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Que comece o espetáculo de Guillermo Ochoa no Mundial: “Não temos bem noção de quão estelar ele é no México. Não pode sair à rua”

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Que comece o espetáculo de Guillermo Ochoa no Mundial: “Não temos bem noção de quão estelar ele é no México. Não pode sair à rua”

Aos 37 anos, o guarda-redes do México vai para o quinto Campeonato do Mundo e espera-se que seja o titular. É, desde 2014, uma daquelas figuras que este torneio transformou em semideus. A Tribuna Expresso falou com Ricardo Pereira, o treinador de guarda-redes com quem se cruzou no Standard de Liège, e Alejandro Orvañanos, um jornalista mexicano, para compreendermos melhor este fenómeno que é muito mais do que uma luz milagrosa que aparece de quatro em quatro anos. Os mexicanos estreiam-se no Campeonato do Mundo esta tarde (16h, Sport TV1d) contra a Polónia de Robert Lewandowski.

Naquele livro que mais parece uma tenra bíblia sobre o jogo que se joga com os pés – “Futebol ao sol e à sombra” –, Eduardo Galeano pintou o guarda-redes. “Tem sempre a culpa. E se não a tem, paga na mesma. Quando um jogador qualquer comete um penálti, o castigado é ele: ali o deixam, abandonado perante o seu carrasco, na imensidão da baliza vazia”. O escritor uruguaio dizia mais: quando a equipa tem uma má tarde, é o guarda-redes quem paga o preço “debaixo de uma chuva de bolas, expiando os pecados dos outros”.

Há um homem nascido em Guadalajara que emana luz, como se fosse um anjo, a cada quatro anos, pelo menos diante das nossas fascinadas e insatisfeitas miradas, que roncam como um estômago vazio. Um arquero que foi deixado inúmeras vezes diante do seu carrasco, que pagou o preço em tantas e imortais tardes, que expiou e amansou os pecados de todos. Enfim, como acontece aos outros, a solidão é a mais fiel companheira de Guillermo Ochoa, o mexicano que, aos 37 anos, se prepara para disputar o quinto Mundial. Será certamente, seja salvador ou pecador, um dos destaques deste Catar 2022.

Ricardo Pereira, treinador de guarda-redes do Independiente del Valle, que venceu a Copa Sudamericana e a Taça do Equador, conhece-o bem. Cruzaram-se no Standard de Liège em 2017/18, depois de uma época agridoce para o futebolista no Granada. Para além da descida de divisão na La Liga e de ter sido o guarda-redes que mais golos sofreu na La Liga (82), foi inusitadamente o que mais remates defendeu (182).

A relação entre Ochoa e Pereira, na altura um dos assistentes de Ricardo Sá Pinto, rolou tão bem que, no final da época e após a conquista da Taça da Bélgica e de um vice-campeonato, o mexicano foi até à casa do português provar francesinha e pastéis de nata. “Adorava os nossos pastéis de nata, sabe muito bem o que é uma boa natinha. É um sujeito nada galáctico, do mais simples que há”, conta Ricardo Pereira, de 48 anos. “Foi um privilégio e um orgulho treiná-lo. Também nos chamavam pai e filho, porque os cabelos eram assim, como este cabelo horrível [agarra no cabelo, a entrevista foi por Zoom]. Quase que confundiam se estivéssemos de costas. Quando entrávamos no aquecimento, parecia pai e filho pelas cabeleiras fartas que tínhamos os dois”, conta enquanto ri.

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O treinador culpa-nos um bocado a todos, amantes do futebol e jornalistas, por só falarmos de Ochoa de quatro em quatro anos, afinal “gostamos de mitos e destas histórias”. Nunca chegaria a cinco Mundiais se não estivesse bem durante estes anos todos, lembra.

Os dois ainda são amigos e falam regularmente. Um dia, Ochoa, “um tipo que não tem peneiras nenhumas”, contou-lhe que a sua mãe o convidou para irem às compras. Na altura de sair do centro comercial, “estavam duas ruas fechadas”, “foi uma loucura” para sair e a mãe disse-lhe “nunca mais”. Ricardo Pereira é taxativo: “Na Europa, não temos bem noção de quão estrelar é o Ochoa no México. Ele não pode sair à rua”.

Para Alejandro Orvañanos, um jornalista mexicano da “Marca Claro” e da “Uno TV, foi o melhor futebolista do país nos últimos dois Campeonatos do Mundo, no Brasil e na Rússia – nos outros dois foi suplente. Os reflexos são como umas asas de anjo. “Poucos futebolistas mexicanos são tão reconhecidos a nível internacional”, concede, explicando ainda que há alguma divisão quanto à admiração que merece junto do povo porque representa o Club América, que gera amores e desamores. Orvañanos nega a teoria da aparição sebastiânica de quatro em quatro anos. “Tem sempre boas atuações na seleção. Lamentavelmente, os torneios em que o México compete não são muito vistos fora da América Central.”

O jornalista contou ainda que Guillermo Ochoa teve, “há alguns anos”, um pré-contrato assinado com o PSG, algo que “poucos sabem”. Entre 2011 e 2014, antes de rumar ao Málaga, o portero defendeu a baliza do Ajaccio. Como deu positivo a clembuterol, “uma substância que põem na vaca”, acusou doping, foi suspenso e ficou sem efeito a transferência para o Parque dos Príncipes, em Paris.

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Sobre o estilo de guarda-redes que Ochoa é, Ricardo Pereira aponta algumas singularidades. “[Os mexicanos] são guarda-redes que dominam como não se domina na Europa o ajoelharem-se à moda do futsal em momentos de 1x1”, explica. “Quando entendem que a distância é muito curta, ajoelham-se porque percebem que o único espaço para passar a bola é entre as pernas. É uma técnica que não ensino, mas que respeitei no Memo, porque é eficaz. Ele dominava as técnicas todas do 1x1, seja espargata, fazer bloco pondo um joelho no chão.”

Com os pés, este homem “sereno” e valioso no grupo” faz o que lhe pedem, estando apto a jogar longo ou curto, garante o seu ex-técnico, com quem desabafava sobre o futebol português e ainda sobre a vida dos mexicanos no FC Porto, onde estava Sérgio Conceição, que “não perdoava umas graminhas de peso a mais”.

Segundo Pereira, este é um guarda-redes com características “muito particulares” e que podia ter sido muito mais do que o que é, derivado a algumas especificidades por estimular na formação. “Fala-se e é unânime que é um dos guarda-redes mais rápidos na velocidade de reação, isso é evidente”, garante. “É muito coordenado e muito rápido na linha de baliza, o que lhe permite fazer paradas inacreditáveis. Domina muito bem o deslocamento, os espaços laterais e cruzados.”

Os olhos do treinador português abrem para contar ainda o seguinte: “Tem uns braços e umas mãos enormes! Ajuda. É um corpo interessante. O Ochoa não é assim tão alto, andará pelos 1,86m, mas depois o tamanho da mão não é proporcional ao resto do corpo. É uma coisa inacreditável”. Resumindo, trata-se de um guarda-redes “moderno”, “equilibrado” e que, em função de decisões que toma (e preferir ficar na baliza do que sair e arriscar nos cruzamentos), é “extraordinariamente inteligente”.

Os elogios atropelam-se a sair da boca destes dois homens que o conhecem tão bem. Sendo assim, sendo Ochoa tanto, porque não chegou ao topo? É legítimo esperar tal coisa de uma figura que enche a nossa líbido futebolística de quatro em quatro anos, certo?

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“Seria uma análise muito simples dizer que não chegou a um clube importante porque não teve passaporte comunitário", aponta Alejandro Orvañanos. “Deve haver também autocrítica sobre talvez não dominar certos aspetos [do jogo]. Jogar fora da área não é o seu forte, debaixo dos três postes é um dos melhores. Esse aspeto pode ter-lhe custado caro.” O jornalista mexicano indica que Guillermo Ochoa deverá ser titular certamente, num grupo em que não faltarão oportunidades para voar e ser único (Argentina, Polónia e Arábia Saudita). “Provavelmente, vai ter novamente algum jogo em que se destaca, costuma crescer perante rivais de qualidade e agora terá duas provas muito difíceis: Lewandowski e Messi”.

Este discípulo de Jorge Campos, com menos aventuras forasteiras em terrenos baldios e camisolas menos espampanantes, esteve, além dos quatro Mundias, em dois Jogos Olímpicos, seis edições da Gold Cup e dois torneios da Copa América. Em Campeonatos do Mundo, foi suplente de Oswaldo Sánchez em 2006, quando os mexicanos até foram derrotados por Portugal, e de Óscar Pérez em 2010. Entre 1994 e 2018, o México ficou-se sempre pelos oitavos de final desta prova. As melhores prestações aconteceram em casa, em 1970 e 1986, quando alcançaram os quartos.

Para Memo, uma das tardes mais felizes em Mundiais foi certamente contra o Brasil, a 17 de junho de 2014, quando ganhou tentáculos impossíveis e uma elasticidade admirável. Houve até uma defesa a cabeceamento de Neymar que levou muitos a sacudir o pó da lembrança e a recordar Gordon Banks perante Pelé, em 1970. Esta tarde, pelas 16 horas, no Stadium 974, em Doha, Guillermo Ochoa tem um encontro marcado com a sua lenda. E, para alegria de muitos, vai voltar a olhar o céu nos olhos.

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