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[SL Benfica] Homenagem a Figuras Históricas do Clube

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Nome Completo: MÁRIO WILSON

Nacionalidade: Português

Data de Nascimento: 17-10-1929

Data de Falecimento: 03-10-2016

Cargo: Treinador

 

Épocas ao serviço do Benfica: 5

Total de Jogos pelo Benfica: 126

Total de Vitórias pelo Benfica: 84

 

Títulos pelo Benfica:

 

1 Campeonato Nacional (1975/76)

2 Taças de Portugal (1979/80, 1995/96)

 

Percurso como jogador: Desportivo Lourenço Marques, Sporting (1949/50 e 1950/51) e Académica (1951/52 a 1963/64);

 

Palmarés: Campeonato Nacional 1950/51

 

Percurso como treinador: Académica (1964/65 a 1968/69 inc.), Belenenses (1968/69 inc. e 1969/70), Tirsense (1970/71), Vitória SC (1971/72 a 1974/75), Benfica (1975/76), Boavista (1976/77), Vitória SC (1977/78 e 1978/79), Selecção Nacional (1978/79 e 1979/80), Benfica (1979/80), Académica (1980/81 a 1982/83), Estoril (1983/84), Boavista (1984/85 inc), Estoril (1984/85 inc. e 1985/86), Cova da Piedade (1986/87), Louletano (1987/88 inc.), Cova da Piedade (1987/88 inc.), Torreense (1988/89), Olhanense (1989/90), Rec. Águeda (1990/91), FAR Rabat (1993/94 e 1994/95), Benfica (1995/96 e 1996/97), Alverca (1997/98 inc.), Benfica (1997/98 inc.) e Alverca (1998/99).

 

Palmarés: Campeonato Nacional 1975/76; Taça de Portugal 1979/80 e 1995/96

 

| Notícias |

 

Mário Wilson, o adeus do capitão consensual

 

Foi jogador, treinador e seleccionador, deixando a sua marca por onde passou, mas era a sua personalidade ímpar que cativou todos os que o conheceram.

 

Neto de um americano e de uma princesa moçambicana, Mário Wilson nasceu para o futebol de pé descalço nas ruas da colonial Lourenço Marques (actual Maputo). Os seus dotes trouxeram-no para Lisboa, primeiro para o Sporting, mas foi na Académica que viveu os melhores anos da sua carreira e ali seria imortalizado com o epíteto de “Velho Capitão”. Pendurou as chuteiras para assumir o papel de treinador, orientando o Benfica, o seu outro grande amor, a par da “Briosa”, e da selecção nacional, mas conheceu muitos outros bancos técnicos. Foi íntimo de Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Daniel Chipenda e apoiante de primeira hora dos movimentos independentistas africanos. Morreu nesta segunda-feira aos 86 anos, na sequência de uma pneumonia. Nesta segunda-feira, ainda não eram conhecidos detalhes em relação às cerimónias fúnebres, mas as reacções à sua morte tiveram um denominador comum: admiração.

 

Durou cerca de um mês a viagem que trouxe Mário Wilson de Moçambique para Lisboa. A bordo do Mouzinho de Albuquerque, o jovem de 19 anos, deixava para trás o Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica, para alinhar ao serviço dos “leões”. Um passo de gigante para o neto do comerciante Henry Wilson, que um dia também cruzou o oceano para encontrar no Catembe o amor da sua vida, no rosto da filha de um dos primeiros régulos (chefes tribais) da região. O jovem Wilson iria também entrar na aristocracia sportinguista, onde teria a missão de suceder ao “rei” Peyroteu, o mais brilhante dos “cinco violinos”.

 

Não se vai demorar muito tempo com o “leão” ao peito. Apenas duas épocas. Mas deixa a sua marca. Será o melhor marcador da equipa na temporada de estreia (1949-50) e o segundo goleador do campeonato; ajudará à conquista do campeonato no ano seguinte. No Sporting será também adaptado a defesa central, posição onde se irá fixar e que iria solidificar na Académica numa longa relação de 12 anos como jogador.

 

Em Coimbra, irá igualmente despertar para a política, inspirado pelo ambiente subversivo contra o regime ditatorial que se respira na cidade estudantil. Partilhará a mesma República estudantil com Almeida Santos, o já falecido ex-presidente da Assembleia da República, mas também priva com grandes figuras dos movimentos independentistas das antigas colónias africanas portuguesas, como já havia acontecido na capital, onde aprofundou uma íntima amizade com Agostinho Neto, com quem partilha casa.

 

Encerra a carreira nos relvados na temporada de 1962-63, permanecendo ligado à Académica, como técnico-adjunto, nomeadamente de José Maria Pedroto, com quem tem uma relação conflituosa, substituindo-o no cargo de treinador principal em 1964. Vai viver momentos de glória à frente da “Briosa”, com quem se sagra vice-campeão nacional na época de 1966-67, algo inédito na história do clube. António Simões, antiga glória benfiquista, recorda-se bem desses anos extraordinários.

 

O Benfica, o outro grande amor confesso de Mário Wilson, surge no percurso do treinador em 1975, aos 46 anos. Ao serviço das “águias” será o primeiro treinador português a ser campeão, logo na época de estreia. Irá regressar inúmeras vezes ao banco “encarnado”, como “bombeiro de serviço”, conquistando a Taça de Portugal em 1979-80 e 1995-96.

 

Entre os inúmeros jogadores que lançou estão Álvaro Magalhães e Pedro Henriques. Duas gerações diferentes de futebolistas, mas o mesmo carinho pelo “mister Wilson”. “Conheci-o com 19 anos na Académica e foi ele que me ensinou valores como educação, disciplina e equilíbrio. Fora de campo era um amigo. Foi o melhor treinador que tive em termos humanos”, lembra o agora também treinador Álvaro Magalhães.

 

“Era um homem com um discurso empolgante, tanto nas galas como nos treinos”, garante Pedro Henriques, agora comentador desportivo: “Nos anos em que o Benfica atravessava períodos de crise, só ele nos fazia ficar contentes. Era uma maravilha.”

 

Público

 

Reacções à morte de Mário Wilson unânimes na admiração

 

O "Velho Capitão" é elogiado por todos sem excepção.

 

As reacções à morte de Mário Wilson, que faleceu nesta segunda-feira, aos 86 anos, foram várias e surgiram dos mais diversos quadrantes do desporto nacional.

 

Natural de Maputo, em Moçambique, Mário Wilson envergou, como jogador, as camisolas do Desportivo de Lourenço Marques, Sporting e Académica.

 

Como treinador, orientou o Benfica em três ocasiões, em 1975-76, 1979-80 e 1995-96, mas também emblemas como Académica, Belenenses, Vitória de Guimarães e Boavista, entre outros, assim como a selecção portuguesa na qualificação para o Europeu de 1980.

 

Filipe Vieira: "Será sempre um exemplo"

 

Numa mensagem colocada no site oficial do Benfica, o presidente “encarnado” Luís Filipe Vieira lembrou Mário Wilson como “uma figura ímpar”. “Um ser humano com um coração tão grande nunca nos devia deixar. Razão pelo qual permanecerá sempre na nossa memória como um caso raro de entrega e paixão ao fenómeno desportivo. Pela sua humildade e disponibilidade para o próximo será sempre um exemplo”, acrescentou o dirigente.

 

Paulo Almeida: "Sentiu a Académica como poucos"

 

“A Académica, o País e o Futebol estão de luto. Faleceu esta segunda-feira Mário Wilson, antigo jogador e treinador da Briosa e uma das figuras de maior destaque na História da nossa Instituição”, escreveu o emblema de Coimbra nas redes sociais, acrescentando: “Sem palavras para descrever o profundo sentimento de tristeza que nos invade, ficam as memórias e, sobretudo, a admiração por alguém que viveu e sentiu a Académica como poucos.”

 

Fernando Gomes: "Conquistou o respeito pela sua superior conduta ética e moral"

 

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol enalteceu a superior conduta ética e moral de Mário Wilson, o “velho capitão” que construiu “uma carreira quase ímpar no futebol português, quer como jogador quer como treinador”. “Foi com grande tristeza que recebi a notícia da morte de Mário Wilson. Pessoa de uma bonomia e trato ímpares, o ‘velho capitão’ – como todos os que dele gostavam se habituaram a tratá-lo – construiu uma carreira quase ímpar no futebol português, quer como jogador quer como treinador”, começou por dizer Fernando Gomes, em comunicado publicado na página da FPF.

 

“Mário Wilson ganhou inúmeros campeonatos e Taças, marcou muitos golos, orientou muitas vitórias, deu-nos muitas alegrias mas, acima de tudo, conquistou o respeito de todos os que com ele conviviam pela sua superior conduta ética e moral”, acrescenta Fernando Gomes.

 

Bruno de Carvalho: "Uma figura de referência do futebol nacional"

 

Já o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, definiu Mário Wilson, como “um cavalheiro”. “Era reconhecidamente um cavalheiro que, como atleta e treinador, passou por inúmeros clubes deixando sempre a sua marca. Foi o que aconteceu também no Sporting onde, nas épocas de 1949-50 e 1950-51, contribuiu para a conquista de um título de campeão nacional”, destacou o presidente "leonino", na sua página no Facebook.

 

Considerando Mário Wilson como “uma figura de referência do futebol nacional”, Bruno de Carvalho recordou a longa carreira como treinador do "velho capitão", que alcançou o topo desempenhando o cargo de seleccionador nacional.

 

Manuel António era um miúdo de 18 anos quando foi treinado por Mário Wilson, na Académica, em 1964-65. “Era um homem espectacular. Era o capitão. Éramos muito novos, mas ele era o capitão. Sempre foi a alcunha dele. Era um autêntico líder e sabia muito de futebol”, recordou ao PÚBLICO o ex-avançado internacional português e actual director do Instituto Português de Oncologia de Coimbra.

 

“Era um homem afável, que sabia de futebol, simpático e com capacidades de liderança. Tinhas as qualidades para ser o grande treinador que foi. Da geração que eu conheço, o Mário Wilson foi um dos grandes treinadores da Académica. Berrava e tal, parecia que era mau, mas era sempre amigo do seu amigo. Não era um treinador, era um capitão”, acrescentou Manuel António. “A liderança era uma característica que tinha nascido com ele. Sabia comandar e todos o respeitávamos. Tinha categoria como treinador e dava-nos a confiança suficiente para o tratarmos como capitão. Mas era um homem da brincadeira também. Sabia estar acima de nós, como capitão e comandante, como líder. E sabia estar junto de nós, quando brincávamos uns com os outros, nas partidas e nas amizades que se tinham. Também tinha as suas brincadeiras”, lembrou.

 

Mário Wilson estreou-se oficialmente pela Académica em Outubro de 1951, com 21 anos, e representou o clube até aos 33. Fez 281 jogos pelo emblema de Coimbra, nos quais marcou 17 golos. “Apesar de jogar, normalmente, a defesa – ou no meio-campo defensivo – nunca foi expulso e só por uma vez teve de abandonar o campo lesionado”, conta-se em Académica – História do Futebol (Almedina, 2007). A época 1964-65 marcou a estreia de Mário Wilson como treinador principal. Assinou contrato com a Académica com duração de um ano e a troco de 12 contos (o equivalente a 60 euros, ao câmbio actual), ilíquidos, por mês, lê-se na mesma obra.

 

Público

 

 

| Perfil |

 

Além de grande jogador, actuou no Sporting como avançado e na Académica como defesa, Mário Wilson foi um treinador carismático e uma referência para o Benfica em situações de aperto.

 

Dono de frases que ficaram na história, como “quem treina o Benfica, arrisca-se a ser campeão” ou “se não confiasse no Benfica, ia vender preservativos para o Rossio”, Mário Wilson cumpriu o primeiro período de treinador em 66/67, logrando um inédito segundo lugar para a Académica.

 

Chegou ao Benfica em 75/76 para fazer a transição entre Milorad Pavic e John Mortimore. Uma época rendeu-lhe o titulo numa acérrima e inesperada disputa com o Boavista, que ficou a dois pontos. Seria o bi do Benfica, numa época marcada pelo aparecimento, ainda que fugaz, de Chalana. Na equipa de Wilson, figuram os dois melhores marcadores do Nacional: Jordão (30) e Nené (29), que, juntos, facturam mais que 13 das restantes 15 equipas, incluindo o Sporting!!

 

Em 1978, atingiu o ponto mais alto da sua carreira, na selecção nacional. Em Setembro de 79, convocou nove portistas para o particular com a Espanha, em Vigo, a oito dias do AC Milan - FC Porto, da segundo eliminatória da Taça dos Campeões. Ganhou dois inimigos de peso (José Maria Pedroto e Pinto da Costa), mas não foi por isso que trocou Portugal por Marrocos, para treinar o FAR Rabat.

 

Regressou ao Benfica na época 79/80, época histórica para o Benfica. A 1 de Julho de 1979, numa Assembleia Geral extraordinária, presidida por Adriano Afonso, e que durou oito horas, foi aprovada por maioria a utilização de jogadores estrangeiros. O resultado foi a contratação do brasileiro Jorge Gomes ao Boavista, que assim se tornou no primeiro estrangeiro do Benfica. A época, essa, não correu de feição. No campeonato, terceiro lugar, o que não acontecia desde 1962. Na Taça UEFA, eliminação prematura na ronda inicial, frente aos gregos do Aris de Salónica. Salvou-se a conquista da Taça de Portugal, com a eliminação do Sporting nos oitavos, e FC Porto na final.

 

Depois de muitas experiências em variadíssimos clubes, seria chamado para o Benfica por Artur Jorge, que (coincidência) Wilson fora buscar para a Académica dos juniores do FC Porto. Com a saída de Artur Jorge, tomou conta da equipa e levantou a Taça, repetindo o feito de 80, aquando da segunda passagem pelos encarnados.

 

Mário Wilson fez o primeiro jogo como treinador do Benfica a 10 de Setembro de 1975, num empate com o Boavista (0-0), na Luz, tendo disputado o último jogo, a 18 de Maio de 1996, numa vitória frente ao Sporting (3-1), no Jamor.

 

Texto: Memorial Benfica, 100 Glórias

 

Velho bombeiro que apagou fogos e reacendeu paixões

 

A sua frase está gasta: “Quem treina o Benfica arrisca-se a ser campeão.”

 

Era assim, ainda é, talvez menos, por sinal dos tempos. Porém, Mário Wilson é referência além dos benfiquismos.

 

Aos da sua idade traz saudades de dias de glória; aos mais novos reconta passados num tom de pai, ou de avô, como se a história do futebol português não pudesse ser contada sem as suas fotografias, os seus recortes de jornal. Não pode.

 

Mário Wilson nasceu em Lourenço Marques a 17 de Outubro de 1929, sete dias antes do célebre crash bolsista da Quinta-feira Negra, que abalou os Estados Unidos primeiro e todo o Mundo depois. A proximidade é coincidência, claro.

 

Wilson foi falado como avançado do Sporting e defesa da Académica e provocou explosão de contentamento aos sportinguistas em 1949/50, primeira época em Portugal, ao marcar 37 golos em 36 jogos.

 

Mas só como treinador pode falar-se de uma explosão na sua carreira, por um lado apaziguadora, por outro frontal, como quando encetou diálogo histórico com José Maria Pedroto. Decorria 1979, Mário Wilson era seleccionador nacional e avalizou um Espanha-Portugal a oito dias do Milan-FC Porto para a Taça dos Campeões. Além do mais convocou nove portistas… Pedroto foi aos arames e a FPF multou o treinador portista em 500 escudos e um mês de suspensão por considerar ofensivas as suas declarações sobre Wilson. Pedroto defendeu-se mas nada emendou: «Quando disse que Wilson, como treinador, era um palhaço, não tive intenção de ofender os palhaços (…)»

 

Wilson, que sempre teve gosto – e arte – para diálogos quentes, respondeu e fez a troca de impressões com Pedroto ficar, pela agressividade, pela forma como roçou o insulto, para o bem e para o mal, para a história: «Pedroto acusa-me de dopar jogadores, de alcoolismo, além de me ter chamado palhaço. Só faltou chamar-me batoteiro incorrigível, ditador inveterado, desrespeitador da ética e da deontologia para esboçar o seu próprio retrato.»

 

A faceta piromaníaca, revelada ao longo da carreira quase em exclusivo por este duelo de titãs, ficou no resto à sombra da sua tranquilidade, da sua paz, do seu Benfica, onde, como treinador, foi campeão em 1975/76 e vencedor da Taça de Portugal em 1979/80 e 1995/96.

 

Todavia ao Benfica nada ficou a dever, sobretudo quando a sua carreira de treinador entrou em desaceleração, no final dos anos 90. Pegou nos encarnados sempre que se verificaram apostas falhadas em treinadores. Fê-lo com o carácter transitório de quem dá um jeito à mesa da sala, à espera que chegue alguém para limpar o pó e aspirar os cantos. Tê-lo-ia feito as vezes que fossem precisas. Ainda hoje. Chamaram-lhe bombeiro do Benfica.

 

«Feliz bombeiro», acrescentou o velho capitão, outra alcunha, que vem de longe, dos tempos da Académica de Coimbra. «Outro orgulho», confessou Wilson.

 

Texto: A Bola, 60º Aniversário

 

 

| Vídeos |

 

 

 

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A prova que não é a quantidade de títulos que faz uma lenda.

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Nome Completo: VITOR Manuel Ferreira BAPTISTA

Posição: Avançado Centro

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 18-10-1948

Data de Falecimento: 01-01-1999

Número da Camisola: 11

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 7

Total de Jogos pelo Benfica: 151

Total de Vitórias pelo Benfica: 63

 

Títulos pelo Benfica:

 

5 Campeonatos Nacionais (1971/72, 1972/73, 1974/75, 1975/76 e 1976/77)

1 Taça de Portugal (1971/72)

 

Percurso como jogador: Vitória FC (1966/67 a 1970/71), Benfica (1971/72 a 1977/78), Vitória FC (1978/79), Boavista (1979/80), San Jose Earthquakes (1980), Amora (1980/81), Montijo (1981/82), União de Tomar (1982/83), Monte da Caparica (1983/84) e Estrelas do Faralhão (1984/85 a 1985/86)

 

Palmarés: 5 Campeonatos Nacionais (1971/72, 1972/73, 1974/75, 1975/76 e 1976/77) e 2 Taças de Portugal (1966/67 e 1971/72)

 

| Notícias |

 

Citação do jornal "Expresso" online

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Maior do que a morte

 

Esta é a história do jogador que parou um Benfica-Sporting à procura de um brinco, que aparecia no Estádio da Luz de Jaguar e motorista, que levava um cão para os treinos e o amarrava a uma baliza, que não tinha medo de pôr a cabeça onde outros só punham os pés. Vítor Baptista teve tudo e tudo perdeu, na droga, na noite e em maus negócios.

 

Eram quatro miúdos que se mexiam em bando. Onde um ia, os outros iam, e juntos metiam-se por atalhos e em trabalhos, porque se julgavam imbatíveis. Toda a gente os conhecia nos bairros de barracas de Setúbal por estas ou por aquelas razões — raramente boas, geralmente más. Não tinham medo de nada. De roubar maçãs, ameixas e laranjas das quintas da Camarinha, para serem comidas ou vendidas aos jogadores do Vitória por 10 tostões — e no entretanto escapar à GNR montada a cavalo. De andar à bulha, porque o tamanho não importava, mas sim a força com que se dava — e o Jaime, o Pedro e o Florival davam como gente grande. De apostar nas futeboladas feitas com bolas de pano, porque eles eram bons de bola — sobretudo, o Vítor era bom. E, se o Vítor não chegava para ganhar, tinham sempre o Pedro, o Jaime e o Florival para darem conta do recado. Ou as pernas para fugirem a oito pés. Descalços e calejados.

 

Dos quatro, o Vítor era o mais corpulento, mas também o mais calmo. Anos mais tarde, seria conhecido como “O Maior”.

 

Naquele tempo, o Vítor punha-se um bocadinho à margem das confusões daquele bando. Como daquela vez em que os quatro correram com sete ou oito rapazes do Campo dos Arcos para ocupar o largo. Ou da outra, junto à Praça de Touros, em que o Florival pegou num lavatório de rua e rachou-o na cabeça de um dos tipos que se metera com eles no cinema. Mais tarde, o mesmo rapaz que ficara a tremer e ensanguentado no chão pagou-lhes umas cervejas para saldar as contas. No Campo dos Arcos, o Vítor ficou a ver, e na noite do cinema apanhou o autocarro e foi para casa.

 

O que ele tinha era mau feitio. Era orgulhoso e refilão e odiava perder — chorava e chorava muito quando a coisa não lhe corria bem às cartas, aos matraquilhos ou no futebol. Não que isso acontecesse muitas vezes, é verdade, porque ele tinha pedalada para toda a gente.

“Não éramos nada ao pé dele.” É o Pedro quem o diz, mas poderia ser outro qualquer que se lembre de o ver jogar na rua com os pés nus e depois nos clubes de bairro. Num desses clubes, o Rio Azul, o Pedro, o Jaime, o Florival e o Vítor ganharam tudo, e o Vítor foi o que deu mais nas vistas, porque tinha aquele jeito dos predestinados. Era mais rápido, mais forte, mais habilidoso. Se alguém ia chegar longe e deixar a vida nas barracas para trás era o Vítor.

 

A casa

 

Onde hoje está a Avenida Infante Dom Henrique estava a Azinhaga do Mal Talhado. Foi lá que o Vítor nasceu, a 18 de outubro de 1948, filho de Sebastião Baptista, trabalhador na lota de Setúbal, e de Cecília Baptista, que ganhava a vida na indústria das conservas. O Vítor tinha dois irmãos, o Eduardo, dez anos mais velho, e o Idaliano, cinco anos mais velho. Viviam todos numa barraca cuja porta de entrada era uma folha de lata e madeira; tinha um só quarto, uma cozinha e uma pequena sala. Eram pobres. Passavam fome. Uma sopa de feijão com repolho e ossos de animais dava para uma semana inteira e havia festa nos dias em que se fazia um caldo com as amêijoas da Marinha. O Baptista mais pequeno era esquisito com a comida e fazia fita quando não gostava.

 

O Vítor, o Eduardo e o Idaliano puxaram todos à mãe, que era robusta, mulher para um metro e oitenta; o pai era frágil mas duro de quebrar e carregava o peixe à cabeça desde a lota até à praça. Um dia, morreu. “Foi do trabalho.” A explicação do Jaime é mais poética do que a dos irmãos do Vítor: para eles, Sebastião caiu na casa de banho e bateu com a cabeça no chão. Foi um ataque que o levou.

 

Para o Jaime, falar dos Baptista é como falar da família, porque o Vítor era como um irmão mais novo. Um mês e sete dias mais novo. “Nasci a 11 de setembro e ele a 18 de outubro. As nossas mães davam-nos de mamar uma ao lado da outra.”

 

O Jaime e o Vítor conheciam-se desde sempre e depois conheceram o Florival e o Pedro, do Bairro Carmona, onde jogavam à bola num campo que lá havia. Montavam ratoeiras e armadilhas, iam aos pássaros e à fruta. E faziam rimas. O Vítor costumava dizer esta: “Santo António comigo vai,/ São João comigo vem./ Quando eu estiver a roubar,/ Não quero que apareça ninguém.”

 

No dia em que o pai desapareceu, o Vítor tinha 10 anos, mas esse assunto nunca foi discutido com os irmãos. Era um miúdo fechado, calado e melancólico. E, quando a mãe se casou pela segunda vez, o Vítor tinha 14 anos. Saiu de casa e foi viver para a pensão da Ti Chica, que ficava num largo como quem vai para os Pachecos, junto à capela. Nessa altura, já o Vítor era jogador do Vitória, que tinha ficado impressionado com o que vira no clube Rio Azul — para trás ficava um emprego como eletricista na Junta, ofício para o qual não tinha jeito. Nem paciência.

 

O Vitória instalou-o na Ti Chica e dava-lhe comida, dormida e 500 escudos por mês, porque os irmãos estavam no Ultramar. Todos os dias, o Vítor guardava os restos que lhe sobravam do almoço e levava-os aos três amigos, que esperavam por ele nas escadas de madeira da pensão — o Jaime, o Pedro e o Florival não tinham andamento para o Vitória e seguiram para o Independente, um clube popular.

 

Aos poucos, o Vítor fez-se senhor do seu nariz: órfão de pai, longe das saias da mãe, sem os irmãos por perto, ninguém tinha mão nele. Começou a fumar, a beber cerveja e a andar na noite antes de tempo. A vida era dele. E foi isso que o irmão Eduardo percebeu quando regressou da guerra.

 

Os irmãos

 

O Eduardo casou com a Sofia e foram morar para um andar na Tobaida, que fica ali perto do hospital; o Vítor deixou a pensão da Ti Chica e juntou-se ao casal. Ele e a Sofia conheciam-se desde os tempos em que ela começara a namoriscar o Eduardo, tinha o Vítor 4 ou 5 anos. Diz a Sofia que aquele miúdo reguila e rebelde que ela vira crescer na Azinhaga do Mal Talhado se transformou num rapaz bonito e jeitoso. E vaidoso. Queria sempre andar aprumadinho, com a roupa da moda, e ela lavava-lhe as calças e passava-lhe a ferro as camisas e as t-shirts preferidas a troco de nada. Ela gostava dele e tratava-o como uma irmã trata um irmão. Mais tarde, quando o Vítor se meteu “naquilo”, a Sofia tratou-o como uma mãe trata um filho.

 

Ele era magnético, toda a gente gostava dele. “Lembro-me de ele chegar e perguntar por mim: ‘Ó Sofia Loren! Ó Sofia Loren. Estás aí?’ E quando ia a casa da minha mãe gritava: ‘Eh, Ti Noémia! Há aí almoço para mim?’ E ela respondia: ‘Vítor, já está ali o pratinho, está ali à mesa.’”

 

O Vítor não tinha horários, e o Eduardo deixava-o andar. O que é que ele podia fazer? Castigá-lo? Bater-lhe? O irmão já era homem e ganhava mais do que ele — o Eduardo também jogara pelos sadinos, como central, mas o Ultramar trocara-lhe as voltas à vida.

 

No apartamento da Tobaida, onde ainda hoje o Eduardo vive com a Sofia, o Vítor chegava, sentava-se, comia e saía sem pedir licença. Tinha dinheiro, mas não o emprestava ao irmão, mesmo que ele estivesse desempregado. E quando arrancou o namoro com a Mimi, uma boa moça, bonita, a Sofia começou a sentir-se usada de cada vez que levava o almoço a casa das futuras mulher e sogra do Vítor. Mas a Sofia desculpava-o: “Ele não fazia por mal.” O Vítor era mesmo assim.

 

O Idaliano também acha que ele era mesmo assim mas que aquilo não lhe ficava bem. Para o irmão do meio, que nunca teve jeito para a bola e gostava das artes, o Vítor não dava valor ao dinheiro — nem à família. E conta um episódio em que o Vítor estava num grupo de amigos e fingiu não o conhecer na Praça do Bocage. “Meteu-se comigo por ir de livros na mão. E eu disse-lhe: ‘Oiça, amigo, você é tão rico que não precisa de estudar. Mas daqui a uns anos, quando você não tiver nada e eu não tiver nada, serei mais rico do que você.’” Aquilo teve algo de premonitório.

 

Há outros momentos que mostram como ele vivia desligado da família. O Idaliano conta que o Vítor não foi ao seu casamento nem lhe emprestou o carro comprado com o salário do Vitória para levar a noiva. Mais tarde, passou o mesmo carro para as mãos de um amigo, que o espetou contra uma parede num acidente. “Não sei o que ele tinha na cabeça.”

 

O Vitória

 

Na cabeça do Fernando Tomé está o Vítor no Vitória de 1966. Ele já era sénior e o Vítor ainda júnior, mas treinava com os adultos. Era tímido, por ser novo e o mais novo ali, mas não gostava de ser praxado pelos mais velhos. Respondia-lhes coisas como: “Então, mas eu não sou igual a vocês?” O que não faltava ao Vítor era moral.

 

Conta o Tomé que os dirigentes perceberam que estava ali um craque ao qual faltava o petit nom do futebolista — ficou simples, Vítor Baptista, nome próprio e apelido. Mas Vítor Baptista era uma pessoa bem diferente do Vítor. Como a saúde é da doença. Ou o dia é da noite. O Tomé não se esquece da conversa que teve com ele lá mais para o fim: “Ele dizia-me: ‘Eh, pá, estes gajos são uns burros. Então não me passaram uma carta de condução, olha lá, irmão, até 2012? Não sabem que o mundo vai acabar em 2000?’”

 

Para o Vítor, o mundo acabou em 1999.

 

Mas antes sequer de o Vítor tirar a carta, era à boleia do Fernando Tomé que ele andava. O amigo ia buscá-lo a casa do irmão Eduardo no carro emprestado pelo pai, João Tomé, também ele antigo jogador do Vitória. Tornaram-se confidentes do peito, daqueles que o Vítor tratava por “meu irmão”. Comiam na casa dos Tomé, normalmente peixe ao almoço porque à tarde havia treino, e passeavam pelas terras de Setúbal. Uma vez, num Carnaval, foram ambos a um baile de máscaras em Algeruz, chegaram às duas da manhã, e o pai do Fernando disse-lhe: “Se queres fazer esta vida, pegas na mala e vais-te embora.” O Vítor ter-se-á rido. Noutra vez, a polícia prendeu o Vítor por andar a jogar futebol com amigos na praia de Troia e por se embrulhar com o cabo do mar. A polícia esperou por ele na cidade, levou-o preso e pô-lo a dormir na esquadra. No dia seguinte, o Vítor foi a tribunal, pagou 80 escudos e saiu; ninguém tocou nos amigos. Em Setúbal, conheciam-lhe a cara e já lhe tinham tirado a pinta. Para o bem e para o mal. Não seria a última pernoita numa cadeia.

 

Dentro do campo, as coisas corriam bem. Vítor Baptista era internacional júnior quando foi lançado a titular pelo treinador Fernando Vaz — a quem chegou a vender laranjas que roubava na Camarinha — na mais longa final da Taça de Portugal da história. Aconteceu a 9 de julho de 1967: o Vitória de Setúbal e a Académica jogaram durante 144 minutos (90 minutos e dois prolongamentos) e os sadinos ganharam por 3-2.

 

Do outro lado da trincheira estava Toni, que guarda duas lembranças daquela tarde: a coreografia das claques e um puto do Setúbal que tinha cabedal e técnica para outras andanças. O puto era Vítor Baptista, e os destinos de ambos cruzar-se-iam no Benfica. Mas, antes disso, o Vítor tinha um encontro marcado com a fama.

 

É a cunhada, Sofia, que relembra: “Quando jogou a final da Taça de Portugal contra a Académica, fez um jogão. Chegou aqui, e a casa estava cheia de gente, e ele todo inchado.”

 

De lá saiu inchado para um restaurante, onde pediu uma imperial e uma lagosta. O Vítor percebeu que os clientes estavam a olhar e decidiu dar espetáculo — bebeu a cerveja de penálti, comeu um bocado da lagosta e mandou-a para trás, como quem diz: como lagosta todos os dias.

 

Ali estava “O Maior”, e “O Maior” não tinha tempo a perder e tinha dinheiro para gastar. E tinha outras alcunhas. Como “Meu Deus”, que o Fernando Tomé ouviu pela primeira vez num estágio na Pousada de São Filipe, em Setúbal. Acontece que ele, o Vítor e o Pedras, o trio do meio-campo, ficaram juntos num quarto onde só havia duas camas e um divã — e o Vítor ficou no divã. Na manhã seguinte, acordou mais cedo do que os outros, pôs-se a fazer poses ao espelho e soltou: “Ó, meu Deus, porque me fizeste tão belo?” O Pedras e o Tomé ouviram tudo, desmancharam-se a rir e espalharam a história por toda a gente.

 

O efeito Pedroto

 

O que ficou para a história são os golos do Vítor, mas o que muita gente se esquece é que “O Maior” começou no meio-campo e só se tornou ponta de lança com José Maria Pedroto. Em duas épocas com Pedroto (1969/70 e 1970/71) fez 33 golos e disputou o título de melhor marcador com Artur Jorge, do Benfica, em 1971. Ganhou estatuto e um isqueiro de ouro a Pedroto. “Quere-lo? Se marcares dois golos, é teu.”

 

Naquela tarde de verão de 1970, o Vítor fez o que tinha a fazer ao FC Porto, nas Antas, e estendeu a mão para Pedroto. O que estava prometido era devido, e ele devia estar prometido para algo maior do que Setúbal. Em Lisboa, havia já quem o namoriscasse.

 

António Simões lembra-se das conversas que havia no Benfica sobre o “homem robusto e atrevido” do Vitória de Setúbal. À época, só entravam portugueses na Luz, e os que lá andavam não eram uns quaisquer: Jordão, Nené, Artur Jorge, Simões, Torres... e Eusébio. Mas o Vítor tinha o que os outros não tinham: era louco o suficiente para pôr a cabeça onde os outros apenas punham o pé. Não tinha medo da dor nem dos adversários.

 

O clube da Luz ultrapassou o Sporting e contratou-o ao Vitória de Setúbal em 1971, dando em troca José Torres, Matine e Praia — e três mil contos. Na altura, foi a maior transferência de sempre do futebol português.

 

O Vítor tinha 23 anos e o mundo a seus pés. E a tropa à perna.

 

O Benfica

 

Foi parar ao quartel de Elvas com o Fernando Tomé. Lá, o Vítor portava-se mal, era posto de castigo, e muitas foram as vezes que o Tomé saiu para ir à vida dele e o amigo ficou dentro. O Vítor era insolente e descarado, mas com a tropa não se brinca, e ele lá andou de cabelo à escovinha a contar os dias para se juntar ao Benfica. Mas, quando entrou na Luz, descobriu que ali também não se brincava.

 

Diz Toni: “O Jimmy Hagan era exigente, e o Vítor ou trabalhava como os outros ou não calçava.”

Jimmy Hagan foi o primeiro treinador do Vítor no Benfica, de 1970 a 1974. Teve outros três: Milorad Pavic, em 1974/75, Mário Wilson, em 1975/76, e John Mortimore, de 1976 a 78. Em sete épocas no Benfica (e ele era benfiquista), o Vítor Baptista fez 150 jogos, marcou 62 golos, conquistou 5 campeonatos e uma Taça de Portugal. Era rijo e potente e habilidoso, e as defesas não davam conta dele — quando ele jogava. E no futuro o Vítor não jogaria sempre nem jogaria sempre bem. Iria lesionar-se, fingir-se lesionado, seria dado como desaparecido.

 

A carreira do Vítor Baptista começou a ser escrita pelo próprio e por linhas tortas, que ele endireitava sempre que entrava no campo. Lá dentro, o Vítor não precisava nem de conversas nem de palmadinhas nas costas. Era o jogo que o motivava, e ele jogava o jogo pelo jogo, indiferente às porradas que levava ou ao adversário que lhe aparecia pela frente. Ele sabia o que valia e dizia ser “O Maior.” “Mas o que é que tu queres, pá? Sou ‘O Maior’, pá.” Que é como quem diz: vocês ao pé de mim não são nada.

 

Toni tem uma história ou outra para contar sobre o Vítor Baptista; Simões também. E ambos garantem que o Vítor tinha um ego incontrolável, que jogava e falava como os melhores; e que julgava estar a um passo de ser o segundo Eusébio.

 

Nos primeiros anos, o Vítor Baptista foi aquilo que ele dizia ser e andou certinho e certeiro com a baliza: em 1971/72 fez 41 jogos e 14 golos; em 72/73, 16 jogos e 6 golos (esteve lesionado); em 73/74, 39 jogos e 11 golos; e em 74/75, 32 jogos e 3 golos. Hagan e Pavic punham-no a avançado ou a médio e ele rendia nos dois lugares. Se fosse sempre assim, o resto era irrelevante. Mas não foi sempre assim.

 

A droga

 

O Vítor já tinha episódios mal explicados no currículo. Um deles é o corte no pé com uma garrafa (de água, disse ele), na digressão ao Brasil em 1971/72, que o fez aterrar em Lisboa numa cadeira de rodas. Toda a gente achou aquilo estranho, porque a acompanhar a versão dele (há quem defenda que aquilo aconteceu numa rixa com Eusébio) vinha o seu relato incrível em “A Bola”: “O Maior” viu um assalto no aeroporto do Galeão, no Rio, e safou-se arrastando-se de rabo pelo chão com o pé ferido no ar.

 

Mais incrível ainda foi o facto de a história do pé ter cruzado o Atlântico e aterrado num posto médico do Montijo, onde o irmão Idaliano recebeu tratamento de estrela porque alguém o confundiu com o Vítor. “Eu tinha uma fratura na perna e ele tinha cortado o pé no Brasil. Abriram os corredores todos, as portas, porque pensavam que era o Vítor Baptista que ali estava. ‘Eh, pá, não sou o Vítor Baptista, sou o irmão!’”

 

Esses eram os dias em que a mãe e os irmãos não lhe punham a vista em cima, apesar de viverem todos na mesma cidade. O Vítor saía de manhã para Lisboa e para o Benfica e regressava tarde para o pé da primeira mulher — e dos amigos. Ele exibia-se perante eles, mostrava-lhes que tinha chegado longe, convidava-os para almoçaradas e jantaradas, para experimentarem o carro novo. Ou a erva nova que comprara.

 

O Pedro, um dos quatro do bando da Azinhaga do Mal Talhado, chama-lhe ‘parpalhos’ e sabe que Vítor os fumava antes de ir para o Benfica — e antes de o Benfica saber. E o Benfica só ficou a saber na digressão por Angola e Moçambique, no verão de 1974, depois da Revolução de Abril. Numa dessas noites africanas, Simões entrou no quarto que partilhava com o Vítor e sentiu o cheiro a qualquer coisa que ele não sabia o que era. Apalpou a nuvem de fumo que por lá andava. “Eh, pá, ó Vítor, o que é isto? Assim não consigo dormir.”

 

Abriram as janelas, dormiram no terraço, falaram os dois durante a noite, e na manhã seguinte falaram a três: ele, Simões e Fernando Neves, que era o chefe do departamento de futebol do clube. Aquilo ficou por ali, varrido para debaixo de um tapete. Era o primeiro sinal.

 

Simões via o Vítor como a família do Vítor o via: um bom rapaz, que não fazia por mal, que era mesmo assim. E também o desculpava como a cunhada o desculpava. Mas não esquecia. Porque é difícil esquecer que no início dos anos 70 houve um futebolista português que comprou um Jaguar e o equipou com um motorista para o guiar de Setúbal a Lisboa só porque sim. E que esse futebolista usava sandálias de tacão alto, jeans rasgados, camisas abertas, brinco, cabelo e barba compridos, quando todos os outros vestiam fato e gravata. E que esse futebolista fora do tempo era o mesmo que trazia couves e batatas da quinta dele para distribuir pela malta.

 

Simões nunca tinha visto alguém parecido com o Vítor Baptista, a não ser Barry Gibb, dos Bee Gees. Qualquer trapinho lhe assentava bem, e os homens e as mulheres adoravam-no. E ele fazia rir os colegas com aquelas maluqueiras e excentricidades que saíam da cabeça dele — até que aquelas maluqueiras e excentricidades se transformaram em manias. E ninguém atura maníacos.

 

O Vítor tinha o rei na barriga e achava-se intocável. Em março de 1975 disse a Mário Wilson que não estava para ser suplente contra o Vitória de Setúbal — o seu Vitória — e mandou o treinador, os colegas e o clube às urtigas. Passaram-se cinco semanas sem que o Vítor fosse visto com a camisola do Benfica. Começou a disparar para a imprensa que ganhava pouco, que queria mais e que era por isso que não treinava — o Vítor dizia que dispensava o treino, porque as outras equipas estavam cheias de coxos a quem podia ganhar ao pé coxinho.

 

O Benfica pôs-lhe dois processos disciplinares em 1976, e é nesta altura — em que está suspenso e sem salário — que dá a entrevista a “A Bola” em que se diz o “melhor futebolista português”. Havia muitos, mas ele era “O Maior”, e os outros teriam de habituar-se à ideia. E é também nesta altura que é expulso da seleção por chamar “estúpido” ao selecionador Juca antes do jogo de Portugal com Chipre. Fez apenas 8 jogos e 6 golos pelo Benfica e acabou a época 1976/77 acabado — para renascer no fim do verão. É um padrão na vida do Vítor: ele tentaria ressuscitar várias vezes até ao último fôlego.

 

O brinco

 

O Vítor Baptista reapareceu porque precisava de dinheiro, e o Benfica aceitou-o de volta porque estava convencido de que o jogador sabia que tinha de trabalhar. Mas a época começou descamisada.

 

Conta Toni: “A 28 de setembro de 1977 íamos jogar a Moscovo para a segunda mão da Taça dos Campeões contra o Torpedo. E o Vítor aparece com chinelas de tacão alto, camisa de meia manga branca e calças de ganga — e nós de fato e cobertos para o frio russo. Eu era o capitão e falei com o [treinador] Mortimore, mas ele estava irredutível. O Vítor com aquela roupa não seguiria viagem. Mas lá lhe arranjámos um casaco, e o Mortimore condescendeu.”

 

Não ficou por ali. À noite, o Vítor disse a Toni que tinha “um toquezinho” e que não estava em condições para jogar e que eles teriam de ganhar sem ele. Naquele jeito gingão e marialva, “O Maior” foi igual a ele próprio: “Eh pá, ó Toni, sei que é difícil sem mim, mas vocês vão ganhar, não te preocupes.” Toni riu-se — não podia fazer mais nada.

 

A lesão caiu na imprensa, e a imprensa caiu em cima do Vítor. Os jornais não o largaram mais, porque o lado privado começou a rondar o público como um abutre sobre uma presa. Mas o Vítor foi jogando e marcando (21 jogos e 12 golos, segundo melhor marcador da equipa atrás de Nené), abafando os rumores (noitadas, mulheres e droga) com a bola nos pés e as bocas na língua. Ninguém o calava, nada o parava — mas ele era capaz de parar um jogo.

 

Aconteceu a 12 de fevereiro de 1978, e Toni diz que foi mais ou menos assim: “Naquele célebre jogo contra o Sporting na Luz, ele faz um golo na baliza sul em que domina a bola com o peito, roda e sem deixar cair a bola faz um golo de bandeira (Botelho era o guarda-redes de Alvalade). Depois, a primeira reação não foi festejar o golo, mas andar à procura do brinco. Que não era pechisbeque, mas um brinco a sério.”

 

O dérbi parou enquanto o Vítor, Toni e outros andaram de rabo para o ar à cata do brinco, que se perdeu para sempre na relva da Luz — o dito custara-lhe 12 contos, mais dois do que o prémio de jogo. Dois dias depois, o Vítor assinou pelo Vitória de Setúbal, porque o Benfica não lhe pagava os 650 contos por mês nem lhe dava o Porsche que ele tanto queria. Foi castigado e depois despedido em abril e regressou à casa de partida por 100 contos por mês, um valor impossível para os de Setúbal, que fizeram uma coleta entre os comerciantes para pagar ao filho pródigo. Em homenagem à cidade, o Vítor decidiu organizar uma tourada... mas esqueceu-se de arranjar os touros. Já para o fim, seria junto à praça de touros que o Vítor andaria a pedir trocos para o vício em dias de corrida.

 

Em Setúbal, o jogador desbaratou o dinheiro numa quinta no Faralhão, em vivendas, espatifou um Jaguar, pagou bebidas para ele e para os amigos e abriu restaurantes que deram para o torto porque contas não era com ele. Confiava a gestão a amigos de ocasião enquanto se entregava ao jogo e às apostas. A família ficou sempre fora deste círculo.

 

“Não me lembro de algum dia ele me ter pagado uma cerveja.” O Idaliano não gostou que o Vítor nunca tivesse falado com um dos irmãos para trabalharem com ele. Afinal, eram sangue do mesmo sangue e podiam tê-lo ajudado com o restaurante que ele perdeu à batota. Só havia um caminho para o Vítor Baptista. E esse caminho era sempre a descer.

 

Outra vez o Vitória

 

No Vitória de Setúbal, o feitio e a pinta de estrela pioraram, e o Vítor tornou-se insuportável até para quem gostava dele. Como Jimmy Hagan, treinador que apanhara no Benfica e que agora o treinava em Setúbal. Um dia, farto das estroinices de “O Maior”, Hagan atirou-lhe uma bola à cara. Ele foi buscar uma pedra e disse-lhe: “Agora, faz lá o mesmo com isto, se tiveres coragem.” Já não era o mesmo dentro de campo: lento e preguiçoso. A droga falava e jogava por ele. Quando se encontravam no café, o Vítor dizia ao Fernando Tomé que “queria experimentar tudo”, e iria viver segundo estas palavras até ao fim.

 

Os amigos de infância Pedro e Jaime acreditam que “ele começou a dar naquilo” no Benfica, com a malta do espetáculo e alguns atletas da Luz, como o Barros. O Pedro conta um episódio num hotel de Lisboa em que o Vítor e outros ter-se-ão metido numa orgia de drogas e “meninas” e que a uma delas lhe queimaram os mamilos com pontas de cigarro — o Benfica abafou a coisa. E em Setúbal viam-no com a cabeça sobre os tampos das mesas das tascas, com prostitutas encostadas à sua volta à espera do que caía da carteira. Por esta altura, já se separara da Mimi, a primeira mulher, que se cansara dele. O Vítor andava livre, em roda livre, e foi então que o Boavista lhe pôs a mão no colarinho e o trouxe para o Bessa, em 1980.

 

Valentim Loureiro, o presidente que o foi buscar, lembra-se bem do Vítor: “Ele mandava uns petardos... Só tinha visto o Eusébio a fazer aquilo. E no Boavista ele era o craque e gostava de dar bolas a marcar ao Folha. Dava-lhe gozo, aquilo.”

 

Valentim Loureiro levou-o para o Porto numa carrinha Volvo azul que mais tarde seria do Vítor, porque ele gostara dela. Mas não gostou da mobília da casa na Foz onde o instalaram, pediu outra, e o major lá lhe fez a vontade — se o homem estivesse bem, melhor ficaria o Boavista, que acabou a época em quarto lugar. Mas, sem avisar, o Vítor deixou o Bessa e o Boavista e o Porto. Fê-lo por dinheiro que o major supostamente lhe devia; e por amor a uma rapariga que namorava e que o tinha abandonado para voltar ao sul. A rapariga, a segunda mulher, já tinha um filho, chamado Alexandre, que o Vítor perfilhou. No dia do funeral, o Alexandre apresentou-se a Toni como filho do Vítor.

 

Mas o segundo regresso a casa durou pouco. António Simões entrou em cena com dólares na mão, porque se vivia o boom do futebol nos EUA. O soccer andava a contratar velhas glórias da Europa, e Simões, que era diretor desportivo do San Jose Earthquakes, convenceu os americanos de que o Vítor Baptista era o tipo certo. E lá foi ele.

 

“Viu um Corvette branco e não descansou enquanto o clube não lhe deu o carro. O Vítor perdia-se na cidade e vinha atrás do meu automóvel porque queria guiar com o cabelo ao vento. ‘Simões, eh pá, estou na América!’”

 

A aventura nos States durou pouco, mas o suficiente para deixar clara a mensagem a Bill Foulkes, o treinador — ele era “O Maior”. “Ó Simões, diz ali ao homem que ele deve estar maluco se pensa que vou para a barreira. As estrelas não vão para a barreira.”

 

Depois dos EUA, o Vítor ficou-se pela margem sul, no Amora (1980/81) e no Montijo (1981/82). Seguiu-se o União de Tomar (1982/83), onde jogou ao lado do amigalhaço Florival, um dos do bando de quatro da infância, e ambos seriam despachados como os Templários pelo Papa Clemente V. O Vítor arrastar-se-ia pelos campos por mais dois anos: no Monte da Caparica (1983/84) e no Estrelas do Faralhão (1984/85), da 2ª distrital de Setúbal, cujas bancadas se enchiam só para o ver. A ideia do Faralhão partira dos setubalenses, que viam na bola a única salvação para o Vítor. Porque estava gordo, estranho, desprendido, largado por ele próprio.

 

Não resultou. A heroína tomara conta dele, viciado por outra namorada, que o arrastou para as barracas do Bairro da Liberdade. Foi lá que o Tomé, o Jaime e o Pedro o encontraram à vez — e contam que aquilo era desumano e sujo. Falar com o Vítor era como falar para uma porta que não se abre por estar ferrugenta e gasta pelo tempo. E pelo mau uso.

 

O fim

 

O Vítor deixou de falar com os irmãos, com a cunhada e com a mãe. Viviam todos na mesma cidade, mas não conviveram durante os anos de glória do jogador, e o Idaliano diz que o irmão era capaz de atravessar a estrada de um passeio para o outro apenas para não ter de o ouvir.

 

“Ó Vítor, já foste ver a mãe?” O Vítor só foi ver a mãe quando já não lhe restavam alternativas. Arrumou as trouxas — a roupa que trazia no corpo —, bateu à porta, e Cecília abriu-lhe a casa para o tratar e depois enxotar, porque os vizinhos e o padrasto não o queriam por ali.

 

A Sofia, a mulher do irmão Eduardo, conta que chegou a dar com um pacote “daquilo” na casa de Cecília e que deitou “aquilo” tudo para o esgoto. Dias depois, uns quantos malandros assaltaram o apartamento da Sofia e do Eduardo na Tobaida e levaram-lhes o ouro e os cheques — fora o Vítor a dar-lhes a dica.

 

Da casa da mãe, foi para a do Idaliano, mas não demorou muito a sair. O Idaliano não gostou de ser avisado pela mulher de que o Vítor levara com ele um tipo de mau aspeto para o pé dos seus filhos e lá foi “O Maior” para a rua novamente. Voltava, de vez em quando, para pedir umas botas ou um casaco ao irmão, mas esquisito e vaidoso como era ou os recusava ou vendia-os a quem lhe desse mais. “Eu nem me vestia mal e até havia quem dissesse que eu era peneirento. Mas o Vítor, mesmo na desgraça, tinha aquela vaidade. Queria botas de tacão inclinado e pronto. Não havia nada a fazer.”

 

Vítor meteu-se em más companhias, ficou a dever dinheiro a quem não devia, passou a roubar salões de beleza, autorrádios, carros, vivendas, apartamentos, até mesmo fornos elétricos. Roubava-os numa rua e tentava vendê-los na seguinte. Foi detido algumas vezes, chegou a ser representado em tribunal por Odete Santos, mas nem a histórica do PCP e uma alegada inimputabilidade por problemas psicológicos o livraram da cadeia — em janeiro de 1989, o Vítor foi para a prisão em Sintra. Foi lá dentro que tatuou um relógio no pulso, com os ponteiros marcados às 12h15, porque era “a hora da paparoca”, disse ele numa reportagem a “A Bola”. “O Maior” dava autógrafos aos presidiários, tinha a simpatia dos guardas e alimentava a esperança de voltar a ser jogador de futebol. Se perdesse uns quilinhos e se se deixasse das drogas, a coisa ia lá, mas a família (a mãe, o irmão Eduardo e a cunhada Sofia) que o visitou nunca acreditou muito naquilo.

 

Quando saiu, o Vítor voltou a perder-se no caminho entre Setúbal e o Casal Ventoso, onde ia procurar a dose com o dinheiro que conseguia nos biscates, nos pequenos roubos, nas esmolas. Outras vezes pedia aos amigos de outros tempos para lhe arranjarem comida, doces, roupa, e Toni deu-lhe uns equipamentos do Benfica que ele vendeu para comprar droga. O próprio Pinto da Costa ofereceu-lhe um blusão numa visita do FC Porto a Setúbal, e o Vítor pô-lo logo no prego para o vício. Não havia nada a fazer. O Tomé, o Jaime e o Pedro quiseram organizar jogos de beneficência e de exibição, a ver se o amigo se recompunha, e ele, aqui e ali, aparecia para depois desaparecer. O Vítor andava pelas ruas, gritava, ria-se, falava alto, fugia de quem vinha cobrar as dívidas dos esquemas em que se metia.

 

A última saída para o labirinto foi um emprego como cantoneiro no Cemitério da Paz, em Setúbal. Ainda hoje estão lá pessoas que trabalharam com ele e que o descrevem como preguiçoso e “relaxadão”, que pouco fazia por ali a não ser varrer o chão. Foi nesse lugar que os jornalistas o apanharam para as suas últimas entrevistas, quando a fala já se arrastava e os dentes perdidos nos maus hábitos escasseavam. Aquele peito largo onde ele matava a bola antes de rematar ainda lá estava, mas o corpo volumoso e duro perdera amplitude.

 

Voltou à casa da mãe. E morreu.

 

Na passagem de ano de 1998 para 1999, Vítor Baptista faleceu no hospital para onde foi levado depois de um AVC. O antigo jogador do Benfica sofria de hepatite C, cirrose, e vestia na pele as marcas dos males a que se sujeitou. Apagou-se a estrela, ficou o mito. Maior do que a morte.

 

 

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Ele era o maior, no seu desassombrado exercício de auto-avaliação. Ele era Vítor Baptista. Seguramente, o mais controverso jogador do universo benfiquista e nacional.

 

O pai transportava peixe da lota para a praça de Setúbal. Morreu novo, era o Vítor pouco menos que imberbe. “Eu fazia recados às prostitutas, apanhava moedas que os ‘camones’ atiravam para a água e trabalhava numa mercearia”, enquanto a mãe se viu na contingência de emprego pedir numa fábrica de conservas.

 

Fervia de paixão por Eusébio, quando principiou a sua odisseia. Entrou num torneio de futebol de sala, 15 anos tinha, segundo melhor marcador foi, atrás de Quinito, esse mesmo, o treinador de futebol. Olheiros do Vitória ficaram desvanecidos perante uma boa fornada, que sinais dava de querer trepar nas lides. Vítor Baptista não foi escolhido, mas tanto insistiu, tanto clamou justiça, que Emídio Graça, irmão do benfiquista Jaime, acabaria por dar anuência.

 

Meteórico foi o ascenso. Aos 18 anos, venceu a Taça de Portugal, num jogo tremendo com a Académica. Sob a direcção técnica de Pedroto, pedaços de talento distribuiu, no Bonfim e noutros recintos. Chegou a comprometer-se com o Sporting, mais leonina era a proposta, só que o Benfica antecipou-se, cedeu Praia, Torres e Matine ao Vitória. Viu-se compelido a trajar de vermelho. Não houve sinal de lamúria. Afinal, entrava nos píncaros da fama. Até nem desbotou, apesar da concorrência de Nené, Eusébio, Artur Jorge e Jordão. Disse ao que ia, naquele estilo cavalgante, nem sempre a primar pela estética, mas sólido, sólido como uma rocha.

 

O seu traço de exotismo não passava despercebido. Era um desadaptado, indulgente sobretudo fora das quatro linhas. Recorda Shéu, quão perplexo ficou, no dia em que Vítor Baptista prendeu um exemplar da raça canina ao poste de uma baliza, poucos minutos antes de um treino.

 

E para a posteridade ficou o mais hilariante dos episódios que a Luz conheceu, quando após ter marcado o golo do triunfo do Benfica, em dia de derby, frente ao Sporting, se apercebeu que lhe faltava o brinco na orelha. Parado esteve o jogo quase cinco minutos. Agachado, gatinhando mais e mais, era ver Vítor Baptista a passar a relva a pente fino. Incrédulos ficaram os colegas, os adversários, a multidão que coloria as bancadas. Não mais apareceu o brinco e a vitória, essa, recusou-se a comemorar.

 

Sempre autista, pôs a cabeça em água a muitos dos seus treinadores. No Benfica e na Selecção, protagonizando falhas graves de indisciplina. Apesar de tanta incontinência, o povo gostava de Vítor Baptista. Apreciava o seu código de jogo, a forma como se recreava com a bola, o apetite insaciável pelo golo.

 

Esteve sete épocas no Benfica e ganhou cinco Campeonatos. À entrada da última, foi categórico e sustentou que “o melhor futebolista português não pode continuar a jogar se lhe pagarem como até aqui”. Assim falou, talvez ao volante daquele Jaguar, que havia adquirido por 150 contos a um milionário aterrorizado com a Aliança Povo/MFA e o avanço para o socialismo. Contrição fez e regressou ao activo. Para uma das suas conseguidas temporadas.

 

Ainda que houvesse interesse do Benfica na sua continuidade, muito por força da pressão popular, que os comportamentos desviantes se iam acentuando, Vítor Baptista regressou a Setúbal, no começo de uma deambulação por vários clubes, que culminou no Estrelas do Faralhão, da Distrital setubalense.

 

Nos últimos anos de vida, ele que morreu num 1º de Janeiro, com meio século de vida, aparecia com frequência no Estádio da Luz. Degradado, infelizmente muito degradado. Mas para Vítor Baptista, aquele que levantou estádios, à custa do perfume do seu futebol, fica a mais portuguesa das palavras, aquela que tradução não tem, a portuguesíssima saudade.

 

Texto: Memorial Benfica, 100 Glórias

 

 

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Gosto sempre de ler a história do Brinco :prayer: grande escolha!

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Já tinha ouvido falar dessa história do brinco, mas não tinha conhecimento algum de quem foi Vitor Batista... Gostei muito de ler esse artigo, e é incrivel como uma pessoa que está no auge se deixa acabar da maneira que acabou.

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Nome Completo: Alberto da COSTA PEREIRA

Posição: Guarda-Redes

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 22-12-1929

Data de Falecimento: 25-10-1990

Número da Camisola: 1

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 13

Total de Jogos pelo Benfica: 359

 

Títulos pelo Benfica:

 

2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62)

8 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65 e 1966/67)

5 Taças de Portugal (1954/55, 1956/57, 1958/59, 1961/62 e 1963/64)

 

Percurso como jogador: Sporting de Lourenço Marques, Ferroviário de Lourenço Marques (1950/51 a 1953/1954) e Benfica (1954/55 a 1966/67)

 

Palmarés: 2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61 e 1961/62), 8 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65 e 1966/67) e 5 Taças de Portugal (1954/55, 1956/57, 1958/59, 1961/62 e 1963/64)

 

Percurso como treinador: Sporting de Braga, Grupo Desportivo da CUF do Barreiro, Oriental e Alverca (não encontrei informação mais detalhada do que isto)

 

Palmarés: -

 

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Eram outros jogos. Eram outros jogadores. Os clubes conservaram os nomes, mas as vibrações que saltavam desde a relva para o mais longínquo dos espetadores eram diferentes. Na primeira metade da década dos 50 chegou a Lisboa um guarda-redes e um basquetebolista procedente do Ferroviário de Moçambique; as duas vertentes encarnavam numa única pessoa; chamava-se Costa Pereira. Chegara uma das personalidades mais marcantes do desporto e do futebol. O basquetebol do Benfica conheceu, durante os primeiros anos, as qualidades do jogador que mais tarde viraria articulista nos jornais desportivos. O futebol do Benfica viu como um guarda-redes podia ser eficaz e fino nos seus movimentos. Foi campeão tanto como futebolista como como basquetebolista. Não foi caso único; o desporto e a sua prática eram entendidos, ainda, com mentalidade formativa integral e bem olímpica. Acúrcio, também guarda-redes e jogador de hóquei patins do FC do Porto, era outro dos desportistas integrais. No entanto, poucos anos antes e mais alguns anos, o Sporting vivera a sua época mais esplendorosa de sempre: o Sporting dos cinco violinos. Tinha jogadores mágicos e tinha um extremo-direito chamado Jesus Correia; este bom atleta foi campeão em hóquei patins e em futebol. Mas, antes do Sporting ter o veloz e dinâmico Jesus Correia, o Benfica tivera, nas suas filas, um dos seus grandes mitos: Espírito Santo. O atletismo e o futebol desfrutaram deste fino estilista.

 

Costa Pereira, no entanto, foi mais abrangente e estava possuído por uma magia especial. Era, na altura, culturalmente forte. Atreveu-se, mal chegou ao Benfica, com a mesa das negociações e discutiu e negociou, sem medos, com a Direção tudo o que tinha e queria negociar a equipa. Se não foi um sindicalista, foi um delegado do grupo. A sua magia e erudição rapidamente se espalharam e conjuntamente com o José Aguas e o Germano formou a coluna vertebral natural na equipa onde se podiam acomodar novos e velhos. Como todos os grandes teve um apodo. Era um guarda-redes completo muito elegante e as suas mãos, muitas vezes, parecia que acariciavam a bola para a roubar da cabeça do contrário, no entanto, teve descuidos espetaculares, tanto foi assim que era conhecido pelo Costa dos Frangos. Na famosa final da Taça da Europa do “tri”, entre a pressa e a autossuficiência, deixou passar uma bola mansa entra as pernas. Acabaria lesionado e o seu lugar ocupado pelo célebre defesa-central Germano.

 

Retirou-se, finalmente, perto da década dos 70. Os jornais desportivos começaram a receber as suas crónicas. Tinha uma pluma ágil. Mais tarde, teve vida de treinador e passou uma boa temporada na velha CUF. Um ano, andou pelos lugares cimeiros sendo a sensação do campeonato. Finalmente, saiu da primeira linha. O Benfica e não só demoraram uma eternidade a superar a sua lenda. Fora único. Qualquer candidato a guarda-redes do Benfica padecia um bombardeamento de comparações. Saíam sempre derrotados; a grandeza do seu antecessor pairava sobre o Estádio da Luz e aplastava. Anos mais tarde apareceu o José Henriques. Finalmente, os sócios e adeptos do Benfica acalmaram a sua nostalgia. O firmamento benfiquista tem muitas estrelas chispantes, mas Costa Pereira é uma dessas estrelas que mais deslumbram.

 

Fonte: Costa Pereira: Uma Estrela Voadora

 

Poucos terão sido tão desportivamente ecléticos, na primeira e sempre mais fascinante parte vida, como Alberto Costa Pereira. O basquetebol, a vela, o atletismo e o futebol foram as modalidades a que se entregou, sempre com denodo, o jovem moçambicano, natural de Nacala, uma pequena povoação muito quilómetros a norte da então Lourenço Marques. Já em Nampula, para onde se transferiu o pai, funcionário dos caminhos de ferro, o jovem Alberto derretia-se sempre que falava em dois jogadores: João Azevedo, do Sporting, e o brasileiro Ademir, por Queixada conhecido, do Vasco da Gama, o mais português dos clubes da “pátria da chuteira”, como um dia Chico Buarque, escreveu.

 

Primaveras 15, Costa Pereira chegou à actual Maputo, sufocado pela dor da morte do irmão mais velho. Internado no Instituto de Portugal ficaria. Começou a recordar-se da arte de encestar, corpulento e alto era, por isso dotado para basquetebolista. Pela mocidade fez-se também praticante de vela, desafiando as águas sem temor. No atletismo, então, sublimou-se, recordista moçambicano acabaria por ser no… lançamento de peso.

 

Tal como alguns anos mais tarde Eusébio, o Sporting de Lourenço Marques, no escalão júnior, propiciou que se federasse. Era o tempo de sonho (avançado-centro) e da vocação (guarda-redes). Mais alto falou o sonho. Na dianteira jogava. “Quem sabe o que o futebol perdeu com a minha passagem a keeper? Talvez fosse hoje um avançado como me dizem ter sido o Soeiro, que eu não vi jogar, mas que me afirmam levava tudo na sua frente, graças ao poder físico que possuía”. Assim falou, um dia, Costa Pereira, baluarte já da máquina pulverizadora benfiquista.

 

De candeias às avessas com a filial laurentina do Sporting, que o impediu de jogar basquetebol no Ferroviário, precipitou a jura, segundo a qual, verde nunca mais. Curto hiato na disciplina futebol, que a precognição de Severiano Correia não tardou. Com aquelas mãos, tenazes mais pareciam, e aquela facilidade com que se elevava a um qualquer andar de cima, disse-lhe o então treinador de futebol do Ferroviário que a guarda-redes botaria figura. Assim foi.

 

À capital chegou, após longa viagem de barco, no Verão de 54, com destino ao Benfica. A equipa ardia por novas sagas, apelava à ressurreição, tão prolongado estava sendo o reinado do leão por obra e graça dos seus Violinos. Com Mário Coluna também a debutar, mais Jacinto, Artur, Águas, Caiado, Calado e Ângelo, reconquistado foi o velho brasão.

 

Só que nem por isso fez Costa Pereira unanimidade. O seu jeito basquetebolizado de a baliza defender causou facturas nas apreciações dos benfiquistas e da critica especializada. Para uns, Costa Pereira; para outros, José Bastos. Tão diferentes, mas tão do (des)agrado popular. Foi assim durante três anos. Até que, finalmente, atingiu o altar reverencial.

 

Foi também com Costa Pereira que o Benfica siderou a Europa. “Aquele guarda-redes que era o protótipo da elegância, fino nos movimentos, surpreendente na destreza”, assim o via o jornalista Aurélio Márcio. Na primeira final dos Campeões, períodos houve em que os vermelhos quase submergiam ao poderio do Barcelona. Valeu Costa Pereira mais a sua exibição substantiva. No ano seguinte, ainda que três vezes batido por Puskas, susteve outros ímpetos atacantes do Real Madrid, deixando que Eusébio, lá ao fundo e no fundo também, o resto fizesse. Era bicampeão europeu.

 

No quarto grande empreendimento internacional, desperdiçado que foi, pelo meio, um desvairante tri, frente ao AC Milan, com o Benfica cruzaria destino outra formação italiana, o Inter, na conclusão da temporada 64/65. Noite de calamidade para Costa Pereira. O único golo, apontado pelo brasileiro Jair, teve menos arte do autor e mais, bem mais, imperícia de quem o sofreu. Nessa altura, apeteceu-lhe zarpar do jogo. Foi até o que sucedeu, dez minutos após o reatamento, acusando lesão antiga. Ele que animicamente estava tem-te-não-cais. A Lisboa chegou, duplamente derrotado, em cadeira de rodas. Com a auto-estima a vaguear pelas ruas da amargura.

 

Um retalho infeliz não pode, não deve, macular a trajectória de um dos maiores símbolos do historial benfiquista. Generosos, os adeptos, guardaram-no no lado esquerdo do peito.

 

Texto: Memorial Benfica, 100 Glórias

 

 

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Nome Completo: COSME DAMIÃO

Posição: Médio Centro

Nacionalidade: Português (Internacional A)

Data de Nascimento: 02-11-1885

Data de Falecimento: 11-06-1947

Número da Camisola: ?

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 9

Total de Jogos pelo Benfica: 67

 

Títulos pelo Benfica:

 

5 Campeonatos de Lisboa (1909/10, 1911/12, 1912/13, 1913/14 e 1915/16)

 

Percurso como jogador: Benfica (1907/08 a 1916/17)

 

Palmarés: 5 Campeonatos de Lisboa (1909/10, 1911/12, 1912/13, 1913/14 e 1915/16)

 

Percurso como jogador-treinador e treinador: Benfica (1908/09 a 1925/26)

 

Palmarés: 8 Campeonatos de Lisboa (1909/10, 1911/12, 1912/13, 1913/14, 1915/16, 1916/17, 1917/18 e 1919/20)

 

| Notícias |

 

Cosme Damião: o fundador

 

Jogador, técnico, dirigente, capitão, atleta, tudo isso foi Cosme Damião na história do Sport Lisboa e Benfica. Mas para memória da nação benfiquista ele é o pai fundador, o homem que sonhou e acreditou no seu clube, que o defendeu com «garras e dentes» e que no momento de maior dificuldade da história encarnada, arregaçou as mangas e foi fundamental para a sobrevivência do clube.

 

Um outro país

 

O Portugal em que Cosme Damião nasceu era um país bem diferente do que conhecemos. Desde meados do século que o país caminhava lentamente para a modernidade. Fontes Pereira de Melo era o Ministro do governo de Sua Majestade o Rei D. Luís I e o principal mentor desse desenvolvimento que queria tirar Portugal das garras do obscurantismo. A sua política, conhecida como o Fontismo, era sinónimo de desenvolvimento.

 

Portugal investia na indústria, nos caminhos-de-ferro, abruptamente cortava com as amarras da igreja. Era também o ano em que em Berlim se traçava o destino de África e Portugal sonhava com o Mapa Cor-de-Rosa para ligar Angola à Contra-Costa.

 

Seria nesse Portugal dividido entre a tradição e a modernização,mas ainda agarrado à sua glória histórica, que Cosme Damião nasceu na cidade de Lisboa, corria o dia 2 de novembro de 1885.

 

Por esses tempos, precisamente para trabalhar nas novas indústrias, para construir as pontes dos caminhos-de-ferro, para abrir minas e trabalhar em comunicações, chegaram técnicos e engenheiros estrangeiros, muitos deles provenientes da Inglaterra.

 

Seriam estes homens, e alguns portugueses "estrangeirados", que introduziram o futebol entre nós. Em 1894 jogou-se o primeiro jogo entre lisboetas e portuenses e uns anos mais tarde nascia o CIF, o primeiro grande clube nacional.

 

Os primeiros passos

 

Por volta dos seus dez anos, o jovem Cosme já teria tido a oportunidade de ver um daqueles grupos de ingleses que jogavam futebol na zona do Campo Pequeno ou em Belém, ou mais longe em Carcavelos. Apaixonado pelo jogo, Cosme Damião terá tido o primeiro contacto com o jogo nos tempos livres da escola, na Real Casa Pia nos Jerónimos onde aprendeu as letras.

 

Por volta dos vinte anos sonhava fundar um clube para a prática do futebol. Os ex-estudantes da Casa Pia de Belém tinham fundado a Associação do Bem, que havia entrado num período de marasmo, a que se sucedeu a inevitável decadência, mas o sonho de dotar a zona de Belém de um clube de futebol era partilhado por um grupo de jovens.

 

Seria este grupo que se juntou ao grupo dos Catataus (irmãos Rosa Rodrigues) que tinham um clube singelamente conhecido como Football Club e juntos resolveram fazer nascer uma nova associação desportiva.

 

Após um almoço no Café Gonçalves em Belém, o grupo de jovens passou ao outro lado da Rua Direita, onde junto da Farmácia Franco firmaram "a certidão de nascimento" do Sport Lisboa, onde se inscreveram o nome de 23 fundadores do clube.

 

Curiosamente, o nome de Cosme Damião não vem incluído nessa lista, uma omissão que juntamente com outros pormenores (1) sempre intrigou os investigadores e historiadores que se debruçam sobre a história do Benfica. Contudo, a versão mais aceite entre os estudiosos do tema é que Cosme Damião, o redator do documento, se esqueceu de inscrever o seu nome na lista.

 

Das traseiras da farmácia

 

Nas traseiras da Farmácia Franco seriam dados os novos passos do clube belenense, com o amplo espaço a ser utilizado para treinos de futebol. A juventude de Belém cedo se interessou pelo jogo e aderiu ao novo clube que em pouco tempo reuniu uma equipa muito capaz.

 

O papel de Cosme Damião nesses primeiros momentos do Sport Lisboa está envolvido numa aura de mistério. Ao contrário dos nomes de Manuel Gourlade, José Rosa Rodrigues e Daniel Santos Brito, a assinatura de Cosme Damião não surge em nenhum documento oficial do clube.

 

Não há nenhuma indicação de Cosme Damião ter participado em qualquer treino do Sport Lisboa em 1904 e os documentos sobre os treinos, com listas de jogadores que chegaram aos nossos dias nunca fazem referencia a Cosme Damião.

 

Os registos só fazem referência à sua presença na equipa do Sport Lisboa em 1907, no Campeonato de Lisboa da época 1907/08. Mas é como dirigente que o seu papel nessa época do clube se torna fundamental.

 

O quase fim e a fusão com o Benfica

 

Em 1906 um grupo de rapazes do Campo Grande fundara o Sporting Clube de Portugal. Rapazes de boas famílias e com o apoio financeiro do Visconde de Alvalade os sportinguistas eram provavelmente o clube mais endinheirado de Portugal. Com um campo com excelentes condições, com direito a banhos de água quente, uma raridade nesses tempos.

 

Dinheiro não faltava, mas bons jogadores não abundavam por esses tempos lá para os lados do Campo Grande. Surgiu então a ideia de lançar o «canto da sereia» aos jogadores do Sport Lisboa, e oito deles (entre eles alguns fundadores do Sport Lisboa) aceitaram o repto e mudaram-se para o clube de Alvalade.

 

O novo clube ficou à porta da extinção, com o abandono de oito jogadores, a que se somaram as saídas de Mora e Levy. O Sport Lisboa contava apenas com 30 sócios e as dificuldades financeiras colocavam o futuro da agremiação em risco.

 

O primeiro jogo com o rival Sporting seria tenso, com os leões a vencerem por 2x1, num jogo em que Cosme Damião não foi feliz, apontando o autogolo que deu a vitória ao rival.

 

O batalhador incansável

 

Os problemas no Sport Lisboa agudizam-se, era preciso agir. Cosme Damião, com a ajuda de Félix Bermudes, "arregaça as mangas" e luta arduamente contra o destino que parece estar traçado para o seu clube. Damião organiza o clube, motiva os colegas, angaria novos sócios, Bermudes financia as primeiras despesas e o Sport Lisboa resiste.

 

Os jogadores das segundas categorias do clube ascendem à primeira (entre eles Damião) e iniciam-se negociações com o Grupo Sport Benfica, para uma fusão entre os dois clubes.

 

O Grupo Sport Benfica (2) (mais tarde Sport Clube Benfica), clube que se dedicava ao atletismo e ciclismo, dispunha dos meios e dos sócios que faltavam ao Sport Lisboa, este podia providenciar atletas e uma equipa de futebol.

 

Era um casamento perfeito de interesses, nascia então o Sport Lisboa e Benfica. O Sport Lisboa abandonava Belém, o seu berço, e movia-se para a zona norte da cidade, ocupando o Campo da Feiteira, casa dos benfiquistas.

 

Dedicação à causa do amadorismo

 

A recuperação da equipa de futebol do clube foi um dos primeiros objetivos concretizados, pois em 1910 o Benfica conquistava o seu primeiro Campeonato de Lisboa.

 

Treinador da equipa principal de futebol desde 1908/09, Cosme seria o treinador que mais tempo esteve no banco da equipa encarnada, sendo o timoneiro do clube durante 18 anos. Estes eram tempos de dedicação e amadorismo. Os jogadores cuidavam das suas roupas, transportavam as bolas, em alguns jogos inclusive as balizas. Treinavam, jogam e até arbitravam, e como grande dinamizador do clube, Cosme Damião terá feito um pouco de tudo, dentro das suas funções no Sport Lisboa e Benfica.

 

Além de treinador de futebol, jogador e capitão de equipa, Cosme Damião seria também destacado dirigente (mas nunca presidente) e jornalista, sendo juntamente com o sportinguista Salazar Carreira - futuro ministro do Estado Novo e dirigente leonino - um grande defensor do amadorismo, mantendo grandes polémicas públicas com Cândido Oliveira, que um dia o acusou de ser o «Frei Tomaz do Amadorismo».

 

A visão mais conservadora do futebol de Salazar Carreira e Cosme Damião vingaria, assente na ideia da «virtude da raça» do atleta amador, por oposição às degenerações e modernices do profissionalismo.

 

O Estado Novo defenderia o culto do amadorismo, não obstante nos anos 40 e 50 no futebol português se viver um "amadorismo de fachada", com os atletas a serem pagos através de "esquemas paralelos", questão que irritava Cosme Damião, que defendia que os atletas deviam pagar do seu bolso as despesas necessárias para jogar futebol e não receberem ajudas de custo que no fundo tornavam os jogadores em profissionais encapotados.

 

Amante do Desporto

 

A importância que Cosme Damião dava à prática desportiva não se cingia só ao futebol. O seu papel na história desportiva do Benfica e do país não se prende só o «pontapé na bola», o dirigismo ou o jornalismo.

 

Ajudou a implementar o Hóquei em Campo em Portugal, modalidade em que era guarda-redes, assim como ajudou à implementação do Hóquei em Patins, ajudando à revisão e adaptação das regras, assim como arbitrando o primeiro jogo da modalidade em Portugal, corria o ano de 1917.

 

No futebol penduraria as botas após um amigável com o Fortuna de Vigo, mantendo-se como treinador até 1926. Como dirigente, uma das suas grandes batalhas seria a construção do Estádio das Amoreiras, que nasceu em 1925.

 

Fora do Benfica, teve papel fundamental na fundação da UFP, futura Federação Portuguesa de Futebol e foi dirigente do Casa Pia. Fundador e diretor do jornal Sport Lisboa, seria eleito presidente da Assembleia Geral do Benfica em 1931, sendo reeleito nas três épocas seguintes.

 

Em 1935, por mérito da sua dedicação ao clube recebeu a Águia de Ouro.

 

Doente e cansado acabou por se afastar das lides do seu amado clube, acabando por falecer em Sintra, a 12 de junho de 1947, sendo o seu corpo sepultado no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, cidade onde nascera 61 anos antes.

 

(1) - Entre outras incongruências conta-se a grafia incorrecta da palavra «Farmácia» que então se escrevia com «ph» e não com «f», além de nomes trocados na lista.

(2) - Clube de que Cosme Damião também fora sócio.

 

Fonte: Zerozero

 

 

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Cosme Damião não faz parte da galeria dos 33 presidentes do SL Benfica. Nunca o quis ser. Mas não pode ser esquecida a sua ação decisiva no primeiro quarto de século da vida do clube. Ele, no Benfica, foi tudo: de vice-presidente a vogal, de jogador a treinador, de fundador a salvador. Sem ele, provavelmente, o Benfica não teria resistido à saída de oito dos melhores jogadores para o Sporting, aquando da fundação deste clube, que herdara instalações desportivas luxuosas para a época.

 

Entrado para a Casa Pia aos 10 anos de idade, tinha 18 quando foi um dos 24 fundadores do Grupo Sport Lisboa, que daria origem ao Sport Lisboa e Benfica. Ascendeu à primeira categoria em finais de 1907 e lá permaneceu, como capitão da equipa e, consequentemente, como treinador, durante nove anos. Até que “arrumou as botas”, embora continuasse a dirigir todas as quatro equipas de futebol do Benfica.

 

Ele esteve em todas as grandes decisões, desde a fundação do clube à sua continuação após tão importante cisão, à junção com o Sport Clube de Benfica, de que também era sócio, à construção (feita pelos próprios sócios) do campo de Sete Rios, à passagem para as Amoreiras.

 

Chegou várias vezes a vice-presidente do clube. Mas no ano seguinte já era novamente vogal. O que nunca deixou de ser foi o líder do clube. Até que, depois de inaugurado o campo das Amoreiras – um dos grandes sonhos do Benfica era ter um estádio próprio – foi incluído numa das listas concorrentes às eleições de 1926, como presidente da Direção. A lista saiu vencedora mas Cosme Damião não aceitou o cargo. “Sou ainda muito rapaz para ocupar o lugar de Presidente”, foi uma das justificações que deu. Deixou todos os cargos no clube e afastou-se. Seria eleito, cinco anos mais tarde, Presidente da Assembleia-Geral, cargo que ocupou durante quatro anos. Depois retirou-se, falecendo em 1947 com 61 anos de idade. Não imaginando, certamente, que tão alto chegaria o clube de que fora o principal timoneiro nos primeiros anos de existência. Foi “Águia de Ouro”.

 

Texto: Sport Lisboa e Benfica: 100 Gloriosos Anos

 

 

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Nome Completo: Robert ENKE

Posição: Guarda-Redes

Nacionalidade: Alemão (Internacional A)

Data de Nascimento: 24-08-1977

Data de Falecimento: 10-11-2009

Número da Camisola: 24 e 1

Pé Preferido: Direito

 

Épocas ao serviço do Benfica: 3

Total de Jogos pelo Benfica: 93

 

Títulos pelo Benfica: 0

 

Percurso como jogador: FC Carl Zeiss Jena (1995/96), Borussia Monchengladbach (1996/97 a 1998/99), Benfica (1999/00 a 2001/02), Barcelona (2002/03), Fenerbahce (E) (2002/03), Tenerife (E) (2003/04) e Hannover 96 (2004/05 a 2009/10)

 

Palmarés: 1 Liga Turca (2002/03)

 

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Uma vida curta demais, memória do homem para além do guarda-redes.

 

Passam três anos sobre a morte de Robert Enke, que sucumbiu à depressão, e acaba de ser editada em Portugal a sua biografia.

 

Não foi fácil para Ronald Reng lidar com o sucesso alcançado pela biografia que escreveu sobre Robert Enke. Uma vida curta demais foi originalmente editado na Alemanha há dois anos e agora foi traduzido para português pela Lua de Papel. A obra foi aclamada e em Inglaterra recebeu o prémio William Hill para livro do ano na área do desporto, em 2011. Mas o jornalista alemão não estava preparado para lidar com isso. "Foi um sentimento estranho. Pensava: "Tenho direito a estar feliz? A que o livro tenha sucesso? A ganhar dinheiro com o livro?" Não consegui desfrutar", confessa ao PÚBLICO. "Agora começo a sentir-me aliviado. Recebi muitos contactos de pessoas que sofriam de depressão, e suponho que o livro teve um efeito positivo, o que me deixa em paz."

 

A conversa com o PÚBLICO foi uma de várias numa agenda preenchida nesta breve passagem por Lisboa. Responde às perguntas enquanto retempera forças com uma sanduíche de queijo e dois pastéis de nata. E questiona-nos ele próprio sobre a situação económica do país e sobre como estão as pessoas a lidar com ela. Recorda a convivência que teve com o guarda-redes alemão que passou pelo Benfica entre 1999 e 2002 e que acabaria por cometer suicídio, há três anos.

 

"Gostava da companhia de pessoas, mas num grupo adoptava a postura de observador. Quando estava são, não acho que fosse uma pessoa solitária", afirma Ronald Reng, lembrando a ligação especial que Robert Enke e a esposa, Teresa, tinham com Lisboa e Portugal: "Eles eram jovens quando vieram para Lisboa, foi um grande passo. Ele não queria, ao início. Mas depois, quando se estabeleceu em Lisboa, enquanto guarda-redes e capitão do Benfica, ganhou muita confiança e sentiu-se feliz". "Sempre tiveram a ideia de regressar. Eles teriam vivido em Portugal no final da carreira do Robert", acrescenta o autor.

 

Com a mudança para Barcelona, em 2002, foi-se a confiança ganha em Lisboa. "Quando ele teve a primeira depressão clínica, em 2003, era claro que a pressão a que ele se sujeitou, ao querer ser o número 1 do Barça, e o quanto ele se culpabilizava por falhar, foram a causa da doença", aponta Reng. "Os próprios guarda-redes se lembram muito mais dos erros que das defesas. O psiquiatra do Robert colocou bem as coisas: tem de se aprender a viver com os erros. Perceber que um erro não é todo um jogo. Um jogo não é uma época. Uma época não é uma carreira. E a carreira não é a vida. Há outras coisas além disso. Para o Robert era muito difícil aprender a lidar com os erros", sublinha.

 

As razões da segunda depressão clínica, em 2009, "não são claras", nota Reng. Enke adoptara uma filha (a biológica morrera em 2006), somava bons desempenhos na baliza do Hannover 96 e afirmava-se na selecção alemã. "Ele próprio não via a razão. Escreveu no diário: "Porquê, porquê agora?""

 

O que aconteceu com Robert Enke ajudou à compreensão da depressão como doença, no meio desportivo e fora dele. "As coisas mudaram na Alemanha, devido à morte do Robert. É mais fácil um futebolista falar publicamente sobre a sua doença. Embora a depressão seja uma doença com a qual a maioria das pessoas tenta lidar em privado", indica o autor.

 

Enke, diz Reng, gostaria de ser lembrado como alguém que se debateu com uma doença. "Significaria muito para ele que as pessoas soubessem que era preocupado com os outros e um guarda-redes fantástico. E que percebessem que não se matou conscientemente, mas que foi a doença que o levou a esse acto."

 

A angústia do guarda-redes no momento de viver

 

O ex-futebolista do Benfica suicidou-se quando experimentava um dos melhores períodos da sua carreira: 2009 foi o ano em que se consolidou como n.º 1 da Alemanha e adoptou um bebé. Mas isso não chegou para ser feliz.

 

"Suponho que é o meu destino que tudo na minha carreira tenha de ser estranho. Às vezes, desejava que tivesse sido um pouco mais fácil." Infelizmente, quando Robert Enke disse isto ao jornalista Ronald Reng, citado pela revista FourFourTwo, só havia três pessoas capazes de ler nas entrelinhas: ele próprio [o guarda-redes], a sua mulher, Teresa, e o seu psiquiatra. No final da tarde da última terça-feira, o antigo jogador do Benfica estacionou o carro a poucos metros da linha férrea, deixou a carteira no banco do passageiro e caminhou uma centena de metros junto aos carris antes de saltar para a frente de um comboio que, em Neustadt am Rübenberge, perto de Hanôver, fazia, a 160 quilómetros por hora, a ligação entre Hamburgo e Bremen. O suicídio do atleta de 32 anos aconteceu não muito longe do cemitério onde está enterrada a sua filha e deixou o incrédulo futebol alemão com uma pergunta: porquê?

 

Enke, revelou a sua mulher, Teresa, sofria de "graves depressões" há muitos anos, especialmente desde 2003, problema que o casal tentou superar com terapia. "Quando ele estava mais depressivo eram alturas muito difíceis, porque não tinha motivação nem qualquer esperança de melhorar." O guarda-redes "sofria de depressão e de medo de falhar", acrescentou o médico Valentin Markser. O psiquiatra, que tratava há seis anos o guarda-redes do Hannover 96, diagnosticou-lhe uma angústia aguda perante o receio de errar e revelou que Enke recusou tratamento no próprio dia em que acabou com a vida, dizendo que se sentia bem. Chegar a uma das melhores selecções do mundo não bastou, nem ser eleito o melhor na sua posição no campeonato. No domingo, 49 mil pessoas viram-no empatar no estádio de Hanôver com o Hamburgo (2-2), três dias depois 35 mil participavam num desfile fúnebre pelas ruas da cidade.

 

O amor não basta

 

"Tentei dar-lhe perspectivas e esperança, dizia-lhe que nem tudo era mau, que o futebol não era tudo, que havia coisas belas na vida, mas não resultou. Pensámos que conseguiríamos com amor, mas às vezes o amor não basta", disse a viúva. No bilhete de despedida que deixou, Enke pediu desculpa aos familiares e aos médicos por lhes ter mentido sobre o seu espírito nos últimos dias. Os seus companheiros de clube e de selecção desconheciam-lhe a debilidade emocional. Ele sempre escondeu o problema, por medo de perder o futebol e a filha Leila, adoptada em Maio deste ano.

 

Nascido em 24 de Agosto de 1977, em Jena, na antiga República Democrática Alemã, Enke jogou no Jena Pharm, no Carl Zeiss Jena e no Borussia Mönchengladbach antes de se transferir em 1999 para o Benfica, ao qual chegou como titular da selecção sub-21 da Alemanha. O argentino Bossio parecia partir na frente, mas os reflexos e a qualidade do jovem alemão, que mostrou uma obsessão em aprender português, rapidamente o impuseram como substituto de Michel Preud"Homme. "Recordo dele a serenidade, a simpatia, a educação, o profissionalismo, as suas preocupações de carácter social e não só", referiu, à Lusa, José Mourinho sobre Enke, o guarda-redes da primeira equipa orientada pelo português como treinador principal.

 

O alemão, que tinha a leitura como um dos seus grandes hobbies, saiu de Portugal deixando uma óptima impressão (como futebolista e pessoa) e o sentimento era recíproco (regressou muitas vezes e chegou a ter planos de passar cá o próximo Natal).

 

Grande defensor dos direitos dos animais, Enke tinha praticamente um canil na sua residência em Lisboa. "Não resistia quando via um cão abandonado ou esfomeado e recolhia-o", afirmou Toni, também seu antigo técnico no Benfica, destacando a "enorme sensibilidade" do ex-atleta. Foi por esta altura, por causa do Mundial 2002 realizado na Coreia do Sul, que o guardião protagonizou uma campanha da PETA: o cartaz mostrava o alemão com os seus cães e a frase "Não pontapeie o cão, pontapeie a bola!".

 

Fuga da Turquia

 

Apesar de três épocas sem sucesso colectivo, Enke brilhou ao ponto de ser cobiçado pelo Manchester United e outros clubes, mas preferiu o Barcelona. Foi um erro. Pouco jogou na equipa catalã, que o emprestou ao Fenerbahçe, no qual teve a experiência negativa mais marcante da sua carreira. Sofreu três golos na estreia (derrota 0-3 em casa com o Istanbulspor) e foi assobiado pelos adeptos da equipa de Istambul, que ainda lhe arremessaram vários objectos. Enke saiu da Turquia nessa mesma noite, recusou voltar a actuar pelo Fenerbahçe e ficou sem jogar durante meia época. "Senti-me desajustado por causa da paixão exagerada dos adeptos e do clube. Senti-me absolutamente só e profundamente triste."

 

Os falhanços no Barça e no Fenerbahçe marcaram-no. "As fases depressivas eram difíceis, mas já tínhamos passado fases muito complicadas em Barcelona e Istambul e conseguimos sair delas com a ajuda do doutor Markser", disse Teresa. Em 2004, Enke regressou à Alemanha, para o Hannover 96. As coisas começaram a compor-se no plano profissional, mas não a nível pessoal. A filha nasceu com uma doença cardíaca e Enke passou a viver entre o campo de treinos e o hospital. "A Lara, a minha mulher e eu sentados na cantina deserta do hospital na véspera de Natal a comer salmão com batatas" - foi uma das memórias que não lhe saíram da cabeça. Depois de três operações ao coração, Lara, de três anos, morreu em 2006, quando recuperava de uma intervenção cirúrgica aos ouvidos.

 

Enke sempre foi uma grande esperança para a baliza da selecção alemã, mas, com Oliver Kahn e Jens Lehmann a taparem-lhe a ascensão, só em 2007, aos 29 anos, teve a primeira internacionalização. Este ano fixou-se finalmente como n.º 1 da Mannschaft, mas entretanto um vírus no estômago impediu-o de participar nos jogos mais decisivos da qualificação para o Mundial 2010, no qual o seleccionador Joachim Löw já tinha dito que deveria estar presente. Se Kahn e Lehmann eram loucura, Enke, ávido leitor, era delicado, a simpatia em pessoa. Uma estrela do futebol com os pés na terra, única, que ia para os treinos em Hanôver de comboio, no meio dos cidadãos comuns. Ainda mais única, afinal, do que se julgava.

 

 

| Perfil |

 

 

O guardião que tinha medo de falhar e “se culpava muito”

 

Era um jogador especial. Abria a porta a cães abandonados e quis fugir de avião cinco minutos após assinar pelo Benfica. Robert Enke, o homem que foi feliz em Lisboa, suicidou-se há cinco anos.

 

Era novo e ainda não saíra de Jena, ali no centro da Alemanha, a cerca de 70 quilómetros de Leipzig. Já jogava à bola. Preferia as mãos aos pés. Pensar nas luvas em vez das chuteiras. Parar remates a disparar pontapés. Num qualquer fim de semana, era dia de mais um jogo para se fazer com o FC Carl-Zeiss, na segunda divisão germânica. Começou na baliza. A bola rolou, subiu, ele saltou, abriu os braços, mas não a agarrou. Cometeu um erro, o jogo acabou e foi para casa. “Trancou-se no quarto e não foi à escola durante uma semana. Ficou preso em pensamentos sombrios”, contou Ronald Reng, sem encravar, como se extraísse um episódio da enciclopédia que tem gravada na cabeça, compilada a partir da vida de Robert Enke. Este aconteceu quando tinha 17 anos.

 

A vida seguiu. Mas Robert não deixou as balizas. Nem o futebol. Era aquilo e mais nada. Chegou ao ponto de ser “um problema”, pois “quando estava deprimido até se culpava” e “dizia que não se interessava por mais nada além do futebol”, diz Reng, conformado. Ronald está do outro lado de uma chamada por Skype, a recordar o antigo guarda-redes alemão. O amigo que, a 10 de novembro de 2009, disse à mulher que ia treinar, entrou no carro, conduziu durante umas oito horas, estacionou à beira de uma linha de comboio e atirou-se para a frente de uma locomotiva, perto de Hannover. Foi há cinco anos.

 

Robert sofria de depressão. Poucos o sabiam. Ronald, jornalista, era um deles. Conheceu-o em Barcelona, quando o guardião lá chegou, após decidir “seguir em frente” e sair do Benfica, onde viu que “não chegaria a lado nenhum”. A amizade apareceu. A decisão surgiria uns tempos depois: um dia, lá para 2015, quando Robert deixasse as luvas no armário e dissesse auf wiedersehen (adeus) às balizas, escreveriam, em conjunto, a biografia do guarda-redes. Anos depois, apenas um deles cumpriria a tarefa quando, em 2011, foi publicado o livro “A Life Too Short” (“Uma Vida Curta Demais”, título português), que viria a ser traduzido em oito idiomas.

 

Antes, bem antes, Robert parou por Lisboa. Chegou em 1999. Fê-lo em tempo de mudanças forçadas na Luz. Michel Preud’homme, o fiável belga, acabara de dizer basta. Aos 40 anos, o guarda-redes, que arrastara o por do sol da carreira até à capital portuguesa, abandonava a baliza do Benfica. Restavam Carlos Bossio, Nuno Santos e Sergei Ovchinnikov. Os dois primeiros ficaram. O último, o russo, saiu para entrar um alemão. “Quando foi para o Benfica teve um ataque de pânico. Cinco minutos depois de assinar o contrato queria fugir para longe. Voltou para a Alemanha e durante semanas não queria ir para Lisboa”, revelou Ronald ao Observador, ao falar de um de muitos sintomas da versão depressiva de Robert Enke. A tal que, durante época e meia, António José da Conceição Oliveira nunca viu.

 

Toni, o treinador, diz que “é fácil falar do futebolista”. Lembra-se de algumas coisas, mas nenhuma tem depressão à mistura. Fala de um guarda-redes de “grandes aptidões”, com um “grande potencial”, que foi arrastado para as areias movediças de um Benfica que, na altura, estava “a meio de uma travessia do deserto”. Só elogios para quem, em miúdo, só foi apresentado às balizas quando, em Jena, a família do guardião titular emigrou para a Rússia e Robert, então um ponta de lança, foi o que melhor se desenvencilhou entre os postes. Toni recorda como ficou de olho arregalado quando pela primeira vez viu Enke a defender uma baliza. “Até só vi o resumo de um jogo em que o Borussia de Mönchengladbach perdeu 7-0 e ele foi o melhor em campo. Além dos golos que sofreu, fez defesas do outro mundo”, garante, ao falar de paradas que até o fizeram dar corda à memória: “Fez lembrar o Vítor Damas, de um Benfica-Sporting em que ganhámos 5-0 e só não foram mais por causa dele.”

 

A recordação de Toni é limitada. Como era a relação que tinha com Enke — de treinador para jogador. No relvado e nada mais. “Almoços, saídas e encontros tinha-os com jogadores, não connosco”, salienta, ao desenhar com a voz a fronteira do contacto que tinha com o alemão. Mas que, ainda assim, lhe chegou para lembrar “uma faceta que depois veio a ser muito badalada” durante a sua estadia de três anos em Lisboa. Ou não. “Era a relação que tinha com os animais. Se via um cão abandonado recolhia-o e tratava-o como mais um elemento da família dele”, lembrou o treinador. E não é o único.

 

As combinações e programa além futebol, como disse Toni, eram feitas entre jogadores. As amizades, como tudo, estreitam-se mais entre uns, do que outros. No futebol é igual. E Paulo Madeira é prova disso. Foi ele, o ex-internacional português, que por aqueles tempos andava de rabo-de-cavalo a proteger a baliza encarnada, que “se calhar até [foi] dos poucos a conhecer a realidade pessoal” de Robert Enke. Palavras do próprio, de quem via nos “animais abandonados” uma “das razões de viver” do alemão. E o antigo defesa central não se esquece da pessoa “amiga” e do “exemplo de jogador muito profissional” que Robert deixava quando pisava um pedaço de relvado.

 

Fora dele, na “vida particular”, Paulo Madeira lembra-se de “uma pessoa um bocado especial”, a quem “o luxo não dizia nada”. Nos tempos em que ninguém do Benfica tinha que pegar num carro para atravessar o Rio Tejo — o centro de treinos do Seixal ainda só existia no papel –, a grande parte dos jogadores encarnados viviam em Telheiras, “uma zona nobre” e próxima ao Estádio da Luz. Mas Robert não. “Ele e a esposa viviam no Parque Natural de Monsanto”, recorda o português, reminiscente de um jantar, por altura do inverno, numa “casa modesta”, à beira da lareira. “Parecia que estávamos numa aldeia, com cães abandonados ao nosso jantar”, descreve. À mesa, na rua ou no café, porém, Robert não mudava: “Não tinha as conversas da maior parte dos jogadores, não falava só de carros, mulheres ou futebol.”

 

No campo, com as luvas vestidas e uns postes ao lado, a conversa era outra. “Não havia cá brincadeiras”, garante Paulo Madeira. Com Enke, tudo tinha “de ser muito a sério” e o guardião “não admitia entrar numa pelada a brincar”. Robert aterrou com 21 anos no Benfica e Paulo, na altura, via na baliza alguém “com um futuro muito promissor”. Quando “as coisas não corriam bem”, contudo, Robert “sentia-se frustrado”. E o alemão começava cedo a lidar mal com as coisas que descarrilavam das linhas que idealizara na cabeça. “O aquecimento dava para ver se ia fazer um bom jogo ou não. Tinha de ser muito profissional. Estava planeado e não podia alterar nada. Se corresse mal, o jogo poderia não correr bem e ele acreditava nisso”, explica. Tal e qual Michel Preud’homme, belga cuja sombra Enke veio ocupar na Luz. Em três épocas de Benfica, o germânico fez 93 jogos e rara foi a partida que não começou a titular.

 

Ficaria até 2001. Até começar a sentir as areias demasiado instáveis. Na última época, aliás, Robert “já estava bastante ansioso”. Pensou uma, duas, três e dezenas de vezes antes de tomar uma decisão. Enke gostava de Lisboa, do país e do Benfica. Ronald Reng garante-o. Só não gostava dos treinos. “Não estava contente com o treinador de guarda-redes. Achava o treino horrível”, revelou o jornalista e amigo. E quem era ele? Chama-se Samir Shakir, é iraquiano, está hoje nos Emirados Árabes Unidos e encarregou-se de Robert Enke durante 2000/01. Ao Observador, o técnico recordou que o alemão “gostava de treinar no duro”, embora o considerasse “fraco a determinar a distância para a bola”, sobretudo as que dele se aproximavam pelo ar. Foi uma época, dezenas de treinos e centenas de horas a treinar, a praticar e a limar arestas no alemão que, mais tarde, abriram a porta da baliza da seleção alemã. Na altura, contudo, o iraquiano, quando conheceu Enke, revelou que ficou “surpreendido” com a “falta de flexibilidade e movimentos” do guarda-redes.

 

Robert não o apreciava. O guarda-redes até “tinha gostado bastante de Jupp Heynckess e José Mourinho”, mas começou a ter a sensação que “o clube não chegaria a lado nenhum”. E lá foi ele. Por isso, “quando apareceu a oferta do Barcelona”, o alemão sentiu que “tinha de seguir em frente”, resume Reng. E lá foi ele. Para um dos melhores e maiores clubes do mundo, para uma liga com maior visibilidade e para os holofotes da Liga dos Campeões. Foi para competir com Roberto Bonano, então titular na baliza da seleção argentina, e Victor Valdés, um niño, de 19 anos, que todos viam como terceiro na hierarquia catalã dos homens das luvas. Mas foi ele o escolhido por Louis Van Gaal, o treinador, para puxar uma cadeira e sentar-se à mesa com a titularidade. Robert não aguentou. “Em Barcelona, a sua depressão clínica foi claramente iniciada com o sentimento: ‘Eu falhei no Barça. Deveria ser o número um. Escolheram o Victor Valdés. Portanto a culpa é minha.’”, lamentou Ronald.

 

Se não jogava era por não ser o melhor. Portanto, era o pior. Do oito ao oitenta, assim funcionava a cabeça de Enke, quando a depressão o estrangulava. Reng sabia-o. Mas ali, em 2002, nunca considerou que fosse tão grave como viria a ser. “O futebol é uma profissão onde se tem de lidar com muitas experiências negativas, sobretudo num guarda-redes, em que és medido pelos erros que cometes. O Robert culpava-se muito a si mesmo, não era muito bom a lidar com os erros”, descreveu. Tudo pioraria no dia em que a oportunidade bateu à porta do alemão — ia jogar na primeira eliminatória da Copa del Rey, frente ao Novelda, do terceiro escalão do futebol espanhol. Correu mal. O Barça perdeu, sofreu três golos, dois deles com a culpa no guarda-redes. Fica destroçado. Em depressão. Começa a ser tratado por um psiquiatra, em segredo, e só apareceria em mais três jogos na época 2002/2003. “Já me sentia morto no Barça”, chegou a confessar a Ronald, segundo o próprio. A pressão, a auto culpa, os pensamentos dos quais não se livrava. Tudo o aprisionava. Tinha de sair de Barcelona.

 

E fugiu para Istambul. Mas nada melhorou. Aliás, tudo piorou no Fenerbahce. “Nas fotografias que foram captadas no dia da apresentação, conseguíamos ver que o Robert estava com medo. Quando estava saudável tinha um sorriso rasgado na cara. Mas quando era um ator sorria apenas com os lábios”, lembrou Jörg Leblung, então empresário de Enke, a um documentário feito pelo Canal Plus. Um dia antes de aparecer na baliza no primeiro jogo oficial pelo clube, Robert começa a escrever um diário. E também dali já queria fugir. “Contou um momento em que, quando estava a olhar para algumas fotografias que tinha, encontrou uma em que ele, a mulher e o empresário estavam a sorrir e a celebrar quando o Robert assinou pelo Benfica. E escreveu: ‘Quando olho para a fotografia, apetece-me bater na minha cara e dizer: Porque é que me fui embora se estava feliz?’”, conta Ronald ao Observador, dias depois de Teresa, mulher de Enke, lhe recordar “como Robert era feliz e tinha um brilho nos olhos quando estavam em Lisboa.” O tal jogo, o primeiro, seria também o último pelo Fenerbahce: três semanas depois de aterrar em Istambul, o guarda-redes não podia mais.

 

Terminou o contrato e parou. Voltou a Barcelona e nada fez até ao Natal. Foi viajando para Colónia e regressando, para ser visto e tratado por um psiquiatra germânico. Em janeiro de 2004, Robert decide viajar. Vai para as Canárias. Junta-se ao Tenerife, da segunda divisão espanhola. E renasce. Na ilha, rodeado por mar e com pressão diminuta, a baliza volta a ser amiga de Robert. Joga, defende, detém bolas, a vida é pacata e os adeptos gostam do que veem. “Quando o Robert estava no Tenerife, lembro-me de ir visitá-lo durante uma semana e de me dizer que estava feliz de ir todos os dias aos treinos e falar com os cinco reformados que ficavam atrás da baliza a assistir, e que batiam palmas às defesas que fazia”, lembra, com saudade, o jornalista que tem em Tenerife o lugar onde guardou a melhor memória da amizade com Enke: “Foi uma altura em que estava cheio de vida outra vez, cheio de energia. Disse-me: ‘Vamos até ao porto, gosto de estar lá sentado no muro, só a olhar para as pessoas e os barcos passarem.’ E sentámo-nos aí durante uns 15 minutos. Sentei-me ao seu lado e dava para sentir a felicidade”.

 

Melhorou. Voltou a ser feliz. Mas só ficou por lá uma época. Em 2004 regressou à Alemanha. Escolheu o Hannover 96. E brilhou. Muito. Na primeira temporada de volta à Bundesliga, Robert é eleito o melhor guarda-redes do campeonato — à frente de Oliver Kahn, a muralha, a lenda viva que tapava a baliza do Bayern de Munique. Enke dá nas vistas numa equipa modesta. Fá-lo muitas vezes. Chega a ser capitão e não para de brilhar.

 

Tudo parecia estar bem. Tranquilo e estável, pelo menos. Mas só no campo. Em casa, no recanto, a família Enke preocupava-se com Lara. A filha de Robert nascera em 2004 com um problema cardíaco e as idas ao hospital eram um hábito necessário. A menina crescia na corda bamba e os pais sabiam-no. Durante os primeiros 12 meses de vida, Lara é submetida a três intervenções cirúrgicas. Complicadas, delicadas e, sobretudo, arriscadas. Sobrevive a todas enquanto o pai, no Hannover vai voando e multiplicando as mãos em paradas e defesas. Até que, em 2006, com dois anos de vida recém-cumpridos, Lara morre. Falece logo após a quarta operação que lhe é feita. A luz, a tal com que Robert tanto brilhara no Hannover, começa então a escurecer na sua cabeça. Nos relvados, contudo, ainda chegou para ser captada por Joachim Löw…

 

O selecionador germânico leva-o ao Europeu de 2008. Robert não joga. Mas é nas suas mãos que o treinador, a imprensa e os adeptos veem as luvas da Mannschaft em 2010, no Mundial da África do Sul. “Quando se tornou o titular da seleção mudou bastante. Passou a falar menos e a ser mais introvertido. Parecia que tinha sempre algo a ocupar-lhe o pensamento, que não o deixava relaxar”, repararam, na altura, Ronald e os amigos mais próximos de Robert.

 

Enke já não parecia feliz “como nos tempos do Benfica e do Tenerife, ou nos primeiros anos no Hannover”. A pressão e o medo de falhar, de desiludir, de não estar à altura, tinham entrado de rompante na mente do alemão, sem baterem à porta. A depressão voltava. A última, a que o mataria a 10 de novembro de 2009, três dias depois de aparecer, pela última vez, na baliza do Hannover 96. Em tempos, nos mais sombrios e difíceis, Robert chegou a dizer à mulher, Teresa, que “se pudesses viver na [minha] cabeça durante meia hora perceberias” porque Enke queria acabar com a própria vida, como lhe chegou a confessar. “Seria especular se disséssemos que isso [a titularidade na baliza alemã] foi a principal causa da segunda depressão clínica. Ele tentava mostrar que estava muito calmo, como que convencido e seguro de que o lugar era dele”, admite Ronald, cabisbaixo, ao lembrar a pessoa que, fintada a depressão, era “naturalmente calma, muito gentil e educada”.

 

Já foi há cinco anos que Enke não aguentou mais. A Alemanha, os adeptos e o futebol choraram. E uma porta abriu-se — a da aceitação. Robert, descobriu-se mais tarde, nunca fora capaz de revelar publicamente que sofria de depressão. “É justo dizer que talvez ninguém no futebol estivesse preparado para o ajudar, pois um jogador sofrer de depressão era algo novo e desconhecido na altura”, admite Ronald Reng. Enke, por isso, não teve a coragem para confessar. Mas outros o fizeram depois. Markus Miller, em 2011, também guardião do Hannover 96, por exemplo, admitiu-o, foi tratado durante semanas e hoje por lá continua. Em abril deste ano, um estudo da FIFPro, o sindicato internacional dos futebolistas, indicou que um em cada quatro jogadores sofre de depressão. A tragédia de Enke deu a primeira machadada no tabu. Abriu caminhos, trilhos e ruas. O estádio do Hannover está hoje numa delas. Na Robert Enke-Straße.

 

 

| Vídeos |

 

 

 

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Robert Enke! O meu 2º GR preferido logo a seguir ao senhor do meu avatar.

Fiquei desgostoso quando saiu do Benfica, na altura não compreendi a decisão porque já se antevia que não ia jogar muito, mas há que compreender o contexto do Benfica na altura e depois receber uma oferta de um clube como o Barcelona.

 

Que descanse em paz que mereceu por isso.

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Tou muito, muito longe de achar o Enke uma figura histórica do Benfica.

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Tou muito, muito longe de achar o Enke uma figura histórica do Benfica.

 

Eu também concordo com isso mas decidi avançar com o post por dois motivos: foi uma figura emblemática do Benfica durante uma época negra na história do clube (7-0 em Vigo, épocas já perdidas em Outubro, etc.) e a morte dele, da forma como foi, chocou o mundo inteiro e muito particularmente os benfiquistas que não só o respeitavam como ainda nutriam alguma esperança de o ver novamente cá.

 

Depois de ponderar os prós e contras decidi que fazer um post sobre ele neste tópico seria justo e aceitável.

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Entrou na história do Benfica pelas piores razões. Quem, como eu, se lembra dele enquanto jogador, não esquece a sua agilidade e coragem. Mas ficará para sempre na nossa história como uma figura simpática que desapareceu demasiado cedo. :(

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Devido ao seu desaparecimento, também concordo que deva estar aqui. Tal como o Miklos

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Tratou mal o nosso clube quando saiu, e só por aí coloco a hipótese de não estar cá.

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Tratou mal o nosso clube quando saiu, e só por aí coloco a hipótese de não estar cá.

 

O Enke?

 

Eu até acho que, no ano anterior à sua saída, rejeitou ir para o Man Utd por querer ser campeão pelo Benfica.

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Foi o 1º jogador do Benfica que vi ao vivo, ainda que a uns 50 metros de distância. Foi na minha primeira ida ao estádio da Luz. Vi o gajo a tirar pics com pessoal na entrada do estádio. Só para verem os padrões aqui do menino, o 2º jogador que vi ao vivo foi o Uribe.

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Não sabia bem onde colocar isto, mas acho que pode ficar aqui. Se não mudem para outro tópico.

 

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:heart: :prayer:

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