 40 fazendo deste clube campeão do Algarve e colocando-o na I Divisão Nacional. Com dois filhos futebolistas, o mais velho Amílcar Cavém (nascido em 15 de Agosto de 1930) e o “nosso” Cavém, estes iniciaram-se num pequeno clube de bairro, o Celeiro FC, passando depois para o Lusitano FC.

 

... e crescer na Beira Baixa

 

No início dos anos 50, a indústria conserveira local deixou de suportar o futebol, com os melhores valores a rumarem a outras paragens. Amílcar Cavém passou a jogar no SC Covilhã, em 1952/53, com o irmão Domiciano a segui-lo um ano depois. Foi a época de ouro do emblema serrano, suportado na indústria de lanifícios e lacticínios covilhanense, o clube conseguia ter no seu plantel alguns dos melhores futebolistas portugueses (como o internacional Fernando Cabrita) e jogadores estrangeiros. Foram duas épocas – 1953/54 e 1954/55 - de enorme progressão: Amílcar como médio e o “nosso Cavém” como avançado, essencialmente a extremo-esquerdo, onde se revelou goleador, mesmo tendo por principal função municiar o avançado-centro húngaro Simonyi ou os espanhóis Lóren e Martin.

 

Ser eterno no Benfica

 

Estreou-se no “Glorioso” já ia a época de 1955/56 a meio, devido à problemática transferência da Covilhã para Setúbal ou para o Benfica, no 1.º de Dezembro de 1955, quando faltavam vinte dias para completar 23 anos, num jogo internacional particular com o Valência CF, no nosso anterior estádio, com Cavém a marcar aos 81 minutos o golo que nos deu a vitória por 3-2.

 

Afirmar-se na primeira época

 

Na primeira época esteve presente em 21 jogos, sempre a titular com vinte a extremo-esquerdo, marcando nove golos. No campeonato nacional participou em 13 encontros (num campeonato com 26 jornadas) marcando cinco golos. Apesar de poucos jogos – a titularidade no “Glorioso” não se obtinha… conquistava-se – revelou as características que o tornaram um dos melhores futebolistas portugueses de sempre.

 

Nascer para ser futebolista

 

Era um atleta valente, lutador incansável e intrépido, de grande poder de remate, com ambos os pés ou com a cabeça. A sua agilidade natural, bem como a capacidade de interpretar bem o que se exigia a um avançado, permitiram-lhe destacar-se – desde muito jovem – como um atacante de grande valor. Como era ambidestro e bom cabeceador, jogava na esquerda ou na direita. Sabia antever a melhor posição para rematar ou recarregar uma bola transviada. Era exímio a avançado-centro, mas pecava por ser pouco… egoísta, preferindo endossar a bola a colegas melhor colocados em vez de rematar para o golo. No SC Covilhã deixou de jogar a avançado-centro, não porque não marcasse golos, mas porque em frente à baliza contrária preferia passar a bola a colegas que depois desperdiçavam assistências de “meio-golo”.

 

Com o tempo, os treinadores do “Glorioso”, vendo a sua aptidão inata para jogar futebol, com conhecimentos técnicos para cada lugar nas dez posições de jogadores de campo e rigor táctico para desempenhar qualquer função, foram recuando os lugares dentro da equipa, de avançado para defesa. Sempre a um nível de excelência. Só o calendário – inexorável, ano após ano – o “derrotou” e fez perder o lugar no Benfica, aos 36 anos!

 

O golo decisivo mais rápido (ainda hoje) em finais da Taça de Portugal

 

A quarta época em 1958/59 foi notável com o futebolista a marcar 27 golos em 48 jogos, conseguindo no Nacional da I Divisão com 26 jornadas obter 21 golos, colocando-se mesmo jogando a extremo-esquerdo como o terceiro melhor marcador do campeonato, a cinco golos do melhor goleador, o avançado-centro benfiquista José Águas. No final da temporada, em 19 de Julho de 1959, na final da Taça de Portugal, disputada no Estádio Nacional, marcou aos 13 segundos o golo da vitória, por 1-0, com o FC Porto, naquele que ainda é o “golo decisivo mais rápido em finais da Taça de Portugal” e também o golo mais rápido da nossa fabulosa história.

 

Um golão na segunda final dos Campeões Europeus

 

Em 1960/61 jogou a extremo-esquerdo, na final da Primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus, disputada na capital da Suíça, em Berna, no Estádio Wankdorf, em que o “Glorioso” venceu, por 3-2, o FC Barcelona. Curiosamente na época seguinte, a sétima como futebolista do Benfica repartiria a titularidade entre extremo-esquerdo (com Simões) e médio-direito, jogando nesta posição na final da Segunda Taça dos Clubes Campeões Europeus, com o Real Madrid CF, na capital holandesa, Amesterdão, no Estádio Olímpico, marcando o 2.º golo, a colocar o resultado em 2-2, depois do Real Madrid CF ter usufruído de dois golos de vantagem.

 

Totalista na Taça dos Clubes Campeões Europeus

 

Em 1963/64, o Benfica cumpriu o seu jogo n.º 29, em cinco temporadas, na taça dos Clubes Campeões Europeus com Cavém a ser o único totalista ao ter participado em todos eles, desde a época de 1957/58!

 

Na última temporada com o “Manto Sagrado”, em 1968/69, actua apenas em dois jogos pela categoria de Honra, deixando no final da época o Benfica, e como jogador o futebol primodivisionário, aos 36 anos.

 

Cavém tem valores ao alcance de poucos em Portugal

 

Pelo Benfica em catorze temporadas na equipa principal ajudou o Clube a conquistar dezoito troféus oficiais: Bicampeão Europeu (1960/61 e 1961/62); nove campeonatos nacionais (1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68 e 1968/69); quatro Taças de Portugal (1956/57, 1958/59, 1961/62 e 1963/64), ou seja, dois tricampeonatos e um bicampeonato, incluindo dois duplos (Campeonato e Taça de Portugal, na mesma temporada); e três Taças de Honra de AFL (1962/63, 1966/67 e 1967/68), para além do prestigiado Torneio Ramon de Carranza (Cádis/ Espanha), em 1963/64.

 

Mais de 500 jogos

 

Participou em 541 jogos, num total de 44 699 minutos, marcando 125 golos, ou seja um golo a cada 382 minutos: em 448 jogos não marcou, mas obteve golos em 93 jogos, um golo em 68 jogos, dois golos em vinte encontros, três golos em três jogos e quatro golos em dois jogos.

 

Enquanto futebolista da equipa de Honra do “Glorioso” efectuou 541 jogos, dos quais 535 como titular. Foi substituído em apenas dezanove jogos e suplente utilizado em seis encontros. Futebolista completo de grande polivalência, jogou essencialmente como avançado (245 jogos) salientando-se os 238 encontros a extremo-esquerdo, ou na defesa (201 jogos) com 197 encontros a defesa-direito, mas também no meio-campo (89) com 77 encontros a médio-direito.

 

Mais de 100 golos

 

Pelo SLB marcou 125 golos a 44 adversários diferentes, destacando-se catorze golos ao Vitória FC (Setúbal); oito tentos ao Atlético CP e Caldas SC; e entre outros, quatro golos ao Sporting CP, três tentos ao CF “Os Belenenses”, dois golos ao FC Porto, um tento ao Boavista FC, FC Barcelona e Hamburgo SV.

 

Dos 125 golos, 78 foram marcados no campeonato nacional, vinte na Taça de Portugal, dois na Taça de Honra de Lisboa da AFL e 21 em jogos internacionais a dezanove adversários, incluindo quatro na Taça dos Clubes Campeões Europeus e um na Taça Latina.

 

Marcou 95 golos com os pés e 30 de cabeça. Quinze golos foram obtidos de “fora da grande-área” e 110 dentro da mesma, com 26 a serem concretizados após lances de “bola parada” e 99 em jogadas de “bola corrida”.

 

Polivalência a quanto obrigas!

 

Nas seis épocas iniciais (1956/57 a 1960/61) no “Glorioso” com 247 jogos e 23 920 minutos jogados, marcou 115 golos, ou seja um golo a cada 208 minutos. Nas oito épocas seguintes jogaria 20 779 minutos em 294 jogos, marcando apenas dez golos, isto porque foi recuando no terreno acabando por ter tarefas mais defensivas, mas o Benfica beneficiava também do seu valor fazendo de Cavém um futebolista de grande utilidade, por que mesmo marcando poucos golos era um atleta capaz de desarmes decisivos e fantásticas assistências para golo, impulsionando as equipas para vitórias e o Clube para conquistas importantes, num defesa com vocação e eficácia atacante!

 

Faleceu aos 72 anos

 

Pela selecção nacional esteve presente em dezoito jogos internacionais marcando cinco golos. Após deixar o “Glorioso” no final de 1968/69 treinou o GD “Os Nazarenos”, seguindo-se o Ginásio Clube de Alcobaça, o GD Moimenta da Beira, o SC Covilhã, o GD Bragança e o SC Régua. Sem perspectivas de poder treinar clubes da I Divisão afastou-se do futebol, conseguindo um emprego na Câmara Municipal de Alcobaça.

 

Faleceu, em 11 de Janeiro de 2005, aos 72 anos. Mais uma estrela daquelas que mais brilham no firmamento do “Quarto Anel”!

 

Fonte: Blog "Em Defesa do Benfica"

 

 

| Vídeos |

 

 

Compartilhar este post


Link para o post

Não só seria hoje o aniversário do Eusébio como é também o aniversário da morte do Feher. Todos os anos é dia de ir rever os vídeos e por vezes não conseguir conter uma lágrima

Compartilhar este post


Link para o post

eusbio1lbkoe.jpg

 

Nome Completo: EUSÉBIO da Silva Ferreira

Posição: Ponta de Lança

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 25-01-1942

Data de Falecimento: 05-01-2014

Número da Camisola: 10

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 15

Total de Jogos pelo Benfica: 440

 

Títulos pelo Benfica:

 

1 Taça dos Campeões Europeus (1961/62)

11 Campeonatos Nacionais (1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68, 1968/69, 1970/71, 1971/72, 1972/73 e 1974/75)

5 Taças de Portugal (1961/62, 1963/64, 1968/69, 1969/70 e 1971/72)

 

Percurso como jogador: Maxaquene (1957 a 1960), Benfica (1960/61 a 1974/75), Boston Minutemen (1974/75), Monterrey (1975/76), Toronto Blizzard (1975/76), Beira-Mar (1976/77), Las Vegas Quicksilvers (1976/77), San Diego Sockers (1976/77), União de Tomar (1977/78) e New Jersey Americans (1977/78)

 

Palmarés: 1 Taça dos Campeões Europeus (1961/62), 11 Campeonatos Nacionais (1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68, 1968/69, 1970/71, 1971/72, 1972/73 e 1974/75), 5 Taças de Portugal (1961/62, 1963/64, 1968/69, 1969/70 e 1971/72), 1 Campeonato Colonial de Moçambique (1959/60), 1 North American Soccer League (1976) e 1 Campeonato do México (1975/76)

 

| Notícias |

 

Eusébio nunca será suplente na equipa dos melhores de sempre

 

A chegada a Portugal, a afirmação no Benfica e no futebol mundial, as peripécias de uma carreira ímpar.

 

Humilde, mas sem falsas modéstias. Quando Eusébio chegou à “metrópole” e ao Benfica campeão europeu em 1961, sabia o que valia. “Não me interessa se eles são campeões europeus, vou entrar nesta equipa.” Ele era um jovem moçambicano acabado de chegar de Lourenço Marques e já metia medo aos consagrados Águas, Augusto e Coluna, os “senhores”, como os novatos da equipa lhes chamavam. “Comentávamos entre nós: quem é que vai sair? Porque o Eusébio era um jogador de excepção”, diz José Augusto. Alguém saiu e ele, Eusébio da Silva Ferreira, entrou na equipa do Benfica para se tornar uma lenda do futebol mundial. O melhor jogador português de todos os tempos que brilhou numa altura em que o futebol era diferente. Como Amália, o seu nome é sinónimo dele próprio. Não existirá mais nenhum Eusébio.

 

Eusébio, o King, Eusébio, o Pantera Negra, Eusébio, a Pérola Negra. Ele só não gostava muito que lhe chamassem Pantera Negra por causa dos Black Panthers, o partido activista negro dos EUA. Preferia que lhe chamassem King, o Rei. Foi em Wembley, esse mítico estádio que iria marcar sua carreira, que Eusébio passou a ser pantera. Foi na sua segunda internacionalização pela selecção portuguesa. Dos onze, apenas um jogador tinha nascido em Portugal continental (Cavém, algarvio) e um nos Açores (Mário Lino). Havia um jogador brasileiro (Lúcio), todos os outros, incluindo o seleccionador (Fernando Peyroteo), eram africanos.

 

O jogo era de qualificação para o Mundial e a Inglaterra acabaria por ganhar (2-0). Portugal mandou quatro bolas ao poste, duas delas foram remates de Eusébio. Foi o seleccionador inglês Walter Winterbottom que avisou o jogador que estava encarregado de o marcar: “Tem cuidado com o Pantera Negra.” Mais tarde, seria um jornalista inglês, Desmond Hackett, a cunhar esse nome no Daily Express após a final de Amesterdão, com o Real Madrid.

 

O jogo de Wembley foi a 25 de Outubro de 1961. Menos de um ano antes, em Dezembro de 1960 (15 ou 17, consoante as versões), chegava à metrópole proveniente de Lourenço Marques “o disputadíssimo Eusébio”, como escrevia o jornal A Bola de 17 de Dezembro. “Faço qualquer um dos postos do ataque menos o de avançado centro”, contou ao jornalista de A Bola Cruz dos Santos, que era o único jornalista à sua espera no Aeroporto da Portela. “Chegou com um ar muito tímido. Fui com um sobretudo quentinho que tinha comprado em Edimburgo uns meses antes e o Eusébio apareceu-me com uma roupinha muito de Verão, uma gravatinha, com um ar muito modesto”, recorda o jornalista. É a sua primeira fotografia na metrópole: Eusébio de fato e gravata, com Cruz dos Santos ao lado, a tirar notas num bloco. Eusébio embarcara em Lourenço Marques com nome de mulher: Ruth Malosso.

 

Tinha 18 anos, fama de prodígio, pronto para conquistar o mundo. Um mundo que seria dele pouco depois. Basta dizer um número: 671, o número total de golos que marcou pelas selecções e clubes que representou em jogos oficiais. Pelo Benfica, foram 473, em 440 jogos oficiais. Mais números: sete vezes o melhor marcador do campeonato português, três vezes o melhor marcador da Taça dos Campeões. Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo ainda conseguido marcar seis golos no mesmo jogo em três ocasiões. O guarda-redes que mais golos seus sofreu foi Américo, do FC Porto (17).

 

Dos craques do passado, talvez seja Eusébio aquele que melhor se adaptaria ao futebol de qualquer época, mesmo ao mais calculista e táctico do nosso presente, menos atacante e ingénuo do que no tempo de Eusébio. O seu poder físico, potência de remate, técnica e capacidade goleadora fariam dele uma estrela em qualquer equipa de qualquer era. Apenas no final de carreira, com os joelhos em más condições (só no joelho esquerdo sofreu seis operações) é que saiu de Portugal, onde era património de Estado. Eusébio seria um Cristiano Ronaldo apresentado no Santiago Bernabéu perante dezenas de milhares de adeptos. Eusébio esteve lá em 2009 para apresentar Ronaldo ao Real Madrid, ao lado de Alfredo di Stéfano, que sempre foi o seu grande ídolo. As palavras de Don Alfredo, o argentino feito espanhol, não podiam ser mais verdadeiras. “Isto serias tu.”

 

Os primeiros anos

 

Eusébio da Silva Ferreira nasceu a 25 de Janeiro de 1942, o quarto filho de Laurindo António da Silva Ferreira, um angolano branco que trabalhava nos caminhos-de-ferro de Moçambique, e Elisa Anissabeni, uma mulher moçambicana. Foi na Mafalala, bairro pobre na periferia de Lourenço Marques (actual Maputo), que Eusébio começou a dar uns pontapés em bolas de trapos sem ligar muito à escola. “A minha mãe não gostava nada que eu andasse enfronhado no futebol, apertava comigo, que me importasse com a escola e me deixasse dos pontapés na bola, mas eu não sei explicar, havia qualquer coisa que me puxava, sentia um frenesim no corpo que só se satisfazia com bola e mais bola. O resultado disto era uns puxões de orelhas bem grandes e, uma vez por outra, umas sovas que não eram brincadeira nenhuma”, recordava Eusébio numa entrevista ao jornal A Bola.

 

No bairro onde viveram o poeta Craveirinha e os antigos presidentes de Moçambique Joaquim Chissano e Samora Machel, Eusébio ganhava os berlindes aos amigos apostando que conseguia dar x toques seguidos numa bola. Entre os jogos de futebol na rua e a presença intermitente na sala de aula, Eusébio sofreu uma tragédia precoce. Aos oito anos, ficava órfão de pai, vítima de tétano. “Segundo a minha mãe, o meu pai era muito bom jogador de futebol”, disse numa entrevista. Ficava Dona Elisa, os quatro rapazes (Jaime, Alberto, Adelino e Eusébio) e uma rapariga (Lucília). Num segundo casamento, Elisa teria mais três filhos (Gilberto, Inocência e Fernando).

 

Foi na Mafalala que conheceu a sua primeira equipa, Os Brasileiros, “um clube de pés-descalços” em que os jogadores adoptavam nomes dos craques brasileiros. Eusébio era Nené, um médio da Portuguesa dos Desportos, um primo seu é que era Pelé, ano e meio mais velho do que o moçambicano. Em 1958, Eusébio tinha 16 anos e Pelé 17 quando o Brasil foi campeão mundial na Suécia, a equipa que também tinha Didi, Zagallo e Garrincha. Todos tinham as suas contrapartes no FC Os Brasileiros.

 

Mas onde Eusébio queria jogar era no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica, clube do qual o pai era adepto. No Desportivo não o aceitaram porque era “franzino, pequenino” – Eusébio contou que esse treinador foi, depois, despedido. Também no Ferroviário o recusaram. O mesmo erro não cometeu o Sporting de Lourenço Marques, filial moçambicana do Sporting Clube de Portugal, que ficou com ele de imediato, depois de ter ido fazer testes com um grupo de rapazes do bairro. Mas Eusébio impôs uma condição: ou ficam todos, ou não fica nenhum. Ficaram todos.

 

O Sporting Laurentino insistia, mas Eusébio resistia, porque aquele não era o seu clube, nem o do seu pai, apesar das insistências de Hilário da Conceição, seu vizinho na Mafalala e futuro defesa esquerdo do Sporting e da selecção portuguesa – Hilário, dois anos mais velho do que Eusébio, foi o primeiro jogador negro a jogar no Sporting de Lourenço Marques e iria para Lisboa primeiro do que o Pantera Negra. Eusébio acabou por ir contrariado para os “leões” de Lourenço Marques. “Ninguém do meu bairro gostava do Sporting. Porque era um clube da elite, um clube da polícia, que não gostava de pessoas de cor”, contou mais tarde. Começou nos juniores, passou rapidamente para os seniores e estreou-se contra o “seu” Desportivo. Não queria jogar, mas jogou. Marcou três golos e chorou. Tinha 17 anos. O Sporting foi campeão regional com 30 remates certeiros de Eusébio, a quem o clube tinha arranjado um emprego como arquivador numa empresa que fabricava peças para automóveis.

 

Eusébio era um fenómeno na colónia e, na metrópole, já se ouvia falar dele. Portugal era o sonho dos jogadores nas colónias portuguesas em África e Eusébio não era excepção. E era um sonho muito possível. África era um grande fornecedor de jogadores para os clubes e selecção portuguesa. Os pretendentes eram muitos. Sporting, Benfica, Belenenses e FC Porto queriam Eusébio. Guttman já tinha ouvido falar dele, através de um brasileiro que o tinha visto jogar em Lourenço Marques. Os clubes começaram a movimentar-se, mas foi o Benfica quem chegou lá primeiro. Ofereceu 110 contos a D. Elisa, que deu a sua palavra de que o filho iria jogar no Benfica de Lisboa.

 

O Sporting terá oferecido mais depois, mas palavra dada era sagrada e a mãe de Eusébio não voltou atrás. Para além do mais, o Sporting queria Eusébio à experiência. “Eu já estava no Sporting e o presidente, sabendo que eu era muito amigo do Eusébio, chamou-me para lhe pedir para vir fazer testes. Ele respondeu: ‘Estás a ver o Seminário [peruano que jogou no Sporting entre 1959 e 1961, conhecido como "o expresso de Lima”]? Eu dou-lhe avanço a marcar golos. Querem experimentar o quê?”, recorda Hilário.

 

Tavares de Melo, talhante e representante do Benfica em Lourenço Marques, coordenou toda a operação. Depois de garantido o acordo de Eusébio e de D. Elisa, o objectivo era colocar o jogador na capital o mais depressa possível e sem que os adversários soubessem. Fez Eusébio embarcar com nome de mulher e terá feito chegar um telegrama ao Sporting lisboeta comunicando que o jovem jogador iria de barco para a capital. Por isso é que, quando Eusébio aterrou às 23h30 no aeroporto de Lisboa, apenas estavam lá representantes do Benfica (e o jornalista de A Bola) à espera dele. Do lado “leonino” falou-se de rapto, Eusébio sempre negou esta tese: “Eu só assinei contrato com o Benfica. Só quando aterrei aqui é que se começaram a inventar raptos. O contrato com o Benfica até dizia que, se não me adaptasse em Lisboa, o clube podia recuperar o dinheiro.”

 

A chegada ao Benfica

 

Quando Eusébio, menor de idade, chegou a Lisboa, o Benfica já estava nos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus. “Não gosto de jogar a avançado centro”, foram as suas primeiras palavras, depois de uma viagem de “Portugal para Portugal”, como escrevia o jornal A Bola de 17 de Dezembro de 1960. Foi directo para a Calçada do Tojal, em Benfica, para viver no Lar do Jogador, onde estavam alojados os futebolistas “encarnados” que eram solteiros e que tinha hora de recolher obrigatório para os seus hóspedes. José Torres, dois anos mais velho, foi o seu anfitrião, eles que, pouco depois, fariam uma dupla temível no ataque do Benfica e da selecção nacional.

 

Mas Eusébio ainda não podia jogar, apesar de impressionar nos treinos. Bela Guttman, o treinador, chamou-lhe o “menino de oiro” da primeira vez que o viu. O processo de transferência de “Ruth” ainda não tinha acabado. Eusébio tinha contrato assinado com o Benfica, mas ainda não tinha a carta de desobrigação que teria de ser passada pelo Sporting de Lourenço Marques, ainda empenhado na ida do jogador para os “leões” de Lisboa. A batalha jurídica é longa. Os dois lados esgrimem argumentos e o tempo vai passando, sem que haja uma decisão definitiva. Na Taça dos Campeões, o Benfica ultrapassa o Aarhus, da Dinamarca, e o Rapid de Viena, da Áustria, e com Eusébio sempre integrado na comitiva.

 

A final será contra o Barcelona, em Berna, a 31 de Maio. O Benfica manda Eusébio para um hotel em Lagos, para o esconder dos jornalistas e de outros pretendentes. A 12 de Maio, cinco meses depois de sair de Moçambique, o desfecho: Eusébio já é jogador do Benfica, que paga por ele 400 contos, mas não poderá defrontar a formação catalã devido aos regulamentos da União Europeia de Futebol (UEFA).

 

Ele não irá à Suíça, mas vai estar no jogo de despedida do Benfica antes da final, na Luz, frente ao Atlético, um futuro titular numa equipa quase só de reservas. A 23 de Maio, primeiro jogo pelo Benfica, primeiros golos, três, tal como a sua estreia pelo Sporting de Lourenço Marques. Minutos 11, 76 e 80, o do meio o primeiro penálti que marcou. Os benfiquistas estavam lá para ver o “disputadíssimo”. “Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso”, contou Eusébio na sua biografia.

 

A equipa seguiu para Berna e conquistou o primeiro dos seus dois títulos europeus, com uma vitória por 3-2 sobre o Barcelona. Eusébio ficou em Lisboa e, no dia seguinte à final europeia, fazia a sua estreia oficial pelo Benfica, na segunda mão dos oitavos-de-final da Taça de Portugal no Campo dos Arcos, frente ao Vitória de Setúbal. Eusébio seria titular e marcaria o único golo “encarnado” nesse jogo que os sadinos venceriam por 4-1, anulando a desvantagem de 3-1. Nessa época, ainda houve tempo para se estrear no campeonato, na Luz frente ao Belenenses, ao lado dos senhores José Augusto e Coluna. Eusébio marca o segundo de uma goleada por 4-0 e ganha o direito a ser campeão.

 

O que Eusébio perdeu nesses primeiros meses foi largamente compensado na década e meia seguintes. Com Eusébio na equipa, o Benfica foi 11 vezes campeão em 15 anos. O moçambicano foi sete vezes o melhor marcador do campeonato português, duas vezes o melhor goleador da Europa. Conquistou mais cinco taças de Portugal e um título de campeão europeu de clubes. Ao todo, foram 17 títulos pelo Benfica: 11 campeonatos, cinco taças de Portugal e a Taça dos Campeões. Foi ainda o primeiro português a ser considerado o melhor jogador da Europa, em 1965. Depois dele, só Figo, em 2000, e Cristiano Ronaldo, em 2008.

 

Em 1961-62, a sua primeira época “a sério”, Eusébio ainda não está entre os cinco mais utilizados por Bela Guttman, mas já é o melhor marcador, com 29 golos em 31 jogos, mais do que o consagrado José Águas (26). O Benfica não seria campeão (terceiro lugar, atrás de Sporting e FC Porto), mas esta seria uma época histórica, a do Benfica bicampeão europeu, na final de Amesterdão, frente ao Real Madrid. Eusébio enfrentava o seu ídolo de infância, Alfredo di Stéfano. Na primeira das quatro finais que haveria de jogar na sua carreira, Eusébio marcou dois golos (os dois últimos e decisivos) naquele triunfo emocionante por 5-3, em que o Benfica chegou a estar a perder por 2-0 e 3-2.

 

O jovem moçambicano de 20 anos “destruía” a lenda hispano-argentina merengue, 16 anos mais velha, mas manteve a deferência para com “don” Alfredo, como mantinha para com os seus companheiros de equipa mais velhos. “Tinha dito ao senhor Coluna para pedir ao senhor Alfredo di Stéfano para me dar a camisola. E consegui. Ele sabia lá quem era o Eusébio! Quando ganhámos, fui a correr para junto dele. Ele deu-me a camisola e ficou com a minha. Nessa altura roubaram-me o fio da minha mãe, os calções, mas consegui guardar a camisola nas cuecas. Apareço numa fotografia com uma mão à frente: estou a defender a camisola.”

 

O Mundial de Inglaterra

 

Eusébio precisou apenas de nove golos em cinco jogos pelo Benfica para se estrear na selecção portuguesa, por quem haveria de disputar 64 jogos (41 golos). O adversário era o fraco Luxembrugo e estava em causa a qualificação para o Mundial de 1962, no Chile. Peyroteo, antigo avançado do Sporting e membro dos famosos “cinco violinos”, estreava-se como seleccionador. A equipa era totalmente de Lisboa, um jogador do Belenenses, cinco do Sporting e cinco do Benfica, Eusébio era um deles.

 

A 8 de Outubro de 1961, um domingo, no Estádio Municipal do Luxemburgo, o herói foi outro. Adolphe Schmit, médio que nunca foi mais alto na sua carreira do que a segunda divisão francesa, marcou os três primeiros golos do jogo em 57 minutos. Portugal só reage aos 83’, com o primeiro golo de Eusébio ao serviço da selecção nacional, mas a selecção do grão-ducado repõe as diferenças no minuto seguinte. Yaúca, o único do Belenenses, fixou o resultado em 4-2. A derrota humilhante e inesperada afastou a selecção portuguesa do Mundial e o jogo seguinte, em Wembley, frente à Inglaterra (o tal em que Eusébio passou a ser o Pantera Negra), seria para cumprir calendário.

 

Três anos e meio depois, Portugal iniciava nova campanha para o Mundial de futebol, que seria em Inglaterra. Eusébio marcou sete golos na qualificação, um deles deu uma vitória surpreendente e dramática em Bratislava frente à poderosa Checoslováquia, vice-campeã mundial. Pela primeira vez a selecção portuguesa chegava à fase final de uma grande competição internacional. Comandados por Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, os portugueses iam a Inglaterra com algum crédito. E com Eusébio, considerado no ano anterior como o melhor jogador europeu.

 

Eusébio ficou com o número 13 e a campanha com um triunfo em Old Trafford, o estádio do Manchester United, sobre a Hungria por 3-1, o único jogo do Mundial em que Eusébio não marcou qualquer golo. Depois, foi a história que bem se conhece. De novo em Old Trafford, Eusébio marcou o golo do meio no triunfo sobre a Bulgária. Seguia-se o Brasil de Pelé, no Goodison Park em Liverpool. Pelé ficou a zeros, Eusébio marcou dois e subiu ao trono de rei do Mundial. Portugal derrotava o campeão vigente e avançava para os quartos-de-final.

 

O jogo seria em Liverpool, o adversário seria a Coreia do Norte, uma equipa que também estava a ser uma sensação, depois de ter deixado a Itália de fora. Os "baixinhos com as caras iguais" (o mais alto tinha 1,75m), como disse um dia José Augusto, um dos membros da equipa portuguesa, começaram por surpreender os "magriços" de forma bastante afirmativa, colocando-se a vencer por 3-0. Mas Portugal tinha Eusébio, que, quase sozinho, destruiu os asiáticos, marcando quatro golos na partida dos quartos-de-final que terminaria em 5-3 para Portugal.

 

O golo que concretizou a reviravolta, o do 4-3, ainda hoje é mostrado nas escolas do Ajax de Amesterdão, aquela cavalgada de Eusébio desde o meio-campo até à área norte-coreana, onde só foi parado em penálti. “A bola está meio metro à frente dos meus pés. Parece que tenho cola. E eu aumento a velocidade, meto as mudanças. Dei 17, 18 toques desde que o Coluna me entrega a bola. Sofro uma pancada à entrada da área, mas continuo, porque nunca fui de me atirar para o chão. Só que, depois, chega outro que me dá uma sarrafada... Penálti!”, foi como Eusébio descreveu o lance em entrevista ao Expresso.

 

Na sua primeira presença em Mundiais (seria a única até ao México 86), Portugal já estava entre as quatro melhores. Seguia-se a anfitriã Inglaterra. O jogo era para ser em Liverpool, de novo no estádio do Everton, mas, com o acordo da Federação Portuguesa de Futebol, mudou-se para Wembley e foi a selecção portuguesa que teve de mudar de base. Segundo contou Eusébio, a federação não era obrigada a aceitar a mudança, mas deu o consentimento a troco de compensação monetária. Mais uma viagem depois do duro jogo com a Coreia e as pernas dos portugueses já não estavam tão frescas para evitar o desaire por 2-1.

 

“A nossa federação vendeu-se e pronto”, acusou Eusébio, que marcou, de penálti, o golo português. Sem poder discutir o título, os “magriços” ganharam o jogo de consolação para o terceiro lugar, contra a URSS, por 2-1. Um golo de Eusébio, que foi o melhor marcador do torneio, com nove golos. Duas imagens ficaram deste Mundial de 66: Eusébio a ir buscar a bola à baliza coreana, um gesto simbólico para a reviravolta que acabaria por acontecer; Eusébio a chorar após a derrota com a Inglaterra, quando já nada havia a fazer.

 

Património de Estado

 

Eusébio foi grande num tempo em que o futebol era diferente. Em que o futebol português era diferente. Em tudo. Nas rivalidades, nos hábitos, nos comportamentos. “Às segundas-feiras juntávamo-nos todos – do Sporting, do Benfica, do Belenenses –, almoçávamos frango assado no Bonjardim e depois íamos ao cinema. E andávamos sempre de metro ou de eléctrico, porque era mais barato. As pessoas paravam na rua só para nos verem juntos. Para tirar a carta tive de pedir autorização à minha mãe: 'Mas você vai tirar a carta porquê? Não há aí machimbombo [autocarro]?'”

 

Cinco anos depois de chegar a Portugal, Eusébio casou-se com a sua namorada, Flora (conheceram-se dois anos antes), em 1965, no evento que a revista Flama (que fez capa com Flora vestida de noiva) descreveu como “O remate final é o amor”. Tiveram duas filhas, por esta ordem, Sandra e Carla, respectivamente em 1966 e 1968. Foram fazendo vida em Lisboa, apesar das muitas propostas que Eusébio ia recebendo de grandes clubes. Mas o regime não o deixava sair. Salazar considerava-o património de Estado e isso, como o próprio admitiu várias vezes mais tarde, impediu-o de ganhar muito dinheiro.

 

Eusébio fez o seu último jogo pelo Benfica a 29 de Março de 1975. Foi no Estádio da Luz, frente ao Oriental, vitória por 4-0, nenhum dos golos marcados por Eusébio. O último de “encarnado” marcara-o uma semana antes, no Bonfim, ao Vitória de Setúbal. Nessa época, Eusébio fez apenas 13 jogos (dois golos), entre o campeonato e a Taça das Taças, a sua pior época desde a primeira, a de 1960-61 (dois jogos), menos de um terço dos jogos oficiais do Benfica.

 

Já depois da revolução de 25 de Abril de 1974, o clube “encarnado” deixou-o sair e Eusébio juntou-se a uma das maiores colecções de craques da história do futebol, a North-American Soccer League (NASL), todos eles seduzidos pelos dólares norte-americanos. Pelé, Franz Beckenbauer, George Best, Johan Cruijff, Carlos Alberto, Teófillo Cubillas, Gordon Banks, Gerd Muller, Carlos Alberto, Graeme Souness. Eusébio não foi o único português nos EUA. Acompanhou-o Simões, a quem sempre chamou o seu “irmão branco”. No país onde o futebol não é “football”, mas sim “soccer”, a NASL conseguiu impor, por alguns anos, o futebol como desporto de massas, assente no princípio de que grandes estrelas dão grandes espectáculos e que grandes espectáculos (isto é especialmente verdade na América) atraem sempre muito público.

 

Eusébio era, de facto, uma estrela global, mas não foi desta que conseguiu jogar na mesma equipa de Pelé. Foram, novamente, adversários, como tinha acontecido em outras ocasiões. Pelé ficou no Cosmos de Nova Iorque, Eusébio foi para Boston, onde havia (e há) uma grande comunidade portuguesa. “Os grandes jogadores não podiam jogar na mesma equipa, era para ter ido para o Cosmos, mas fui para Boston. Com o mesmo contrato e a ganhar muito bem. Tinha casa, motorista. Até nos davam guarda-costas”, contou.

 

Em 1975, nos Minutemen, onde estavam muitos portugueses para além dele (Simões, Jorge Calado, Fernando Nélson e Manaca), Eusébio fez sete jogos e marcou dois golos – o jogo de estreia foi contra o Cosmos de Pelé. Bem melhor foi o ano de 1976, ao serviço dos Toronto Metro-Croatia, em que Eusébio marcou 13 golos e conduziu a formação canadiana ao título da NASL. Na passagem pelo continente americano, Eusébio esteve ainda no Monterrey, do México, nos Las Vegas Quicksilvers e nos New Jersey Americans.

 

Nos intervalos da aventura americana, Eusébio regressava a Portugal, não para descansar, mas para manter a forma e ganhar mais alguns escudos. Foi assim que jogou no Beira-Mar os seus últimos minutos e marcou os seus últimos golos na primeira divisão portuguesa e foi assim que andou pela segunda divisão a fazer carrinhos pelo União de Tomar, o seu último clube em Portugal. Eram contratos de curta duração. Eusébio e Simões, os irmãos, jogaram juntos até ao fim. Eusébio ainda teve a hipótese de jogar no Sporting, por convite de João Rocha, antes de ir para Aveiro.

 

No Beira-Mar, Eusébio teve o seu último contacto com o principal escalão do futebol português. Não com a camisola encarnada do Benfica, mas com o equipamento amarelo e negro da equipa aveirense. Pagavam-lhe 50 contos por mês. Dois momentos são importantes nesta breve passagem por Aveiro. Quando defrontou o rival Sporting e o seu clube do coração, o Benfica. Foi contra os “leões” que marcou, a 6 de Março de 1977, o seu último golo na primeira divisão, confirmando o Sporting (a par do Belenenses) como a maior “vítima” dos seus remates certeiros, 24.

 

Dois meses antes, tinha defrontado as “camisolas berrantes”, como lhes chamava Luís Piçarra na canção que serve como hino das “águias”. Tal como acontecera 20 anos antes em Lourenço Marques, Eusébio tinha de jogar contra si próprio. A 5 de Janeiro de 1977, Eusébio-Benfica, no Estádio Mário Duarte, em Aveiro, a contar para a 12.ª jornada do campeonato. Eusébio não iria ser profissional. “Já tinha avisado o treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à baliza. Quinze minutos antes do jogo, fui ao balneário do Benfica e avisei para que não se preocupassem, pois não ia marcar golos. [No jogo] não rematei, não marquei faltas, nem grandes penalidades. Andava lá no campo só a passar a bola aos outros.”

 

Com o jogo empatado 2-2, o Beira-Mar beneficia de um livre à entrada da área que seria mesmo ao jeito de Eusébio. Mas o Pantera Negra recusou-se a marcar. Palavra a António Sousa, futuro jogador do FC Porto e do Sporting e internacional português, então um jovem a dar os primeiros passos no Beira-Mar: “O sentimento dele era enorme e jogar contra a equipa do coração e da vida foi marcante para ele. Porventura o mal-estar dele em relação ao próprio jogo era porque ele gostava de ganhar. O facto de o Eusébio não marcar um livre e dizer para eu marcar é sinónimo disso.” Sousa atirou por cima e o jogo acabou empatado.

 

Depois do Beira-Mar e de mais uma temporada nos EUA, Eusébio foi para o União de Tomar, da segunda divisão. Estreou-se com a camisola vermelha e negra do União a 1 de Dezembro de 1977, frente ao Estoril. Em 12 jogos disputados pelo clube ribatejano, marcou três golos, mas, nesta fase, ele já não era um avançado. Andava mais pelo meio-campo, tal como António Simões. “O nosso estilo era diferente. Já não tínhamos pernas para lá ir, ficávamos mais no meio-campo. Mas o Eusébio, nos livres, era igual”, recorda Simões. Em Tomar, até carrinhos fazia.

 

De Tomar para Buffalo. Buffalo é relevante na vida de Eusébio? É e não é. Em toda a sua carreira é apenas uma nota de rodapé, mas é nesta cidade do estado de Nova Iorque que irá cumprir os seus últimos jogos. A camisola dos Buffalo Stallions, equipa da Liga indoor norte-americana, será a sua última. Fica o registo do rendimento de Eusébio, veterano avançado de 38 anos e com os joelhos em mau estado, em 1979-80, a sua última época: cinco jogos e um golo.

 

Quando deixou de ser jogador, Eusébio nunca quis ser treinador principal. Foi ficando pelo Benfica, como adjunto, para ensinar uns truques a diferentes gerações de futebolistas. Por exemplo, como marcar golos estando atrás da baliza, um truque que tinha começado numa aposta com Fernando Riera. Eusébio apostou um fato com o treinador chileno em como conseguia marcar três golos em dez tentativas. O desfecho foi o mesmo das vezes em que apostava berlindes com os outros miúdos da Mafalala. Ganhou.

 

A lenda foi-se mantendo intacta. King em todo o mundo. Ninguém melhor para servir de embaixador do Benfica e de Portugal. Mas o homem passou um mau bocado nos últimos anos de vida, uma decadência natural da idade, mas acelerada por alguns excessos. Os seus últimos tempos foram uma constante de alertas médicos e idas para o hospital, que terminavam sempre com um sorriso e a garantia de que tudo estava bem.

 

Quando fez 70 anos, numa festa com centenas de convidados, Eusébio já era um homem debilitado, de poucas palavras. Mas fazia questão de acompanhar a selecção para todo o lado e estava lá, no Euro 2012, para ver a sua contraparte do século XXI, Cristiano Ronaldo, conduzir a equipa portuguesa até às meias-finais – ao contrário de Ronaldo, Eusébio nunca foi capitão, apenas desempenhou essa função episodicamente. Eusébio sentiu-se mal após o jogo com os checos e já não estava na Ucrânia quando a selecção portuguesa foi eliminada pela Espanha nas meias-finais.

 

Ele era o homem que todos os guarda-redes temiam, mas também era aquele que cumprimentava os guarda-redes que defendiam os seus remates que pareciam indefensáveis. Ele era o homem que gostava de jazz e de caril de marisco, que almoçava quase diariamente no seu restaurante preferido desde que chegou a Lisboa em 1960, a Adega da Tia Matilde. Foi objecto de uma banda desenhada, de músicas com o seu nome no título e no refrão, de uma longa-metragem, de inúmeras homenagens e distinções, sempre nas listas dos melhores de sempre. Essa é uma equipa onde nunca será suplente.

 

 

| Perfil |

 

Dezassete de Dezembro, Sexta-feira, de 1960. A bordo do avião, com odor colonial, Eusébio, ele também, anoiteceu. Com a cabeça a fervilhar de ambição. Próximo, muito próximo, estava o sonho que tantas vezes lhe tinha dado fogo às ilusões. A Lisboa, então capital do império, chegava o rapaz de 18 anos. Esperavam-no Júlio Teixeira, Albino Rato e Domingos Claudino, em representação do clube da águia. O jornalista Cruz dos Santos, de “A Bola”, recolheu-lhe uma declaração quiçá imprevista, proferida em voz trémula: “Não gosto de jogar a avançado centro”. E para tranquilidade situacionista, o então trissemanário desportivo avançou que o recém-chegado viera “de Portugal para Portugal”. Mal dando conta que a noite tomara o lugar do dia, ai estava Eusébio, no Lar do Jogador, à Calçada do Tojal, com Torres, Germano, Santana e Mário João.

 

Para trás ficava a fragrância da quente terra africana. Ficava o bairro da Mafalda, em Lourenço Marques. As fugas à escola, as sovas da D. Elisa, os intermináveis jogos com a bola de trapos. Mais aquela história do major Rodrigues de Carvalho e de Mário Tavares de Melo, enviados benfiquistas, terem colocado 110 contos de reis em cima da mesa da família Ferreira, quantia destinada a transferir Eusébio do Sporting de Lourenço Marques para o Benfica. A mãe, nessa altura, puxou os galões e exigiu 250, com lágrimas a borbulhar-lhe as faces. Negócio fechado, “dinheiro grande”, como D. Elisa, anos mais tarde, recordaria o episódio.

 

Os primeiros tempos de Eusébio, em Lisboa, foram tumultuosos. Até pensou desistir e retornar a Moçambique. Viveu-se o mais prolongado Benfica-Sporting do século. Meses durou. Uma guerra burocrática, não raras vezes a tanger o insulto. Argumento vem, argumento vai, uns dias mais vermelho, outros mais verde, Eusébio desesperava. Impotente. Queria jogar. Afinal, se o destino até não o havia deixado ser menino, porque subtrair-lhe ainda o maior dos prazeres? A 13 de Maio de 1961, finalmente, a trama burocrática findou. Eusébio era jogador do Benfica. No dia da Senhora de Fátima. Algo que jamais esqueceu.

 

E dez dias volvidos, no relvado da Luz, procedia-se à despedida da equipa que, horas depois, partiria para Berna, a fim de esgrimir argumentos com o Barcelona, na final dos Campeões. “Subi os degraus, velozmente. Quando entrei e ouvi a multidão gritar o meu nome, fiquei tonto”. A peleja teve o Atlético por opositor. Barrosa defendeu as redes, Mário João e Ângelo eram os laterais, Neto, Artur e Saraiva compunham a intermediária, Nartanga, Jorge, Mendes, Eusébio e Peres faziam as despesas ofensivas, na melhor expressão do dispositivo táctico conhecido por WM.

 

Cedo Eusébio comunicou no seu idioma predilecto. Um golo madrugador fez. Seguiram-se outros dois, os primeiros de camisola rubra, nesse jogo particular, que terminou 4-2 a favor do Benfica. Poucos dias mais tarde, frente ao Olivais e Moscavide, na primeira partida de carácter oficial, bisou. Seguiu-se o Vitória de Setúbal, em jogo da Taça, depois o Belenenses, a contar para o Campeonato. E golos, mais golos. Numa relação irremitente.

 

“Fez bonitos golos; os jogadores do Santos, todos eles, eu próprio, dizíamos que aquele rapaz era um grande jogador, até porque ninguém sabia quem ele era”. A declaração é assinada na primeira pessoa do singular. Por Pele, “o génio da redonda”, segundo Jorge Amado. Foi proferida no final do encontro Benfica-Santos, em Paris, a 15 de Junho de 1960. Três gentilezas Eusébio à bancada fez. Perderam os já campeões da Europa, depois de terem encaixado quatro golos sem resposta. Foi quando o ainda desconhecido Eusébio se levantou do banco de suplentes. Para um hat-trick. E só não igualou, porque Béla Guttmann, feiticeiro-que-não-foi, o impediu de marcar uma grande penalidade, por falta sobre ele próprio cometida. Haveria de falhar José Augusto. O Santos venceu 5-3, mas Eusébio revelou-se nesse dia ao mundo da bola. Lancinantemente competitivo.

 

Pantera Negra ficou. Epíteto feliz ou a exaltação de predicados como a velocidade, a destreza, a elegância. “Inicialmente não gostei, porque em Los Angeles havia um grupo chamado Black Panter, que matava pessoas e assaltava bancos”. Começou a gostar e hoje orgulha-se até, recordando aquele jornalista inglês, responsável pela alcunha, que ficou atónito com o seu desempenho num Inglaterra-Portugal, em Outubro de 1961, cumpria Eusébio a segunda internacionalização, depois da estreia, ante o Luxemburgo, alguns dias antes, sempre é claro com o golo da praxe.

 

Naquela temporada de 61/62, confirmava-se um nova profecia de Guttmann, segundo o qual “não há cu para duas cadeira”. Em tradução futebolística, o mago predizia ou Campeonato ou título europeu. Assim foi, ainda que a conquista da Taça, perante o Vitória de Setúbal (3-0), com dois golos de Eusébio, ajuda-se a mitigar o insucesso.

 

O Benfica caminhou magnânimo até à final de Amsterdão. Quem não recorda, após a eliminação do FK Áustria, o concerto da orquestra vermelha na Luz? Na primeira mão, o triunfo coube aos alemães, em dia de neve maldita…e sem Eusébio, lesionado. A desforra, essa, dias depois, roçou a perfeição. Seis golos, com dois de Eusébio, ao Nuremberga. “A dada altura, dei por falta de uma medalha com a santa da minha devoção, que a minha mãe me oferecera três meses antes de vir para Lisboa”, explicou, sugerindo que mais golos poderia ter apontado com a Santa das Boas Graças. O amuleto jamais apareceu, a fé como que recrudesceu.

 

Eliminados os britânicos do Tottenham, numa meia-final de grande dramaticidade, eis que, a 2 de Maio de 1962, o Benfica sobe ao palco da glória, em Amsterdão, já com o estatuto de campeão da Europa para defrontar o Real Madrid, de Di Stéfano, Puskas, Gento, Del Sol e Santamaria, “o primeiro grande clube moderno”, na observação sapiente de François de Montvion, director do “France Football”. Exauriu-se Eusébio. Ele e os companheiros Costa Pereira, Mário João, Ângelo, Cavem, Germano, Cruz, José Augusto, José Águas, Coluna e Simões. O despique foi grandiloquente. Até começou equilibrado, mas Puskas abriu o activo e, seis minutos depois, marcaria o 2-0. A final parecia sentenciada e nas bancadas só os espanhóis vibravam. Era imperativo que soasse o alarme vermelho e nada melhor do que um livre à entrada da área. À base do poste rematou Eusébio, mas José Águas, no sitio certo, fez a recarga vitoriosa e também melhorou a expressão do moral benfiquista. Como corolário, num lance em que Eusébio lutou nas alturas com o guarda-redes merengue, aproveitou Cavem para restabelecer a igualdade. Mas a desdita não se fez esperar e, de novo Puskas, antes do intervalo, batia Costa Pereira.

 

No descanso, rezam coincidentes testemunhos, Bela Guttmann só pronunciou uma frase. Ei-la: “O jogo está ganho, não se preocupem”, num registo profético. Mário Coluna cedo empatou de novo a contenda. Até que emerge Eusébio, provocando uma hemorragia colectiva de prazer nas bancadas lusas. Dois golos marcou. Após um delicioso apontamento, o miúdo da Mafalda caiu na área. O golpe foi sucio e a grande penalidade apontada. Com o requinte dos apaixonados, Eusébio colocou a bola na marca, maricón lhe chamou Santamaria, com o fito de o desconcentrar. Não entendeu o insulto e, em surdina, inquiriu Coluna. “Marca o golo e chama-lhe cabron”. As duas coisas fez. Gloriosamente.

 

Tempo houve ainda para novo tento apontar. Foi o da consagração. Por isso, “Eusébio es una bestia”, escreveu o jornalista espanhol Ramón Melcon, um elogio com laivo de revolta. “Eusébio, a Pantera Negra, estraçalhou o Real Madrid”, na opinião do repórter britânico Desmond Hackett, para quem “foi uma noite de futebol majestático; esta nobre equipa do Benfica exibiu um futebol perfeitamente ao nível das realezas que estavam na cidade, devido ao aniversário da rainha Juliana”.

 

Da beleza do futebol virginal, aristocrata da bola virava Eusébio. Por isso, como escreveu epicamente o nosso Carlos Pinhão, “na era de Eusébio, Eusébio é que era”.

 

Alfredo Di Stéfano havia sido apeado do cume da pirâmide europeia da coisa redonda. No Velho Continente proclamava-se um novo rei. Humilde, sempre humilde, como também só sempre são os homens bons, Eusébio guarda com uma devoção quase evangélica a camisola do astro argentino, naturalizado espanhol. “Para mim, tem tanto significado como a da Taça dos Campeões”, precisa Eusébio. “Não era Di Stéfano o meu ídolo e o jogador mais completo que vi actual em toda a minha vida?”. Era mesmo.

 

Como foram também mais três as hipóteses de se voltar a sagrar campeão da Europa. Logo no ano subsequente à final de Berna, com o AC Milan (1-2); em 64/65, frente ao Inter (0-1); em 67/68, ante o Manchester United (1-4, após prolongamento). Os colectivos benfiquistas falharam, ainda que sempre soçobrassem com dignidade. A dignidade à Benfica, misto de amor e de luta, de entrega e de esforço, de prazer e de classe. Assim foi também nas duas finais perdidas da Taça Intercontinental, com o Peñarol e o Santos. Só que o Benfica esteve sempre lá. No areópagos da fama. Clube mítico se fez.

 

Quando, na primavera de 63, Portugal venceu o campeão do Mundo, a selecção do Brasil, no Estádio Nacional, com um golo solitário de José Augusto, Eusébio cumpria ainda a sua oitava internacionalização. “Agora, é só continuar até ao Mundial de 66”, atirou premonitoriamente, na sua expressão serena de felicidade.

 

Estávamos na antecâmara da jornada épica em terras inglesas. À equipa das quinas cedeu, nessa altura, largo contingente o Benfica. Em representação do clube da Luz, Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, respectivamente seleccionador e técnico, chamaram à campanha Eusébio, Germano, Coluna, Simões, José Augusto, Cruz e Torres. Com inspiração nos “Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, nasceram os Magriços. Esfomeados de sucesso, protagonizaram imaculadamente a fase de preparação, perante a Noruega, Escócia, Dinamarca, Uruguai e Roménia, sem erro de anacronismo. Eusébio até só marcou três golos, mais parecendo adiar a exortação dos requintes de goleador para as melhores e autênticas núpcias. Foi a Hungria a preambular a maior odisseia de toda a história do futebol indígena. Vitória por 3-1, com golos vermelhos de José Augusto (2) e José Torres, “que 32 anos de espera para chegar a uma fase final até justificavam uma aragem de sorte”, comentou Vítor Santos. E o mestre descobriu “uma Académica de gala… encarnada e verde”, no segundo embate, frente à Bulgária, para um triunfo luso, por incontestáveis 3-0, já com um tento assinado por Eusébio.

 

Até que chegou o Brasil, quatro anos antes vencedor de igual certame no Chile. Poderia Portugal ter algum complexo de pequenez? Não eram o Benfica e o Sporting habituais clientes das melhores ementas do futebol europeu? E não havia Eusébio? Um imprevisto golo do mais baixinho em campo, Simões de seu nome, com garbosa cabeçada, abriu as hostilidades. Para não ficar atrás, logo de seguida, também Eusébio, todo ele violando as leis da física, num soberbo momento antigravidade, apontou o segundo golo, nem mais nem menos que o primeiro de cabeça ao serviço da equipa de todos nós. Rildo, o brasileiro, ainda reduziu, mas guardado estava o melhor pedaço. E que pedaço! Pedaço de talento singular, aquele remate de Eusébio, quase à velocidade da Luz. Era o 3-1 final, que Pele decerto não viu, ele que do campo saíra de forma precoce, após ter disputado rijo lance com o lateral do Sporting, o do “cantinho de Morais”, da final verde de Antuérpia.

 

Por limite apenas o céu ou nada a declarar com excepção do génio, alternativamente, bem poderiam traduzir a mágica exibição de Eusébio naquela Portugal-Coreia do Norte. Aí estava o artista da bola, o poeta do jogo, o mítico herói do povo.

 

A perder por 0-3, Eusébio por porventura o primeiro dos imperturbáveis. Revoltou-se na sua melhor expressão. Produziu lances ornados de fantasia, contagiou os companheiros, marcou golos como se de regresso estivéssemos ao milagres das rosas. Quatro foram, com José Augusto a fechar a contagem (5-3). Nesse jogo como em mais nenhum outro, Eusébio submeteu a bola ao império da sua vontade. No Mundial, seguiu-se a impiedosa derrota ante a Inglaterra, país organizador (2-1, com um golo de Eusébio), após trapaça sórdida. É que o palco do jogo foi Londres, no belo Wembley, à revelia dos regulamentos. Por isso, Manuel da Luz Afonso disse que “se o jogo tiver de ser resolvido por moeda ao ar, a dita moeda terá duas caras ou duas coroas”. Necessário não foi. O Portugal de Eusébio viu-se compelido a jogar com a União Soviética, na discussão de um lugar no pódio. E venceu. Eusébio fez o nono golo na prova, sagrando-se o melhor marcador. Melhor jogador, também.

 

A eusebiomania que, muito justamente, no rescaldo do Mundial de 66, atingiu Portugal e o Mundo reverteu a favor do Benfica. Ao jogador e ao clube chegaram muitos cantos da sereia ao longo dos anos. “´É património do Estado”, judiciou mesmo Salazar, confrontado com a hipótese de Eusébio representar a Juventus. “Então eu mal conheço a pessoa, não é da minha família, como é que podia impedir-me de ir ganhar aquela pipa de massa?”. Era a generosidade postiça do velho regime. Para trás ficaram também o Inter de Milão, o Real Madrid, o Vasco da Gama e tantos, tantos outros clubes que disputaram os seus préstimos.

 

Nos 15 anos que jogou no Benfica, escreveu Baptista Bastos, “Eusébio representou-nos, àqueles que pediam passagem, aos anónimos, aos arranhados, aos sovados por todas as injustiças (…), Eusébio foi todos nós sendo apenas ele (…), Eusébio realizou todos os nossos sonhos, sonhando-os por todos nós”. Eusébio e o Benfica tornaram-se indissociáveis. Ainda hoje, o nosso futebolista do século mantém-se recordista de títulos nacionais. Onze vezes ganhou a prova máxima e em cinco ocasiões venceu a Taça de Portugal. Arrebatou sete vezes a Bola de Prata, duas vezes a Bota de Ouro e uma vez a Bola de Ouro. Vestiu as camisolas da UEFA e da FIFA. Fez o Benfica peregrinar em glória pelas mais diversas paragens.

 

 

De águia ao peito, Eusébio disputou 715 jogos, tendo apontado 727 golos. No decurso da mais rica era vermelha, fez por ano 48,5 golos em média. Também por essa razão, com o moçambicano nos seus quadros, na velha Luz, essa fantástica praça desportiva, o Benfica, para consumo doméstico, esteve nove (!) anos consecutivos sem perder, desde 17/10/65 (2-4, com o Sporting) até 30/12/74 (2-3, com o Vitória de Setúbal, partida em que não alinhou por se encontrar lesionado).

 

Na contabilidade pessoal de Eusébio, estão anotados 1137 golos, tendo o milésimo sido marcado, já no ocaso da carreira, pelo Toronto Metros, frente ao Minnesota. Com dificuldade, ele que tem uma memória quase fetal, consegue elencar cinco das suas melhores obras, desde “o terceiro golo contra os suíços do Chaux-de-Fonds, o também terceiro golo apontado no Mundial ao Brasil, um golo à selecção do Japão, um livre directo à baliza do sportinguista Vítor Damas, até ao pontapé de quarenta metros que fulminou as redes da Juventus”.

 

Ao lado de Pele (Brasil), Alfredo Di Stéfano (Argentina/Espanha), Franz Beckenbauer (Alemanha), Bobby Charlton (Inglaterra), Johan Cruijff (Holanda), Michel Platini (França), Ferenc Puskas (Hungria/Espanha), Stanley Mattews (Inglaterra) e Lev Yashin (Rússia), o nosso Eusébio foi eleito pela FIFA, organismo que superintende o futebol mundial, um dos dez melhores futebolistas de todos os tempos. “A maior distinção da sua carreira”, garantiu o jornalista Vítor Serpa, director de “A Bola”. De facto, apetece perguntar que cidadão português, qualquer que seja o ramo de actividade, terá sido escolhido entre a melhor dezena mundial de sempre no seu mester? Eusébio, claro.

 

Eusébio cedo da bola se enamorou. Possui o mais invejável relicário futebolístico nacional. Coloriu o país de vermelho. Ensinou ao mundo onde fica Portugal.

 

Eusébio ganhou e merece esse raro direito à imortalidade.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

 

| Perfil |

 

 

Compartilhar este post


Link para o post

Não sabia bem onde colocar isto, mas acho que pode ficar aqui. Se não mudem para outro tópico.

 

8244ba5f73c67aebb8faeec34949c6f6.png

 

:heart: :prayer:

Faleceu hoje. Descanse em Paz!

Compartilhar este post


Link para o post

jaimegraaswaie.jpg

 

Nome Completo: JAIME da Silva GRAÇA

Posição: Médio Centro

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 30-01-1942

Data de Falecimento: 28-02-2012

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 9

Total de Jogos pelo Benfica: 229

 

Títulos pelo Benfica:

 

7 Campeonatos Nacionais (1966/67, 1967/68, 1968/69, 1970/71, 1971/72, 1972/73 e 1974/75)

3 Taças de Portugal (1968/69, 1969/70 e 1971/72)

 

Percurso como jogador: Vitória FC (1959/60 a 1965/66), Benfica (1966/67 a 1974/75), Vitória FC (1975/76 a 1976/77) e Sesimbra (1977/78)

 

Palmarés: 7 Campeonatos Nacionais (1966/67, 1967/68, 1968/69, 1970/71, 1971/72, 1972/73 e 1974/75) e 4 Taças de Portugal (1964/65, 1968/69, 1969/70 e 1971/72)

 

| Perfil |

 

Jaime Graça: o Catalunha

 

Nasceu em Setúbal e teve um início de vida difícil, começando a trabalhar aos dez anos, muito longe ainda de se tornar num dos pilares do mágico Benfica dos anos 60 e 70, ao lado de Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto... Na sua juventude, além de futebol, jogou hóquei patins. Os amigos que o foram ver jogar um dia, juravam que jogava tão bem como os melhores jogadores do FC Barcelona, a maior potência do hóquei naqueles tempos. Daí a chamarem-lhe Catalunha, foi um pequeno passo...

 

Origens humildes

 

Nascido em Setúbal no seio de uma família modesta, irmão do médio sadino Emídio Graça, desde cedo o jovem Jaime Graça teve de se fazer à vida, trabalhando como aprendiz de eletricista aos dez anos, mal terminou a instrução primária. Esse conhecimento havia de lhe ser útil para salvar a vida a Eusébio e companhia, uns anos mais tarde.

 

Reguila, apaixonado pelo futebol e bom de bola, passou a sua infância e adolescência jogando em diversos pequenos clubes da cidade do Sado como o Estrela do Sado, o Beira-Mar de Setúbal, o Independente Setubalense ou Nacional Sadino. Aos 16 anos tenta a sorte no Vitória, mas vê os seus intentos frustrados e acaba por rumar ao Palmelense, onde joga uma época e se sagra campeão distrital.

 

Os anos a verde e branco

 

No ano seguinte o Vitória chama por ele e Jaime Graça não hesita, passando a vestir de verde e branco. Entre 1959/60 e 1961/62 o clube joga na II Divisão, enquanto Jaime Graça brilha ao lado do irmão. Em 1962 chega a primeira época dourada da sua carreira, ao ajudar o Vitória a voltar à I Divisão e a chegar à final da Taça de Portugal, onde sofre uma pesada derrota por 0x3 às mãos do Benfica de Eusébio. Acerca desse jogo e, da Pantera Negra, de quem era mais velho apenas 15 dias, Jaime Graça disse um dia mais tarde:

 

«(...) fomos à final da Taça mas perdemos 3x0. Do outro lado, estava Eusébio. Assim era complicado. Marcou-nos dois golos, o primeiro e o último(...)» e mais acrescentou, que fora um «alívio» mudar-se para o Benfica, poder jogar ao lado do "Rei": «Com ele na minha equipa foi tudo mais fácil. Fui campeão sete vezes em nove anos. Só perdi dois campeonatos para o Sporting.»

 

Mas antes das luzes da ribalta na Luz, ainda haveria de sentir o sabor do sucesso nas margens do sado. Após um par de anos ao mais alto nível, surge a sua primeira internacionalização em 1965 e ainda no final dessa época uma nova final da Taça contra o Benfica.

 

Desta feita, a vitória acabou por sorrir aos sadinos, com um claro 3x1 sobre o mesmo Benfica, com uma exibição de mão cheia, na qual marca um golo e «mete Coluna num bolso».

 

1966: um ano para lembrar

 

1966 foi um ano para lembrar. Primeiro a presença na final da Taça contra o SC Braga, a terceira da carreira (derrota por 0x1), depois a convocatória para o Mundial de Inglaterra, no qual foi um dos magriços em destaque na conquista do terceiro lugar e, por último, a mudança para a Luz durante o defeso, dando finalmente o salto merecido para um grande.

 

De encarnado

 

No Benfica, o maestro de Setúbal deu lugar ao operário da Luz, tornando-se num dos pilares do mágico Benfica ao lado de Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto... De vermelho ao peito conquistou sete campeonatos, quatro taças e chegou a uma final da Taça dos Campeões, na qual marcou um golo na trágica derrota após prolongamento em Wembley com o Manchester United (1x4).

 

Salvou a vida de Eusébio e dos seus colegas quando após um jogo com a Sanjoanense, no dia seguinte, 5 de dezembro de 1966, alguns jogadores do Benfica foram experimentar o novo tanque de hidromassagens. Um curto-circuito eletrocutou o infortunado Luciano, deixou Malta da Silva em coma e quase vitimou Eusébio.

 

Jaime Graça teve o sangue frio de sair do tanque e desligar o quadro elétrico, valendo-se da sua mais-valia como eletricista, salvando assim a vida dos colegas e amigos, apenas se lamentando por chegar muito tarde para salvar o algarvio Luciano.

 

Foi treinado por alguns dos melhores, como o inglês Jimmy Hagan e o carismático Pedroto, alcançando grandes vitórias. Respeitado pelos adversários, Jaime Graça voltou a Setúbal, a sua casa, para descansar das exigências muito altas a que se via forçado no Benfica, colocando um ponto final na sua carreira na época 1976/77, com o emblema sadino ao peito.

 

Ao longo de uma longa carreira, conquistou sete campeonatos nacionais, ganhou quatro taças, subiu uma vez de divisão, jogou uma final europeia e foi terceiro classificado no Campeonato do Mundo. Em nove temporadas na Luz jogou 159 de águia ao peito e apontou 19 golos.

 

Fonte: Zerozero

 

 

| Notícias |

 

Jaime Graça, o sexto elemento de luxo do Benfica

 

O clube da Luz deve-lhe duas coisas: os 7 campeonatos em 9 épocas e a vida de Eusébio, salva graças ao passado de Graça como electricista.

 

Aos 5 Violinos do Sporting nos anos 1940-50, o Benfica respondeu com o quinteto Coluna, José Augusto, Eusébio, Torres e Simões nas duas décadas seguintes. Injustamente de fora da fama desta plêiade de jogadores que marcou o futebol nacional e europeu nos anos 60-70 está Jaime Graça, o sexto elemento de luxo do Benfica que varreu o futebol português, quer de águia ao peito ou na selecção. Graça, que se encontrava doente há algum tempo, morreu ontem, aos 70 anos.

 

A sua despedida é sentida no V. Setúbal e no Benfica, os dois clubes que contaram com o seu contributo enquanto futebolista. Jaime Graça nasceu a 10 de Janeiro de 1942, dez dias antes de Eusébio, destacou-se no Vitória com 17 anos e foi convocado para representar Portugal no Mundial de 1966. Antes, foi um dos responsáveis pela subida à I Divisão em 1962 e pelo triunfo na Taça de Portugal em 1965 sobre o Benfica (3-1). Mas foi o telefonema que recebeu da mulher com a notícia de que ia para o Benfica que mudou a sua vida.

 

Assim, deixou de defrontar Eusébio. "Foi um alívio", contou numa entrevista ao jornal i em Dezembro. "Fomos à final da Taça mas perdemos 3-0. Do outro lado, estava o Eusébio. Assim era complicado. Marcou-nos dois golos, o primeiro e o último", recordou. "Com ele na minha equipa foi tudo mais fácil. Fui campeão sete vezes em nove anos. Só perdi dois campeonatos para o Sporting".

 

No Benfica, participou em 159 encontros e marcou 19 golos entre 1966 e 1975. António Simões chama-o de revolucionário. "Era um número 8 fantástico", contou ao PÚBLICO. "Foi o primeiro jogador na história do futebol português a fazer aquilo a que agora se chama box-to-box". Com Simões, Graça formou umas das duplas que liderou o Benfica de Jimmy Hagan a mandar no futebol em Portugal, inclusive alcançando um título sem derrotas em 1973, inédito até ao FC Porto do ano passado com Villas-Boas.

 

"Era o mais inteligente a fazer tudo e foi o meu braço direito ao longo de muitos anos", diz Simões, lembrando que eram os dois a dar a táctica no tempo de Hagan. Graça também se recordava desses tempos. "Muitas vezes, eu e o Simões, como capitães do Benfica, mudávamos completamente aquilo logo na primeira parte", atirou, queixando-se do desacerto do treinador inglês nos maus resultados nas competições europeias. "Na Europa, nem sempre fomos mais longe por causa do desacerto táctico do Hagan". Uma dor que José Augusto também partilha. "Fizemos finais europeias que não ganhámos", diz, sem esquecer o companheiro, um futebolista de "fino recorte técnico".

 

A ausência de um troféu europeu é uma ferida na carreira de Jaime Graça, um jogador fabuloso que se conseguiu impor num Benfica que tinha uma das melhores equipas da Europa. "Veio juntar-se ao talento e à arte já existentes, mas mesmo assim veio acrescentar algo", diz Simões. "Não era fácil chegar e imediatamente ser titular e ele foi...". Foi ele a marcar o golo na final da Taça dos Campeões em 1968, mas o Benfica perderia no prolongamento por 4-1.

 

Graça também foi importante fora do campo. Salvou a sua vida e a de outros dois companheiros (Eusébio e Malta da Silva) ao desligar o quadro de electricidade, depois de um curto-circuito durante uma sessão de hidromassagem ter tirado a vida a Luciano. Valeu-lhe, na altura, o emprego de aprendiz como electricista quando tinha 10 anos.

 

Fonte: Público

 

---/---

Ao mundo veio Jaime Graça, quando a humanidade assistia, com uma estranha sensação de impotência, à mais hedionda das guerras. Quinze dias depois, por feliz coincidência, a luz do dia haveria também de conhecer Eusébio, futuro companheiro de belas façanhas. Um e outro nasceriam no ano vermelho de 1942, já que o Benfica, de Martins, Albino, Gaspar, Valadas e Francisco Ferreira, baldas não deu nesse Campeonato. Órfão de pai, era palmo e meio ainda, a vocação para o mundo da bola cedo nele despontaria. Mais rapazola, participou em incontáveis torneios, representando colectividades populares da cidade de Setúbal, como o Estrela do Sado, o Independente, o Beira Mar e o Nacional. Nessa altura, projectava seguir as pisadas do irmão mais velho, Emídio Graça, que a internacional chegou e para Sevilha se transferiu, a troco de mil contos, no ano de 1958, quando Humberto Delgado fez tremer os alicerces do regime ditatorial.

 

Convidado a ingressar no Vitória, era já o Catalunha, nas rodas de amigos, que nele viam uns tantos atavios, imitações muito próximas dos melhores nacos de bola produzidos pelos então jogadores do Barcelona. Agradou no primeiro treino que fez no Vitória de Setúbal, mas logo sentiu o ascendente do irmão Emídio, sabedor da poda. Porque não fazia sentido tão cedo ficar preso a um clube, Jaime Graça acabou por se fixar no Palmelense, de pronto vencendo o Distrital de juniores.

 

De férias em Sevilha, encantou os espanhóis, mas de novo Emídio se impôs. Alguém teria de fazer companhia à mãe, modista era. Foi o que fez Jaime Graça, electricista de profissão, na Tropical. De emprego mudaria, porque o mestre não o dispensava mais cedo, a tempo de ir aos treinos. Foi para Junta Autónoma dos Portos de Setúbal, finalmente a troco de um contrato com o Vitória de Setúbal. Pelos sadinos, aos 20 anos, jogou a final da Taça, frente ao Benfica, com derrota por 3-0. Mas no ano mágico de 66, os mesmos contendores desforraram-se, desta feita com triunfo verde e branco, por 3-1, mais o golo de Jaime Graça.

 

Convocado para os Magriços, em terras de Sua Majestade, a majestática noticia: era jogador do Benfica! Centrocampista com pés do mais fino quilate, tinha o dom de fazer gingar todo o colectivo. Ademais, excedia-se, dava constantes safanões ao jogo e, por contradição, naquele ar de quem parecia pedir desculpa por ter sido artista eleito para a mais apetecida arena.

 

 

Três épocas, três títulos. Tudo parecia fácil na defesa da águia. Vingava o modelo do Inglaterra 66, de tão avermelhado do meio-campo para a frente. Com Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões, Jaime Graça terá composto o mais fecundo sexteto que a memória regista. Perdido o Nacional de 69/70 (era aquela maldição que atormentava o Benfica em ano de Mundial), nova série de três triunfos consecutivos. Outro ainda, em 74/75, para um total de sete em nove épocas apenas. Mais três Taças de Portugal e 24 internacionalizações, enquanto nos quadros da Luz.

 

Sobrou-lhe sempre o desgosto de não ter sido campeão da Europa. Esteve perto. Quase acreditou na maldição de Guttmann, segundo a qual, depois de 61/62, “nem nos próximos cem anos, o Benfica conquista o titulo europeu”. Ou na outra maldição, a do sempre inóspito Wembley, onde o clube sucumbiu na final frente ao Manchester United e a Selecção com a congénere inglesa. Naquele jogo, já na segunda parte, Jaime Graça apontou o golo probatório do inconformismo benfiquista. Mas no prolongamento, deu-se a derrocada. Ganhou o Manchester United, por 4-1. Sonho findo.

 

Sete vidas tem o gato, diz-se. Jaime Graça, pelo menos três. Ele que se vangloriava, já lá vão 30 anos, de apenas 20 minutos gastar, da casa de Setúbal à Luz. No inicio do ano de 72, ao volante de BMW, acidente grave sofreu, a 170 km/h acelerava, nas vésperas de um Benfica-Sporting. Também a morte conseguiu driblar, fez uma operação plástica, um mês depois voltaria à competição.

 

Muito mais trágico ainda, o episódio da morte de Luciano. Foi quando se deu, em 66, um curto-circuito, numa segunda-feira, dia de recuperação, com banhos e massagens, regressava a equipa de São João da Madeira. Não foi a tempo de salvar Luciano, mas utilizando os seus conhecimentos de electricidade, conseguiu forças para saltar da piscina, onde estavam Eusébio e Malta da Silva, para, no momento certo, desligar o quadro eléctrico. Também por isso, o Benfica continuou a exibir, sedutoramente, Eusébio ao Mundo.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

Compartilhar este post


Link para o post

arsnio97lsp.jpg

 

Nome Completo: ARSÉNIO Trindade Duarte

Posição: Avançado Centro

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 11-10-1925

Data de Falecimento: 11-02-1986

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 12

Total de Jogos pelo Benfica: 298

 

Títulos pelo Benfica:

 

1 Taça Latina (1949/50)

3 Campeonatos Nacionais (1944/45, 1949/50 e 1954/55)

6 Taças de Portugal (1943/44, 1948/49, 1950/51, 1951/52, 1952/53 e 1954/55)

 

Percurso como jogador: Barreirense (1942/43), Benfica (1943/44 a 1954/55) e CUF Barreiro (1955/56 a 1958/59)

 

Palmarés: 1 Taça Latina (1949/50), 3 Campeonatos Nacionais (1944/45, 1949/50 e 1954/55), 6 Taças de Portugal (1943/44, 1948/49, 1950/51, 1951/52, 1952/53 e 1954/55) e 1 II Divisão (1942/43)

 

| Perfil |

 

Deu-se Arsénio a descobrir com a inocência comparável aos pés desnudados gozando com a bola de trapos. Era o brinquedo dos pobres. Também no Barreiro. Sobretudo no Barreiro, terra de operários, de gente laboriosa, mas com vida inclemente. A dos pais dos “homens que nunca foram meninos”, no retrato de Soeiro Pereira Gomes.

 

Menino não foi Arsénio, o Pinga para os amigos das traquinices e das pelejas nos areais. Na década de 30, Pinga (que era o seu ídolo) era o mais cobiçado dos elogios, já que o jogador do FC Porto, nascido no Funchal resplandecia nos primitivos recintos da bola lusitana.

 

No inicio da adolescência deu-se o sortilégio. Ofereceram-lhe o palco. No Barreirense se estreou. Foi perante o Sporting, na festa do adeus a Francisco Câmara. “Ainda não tinha 16 anos e quem me marcou foi o Aníbal Paciência. Ao principio estava um pouco enervado, mas, depois, serenei e perdi o respeito ao valoroso jogador do Sporting”. Arsénio viria a sagrar-se esse ano, campeão nacional da II Divisão, consumado o triunfo (6-1) sobre a Sanjoanense, nas Amoreiras, com gente ilustre do Benfica atenta ao desenrolar do encontro.

 

Na companhia de Moreira, o conhecido Pai Natal, Arsénio ainda tentou a sorte no mais reputado Vitória de Setúbal, mas do reputadíssimo Benfica chegou a proposta. Recebeu seis contos pela assinatura e 750 escudos mensais daí para a frente. Mas continuou a trabalhar como aprendiz de serralheiro, mais tarde oficial, na CUF. De cacilheiro viajava, com toque madrugador, às 5.45 horas. Era assim três vezes por semana. Treinava-se pela manhã, trabalhava à tarde. Foi assim durante anos. In illo tempore.

 

Com apenas 18 anos, a 19 de Dezembro de 1943, Arsénio envergou pela primeira vez a camisola do Benfica. Logo aos cinco minutos, disse ao que ia, apontando o primeiro golo. Foi no Campo Grande, nesse triunfo (5-1), ante o Vitória de Guimarães. Titularidade garantida, a ouro fechou a temporada, através da conquista da Taça de Portugal, na maior goleada (8-0) de sempre, com o Estoril Praia.

 

Actualmente, Arsénio seria número 10. Nesses tempos, actuava como interior-direito. De baixa estatura, era rápido, driblava bem e tinha apurado instinto de golo. Em 446 jogos pelo Benfica marcou 350 golos. Trezentos e cinquenta que a imponência merece escrita por extenso. Até aos nossos dias, só Eusébio, José Águas e Nené mais golos fizeram. Sempre a dissertar na sua linguagem favorita, ganhou a idolatria das massas, o carinho dos companheiros, o respeito dos antagonistas. Um dia, frente ao Estoril Praia, na vitória (7-0), fez seis golos. Melhor ainda, em plena festa de inauguração do Estádio das Antas, marcou cinco, fazendo os nortenhos……perder o Norte!

 

Numa dúzia de temporadas, venceu três Campeonatos e seis Taças de Portugal, quatro delas consecutivas. Mentalmente forte, adepto dos grandes ambientes e decisões, nunca perdeu uma Taça. Que o digam o Sporting (duas vezes), o Estoril, o Atlético, a Académica e o FC Porto. E quase sempre com golos probatórios dos seus amplos recursos de finalizador. Como aquele, memorável e decisivo, que marcou ao Bordéus, na final da Taça Latina. Os franceses estavam em vantagem, por 1-0, desesperavam as hostes encarnadas, quando, a 15 segundo do fim, Arsénio restabeleceu a igualdade. Jogaram-se dois prolongamentos, até que Julinho haveria de selar o primeiro grande triunfo europeu do Benfica.

 

Na Selecção Nacional, por ironia, não fez mais que dois golos, ambos com a Espanha. O talentoso Manuel Vasques, grande amigo de infância no Barreiro, barrou-lhe também o lugar, numa altura em que a maleabilidade táctica vinha ainda distante. Quando o brasileiro Otto Glória ingressou no Benfica, outros ventos sopraram, os ventos do profissionalismo. Já na casa dos trinta, Arsénio optou por abandonar o clube e aderir ao projecto da CUF, empresa onde mantinha o seu posto de trabalho. Com 33 anos, para mal dos pecados dos benfiquistas, seria ainda o melhor goleador do Nacional.

 

Exibiu o requinte dos predestinados, naquela relação apaixonada pelo golo. Arsénio marcou mais, muito mais, que uma geração do Benfica. Arsénio marcou o Benfica.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

Junto à muralha, no Barreiro, estendia-se longo areal. Rapazio, em euforia, dava pábulo aos seus sonhos. Atrás de uma bola. Quase sempre de trapos. Que o cauchu era luxo proibido para aqueles filhos de operários a quem tantas vezes faltava até a côdea de pão. E uma sardinha se comia retalhada, a dois, a três, a quatro. Um deles distinguia-se dos demais. Não por jogar sempre com a melena no ar, ondulando ao sabor breve da brisa que soprava do rio, mas pelo jeito com que mexia na trapeira.

 

Chamava-se Arsénio, mas todos o conheciam por... Pinga. Que era o seu ídolo. Gostava mais de cinema que de bola, mas, sem dinheiro, divertia-se jogando. Faziam-se torneios entre equipas sempre certas e os prémios eram cromos dos ídolos de então: Espírito Santo, Peyroteo, Pinga... O seu talento não podia continuar a desperdiçar-se naqueles campos improvisados de areia suja, com pedrinhas servindo de balizas. Foi testar qualidades ao Barreirense. Deslumbrou. Pouco tempo depois, na festa de despedida de Francisco Câmara, lançaram no na equipa de honra, em desafio contra o Sporting. «Ainda não tinha 16 anos e quem me marcou foi o Aníbal Paciência. Ao princípio estava um pouco enervado, mas, depois, serenei e perdi o respeito ao valoroso jogador do Sporting.» Desse time não saiu mais.

 

Teve ainda tempo para sagrar-se campeão nacional da II Divisão. O Barreirense bateu a Sanjoanense, por 6-1, nas Amoreiras. Os técnicos do Benfica ficaram de olho nele. Por essa altura, Arsénio e Moreira, esse mesmo, o... Pai Natal, decidiram mostrar as suas capacidades no Vitória de Setúbal. Por sua conta e risco. Só lá foram uma vez, porque emissários benfiquistas foram ao Barreiro oferecer-lhes o sonho que tantas vezes lhes aqueceu as ilusões.

 

Bastou um treino para que Janos Biri ficasse entusiasmado com Arsénio. De tal modo que lhe pediram logo que assinasse a ficha, recebendo por isso seis contos, ficando, igualmente, a ganhar 750 escudos por mês. Que era o ordenado dos craques...

 

Por essa altura era já aprendiz de serralheiro, na CUF. A oficial chegaria pouco depois. A paixão do futebol, mais que o dinheiro que, então, ganhava, suavizava-lhe os sacrifícios. Para poder apanhar o barco das 5.45 horas, Arsénio levantava-se três vezes por semana madrugada alta. No cacilheiro encontrava-se com os demais futebolistas da terra que vinham para Lisboa. Para se treinarem, com ele, no Benfica, Moreira, Corona, Félix, Rogério Contreiras, Rogério Fontes e José Luís; a caminho do Campo Grande, Azevedo, Armando Ferreira e Soeiro; para as Salésias, Quaresma e Salvador. Arsénio treinava-se e regressava, rápido, ao Barreiro para trabalhar na serralharia da CUF. Foi assim anos a fio. Mas nem isso lhe entenebreceu o ânimo ou ofuscou o brilho.

 

Bola-de-prata para se vingar de Otto...

 

Miúdo de corpo, era um temível homem de área. No campo era o que era na vida: um ser solidário, sempre mais preocupado com os outros que consigo mesmo. Por isso, no Benfica todos o consideravam o mais apaixonante jogador de equipa que por lá havia.

 

Pode mesmo dizer-se que, marcando muitos golos — de uma vez, em vitória do Benfica sobre o Estoril, por 7-0, apontou... seis e mais cinco marcou contra o F. C. Porto, na estrondosa vitória por 8-2, no jogo de inauguração do Estádio da Antas —, muitos mais lhe ficou a dever José Águas, de tal forma que nas suas Bolas de Prata havia muito de Arsénio, que, sendo jogador fantástico, sempre cheio de vivacidade, ágil, com fôlego de sete gatos, só não foi grande homem de Selecção por ter o lugar tapado por esse geniozinho, que fazia nos campos quadros com o mesmo encanto que os de Malhoa na tela, chamado Manuel Vasques. Mas foi ainda mais fantástico homem de... Taças.

 

Disputou seis finais da Taça de Portugal, todas ganhando: duas ao Sporting (dois golos), uma ao Estoril (um golo), uma ao Atlético, uma à Académica (um golo) e uma ao F. C. Porto (um golo). E foi graças a um golo seu que o Benfica abriu o caminho para a conquista da Taça Latina.

 

Quando, em 1954, Otto Glória chegou ao Benfica, pediu-lhe para se dedicar em exclusivo ao futebol. Disse-lhe que não. Na época seguinte foi despedido. Por querer continuar a ser jogador-trabalhador ingressou na Cuf, com tempo ainda para ganhar uma Bola de Prata. Travaços e Vasques, que, nessa temporada de 1957/58, se sagraram, pela última vez, campeões nacionais de futebol, logo após a festa leonina correram à estação de correios dos Restauradores para enviarem para o Barreiro um telegrama carregado de sentimentalismo, que dizia mais ou menos assim: «Parabéns dos velhinhos como tu, que ainda são capazes de fazer coisas tão bonitas...»

 

A magia de um golo...

 

Para os benfiquistas, a Taça Latina disputada em 1950, no Estádio Nacional, era sonho quente. O ataque de anginas que varreu a equipa da Lázio facilitou a chegada à final. Contra o Bordéus. No primeiro jogo, empate a três. Na finalíssima os franceses depressa chegaram à vantagem. Estavam já quase vazias as bancadas quando Arsénio, com um golo espectacular, a 15 segundos do final, empatou. Renasceu a magia da esperança. Os gritos «Benfica! Benfica! Benfica!» ecoaram fundo, num espectáculo impressionante. Mais meia hora e golos nada. Outro prolongamento logo de seguida. Havia jogadores que já se arrastavam, desfigurados pelo esforço, aos torcilhões, alimentados apenas por uma réstia de esperança. Francisco Moreira, o Pai Natal, que nesse jogo assumira estatuto de capitão por Francisco Ferreira, doente, não querer jogar para não prejudicar a equipa, reiterava palavras de encorajamento sempre que sentia algum colega a desfalecer: «Regressei à força dos 25 anos para ganhar a Taça Latina. Lutemos até cairmos para o lado, mortos pelo cansaço»...

 

De súbito, quase ao cair do pano, Moreira rematou, confusão na baliza dos franceses, não se sabe ainda hoje se Julinho terá ou não tocado na bola, o que se sabe é que aquele golo valeu a Taça Latina. Estalou a euforia. Quando o árbitro apitou, Corona desmaiou no campo. Foi levado para os balneários de charola. Os colegas despiram-no, descalçaram no, puseram-no no duche e nada: a insensibilidade manteve-se, oferecendo uma imagem bizarra, debaixo do chuveiro, com a água tépida a salpicar-lhe o corpo ainda desfalecido.

 

Quando deu cobro de si só foi capaz de dizer que soubera, finalmente, o que era o Paraíso. Os outros benfiquistas também. Tudo por causa daquele golo de Arsénio a 15 segundos do fim.

 

Fonte: "A Bola: 100 Figuras do Futebol Português"

 

 

| Vídeos |

 

 

 

Compartilhar este post


Link para o post

aaa3fsem.png

 

Nome Completo: James “JIMMY” HAGAN

Nacionalidade: Inglês

Data de Nascimento: 21-01-1918

Data de Falecimento: 26-02-1998

Cargo: Treinador

 

Épocas ao serviço do Benfica: 4

Total de Jogos pelo Benfica: 120

 

Títulos pelo Benfica:

 

3 Campeonatos Nacionais (1970/71, 1971/72 e 1972/73)

1 Taça de Portugal (1971/72)

 

Percurso como treinador: Peterborough United (1958/59 a 1962/63), West Bromwich Albion (1962/63 a 1966/67), Benfica (1970/71 a 1973/74), Estoril (1973/74 a 1974/75), Sporting (1976/77), Boavista (1977/78 a 1978/79), Vitória FC (1979/80), Belenenses (1980/81) e Estoril (1981/82)

 

Palmarés: 3 Campeonatos Nacionais (1970/71, 1971/72 e 1972/73), 2 Taças de Portugal (1971/72 e 1978/79), 1 II Divisão (1974/75), 1 Football League Cup (1965/66) e 1 Football League Two (1960/61)

 

| Perfil |

 

Como jogador, Jimmy Hagan contabilizou apenas uma internacionalização pela Selecção inglesa, não lhe fazendo justiça, já que foi considerado um dos mais talentosos jogadores ingleses da sua época. A sua carreira como futebolista foi interrompida pela 2ª Guerra Mundial, mas permaneceu como uma lenda para os fans do Sheffield United, clube que serviu durante cerca de 20 anos.

 

Começou a sua carreira de treinador no Peterborough United, onde esteve entre 1958 e 1962. Seguiu-se o West Bromwich Albion em 1963, onde conquistou a Taça da Liga Inglesa em 1966.

 

Jimmy Hagan chegou ao Benfica em 1970. De 1970 a 1973 liderou a equipa a três vitórias consecutivas no Campeonato e a uma Taça de Portugal, um recorde que nenhum outro treinador desde então conseguiu repetir ao serviço do Benfica. Neste período, enquanto treinador do Benfica, também chamou a atenção da Europa, quando a equipa chegou às meias-finais da Taças dos Campeões Europeus, sendo apenas afastado pelo lendário Ajax daquela era.

 

Com sorriso fechado e ar sisudo, Hagan celebrizou-se também pela expressão “no comments”, que, afinal, definia todo o seu carácter frio e distante. Tinha ainda o hábito de treinar nos dias dos jogos e sempre “a doer”, com subidas e descidas constantes das bancadas do estádio, em passo de corrida.

 

Em 1972/1973, com Jimmy Hagan, o Benfica tornou-se o único clube português a terminar o campeonato sem derrotas, contabilizando 28 vitórias – 23 consecutivas – em 30 jogos, empatando dois. Nesse mesmo ano, Eusébio foi o melhor marcador europeu com 40 golos, naquela que foi a sua penúltima época como jogador do Benfica. A equipa marcou 101 golos, ultrapassando a marca dos 100 apenas pela segunda vez na sua história.

 

Jimmy Hagan saiu do Benfica, em Setembro de 1973. Na festa de despedida de Eusébio, colocou toda a gente a correr à volta do campo e, às tantas, Humberto Coelho, Toni e Nélinho atrasaram-se dos restantes elementos e encurtaram distância, fazendo corta-mato. O colérico Hagan ameaçou multá-los com mil escudos e obrigá-los a treinar à tarde, deles prescindindo para o jogo da noite entre o Benfica e o Resto da Europa. Depois de meditar, perdoou a multa e o treino da tarde, mas manteve o castigo para a noite. O presidente Borges Coutinho tomou então o partido dos jogadores e ordenou que se fossem equipar, algo que Hagan não admitiu. Bateu com a porta do balneário. No dia seguinte, Hagan apresentou a sua carta de demissão. Um adeus abrupto para um homem de repentes e com um tri no bolso.

 

Desde os tempos em que treinou o Benfica, Jimmy Hagan manteve uma relação de grande amizade com Eusébio, que o descreveu como “forte disciplinador”. “Todos os jogadores pensaram que os seu treinos eram bastante penalizadores e fisicamente extenuantes, após a primeira semana de treinos. Mas passado pouco tempo, a equipa começou a vencer jogos e todos concluíram que tinha valido a pena. Ele deu-nos uma força extra e a ele se deve o facto Benfica ter vencido três campeonatos consecutivos”.

 

Jimmy Hagan fez o primeiro jogo como treinador do Benfica a 13 de Setembro de 1970, numa vitória sobre a CUF (1-0), na Jamor, tendo disputado o último jogo, a 23 de Setembro de 1973, numa vitória frente ao Belenenses (2-1), em Lisboa.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

 

| Notícias |

 

Rui Vitória bate recorde de Hagan num dérbi tranquilo

 

Benfica venceu o Belenenses por 2-0 e atingiu o 16.º triunfo consecutivo fora da Luz. Os tricampeões mantêm três pontos de avanço sobre o FC Porto e agora cinco sobre o Sporting.

 

O Benfica alcançou sem dificuldades de maior uma vitória por 2-0 no Restelo, diante do Belenenses. Um resultado que marca a carreira do treinador Rui Vitória, pois tratou-se do 50.º triunfo em 65 jogos no comando dos encarnados, que lhe vale atingir um recorde do campeonato que já tinha 43 anos, ao alcançar o 16.º jogo consecutivo a vencer fora da Luz, ultrapassando o feito do inglês Jimmy Hagan, também ao serviço das águias, entre abril de 1972 e fevereiro de 1973.

 

(...)

 

Maiores séries de vitórias da Europa: Benfica lidera

 

A caminhada vencedora do The New Saints chegou ao fim já que lhe viu ser negada a 23ª vitória consecutiva no campeonato. O Benfica continua a deter o recorde de vitórias seguidas.

 

29 jogos – Benfica (Portugal) 1971/73

 

A série do Benfica que ainda é recorde no plano europeu começou no final de uma temporada em que se sagraria campeão e continuou na seguinte, com as "águias" a vencerem o título em 1972/73 sem perder – algo que nunca acontecera em Portugal. O treinador inglês Jimmy Hagan era o líder de uma equipa que contava com Eusébio. "Ele gostava de disciplina. Os jogadores pensavam que os seus treinos eram muito duros, mas a equipa começou rapidamente a ganhar jogos e vimos que tudo valia a pena. Ele deu-nos uma força extra e essa foi a razão porque ganhámos três campeonatos seguidos", recordeu em tempos o "Pantera Negra".

 

28 – Dinamo Zagreb (Croácia) 2006/07

 

Eduardo, Luka Modrić e Vedran Ćorluka foram peças-chave na fantástica sequência do Dínamo na Croácia, iniciada com uns 5-1 sobre o Istra em Novembro de 2006 que seria terminada apenas com uma derrota por 4-3 na visita ao Varteks (actual Varaždin), em Setembro de 2007. Na véspera deste jogo, o treinador Branko Ivanković afirmou: "Temos uma grande equipa. Vamos vencer pela 29ª vez seguida e assim igualar o recorde do Benfica de modo a que esta geração do Dínamo fique na história do futebol mundial."

 

28 – Ferencváros (Hungria) 1931-33

 

As "Águias Verdes" somaram dois triunfos nos derradeiros jogos na época anterior e dominaram a seguinte com 22 triunfos seguidos, que lhes valeu o título. Mais duas vitórias no começo da temporada seguinte estabeleceram um recorde na Europa, mais tarde superado pelo Benfica.

 

(...)

 

Compartilhar este post


Link para o post

bento1a3uv8.jpg

 

Nome Completo: MANUEL Galrinho BENTO

Posição: Guarda-Redes

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 25-06-1948

Data de Falecimento: 01-03-2007

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 18

Total de Jogos pelo Benfica: 465

 

Títulos pelo Benfica:

 

8 Campeonatos Nacionais (1972/73, 1974/75, 1975/76, 1976/77, 1980/81, 1982/83, 1983/84 e 1986/87)

5 Taças de Portugal (1979/80, 1980/81, 1982/83, 1984/85 e 1985/86)

2 Supertaças (1980/81 e 1985/86)

 

Percurso como jogador: Atlético Riachense (1964/65 a 1965/66), FC Goleganense (1966/67), Barreirense (1967/68 a 1971/72) e Benfica (1972/73 a 1991/92)

 

Palmarés: 8 Campeonatos Nacionais (1972/73, 1974/75, 1975/76, 1976/77, 1980/81, 1982/83, 1983/84 e 1986/87), 5 Taças de Portugal (1979/80, 1980/81, 1982/83, 1984/85 e 1985/86) e 2 Supertaças (1980/81 e 1985/86)

 

| Notícias |

 

Morreu o mais destemido guarda-redes português

 

Manuel Bento faleceu ontem, com 58 anos, na sequência de um enfarte fulminante. O corpo será cremado hoje, às 19h, no Cemitério dos Olivais

 

Ao serviço de Portugal, Bento fez algumas das suas exibições mais brilhantes. Como na meia- -final do Euro 84, contra a França. Uma frase define, na perfeição, a forma de jogar de Manuel Bento: "Metia a cabeça onde os outros não colocavam os pés". O guarda-redes titular do Benfica durante 11 temporadas consecutivas e o segundo com maior número de internacionalizações por Portugal (63) não resistiu ontem a um ataque traiçoeiro do coração, horas depois de ter estado reunido - na Gala do Benfica - com muitos dos homens com quem partilhou alguns dos melhores momentos desportivos da sua longa carreira.

 

Arrojado, ágil, corajoso, Bento criou um estilo no clube da Luz. Com apenas 1,73 m de altura, o número 1 dos "encarnados" evidenciou-se pelas "saídas" temerárias da baliza, enquanto as exibições entre os postes lhe valeram vários epítetos. Os jornalistas ingleses, por exemplo, apelidaram-no, em 1980, de "homem de borracha" depois de um jogo entre Portugal e a Escócia, que terminou empatado a zero graças às defesas de Bento. Na Luz, foi dono e senhor da baliza durante mais de uma década e ainda lhe pertencem as melhores performances de um guarda-redes no clube. Esteve, por exemplo, 11 jogos consecutivos sem sofrer golos e contribuiu para a conquista de 16 títulos pelos "encarnados".

 

"Empurrado" para a baliza por causa da sua baixa estatura, como o próprio confidenciou em várias entrevistas, Bento não era tosco com os pés. Foi da marca de onze metros, por exemplo, que o guarda-redes construiu algumas das suas exibições mais memoráveis. Em Moscovo, contra o Torpedo, numa eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus, Bento não só defendeu dois penáltis como marcou o decisivo. Noutra ocasião, na Luz, contra o Sporting, falhou um castigo máximo, redimindo-se pouco depois ao defender um penálti de Jordão. Manuel Bento jogava com o coração, o mesmo que ontem o atraiçoou e que já lhe tinha dado um aviso há algum tempo, levando-o a deixar de fumar. Exigiu sempre muito de si mesmo. Era temperamental, vigoroso. Manuel Fernandes, o goleador do Sporting, foi uma das vítimas do número 1 benfiquista, quando levou uma cotovelada depois de uma entrada mais impetuosa sobre o guarda-redes, na Luz. Nada que não tivesse ficado sanado com um almoço entre os dois. Porque Bento também era solidário e sublimava a camaradagem mesmo entre adversários.

 

Ao serviço de Portugal, Bento realizou algumas das suas exibições mais brilhantes. A meia-final do Euro 84, contra a França, foi um desses encontros e o jogo de apuramento para o Mundial 86, em Estugarda, frente à Alemanha, foi outro dos momentos em que o pequeno Bento, escondido atrás do seu característico bigode, se tornou "enorme".

 

A maldição mexicana

 

A selecção portuguesa marcou a carreira de Bento não apenas pelos melhores motivos. Depois de ter contribuído para o regresso de Portugal aos Mundiais, o guarda-redes viveu os piores momentos da sua carreira no México. Fora do campo, em Saltillo, a sua frontalidade levou-o a ser um dos jogadores que deram a cara pelo grupo de futebolistas que enfrentaram a Federação Portuguesa de Futebol; no relvado, uma lesão num treino da selecção, já depois do triunfo no jogo inaugural de Portugal contra a Inglaterra, deixou-o fora de combate.

 

Depois de terminar a carreira, foi treinador de guarda-redes do Benfica. Ainda tentou a carreira de treinador principal no Leça, na União de Coimbra e no Amora, mas regressou às "águias", onde trabalhava no sector da formação. Numa entrevista concedida há três anos a um jornal do Barreiro, onde vivia, Bento confessou um dos seus segredos. Dentro das balizas que defendia colocava um par de luvas suplentes onde guardava o seu amuleto: um pedaço do corno esquerdo de uma vaca. Um talismã que o ligava à terra onde nasceu, a Golegã, localidade ribatejana que dará o seu nome ao estádio municipal.

 

Entretanto, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Liga de Clubes (LPFP) decretaram um minuto de silêncio nos jogos deste fim-de-semana, em homenagem a Bento. A FPF decretou também que se deve cumprir um minuto de silêncio antes dos próximos jogos da selecção portuguesa de futebol.

 

O corpo de Manuel Bento vai estar em câmara-ardente a partir das 11h00 de hoje na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro.

 

Fonte: Público

 

 

| Perfil |

 

De pedreiro a rei. Assim foi a vida do popular Manuel Galrinho Bento. Começou por aprendiz de uma arte que o poderia remir à pobreza. Desenvolveu outra arte que boleia lhe deu para o galarim dos famosos. Da primeira não consta que sublinhasse a diferença. Da segunda, a de guarda-redes, nela imperou, com o estatuto de intocável, durante mais de uma década.

 

Os espírito de sacrifício estava-lhe na massa do sangue. Quando aos 15 anos começou nas lides, ao serviço do Riachense, após longas e violentas jornas, mais de cinco quilómetros por dia de bicicleta faria, até Riachos, onde participava nos treinos, que de breu pareciam, tão tímida era a luz artificial. Passou para o Goleganense, um ano depois, formada que estava a equipa júnior da terra onde nascera.

 

As acrobacias na defesa das redes não causaram indiferença. O Torres Novas e o União de Tomar candidataram-se aos seus préstimos. Só que o nome Bento havia já ultrapassado as fronteiras regionais. De Lisboa, do Sporting, lançaram-lhe o repto. Durante três meses, treinou-se intensamente. Um responsável leonino mandou-o ir à Golegã, proceder à desvinculação. Possesso ficou. Essa não era maneira de tratar o clubezinho lá da terra. Mala feita, viagem de camioneta, voltava o Manel para casa, com a firme convicção de que no Sporting jamais jogaria, nem por salário superior ao do britânico Gordon Banks.

 

Sem que se saiba muito bem como, a noticia chegou à margem sul do Tejo. Por 15 contos apenas, corria o ano de 66, compromisso assinou pelo Barreirense, baluarte de um inesgotável viveiro de grandes promessas futebolísticas.

 

Em terra de guarda-redes, guarda-redes é rei. Na esteira de Azevedo e de Carlos Gomes, logo Bento se destacou. E seria memorável, para vingança consumar, a exibição que fez em Alvalade. Estávamos em 68, quando o Barreirense derrotou um Sporting, cheio de ganância do titulo conquistar. Estrondearam palmas na Luz, ganhava o Benfica esse Campeonato. Um ano volvido, mercê do quarto posto, o Barreirense habilitou-se à Taça UEFA, proclamando inegociável aquele guarda-redes de físico atípico para a função, já muito exposto às investidas benfiquistas. Na festa de homenagem a Mário Coluna, Bento teve o privilégio de substituir a Aranha Negra, o eterno Lev Yashin, num misto mundial. Desvaneceu a Luz e as juras de amor foram um ror delas. Em Agosto de 71, finalmente, preparava-se para discutir a defesa das balizas com José Henrique. No Benfica, pois então.

 

Ao longo de 18 temporadas, Manuel Galrinho Bento carimbou de qualidade a sua passagem. Com agilidade felina, contumácia, praguejou adversários e sossegou companheiros. Chegou aos 16 títulos, distribuídos por oito Campeonatos, seis Taças e duas Supertaças. Num determinado período, manteve as redes invioladas durante 1290 minutos consecutivos. E marcou golos de penálti. Como aquele que garantiu a eliminação do Torpedo de Moscovo, na gélida capital russa. Um outro falhou, certo dia, ante o Sporting, na Luz, mas logo a seguir redimiu-se, retendo o remate de Jordão, disparado da marca dos 11 metros.

 

Na Selecção Nacional, também Bento não deixou de emprestar toda a sua galhardia. Ainda hoje está no top dos mais utilizados de sempre. “Homem de borracha”, chamaram-lhe os jornalistas britânicos, após um empate a zero, com a Escócia, em Glasgow. E no Europeu de 84, se Chalana justifica todas as mordomias, não dá para esquecer a competência de Bento, negando, amiudadas vezes, o iminente golo da turma gaulesa.

 

Já com idade para ser avô, Manuel Bento despediu-se. Mas para sempre ficará património do Sport Lisboa e Benfica.

 

Fonte: Memorial Benfica

 

Menino pobre, filho de uma família que mal tinha dinheiro para o pão e vinho sobre a mesa que Amália imortalizou. Era assim naqueles tempos do regime salazarista. Com apenas 11 anos Manuel Bento teve de se fazer homem à pressa e ir trabalhar como ajudante de pedreiro para que os dias fossem menos negros. Como homem grande atravessou a meninice, alimentando a cada dia o sonho de que o futebol lhe suavizasse mágoas e o resgatasse da miséria que por essa altura assombrava a grande maioria dos lares portugueses. Assim, com apenas 15 anos começou a escrever uma verdadeira ode ao espírito de sacrifício, que a vida era para ser encarada de mangas arregaçadas. Tornou-se guarda-redes do Riachense e para se treinar tinha de percorrer todos os dias, ao fim de horas e horas a trabalhar no duro, cinco quilómetros de bicicleta.

 

Jogou depois mais pertinho de casa, nos juniores do Goleganense. Um dia chegou de Lisboa convite para se treinar à experiência no Sporting. Durante três meses viveu no lar de Alvalade. Um dirigente disse-lhe uma vez que deveria voltar à Golegã para convencer a gente lá da terra a dar-lhe a carta de desvinculação sem que os leões pagassem um tostão. «Tamanha injustiça para um clube tão pobre», pensou. Falou mais alto a dignidade quando disse não. Fez a mala e regressou. Na camioneta um único pensamento lhe invadia a alma: no Sporting nunca jogaria, nem que lhe dessem todo o dinheiro do mundo.

 

A fantástica história do menino que não quis prejudicar o clube que o formou atravessou o Tejo, chegou por portas e travessas ao Barreiro. Em 1966, a troco de 15 contos, ficou acertada a contratação do promissor guarda-redes pelo Barreirense.

 

Dois anos mais tarde já notícias do seu talento atravessam o País de lés a lés. Chegara a hora da vingança pelo que acontecera anos antes. O Sporting corria embalado para o título quando o Barreirense foi a Alvalade. Bento defendeu tudo o que havia para defender e trocou o passo aos leões. A admiração dos benfiquistas terá começado nessa tarde. Aumentou no ano seguinte, quando o guarda-redes foi decisivo para o quarto lugar do Barreirense, que levou o clube à Taça UEFA.

 

Depois de tanto sofrer, a vida começava a sorrir-lhe. A 8 de Dezembro de 1970 um fabuloso convite fê-lo sentir-se nas nuvens. Um sonho jogar no Estádio da Luz, na festa de homenagem a Mário Coluna, representando uma selecção do Mundo recheada de estrelas. Nesse jogo em que defrontou o Benfica foi suplente do mítico Yashin. Fez exibição de sonho. Os dirigentes encarnados nas bancadas, de boca aberta, juraram que o contratariam. Conseguiram. Assinou pelo Benfica em Agosto de 1971.

 

Quando chegou era José Henrique dono e senhor das balizas da Luz. Com Pavic como treinador, em 1974/75 tudo mudou. Nas asas de Bento o Benfica voou alto. Mas foi de quinas ao peito que, em Glasgow, assinou tão portentosa exibição que os jornalistas ingleses lhe colaram o epíteto de... «homem de borracha».

 

Há quem passe a vida disfarçado de homem simples mas de quando em vez não resiste a transformar-se em herói. Bento também não resistiu... Num gélido dia, em Moscovo, com o Torpedo como adversário, a eliminatória resolveu-se no desempate por pontapés da marca de grande penalidade. Defendeu dois e, talvez por inspiração divina, arregaçou as mangas e foi marcar o derradeiro. Golo... O Benfica seguiu em frente.

 

Bento viveu também momentos de pesadelo. O seu chama-se Saltillo. O pesadelo dos portugueses chama-se... México-86. O pé calcou mal a relva, o sofrimento, esse, fez doer bem mais a alma. De novo o fado a reger os destinos de Portugal. «Para além de ter sido a minha desgraça, foi também a desgraça de Portugal. Quando me lesionei houve jogadores que entraram em pânico, dizendo-me ao ouvido que comigo de muletas o sonho tinha acabado. Sinceramente, acho que se não tivesse tido aquele azar não teria, sequer, havido... Saltillo no futebol português. Mas, como há males que vêm por bem, mal seria não ter havido Saltillo.»

 

Fonte: A Bola - 60 Anos

 

 

| Vídeos |

 

 

Parte

|
|

 

Compartilhar este post


Link para o post
Excerto do livro do Saviola:

 

"Ao longo da carreira encontrei vários tipos de adeptos. Dos fanáticos de Sevilha, aos low profile do Mónaco. Mas como também já referi, não encontrei nenhuns com a genuína paixão dos benfiquistas. É quase inexplicável. Sente-se olhando fundo nos olhos das pessoas. Sente-se nas manifestações espontâneas nas ruas, nos restaurantes, no estádio. Sente-se nas cartas que recebemos (...). Quem já passou pelas mesmas situações - em países diferentes, com clubes diferentes e adeptos diferentes - sabe distinguir claramente os sentimentos. Aqui é distinto. Garanto!."

 

"O Benfica é um clube muito especial. Não digo isto para ser politicamente correcto ou conquistar o coração de quem quer que seja. Aliás, antes de vir para Portugal, posso confessar que desconhecia em absoluto esta grandeza. O Benfica foi-me conquistando e convencendo com factos. É daqueles clubes que te surpreende dia após dia. Quando conto isto a alguns colegas de outros clubes eles estranham. Como é que alguém que passou pelo Real Madrid ou Barcelona se pode surpreender? A explicação é simples. O Real ou o Barça são como teatros gigantescos e nós, os jogadores, somos os actores principais de uma grandiosa encenação. No Benfica é outra coisa, mais ligada ao sentimento, ao povo, à paixão. Vem das raízes, é genuíno.” “Os adeptos conseguem transmitir-nos exactamente o que lhes vai na alma. Sentimos essa força na pele. (...). Cheguei a dizer ao Jorge Jesus: "Mister, isto nem no Madrid! O mesmo já tinha acontecido no estágio da Suiça. No meio das montanhas, num local que nem vem no mapa, havia centenas de benfiquistas a apoiar-nos. Após o primeiro treino liguei à minha mãe e disse: "Mãezita, este clube é impressionante!"

 

Não sei se é verdade ou não, mas é bonito :')

Compartilhar este post


Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisa de ser membro desta comunidade para poder comentar

Criar uma conta

Registe-se na nossa comunidade. É fácil!

Criar nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Autentique-se agora
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...