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“Um dia vais ser campeão do mundo”: António Morgado, o ciclista com bigode que “mais vitórias vai dar a Portugal”

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“Um dia vais ser campeão do mundo”: António Morgado, o ciclista com bigode que “mais vitórias vai dar a Portugal”

No primeiro ano a competir com os melhores, António Morgado deu-se a conhecer com um quinto lugar na Volta à Flandres. O ciclista de 20 anos da UAE Emirates foi o mais novo em 80 anos a conseguir ficar no top-5 do monumento belga. Quem o conhece diz que mesmo assim não deve ter ficado satisfeito. Competidor precoce, nunca soube como perder (e tentaram ensiná-lo). O futuro é dele, garantem os treinadores ouvidos pela Tribuna Expresso, apesar de não existir consenso sobre se é corredor de clássicas ou de grandes voltas. Um dia, dizem também, será até João Almeida a pedalar para ele e não o contrário.

A tarefa para aquele dia era simples. Nos 80 quilómetros da Volta a Cantanhede, António Morgado tinha como missão endurecer o ritmo da corrida enquanto os seus colegas de equipa se protegiam. Ser a cara de um pelotão é um fartote de energia gasta. O corredor que lidera o grupo principal absorve o impacto do vento e os beneficiados são aqueles que seguem na sua roda, pois não encontram a resistência do ar e poupam-se ao cansaço. António Morgado seguiu o plano. Depois de uma vitória em França, era o momento para ajudar outros a triunfar. O problema foi que, mesmo em sacrifício, a velocidade que impôs foi tão alta que deu por si a ganhar a corrida sem que a equipa ou os restantes adversários o conseguissem acompanhar.

Lição? Não tentar travar quem nasceu para vencer.

Naquela altura, António Morgado era cadete e representava o Alenquer. Tinha os seus 16 anos. Ainda sem o pelo no buço que mais tarde ia ajudar a criar a alcunha de ‘Bigode Voador’, a carinha de menino não enganava ninguém. “Foi feito para correr de bicicleta”, recorda Nuno Alves, o treinador que ousou pedir-lhe que não entrasse para ser primeiro porque, “numa equipa de formação, nem sempre interessa a vitória”.

O corredor que ganhava mesmo quando não era suposto está em estreia no World Tour ao serviço da UAE Emirates, uma das equipas mais fortes do pelotão mundial. O sucesso não lhe deu descanso no início do ano 2024. Ganhou a camisola da juventude na Volta ao Algarve e intrometeu-se no sprint final da clássica de Le Samyn, na Bélgica, em que o photo finish determinou um segundo lugar. O maior sucesso chegaria na Volta à Flandres, na semana passada.

O ciclista natural das Caldas da Rainha precisou de morder a língua em muitas ocasiões. A camisola branca da UAE Emirates ia sendo tingida pelo tom da lama misturada com chuva. A bicicleta XPTO parecia um cangalho quando o pavé comprometia a aderência das rodas, motivo pelo qual António Morgado teve que percorrer alguns setores com os pés no chão. Não foram dificuldades exclusivas do português e, no final, só quatro corredores conseguiram terminar os 270 quilómetros da Volta à Flandres antes dele. Mathieu van der Poel foi o mais rápido a percorrer os caminhos empedrados e venceu de forma destacada. Nos corredores que se seguiram, à boleia da história, estava o ‘Bigode Voador’.

Pela primeira vez a participar num monumento, as corridas de maior prestígio do calendário velocipédico, António Morgado, com 20 anos e 63 dias, tornou-se no mais novo ciclista em 80 anos a conseguir terminar a Volta à Flandres no top-5. Ao mesmo tempo, que conseguia o melhor resultado de sempre de um português na prova belga, o caldense tornava-se também no terceiro português a fechar um monumento no top-5, sendo que os restantes foram Acácio da Silva e Rui Costa.

“Deve ter ficado com um sabor amargo”, comenta José Fernandes, o primeiro treinador de António Morgado na EcoSprint, equipa das Caldas da Rainha onde o corredor esteve durante oito anos. “Como criança, era como é agora. Só tinha uma visão: ganhar.” Aos três anos, andar de bicicleta, o que muitas pessoas estão uma vida inteira sem conseguir fazer, já era o passatempo favorito deste caso raro. “Só via bicicletas à frente dele.”

António Morgado ingressou na EcoSprint de forma precoce e ainda sem idade para competir. “Começou em 2010/2011, no primeiro ano não correu porque tinha menos de seis anos”, continuou José Fernandes, ao admitir que o ‘Bigode Voador’ saiu beneficiado por ir para a estrada cedo, ao contrário do conterrâneo João Almeida, que só o fez aos 13 anos. Entrar no ciclismo ainda tão tenro não significa necessariamente que se leve a sério aquilo que se está a fazer. Não foi o caso, motivo pelo qual o pai de António Morgado precisou de ter uma conversa com José Fernandes.

O treinador caiu no erro de falar ao seu pupilo da possibilidade de, um dia, com muito trabalho, correr na Volta a França. José Fernandes ainda não sabia que estava perante um competidor nato. “O António não deixava o pai descansar, chateava-o a dizer que queria treinar. O pai tinha que se levantar e ir treinar com ele. Ele começava a chorar para o pai”, lembra o treinador, que teve de lidar com o descontentamento do progenitor.

“Um dia, o pai veio-me dizer para não estar a meter coisas na cabeça do miúdo.”

O talento de António Morgado extravasou além das Caldas da Rainha. Aos 14 anos, começou a representar o Alenquer, onde foi liderado por Nuno Alves. O treinador teve que lhe pôr travão em algumas avarias não mecânicas. Num treino de inverno, às 9h, o jovem ousado apresentou-se para treinar de calções e manga curta. “Ele foi muito teimoso. Podia perder um grande ciclista, mas insisti e ele foi vestir roupa de inverno.” Só que a loucura nem sempre é má.

A licra do equipamento não tem propriamente as mesmas capacidades protetoras que as chapas de um carro. Uma queda de bicicleta deixa vestígios da estrada pelo corpo do ciclista, seja em forma de sangue ou de ossos quebrados. Na Volta a Bessaya, uma corrida em Espanha, António ganhou após uma queda que não o afetou minimamente. “No final, disse-me que, até àquele dia, nunca tinha conseguido ter uma dor a correr mesmo quando caía.” De seguida, Nuno Alves ouviu a resiliência a fazer um manifesto.

“Chefe, quando caio, levanto-me e a primeira coisa que quero é pegar na bicicleta para correr e ganhar.”

António Morgado habituou-se a vestir a camisola de campeão nacional dos escalões pelo qual foi passando. Nos dois anos de cadete, em Alenquer, “deu sinais” a José Poeira, selecionador nacional de estrada, que destacar-se ao serviço de Portugal seria uma questão de tempo. Juntos sentiriam, em dose dupla, uma “sensação agridoce” em Mundiais. Só que antes, assim que subiu a júnior, António passou a representar a Bairrada.

Henrique Queiroz acompanhou-o nas viagens de oito horas de carro para fazer corridas em Espanha. O responsável da equipa possuía números concretos que lhe mostravam que tinha em mãos um naco de futuro. “Em termos de valores, ele sempre teve melhores do que o João Almeida quando esteve aqui na equipa”, explica. Com ajuda do investigador Amândio Cupido Santos, a Bairrada avalia o potencial dos atletas com recurso aos watts, um método que relaciona a força exercida nos pedais com a velocidade do ciclista. Enquanto esteve na Bairrada, António Morgado registou dados na ordem dos 5,4 watts por quilo quando o normal dos atletas avaliados “anda ali por volta dos 4,1/4,2 watts”, revela Henrique Queiroz. “É uma diferença grande para quem sabe do que estamos a falar.”

Nesta fase, o atual ciclista da UAE Emirates já tinha “pressão de toda a gente à volta, empresários, família, tudo”, mas conseguia continuar a ser “muito boa pessoa e amigo dos colegas e de toda a gente”. Desde que chegou ao World Tour, em entrevistas como aquela em que disse que o objetivo delineado para a Volta à Flandres era meramente terminar a corrida, as palavras parecem ter um custo demasiado alto para si. Não sendo um fala-barato, “fica mais envergonhado do que quando está com os colegas” e “em frente das câmaras tem uma postura diferente”, diz Henrique Queiroz.

A UAE Emirates já estava atenta a este jovem corredor. O diretor-desportivo, Joxean Matxin, deslocava-se para ver as corridas da Bairrada e perguntava a Henrique Queiroz por António Morgado. Antes de chegar ao World Tour, o corredor ainda passou pela Hagens Berman Axeon, formação norte-americana de dimensão continental propriedade de Axel Merckx.

Quando saltou para a formação dos Emirados Árabes Unidos, os resultados de António Morgado já tinham atingido uma dimensão global. Na prova de sub-23 dos Mundiais de Glasgow, em 2023, impressionou por ter alcançado a fuga sozinho. Acabou por ficar no segundo lugar nesse déjà vu face ao que tinha vivido no ano anterior no Mundial de juniores na cidade australiana de Wollongong. Na tradicional fotografia a trincar a medalha, o sabor das duas pratas não o deixou satisfeito.

“Quando ele era júnior, disse-lhe ‘um dia vais ser campeão do mundo’. Estou convencido que um dia poderá ser campeão do mundo”, partilha o selecionador nacional, José Poeira. “Em Glasgow, a preparação foi feita mais ao pormenor. O percurso era quase uma clássica. A aposta era mesmo o Mundial.” Entre outras coisas, o bom de ter 20 anos é que António Morgado pode voltar a competir no Mundial sub-23 e tentar a vitória.

Durante a juventude, muitas coisas acontecem pela primeira vez e o autoconhecimento é valioso. Os primeiros passos de António Morgado no ciclismo de elite não estão a dar pistas quanto ao tipo de provas em que pode apostar no futuro. Nuno Alves atreve-se “a dizer que, muito provavelmente, o António vai ser o ciclista que mais vitórias vai dar a Portugal, quer em corridas de um dia, quer em corridas de dois, três dias”, por considerar que “são essas as características dele”. José Poeira avalia que António se está “a sair bem em corridas de um dia”, onde “é a distância que cria dificuldades”, mas acredita que estamos perante “um corredor de grandes voltas” que “vai melhorar a subir e no contrarrelógio”.

Dominador entre os ciclistas da sua geração, ninguém tem dúvidas que António “vai ser dos melhores do mundo e não tarda”, afirma Henrique Queiroz sobre o ciclista que acompanhou Tadej Pogacar num treino com mais de seis horas a uma média superior a 40km/h.

“Já disse a vários amigos que estou a ver o João Almeida a ter que trabalhar para o António daqui a dois ou três anos.”

 

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Leitura interessante até meterem o Poeira ao barulho.

Os dois últimos parágrafos são assustadores. 20 anos e já lhe querem estragar a carreira...

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